Mostrando postagens com marcador Dostoievsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dostoievsky. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de julho de 2007

Crime e Castigo - Fedor Dostoievsky

Fiodor Dostoievski é considerado, e justamente, como um dos grandes escritores russos e um dos maiores escritores universais de todos os tempos. Nascido em Moscovo em 1821, Dostoievski teve uma infância algo triste, caracterizada pela profunda austeridade do seu pai, austeridade essa que se estendia igualmente ao seu irmão mais velho e à sua mãe, que viria a falecer quando ele contava apenas 10 anos.
Na juventude, frequentou a Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. De onde saí em 1843, vindo pouco tempo depois a abandonar a carreira militar para ingressar no mundo das letras. Crê-se que esse entusiasmo pela letras deriva de uma visita de Balzac a São Petersburgo, visita essa que o leva a traduzir “Eugenia Grandet” do célebre escritor francês.
Já como escritor, envolve-se num movimento de líricos, de artistas, que nas suas reuniões são conhecidos por terem opiniões contra o sistema político e em 1849, é preso e acusado de conspiração contra o czar, sendo então condenado a ser fuzilado. Porém, no dia marcado para o fuzilamento e quando já estava perfilado diante do pelotão, veio a informação que o czar havia comutado a pena de fuzilamento para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Tal episódeo tem um papel fulcral na via de Dostoievski e repercute-se em toda a sua obra, 4 anos em contacto com outros criminosos foram essenciais para a escrita de “Crime e Castigo”.
Vida difícil, marcada pelo sofrimento moral e físico (tinha constante ataques epilépticos) e pelas dívidas ao jogo que o deixa frequentemente na penúria, publica em 1866 a obra “Crime e Castigo”, livro esse que depois desta pequena mas importante introdução, me proponho a opinar.
É assim que marcado por um estado de angústia e amargura, Dostoievski tem todo um clima ideal para escrever o romance que o levaria à galeria dos imortais, aquele livro onde Dostoievski demonstra que atingiu o total amadurecimento.
Como já referi, os 4 anos passados na Sibéria na companhia de tantos criminosos, familiarizaram-no com o sentimento de culpa, pois ali foi possível conviver com homens que lhe mostraram o crime nas suas diversas facetas. Homens tidos na sociedade como monstros, mas que são capazes de revelar sentimentos humanos. Homens que se transformaram em criminosos devido à injustiça social, mas capazes de mostrarem remorsos que lhes dilaceram a alma, homens que devido à vicissitudes da vida acabam por se considerarem inocentes. Esses factos perturbou Dostoievski.
Assim e em “Crime e Castigo”, Dostoievski apresenta-nos a personagem principal Raskolnikov, que é apenas um estudante com um futuro brilhante. No entanto, a sua difícil situação financeira, assim como a situação da sua mãe e irmã, faz com que Raskolnikov se vá isolando do mundo, deixando logo antever grandes fragilidades psicológicas misturadas com um crescente estado nervoso.
Resolve então penhorar alguns objectos junto de uma velha que, aproveitando-se da precária situação de Raskolnikov, oferece-lhe sempre menos dinheiro do que aquele que era justo. Face a essa injustiça, Raskolnikov vê nascer um ódio pela velha agiota, planeando então assassiná-la. De notar que Raskolnikov vê na velha a face da injustiça social que assalta a Rússia. Dostoievski é brilhante na forma como descreve toda a situação do assassinato. Desde o momento que sai de casa, as dúvidas, as hesitações, a angústia de Raskolnikov, os seus pensamentos que acompanhamos quase como sendo uma segunda consciência de Raskolnikov: “como tudo é repugnante”, “isto é uma loucura, um absurdo”, “serei eu capaz de tamanha infâmia?”, “isto é ignóbil, nojento!”... no entanto, assassina-a de um modo grotesco, sádico e cruel, rouba nervosamente alguns valores e, sem que Raskolnikov o prevê-se , nessa altura entra em casa a irmã da velha que, ao ver a usurária morta, fica em estado de choque, completamente petrificada de terror. Raskolnikov não pensa e mata-a, sem piedade e de uma forma macabra. Duas mortes atrozes que vão agora atormentar o nosso personagem.
Depois de quase ser apanhado em flagrante (Dostoievski faz essa descrição de um modo excitante), consegue fugir sem ser visto e voltar ao seu quarto onde se inicia a sua luta consigo próprio, uma luta psicológica que o irá levar a um estado latente de loucura.
Nesta obra, Dostoievski realiza algumas análises á sociedade do seu tempo. A miséria humana da família Marmaledov (a forma como o pai dessa família sucumbe é atroz, mas aconteciam inúmeros casos na altura) caracteriza a injustiça social. Injustiça essa também explorada na personagem de Svidrigailov, homem sem escrúpulos, chantagista. Dúnia que está pronta a sacrificar a sua vida para o bem estar da família. No entanto, a sua maior análise vai inteirinha para a luta psicológica de um homem que mata mas que não sente remorsos pelo que faz, sente sim a dúvida moral do seu acto, o seu desespero em encontrar um subterfúgio que lhe atenue essa dúvida que lhe dilacera a alma, que o tortura, que o castiga.
Dostoievski descreve todo um processo psíquico do sentimento de culpa. Raskolnikov pensa que a velha é um mal no mundo, que esse mundo apenas tem a ganhar com a sua morte. Como tal, ele tem o direito de impor a sua própria moral, no entanto ele é consumido pela tortura interior. A sua tortura constitui um esforço desesperado para, através do raciocínio lógico, encontrar uma explicação para os crimes, uma explicação que amaine a sua consciência. Será que matar a velha foi um erro? Se ele não se arrepende, então não pode ser culpado por algo que foi merecido. Ele agiu como devia, logo, o seu suplício não tem razão de existir... Mas será que ele tem realmente esse direito, será ele um Deus?... é neste conflito interior que o tortura, que a figura de uma jovem prostituta, marcada igualmente pelo sofrimento, lhe vai falar à sua consciência. Sublime ironia de Dostoievski, numa autêntica batalha entre o bem e o mal.
Uma obra genial!

"chamam-me psicólogo, mas não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retracto todas as profundezas da alma humana.” - Fiodor Dostoievski

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Jogador (O) - Fedor Dostoievsky

Neste romance, escrito em apenas 15 dias, Dostoiévski cria Alexis Ivanovitch, preceptor de uma abastada família russa que, em jeito de memórias, relata os acontecimentos em que se viu envolvido numa cidade alemã chamada Ruletemburgo. Á roda dessa família, giram outros excêntricos personagens que acabam por ter alguma relevância em toda a acção. Mlle. Blanché, amante do general (patrão de Ivanovitch), mulher interesseira que gosta de se expressar na sua língua materna (francês). Um inglês que tem um papel algo dúbio, até para o próprio Ivanovitch. Outro francês (De Grillet), personagem sui generis na sua forma de agir e, finalmente, uma velha avó de quem todos esperam notícias da sua morte e que, repentinamente, resolve aparecer em Ruletemburgo para espanto de todos, principalmente do general.
E é nessa senhora que tudo verdadeiramente começa. A velhota pede a Ivanovitch que lhe mostre a sala da roleta e que lhe explique as regras e, ele ao fazê-lo, dá oportunidade à senhora para jogar... depressa ela se vicia no jogo.
É o ponto de partida para o fascínio da roleta. A ânsia dos números que saem, o perde e ganha de dinheiro, o convencimento e certeza que "é agora que sai", o bichinho que os impulsiona, que os atira para a mesa, que os leva a sonhar com riquezas inimagináveis.
Jogador inveterado da roleta, Dostoiévski faz deste romance uma espécie de exorcismo de um vício que quase o levou à ruína. Inclusive, sabe-se que este romance foi escrito para pagar dívidas de jogo. Aqui e baseado numa experiência pessoal, ele faz-nos sentir toda aquela ânsia, toda aquela obsessão, aquela compulsiva necessidade de jogar, da crença que vai sair, de que por muito que se ganhe, é sempre possível ganhar mais, e mais, e mais... Todas essas sensações, a descrição de tal vicio está brilhantemente explicado e é engraçado também verificar a semelhança entre este vício e o vício da droga. Embora noutra perspectiva, a semelhança é notória. Também de notar a forma clara, aberta e honesta como Dostoiévski descreve todo esse sentimento, demonstrando que este vício é um problema muito sério.
Nesse aspecto, o livro ganha claramente importância e relevância dada a forma como aborda a questão. Quanto ao resto e olhando para a estória que gira em torno do assunto, penso que nada de positivo traz, descrevendo um arrastar das personagens acima mencionadas, cheia de relações humilhantes e absurdas.
Negativo também o exagero das frases em francês. Para quem não tenha conhecimentos de francês, é extremamente complicado seguir o texto, ou se quiserem, alguma partes que acabam por ter alguma importância na estória.
Em suma: Uma viagem guiada a um mundo de vício e perdição. A um mundo ilusório, uma doença onde o prazer se confunde com a dor, descrito por um homem que sofreu na pele os malefícios desse mal.