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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Eça de Queiroz A Vida Privada - José Calvet Magalhães



Este é um livro destinado sobretudo aos amantes da obra de Eça de Queiroz, embora para o amante da História e da vida cultural e social portuguesa do séc. XIX, tenha também motivos de extremo interesse.

É um livro que aborda a vida de José Maria d’Eça de Queiroz, o José Maria para os amigos e é assim que o autor o denomina durante todo o livro, principalmente porque José Calvet efectua uma divisão clara entre o homem e o escritor, separa-os, e embora tal separação se revele complicada e quase impossível de ser feita, o certo é que este livro narra-nos a vida do homem, do cidadão, que vai muito para além da sua escrita.

Assim o livro, que não é um romance mas sim uma biografia, inicia-se a meio do séc. XIX com o caso que junta os pais de Eça, caso que irá levar a várias confusões, culminando com o registo de José Maria como filho do dr. José Maria Queiroz (ele tinha o nome do pai) e de mãe incógnita.

A juventude de Eça é superficialmente abordada porque simplesmente existem poucos dados e o próprio Eça raramente falava nela. Mas e com o pouco que tem, o autor consegue fazer um pequeno filme da sua infância, chegando à conclusão que teve uma infância feliz. E é com essas raízes que José Maria, já adolescente, vai para Coimbra cursar direito, período esse que já se encontra bem melhor documentado.

E é precisamente por estar excelentemente documentado por cartas de amigos e do próprio Eça, até pela voz própria de testemunhas que conheceram Eça e que foram deixando escrito vários episódios, que o autor descreve a vida do escritor, os seus vícios, virtudes, defeitos, maleitas, medos, dissabores, amores, amizades e inimizades, conhecemos a vida de Eça de Queiroz, o homem, cônsul de profissão e escritor por vocação.

Pessoalmente este livro encantou-me. Eça é um dos meus ídolos, uma das minhas referências, o meu escritor de eleição. Um homem íntegro, sério, mas um homem que, como qualquer ser humano, tinha defeitos, sentia, sofria e amava, possuía uma inteligência e um sentido de humor formidáveis, transpondo para as suas obras a sua visão da sociedade, a melhor herança que podia ter deixado à sua nação.

Desfilando ao lado de personagens igualmente marcantes (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Rei D. Carlos, Rainha D. Amélia, Emile Zola e tantos outros), sobressaem episódios caricatos da sua vida, uma vida tão cheia e rica, mas uma vida que findou da mesma forma como viveu.Eu adorei e só não o classifico como Obra-Prima porque gostaria de ter lido mais acerca da inspiração para os seus livros, o que estavam por detrás deles, as suas ideias. Aborda isso levemente.


Classificação: 4

domingo, 1 de junho de 2008

Uma Campanha Alegre - Eça de Queirós

Em 1871, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão formavam uma dupla que “arremessava” farpas a vários sectores da sociedade portuguesa, estas eram publicadas em jornais e em jeito de folhetins.

Durante dois anos, e segundo o próprio Eça, decidiram ”farpear até à morte a alimária pesada e temerosa”, no auge da juventude, das suas capacidades e cientes do seu já importante papel no meio intelectual, não cessaram de escrever textos irónicos e alegres sobre o estado de Portugal.

Esses textos, levados e tomados por uma campanha alegre, pretendiam mostrar o quão ridículo era o comportamento de certos sectores, assim como servir a justiça e a verdade, demolindo a acerba, má educação, má formação e interesses instalados.

Honestamente desconheço se esses irónicos textos tiveram algum impacto ou algum papel preponderante, ou mesmo se os alvos escolhidos se sentiram, no entanto o que sei é que esta campanha alegre é um riquíssimo fresco da sociedade portuguesa da 2ª metade do século XIX, servindo para o actual leitor se aperceber o estado do país e, curioso, constatar as imensas semelhanças entre essa sociedade e a actual, ou seja, não se aprende rigorosamente nada.

Eça de Queirós resolveu publicar essas farpas vinte anos depois. E fê-lo porque o seu camarada Ortigão publicou a sua obra “Farpas”, incentivando Eça a fazê-lo também, pois e segundo Ortigão, umas complementavam as outras.

E é assim, numa intrépida alegria, num riso que peleja contra a Tolice e a ignorância, que Eça desata a “bater” nos males da douta e fastidiosa sociedade portuguesa, cheia de bem e tradições falsas de cavalheirismo bacoco e manhoso.

Dividido em dois volumes, pelo menos a edição que possuo, o primeiro volume tem 34 “farpas” e o segundo possui 35.

De toda esta parafernália de textos cáusticos, poderia aqui destacar uns tantos que assentam como uma luva na nossa podre sociedade, no entanto não o farei porque e embora sejam crónicas soltas, todas elas têm uma lógica e uma interligação que faz com que esta ”Campanha Alegre” seja um género de edifício em que cada farpa significa um tijolo.

Alguns dirão que alguns destes textos carecem de actualidade. É um facto! Mas para se perceber do porquê do actual estado do país, seria bom as pessoas se debruçarem sobre o passado e deixarem, de uma vez por todas, a imbecilidade e obtusismo que graça em todos os sectores da vida portuguesa, pois e acreditem, até ler sobre o estado do exército português de 1871 tem interesse.

Porém, se estiver a borrifar para a História, se se interessar apenas pelo dia de hoje, então esqueça esta obra, pois é uma tremenda perca de tempo e qualquer joguito de futebol ou uma qualquer novela com actores fanhosos, é muito mais interessante.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Relíquia (A) - Eça de Queirós



Para quem já teve a oportunidade de apreciar um romance do mestre Eça de Queirós, deve saber que uma das suas características era o de efectuar, e isso está presente em todos os seus romances, uma crítica social mordaz, irónica mas, no fundo, uma crítica que tentava ser construtiva.
Neste romance que me proponho a opinar, romance esse considerado por muitos como a sua "obra-prima" ou aquela onde ele conseguiu explanar toda a sua corrosiva veia crítica e irónica, o mestre Eça, que publica este romance em 1887, época em que vive em Londres, dominado por pensamentos e teorias agnósticas que faziam então furor entre os intelectuais ingleses, mas, o mestre Eça constrói todo um trama assente sobretudo na observação dos costumes, nomeadamente uma observação que se propõe a narrar os costumes das gentes beatas e a hipocrisia que daí surgia.
Narrado sempre na primeira pessoa, o escritor começa por nos apresentar o seu principal protagonista: Teodorico Raposo, ele próprio o narrador da história.
Toda a narrativa aborda a própria vida de Teodorico. Homem que órfão aos 7 anos, foi deixado aos cuidados da sua tia, D. Maria do Patrocínio, mulher devota, púdica, que se guiava pelos padrões de uma antiga burguesia dominada pela religião. Beata e tremendamente receosa de Deus, a Titi envia Teodorico, aos nove anos, para um colégio interno e, após estadia em Coimbra, Teodorico acaba por regressar a Lisboa anos depois e já doutor. Toda essa fase é já dominada por um carácter devasso de Teodorico que, para além de ser um calão, encontra em tudo formas de diversão.
Feliz de ter um sobrinho doutor e muito crente e cumpridor dos seus deveres para com Deus (Teodorico passa a vida a simular idas à igreja e mostra-se sempre muito devoto em frente da Titi), a tia começa-lhe a dar uma rica mesada, começando assim Teodorico uma vida "farta e regalada".
Bom, mas um problema surge. A tia estava velha, era rica e, pelo que Teodorico se apercebe, ela prepara-se para deixar grande parte da sua fortuna à igreja e, é numa conversa com um amigo do pai que se convence que a única forma de ficar com a fortuna toda da velha é precisamente, ele, Teodorico Raposo, ser mais santo que o próprio Jesus Cristo.
Imaginem!
Assim e também porque passava por uma fase de profunda desilusão amorosa, ele resolve "cravar" uma viagem à sua tia, uma viagem que o irá levar à Terra Santa.
Essa viagem, alegadamente uma peregrinação em nome da Titi, irá transformar-se numa viagem louca, metendo uma amante inglesa em pleno Egipto que lhe faz a vez das idas à igreja..., uma estadia em Jerusalém onde, para além de ele achar tudo horrível, acaba por sair do Santo Sepulcro a praguejar, até a uma carga de porrada que ele leva de um escocês por ser apanhado a espreitar a filha deste enquanto tomava banho.
Hilariante!
Mas, antes desta viagem "santa", onde Teodorico se propunha a ser mais santo do que J.C., ele promete à Titi que lhe irá trazer uma relíquia que é nada mais, nada menos do que um bocado da própria coroa de espinhos. No entanto é um simples galho que irá fazer a vez da coroa, sendo então embrulhado em simples papel pardo, papel semelhante que embrulhava uma garrida e erótica camisa de dormir da sua amante inglesa que, em memória da sua última fogosa noite de amor juntos, oferece-lha de modo a recordar-se sempre dela.
Farto daquela miséria toda, ele resolve empreender a viagem de regresso, sendo então recebido em apoteose pela tia que já o vê como um santo, um modelo de ser humano, pois havia estado nos mesmos lugares que Jesus Cristo.
Agora imaginem o momento em que ele vai dar a tão prometida santa relíquia à sua tia...
Essa entrega irá processar-se de uma forma cerimoniosa. Todos os padres e todas as beatas são convidadas para a ocasião. Tal presente iria fazer furor e criar invejas junto da beatitude da sociedade lisboeta. E quando a Titi abre o embrulho, em vez de um galho da coroa de espinhos, eis que surge uma camisa de dormir de cores garridas, provocante e cheia de rendinhas... imaginem o desenrolar da cena. É deveras hilariante!
Pessoalmente gosto muito deste romance, aliás, eu gosto de todos os romances e contos de Eça. Neste caso ele constrói uma personagem extremamente religiosa e, em contraponto, uma outra mas extremamente liberal. O choque é inevitável. A hipocrisia assola todo o romance, chega a ser incomodativo e irritante tanta sobranceria e hipocrisia. À semelhança do que Eça fez noutros romances, ele descreve uma sociedade completamente dividida: os mais jovens, liberais e não crentes. Os mais velhos, ainda com aquela ideologia da alta burguesia do início do Sec. XVIII, completamente sob o domínio da igreja e dos seus representantes.
Sabe-se que Eça não era um grande simpatizante do catolicismo. Já em "O Crime do Padre Amaro", ele traçava um cenário profundamente crítico, caótico mesmo em relação à igreja e ao seu comportamento, no entanto em a "Relíquia", ele aborda a questão doutra forma, aliás, ele dispara as suas críticas sob outra perspectiva: a do fanatismo religioso. Quanto a mim, este romance complementa "O Crime do Padre Amaro", pois neste caso ele crítica, e é impiedosa a forma como o faz, toda uma sociedade que vivia de aparências... isto é tudo tão familiar nos dias de hoje!!!
Eça de Queirós é, pois, o melhor escritor português de todos os tempos e, não tenho a melhor dúvida, um dos melhores a nível mundial. Se ele fosse norte-americano, francês, inglês ou alemão, penso que seria considerado o grande mestre da literatura universal. Senhor de um estilo único, enquanto narrador conseguiu "pintar" cenários reais da sociedade portuguesa, efectuando também descrições e análises psicológicas dos seus personagens de uma forma intensa.
Embora este não seja o romance que mais aprecio do mestre, penso que a "Relíquia" é aquele onde ele consegue, de facto, expressar todo o seu génio, para além das sublimes descrições que efectua do Egipto (onde esteve para a inauguração do canal do Suez) e Palestina, ele consegue descrever de uma forma minuciosa os costumes da época, os hábitos da sociedade, o modo de pensar e o latente conflito de gerações que se dava na altura.

sábado, 18 de agosto de 2007

Primo Basílio (O) - Eça de Queirós

Em o "Primo Basílio" Eça escreve mais uma etapa do seu projecto "Crónicas da vida portuguesa", onde ele se propunha a efectuar 12 romances em que abordaria todas as características da vida portuguesa. Esse projecto nunca foi terminado, mas não o impediu de escrever alguns romances extraordinários, reflectindo a sociedade portuguesa dos finais do século XIX.

Este romance é, na minha humilde opinião, aquele onde Eça consegue pintar o fresco mais real da aristocracia lisboeta (e portuguesa) do final do século XIX e também é aquele onde ele onde efectua as mais minuciosas análises psicológicas. É interessante verificar a constante luta moral ao longo do livro. À medida que a história se desenrola, é comum sermos confrontados com questões morais pertinentes e inclusivamente convenções sociais que são quebradas de uma forma abrupta e escandalosa. Um jogo que o autor, propositadamente, procura jogar com as regras da época e que tanta celeuma levantou na altura da publicação e que, cá para nós, tantas questões ainda levanta se a analisarmos à luz das actuais convenções morais.

A história é simples de resumir: Luísa é uma mulher casada que se vê sozinha em Lisboa depois de o seu marido ter que se ausentar em trabalho para o Alentejo. Começa então a receber visitas diárias de um primo (Basílio) que se encontra em Lisboa. Daí até ao envolvimento de ambos vai um curto passo e começam-se a encontrar numa outra casa. Esta relação é descoberta por Juliana, a criada de Luísa que a começa a chantagear com a ameaça de contar tudo ao marido de Luísa. Basílio, que apenas vê em Luísa uma espécie de diversão para os seus tempos livres, resolve fugir de Lisboa quando Luísa lhe pede ajuda (um pulha), e é então que os papéis entre Luísa e Juliana se invertem: A senhora passa a ser a criada e a criada passa a ser a senhora. Aí Eça é genial na forma como aborda a questão, assim como na análise deste facto, descrevendo-nos situações verdadeiramente humilhantes para Luísa.

De notar que a abordagem de Eça ao adultério não foi por caso. Repare-se que a convenção da época era permissiva em relação ao homem e radicalmente subversiva em relação à mulher. Digo mais, pelo que percebi dos vários romances que tenho lido, russos, portugueses, ingleses e franceses, era até visto como sinal de virilidade um homem ter uma amante e veja que ( e quem ler o livro irá perceber) Basílio é visto como um homem que não faz nada de mal (inclusivamente Basílio ocupa um papel secundário), aqui o pecado é de Luísa. Ela é que comete adultério. O marido de Luísa, na sua viagem de trabalho, também comete adultério, no entanto aponta-se o dedo a Luísa, ou seja, todos andam na coboidada, mas apenas Luísa tem a obrigação de "pagar a factura".

Embora não seja o meu romance preferido do mestre Eça, este é sem dúvida um relato fiel dessa época, onde relações extraconjugais eram vista como normais no seio masculino, mas completamente proibidas às senhoras.

Mas como costumo questionar nos livros de Eça: "Será que a nossa sociedade mudou alguma coisa?"

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crime do Padre Amaro (O) - Eça de Queirós

Como afirmou Miguel Torga: "Grande Eça! Arrancar desta terra um tal romance, parece ser obra de Deus!", eu assino por baixo, embora, na minha opinião, esta não seja a obra-prima do mestre.
"O crime do Padre Amaro", segundo o próprio Eça, começa a ser concebido em 1870 quando ele é nomeado administrador do Concelho de Leiria. Enviado para aqueles ermos, Eça sente-se infeliz e deslocado no meio de tanta beata e mal dizer. Aos poucos e devido à sua distinta posição assim como devido ao seu excelente poder de observação, começa a tomar conhecimento da vida privada de algumas pessoas e o que sabe apenas o inspira para o romance-bomba que está prestes a conceber.
Este era o seu romance predilecto e aquele onde Eça mais trabalhou em posteriores revisões. Inicialmente inscrito no seu projecto "cenas da vida portuguesa", este livro será aquele onde ele atinge o apogeu da ironia, efectuando não só uma crítica a uma gente de uma cidade específica, como também à própria sociedade portuguesa e ao compadrio entre a igreja e o poder. Assim como é curioso verificar a expressão do seu ideal anarquista (a destruição do poder vigente) que, dizia ele, serviria para instituir o estado socialista. De notar que foi um romance muito criticado na época e posteriormente proibido a sua circulação no regime salazarista.
Amaro Vieira é um padre que chega a Leiria para ocupar o lugar em aberto de pároco, sabemos entretanto que ele nunca teve qualquer vocação e que é por influências politicas que ele consegue o lugar.
Através da ajuda do cónego Dias (macaco velho que havia sido mestre de Amaro no seminário), ele consegue arranjar um quartinho patusco e baratucho numa casa de uma pessoa "amiga". Acontece que a dona dessa casa, a senhora Joaneira, tem uma linda e prendada filha, ser angelical e virginal que é alvo de desejos ardentes de tudo o que é homem, no entanto como a menina é muito pura e pudica, mantém-se no seu cantinho e não dá trela a ninguém.
O ciclo amoroso está lançado com a estadia do "raio" do padre. Olhares libidinosos entre Amélia (a pura menina) e Amaro é o começo de uma paixão proibida, onde encontros muito quentes acabam na cama (alcova) do padre (lá se vai a pureza).
Mas Eça não se fica por aqui e lança nova carga.
Amaro apanha o cónego Dias com a boca na botija (literalmente) descobrindo-o em ardentes jogos sexuais com a Srª. D. Joaneira (outra alcova) e chega-se a uma brilhante conclusão: "São todos do mesmo barro. Um anda com a mãe e o outro conforta a filha!". Elucidativo da ironia e da mordacidade de Eça de Queiroz.
É neste ambiente de saudável putaria (perdoem-me o termo), com outro pormenores à mistura, uns quentes e outros não tanto, pois nem só de quentura vive o romance e Eça também tinha que descansar, mas e como ia dizendo, que... oh deuses, não é que Amélia, esse ser virginal e doce calha engravidar? Quem brinca com o fogo... será possível tamanho descuido ou será que pensavam serem as reencarnações de José e Maria que só com a ajuda do espírito santo conseguiram lá chegar?
Começa então o pesadelo de Amaro e surge a verdadeira face desse homem ou deverei dizer, dessa besta que chega a rezar a Deus para que Amélia e o bebé morram... bem feito era que Deus fosse surdo!
E mais não digo sobre a história porque daí a bocado tiro o interesse da mesma a quem a quiser ler.
Apenas chamo a atenção para a forma magistral como finda o romance, onde o conde de Ribamar proclama a tranquilidade, superioridade e virtuosidade de Portugal diante dos tumultuosos acontecimentos que ocorriam em Paris. È a facada final de Eça.
Um romance considerado por muitos críticos como o melhor de Eça de Queiroz dada a natureza real que o escritor emprega na narrativa, sabendo-se que efectivamente Eça baseou-se em pessoas reais para criar as suas personagens.
Para mim foi um romance que me deu um imenso prazer ler por ser espantosamente irónico e mordaz, ainda mais por ter tido a coragem de ter enfrentado e confrontado a igreja e o seu imenso poder, assim como as suas relações um pouco... digamos, duvidosas...
Sem dúvidas um dos grandes romances da nossa literatura, porém, está longe da beleza e do fulgor dos "Maias".

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Maias (Os) - Eça de Queirós

Para mim é extremamente complicado falar, opinar sobre Eça de Queiróz e sobretudo sobre a sua obra prima "Os Maias" (como subtítulo: "Episódeos da vida romântica"), porque simplesmente por muito que fale, divague ou discuta, são poucas as palavras para exprimir o seu génio e a sua grandeza.
A minha paixão por Eça de Queiróz vem, ao contrário do que se poderia pensar, dos tempos de liceu quando fui obrigado a ler "Os Maias". Afirmo obrigado porque e naquela altura, andava mais interessado em obras de aventuras como "O conde de Monte Cristo" (grande obra), "Ivanhóe" ou aqueles livrecos de terror da colecção "Pêndulo". Bom, o suplício foi de pouca duração porque à 10ª página já eu me tinha apaixonado, sobretudo pela forma de escrita.
Desde essa altura, e já lá vãos uns anitos, já li o livro por mais três vezes, e o fascínio continua a ser o mesmo.
Quanto ao romance: Eça narra as aventuras e desventuras de uma família lisboeta ao longo de três gerações, onde a sociedade da época, com todos os seus defeitos e virtudes, é descrita de uma forma irónica, mordaz e bastante real, pois sabe-se que Eça era um homem profundamente realista, gostava de escrever o que via e sentia de uma forma coerente (pensou inclusivé em descrever a sociedade portuguesa ao longo de 12 romances). Assim, toca nas feridas da sociedade portuguesa da época (??), expondo toda a futilidade, a vaidade, o cinismo, a hipocrisia e o ridículo (tão actual!!)
É igualmente interessante focar a sublime ironia com que Eça narra alguns acontecimentos, nomeadamente uma situação entre o Eusebiozinho e Carlos da Maia ou as situações de João da Ega... soltei gargalhadas profundas.
Por falar em João da Ega, cada vez mais me convenço que Eça serve-se de Ega para se auto-retratar, pois atente-se como ele descreve João da Ega: "O esforço da inteligência (...) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha alguma coisa de rebelde e de satânico".
A nível do texto literário, a forma como consegue sugerir as formas, as cores, as paisagens ou os cheiros, é simplesmente genial. A forma e a facilidade que descreve comportamentos humanos, onde facilmente nos apercebemos das alegrias, tristezas e do tédio. Recordo-me da descrição de Sintra... é estonteante, um concerto de beleza!
Claro que a história não se resume apenas à história de 3 gerações e dos costumes da sociedade. Mas peço desculpa a quem esperava uma descrição da estória dos "Maias", para mim, a beleza da obra está no que anteriormente referi.
Cada leitor sente o livro à sua maneira, tentei descrever a sensações que ele me provocou, mas e como referi logo de início, é muito difícil para mim opinar sobre esta grandiosa obra, porque tudo o que posso afirmar é pouco para exprimir o que senti.