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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Livro dos homens sem luz

Autor: João Tordo
Editora: Temas & Debates
Páginas: 201
ISBN: 9789727597406

Sinopse
"Quando fiz 35 anos nada tinha a que pudesse chamar meu. Não possuía casa própria ou emprego fixo, amigos ou conhecidos de que me pudesse orgulhar, conforto financeiro ou qualquer perspectiva de futuro. Vivia sozinho numa apartamento modesto, o terceiro andar de uma antiga habitação social em Finsburry Park, em frente de uma residência de estudantes, um edifício antigo de tijolo castanho que parecia derreter com a chuva e que albergava toda a espécie de gente. Na altura, julguei que iria apodrecer ali o resto dos meus dias, antes de descobrir o estranho destino que me estava reservado."

Opinião
Depois de uma intensa procura pelo primeiro romance da autoria de João Tordo, recentemente galardoado com o Prémio Saramago, à custa do seu excelente "As 3 vidas", não resisti muito tempo e dediquei-me à sua leitura com o mesmo sentimento de admiração e prazer que tenho ao ler as suas obras. Apesar deste ser o seu primeiro romance, a escrita de João Tordo demonstra uma enorme maturidade, se bem que aqui as suas influências literárias sejam mais "claras". No entanto, é também aqui que começa a ser construída a "voz própria" dos seus romances, com alguns elementos comuns a todos eles.

Desde os elementos fantásticos, à boa medida dos livros de Edgar Allan Poe, a grande influência literária do autor português, às descrições quase cinematográficas, à boa maneira de um Paul Auster, passando pela enorme envolvência que coloca na história, levando a que o leitor não queira parar de o ler, e terminando na forma muito bem escrita, são todos elementos comuns aos 3 romances deste autor português.

A história versa sobre um homem, marcado pela solidão e pela perda dos seus familiares, que resolve escrever "antes que venha a morte", começando a observar pela janela os seus dois vizinhos. E é então que começa a surgir, para mim o seu grande ponto forte: dentro dessa história, o homem cria histórias sobre essas pessoas, originando uma espiral de acontecimentos fantásticos, que irá terminar no fim como se de um puzzle se tratasse.

Espero ansiosamente o seu próximo livro. Definitivamente, João Tordo é dos melhores contadores de estórias portugueses, e, continuando assim, irá confirmar-se como um dos grandes romancistas do futuro.

8/10 - Muito Bom

domingo, 28 de junho de 2009

Hotel Memória

Autor: João Tordo
Editor: Quidnovi
Páginas: 219
ISBN: 978-989-628-061-1

Sinopse
:
O narrador deste romance é um estudante que, ao chegar a Nova Iorque para uma pós-graduação, conhece na universidade uma rapariga bastante enigmática chamada Kim pela qual se apaixona doidamente. Apesar de achar que nunca será capaz de a conquistar, acaba por ser correspondido no seu amor, embora não chegue nunca a decifrar inteiramente os mistérios que envolvem a rapariga. É por isso também que a morte desta, brutal e inesperada, o vai encher de culpa e remorso e lançálo numa espiral descendente que o transformará num autêntico vagabundo. É então que, sem dinheiro nem bens, o protagonista chega ao Hotel Memória, um estranho lugar na Baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas; e é também aí que conhece Samuel, um excêntrico milionário que o desafia a procurar um fadista português desaparecido, Daniel da Silva, emigrado para os Estados Unidos na década de sessenta. A pouco e pouco, deparando-se com o inesperado a cada esquina, o narrador vai-se embrenhando nesse mistério por resolver, e a busca por Daniel da Silva transforma-se na busca do seu próprio eu, da sua identidade perdida e do seu passado. Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel da Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo, um romance de mistério, um policial e uma aventura. Inspirado pela ficção de Edgar Allan Poe e de Melville, que são referências constantes, é um livro ao mesmo tempo intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção.

Depois de ter ficado, positivamente, surpreendido pela qualidade do seu último livro, “As 3 vidas”, ler o segundo livro (ainda me falta ler a sua primeira obra e uma participação num livro de contos fantásticos) do escritor português João Tordo era quase obrigatório.

Aproveitando a edição de bolso, por isso mais barata, comprei-o na Feira do Livro e não resisti muito tempo para o começar a ler, confirmando que a escrita de João Tordo nos leva a percorrer histórias entusiastas, que nunca pensamos parar de ler.

Apesar de este livro ser anterior a “As 3 vidas”, demonstra-nos um autor com uma escrita bem madura, onde todas as palavras parecem bater certo, e bastante cinematográfica, não me admirando que qualquer dia ele se aventure na escrita de argumentos de cinema.

Sobre a história, penso que a sinopse resume bem, e até, por um lado, revela demais. A personagem principal, que é o narrador, é um estudante brilhante, mas que depois dum acontecimento inesperado na sua vida, que quase o levará à auto-destruição, terá uma missão desafiadora e perigosa: encontrar um fadista português, de nome Daniel da Silva.

Mais uma vez, João Tordo consegue impor uma mais-valia ao seu romance, disfarçado de policial, entrecruzando as histórias de vida das suas personagens, como se fosse uma verdadeira teia que levará a um caminho comum, levando a embalar-nos e a ler sofregamente.

Por fim, são as referências a pessoas que o influenciam, das quais os autor tem admiração na escrita, no cinema ou na música; leva-nos a pensar que aquela história bem poderia ser a nossa ou de alguém nosso conhecido. Um romance para ler com prazer.

8/10 - Muito Bom

domingo, 4 de janeiro de 2009

As 3 vidas

Sinopse: Quem é António Augusto Millhouse Pascal? Que segredos rodeiam a vida deste homem de idade, que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e uma lista de clientes tão abastados e vividos, como perigosos e loucos? São estes os mistérios que o narrador, um rapaz de uma família modesta, vai procurar desvendar não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por Millhouse Pascal se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida. Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e, desvendando o passado turbulento do seu patrão - na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial -, As Três Vidas é uma viagem de autodescoberta através do «outro». Cruzando a história sangrenta do século XX com a história destas personagens, este romance é também sobre a paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Millhouse Pascal, e sobre a procura pelo destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do seu avô, inexoravelmente ligado ao destino de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da estreita corda bamba sobre a qual ela se sustém.

Neste Natal, e depois de ter fornecido à minha família uma lista de 10 obras que queria ler, fui, aconselhado pelo funcionário da livraria, presenteado com este livro pela minha mãe. Já tinha lido boas criticas, desde outros autores, como críticos de literatura, parecia que este livro tinha reunido um, por vezes perigoso, consenso entre toda a gente.

Foi, então, com uma enorme curiosidade em que me lancei na sua leitura, e posso dizer que foi um dos livros que mais me marcaram durante os últimos tempos da minha vida. Existe, talvez, bem lá dentro daquelas páginas, um reconhecimento de mim próprio e da minha vida, principalmente no reconhecimento da tão incessante, e por vezes incansável, busca do meu “eu” através do “outro”.

A história, narrada na primeira pessoa, gira à volta de 3 vidas, do próprio narrador, o qual nunca sabemos o seu nome, e da sua relação com o seu misterioso patrão, António Augusto Milhouse Pascal, dono de uma agência de trabalhos misteriosos numa Quinta no meio do Alentejo, e da neta deste, a sonhadora e rebelde Camila Pascal que idolatra, mais do que tudo e alguma coisa, esses artistas que desafiam os limites de nome funâmbulos. A história, ou histórias, atravessam três décadas, e com elas podemos assistir, não só a uma mudança nas três vidas, e na forma como ele vê a própria Vida, mas também às metamorfoses do Mundo em seu redor.

O livro é todo ele povoado com uma escrita fluída, bastante cinematográfica, e tal e qual um funâmbulo, (o mote inspirador para esta obra, que funcionará como metáfora da vida das 3 personagens principais, sempre na corda-bamba) no meio da actuação, vamos, passo a passo assistindo ao desenrolar da história sempre atentos, com ânsia de não perder nenhum pormenor, até chegarmos ao outro lado com a sensação, plena de satisfação, de um desafio ganho e com vontade de repetir esta "viagem".

É, certamente, um livro que, um dia, irei reler para tentar descobrir ainda mais pormenores que, talvez, me fugiram nesta minha primeira leitura. Com este seu terceiro livro, João Tordo consegue criar uma história original que nos prende desde a primeira página, a qual temos imensa pena quando vemos que não existem mais páginas para poder usufruir, acabando por ser um bela surpresa ter-me tocado tanto. Posso dizer que este livro me encontrou na altura certa. Convém andarmos atentos ao que se faz no nosso país, são livros como este, e autores como João Tordo, que mostra a despontar uma geração de escritores que honra o passado literário de um país que sempre se pôde orgulhar do nascimentos de grandes escritores. É necessário (re)descobrir o prazer de ler autores portugueses.

Como obra literária darei um 8/10 a este livro, mas ,de facto, foi dos livros que mais me divertiu, mais me marcou e mais me deu prazer, ler. Quanto ao autor, além de tentar ler as suas outras duas obras, irei estar atento à sua carreira, assim como ao seu blog.