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domingo, 27 de julho de 2008

Crónica de uma morte anunciada - Gabriel Garcia Marquez

Ângela Vicário, poucas horas depois do seu casamento, é devolvida à família pelo seu recente esposo, supostamente por não ser virgem na noite de núpcias.

Assolada pela vergonha, a família de Ângela pressiona-a no sentido dela dizer quem foi o causador de tal descaramento , acabando por nomear Santiago Nasar como o causador dessa desfloração.

Completamente cegos por vingança, os irmãos de Ângela, pegam em facas de matar porcos e, informando que com eles se cruza no caminho, vão em busca de Santiago para o matarem, o que conseguem de um modo verdadeiramente atroz.

Muitíssimo bem escrito, o que é normal em Garxia Marquez, um dos factos que tornam o livro curioso e sui-generis, é o facto que desde a primeira página, sabermos que Santiago já morreu assassinado pelos irmão Vicário.

A questão aqui centra-se não no porquê desse assassinato, pois e de acordo com a sui-generis e fantástica sociedade rural colombiana parece ser normal tal acontecer, mas a questão central reside precisamente na própria crónica dessa morte que narra as últimas horas da vida de Santiago, principalmente a sua última hora.

Um excelente livro, baseado num acontecimento verídico, que considero ser até o livro ideal para entrar no mundo fantástico de Garcia Marquez. Uma história que narra um acontecimento aparentemente banal, mas é essa aparente banalidade que é fascinante. No entanto parece-me que Garcia Marquez tem o condão de tornar especial tudo o que escreve.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Memória das Minhas Putas Tristes - Gabiel Garcia Marquez


Não sei qual foi a intenção de Garcia Marquez ao escrever este conto, no entanto e longe de ter ido investigar se houve alguma intenção do escritor, não deixarei de tecer algumas considerações sobre este pequeno livro que é algo polémico.

Era uma vez um velho jornalista que, por ocasião dos seus 90 anos, pretende comemorar essa efeméride indo para a cama com uma virgem.

Homem vivido, tendo e até aos 40 anos tantas mulheres que lhe perdeu a conta na 5ª centena, mulheres a que sempre pagou para ter sexo, este homem pretende provar a si mesmo que, mesmo com esta idade, ainda aí está para as curvas, embora o seu aspecto não engane a idade que tem.

Contactando uma velha amiga dona de um bordel que ele muito frequentou, ele solicita uma virgem para essa noite de modo a satisfazer-lhe esse capricho. Curiosa a resposta dela: ”ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis.”, a veia irónica de Marquez.

No entanto essa velha amiga lá lhe consegue arranjar uma jovem de 14 anos, combinando a hora e por onde ele deveria entrar sem ser visto no bordel.

Aí chegado, muito nervoso, depara-se com uma criança nua a dormir. Deita-se, também nu, junto da rapariga e acaba por adormecer.

A partir dessa noite uma estranha relação se inicia entre o personagem narrador e essa menina a quem ele chama de Delgadina, pois os encontros sucedem-se, mas nunca acontece nada. Ela está sempre a dormir e ele limita-se a acariciá-la e a adormecer ao pé dela. No entanto este estranho cenário tem o condão de fazer crescer nele afecto. Afecto que ele nunca sentiu por nenhuma mulher, limitava-se sempre a encontros sexuais. Neste caso, e com 90 anos, acaba por descobrir o amor.

Penso que Garcia Marquez tenta abordar duas questões:

A sensibilidade e sexualidade na velhice e, e isso foi o que me pareceu, uma outra perspectiva sobre a sexualidade na infância, ou se quisermos, uma perspectiva sobre o amadurecimento humano, até aonde vai a criança e onde começa o adulto. Atenção, pareceu-me. Penso mesmo que Marquez aflora a temática pedofília, no entanto e como eles nunca têm relações sexuais, não poderei afirmar que essa tenha sido a intenção dele. Assim, que sentido faz os dois principais personagens terem 90 anos e 14? Saliento que para além nunca haver nada entre eles, Delgadina encontra-se sempre em estado adormecido, ele apenas afaga, no entanto e perto do fim, é claro que o amor é reciproco.

Depois a sexualidade na velhice. O homem tem 90 anos, mas sente-se jovem por dentro. Aparentemente, e ele nunca é claro nesse sentido, o instrumento ainda funciona e mais, acaba de descobrir o amor.

Sei que o livro foi e será polémico e propício a várias interpretações. No entanto Marquez descreve algo que é muito normal em todo o mundo: desde sempre que os homens vão às “putas”, simplesmente para ter sexo, há então homens que a única forma de terem sexo é recorrer a essas mulheres.

Agora a relação com a menina de 14 é que me deixou pensativo sobre a intenção de Marquez, qual o objectivo dele?

É um conto bonito sobre o amor e a alegria de viver.

O narrador, sábio pela experiência de vida, desfila recordações da sua vida em diversas idades, tudo servindo para abarcar a possível evolução da sociedade corroída por preconceitos e vícios antigos. No entanto e é precisamente através dessas lembranças que o narrador se apercebe, embora conheça muito do mundo e das mulheres, que jamais conheceu o amor.

Sobre a escrita, enfim, Garcia Marquez não é dos meus escritores predilectos, mas tenho que admitir, ele escreve muito bem, há partes no texto que parecem poesia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Florentino Ariza apaixona-se pela jovem Fermina Daza de uma forma tão intensa e pura que, segundo ele, é mesmo amor o que sente. Começa então a escrever-lhe bilhetes, utilizando a velha tia de Fermina como intermediária do jovem casal.
Declaram então um amor eterno, no entanto o pai de Fermina não vê com bons olhos esse relacionamento, pois Florentino não tem estatuto social e ele pretende que a jovem se case com alguém de “boas famílias” e não com um pé rapado sem futuro.
Fermina é então obrigada a partir com o pai numa longa viagem, no entanto, em vez de o amor desaparecer, apenas se torna mais intenso e, num belo dia após o regresso de Fermina, sem ela própria saber porquê, Fermina sente que esse amor desapareceu, assim, simplesmente desapareceu.
No entanto Florentino não se rende...
Das várias opiniões que li sobre esta obra, em todas ela se referia que esta história é uma bela história de amor.
Em parte concordo, pois realmente é uma bela e terna história de amor, porém, penso que é uma forma muito simplista de classificar e resumir esta obra.
Gabriel Garcia Marquez é indubitavelmente um dos grandes escritores de sempre. Ao contrário do que dizia José Luis Borges ”Marquez não trouxe nada de novo à literatura”, tenho a certeza que efectivamente Marquez trouxe muito de novo à literatura.
Marquez inventa, ou se quisermos, é um dos percursores e o seu mais fiel escritor do género “realismo fantástico”, género esse que não é o meu estilo mas que e depois de ter lido o “Viver para contá-la”, aprendi a respeitar e a apreciar.
Depois Garcia Marquez tem a excepcional capacidade de misturar as realidades com sonhos, crenças e rituais, tornando assim os seus romances em histórias onde a realidade e a ficção se misturam de uma forma onde nós não sabemos onde começa uma e acaba a outra, tal o universo cheio de fábulas, mitos e magia, completamente um universo onírico.
Pura e simplesmente o que Marquez faz é o de dar ao leitor um mundo, um universo que numa primeira análise é em tudo semelhante ao nosso para, e aos poucos, ir inserindo histórias fantásticas, mitos e fábulas do folclore colombiano, histórias estranhas da sua própria família, dos seus amigos e metáforas, principalmente metáforas políticas.
Dizia Garcia Marquez em “Viver para contá-la” :”estranho era não acontecer nada de estranho no local da minha infância”, por isso e de acordo com a própria vivência do escritor, imaginem o que salta para os seus romances.
Em “Amor em tempos de cólera”, Marquez não foge ao universo acima descrito.
A história tem um espaço temporal de cerca de 60 anos. Inicia-se algumas décadas antes do fim do séc. XIX e finda nas primeiras décadas do séc. XX.
Aqui Marquez não aborda questões políticas. Em toda a obra é apenas referido, e muito superficialmente, as guerras que devastaram a região das Caraíbas no período descrito.
Descreve também um surto de cólera que efectivamente existiu, mas ele usa esse surto para jogar com as personagens, criando cenários fantásticos numa grande metáfora sobre a vida humana.
Neste romance ele personifica a paixão, o amor humano em toda a sua pureza. Mas não só. N
este romance Marquez efectua uma homenagem à mulher, ser que guarda em si a eternidade da vida e a alegria, paz e harmonia do homem. Fermina Daza representa esse ideal. Uma mulher que é amada toda a vida, que é vista e tida como uma Deusa, como uma esplendorosa luz que ilumina a alma de Florentino, que lhe dá alento.
Florentino nunca deixa de amar aquela mulher. Um amor que extravasa o físico, a matéria.
No decurso da sua vida, Florentino entrega-se a várias mulheres (até o episódio da forma como Florentino perde a virgindade, e acreditem que no caso perde mesmo, é extremamente simbólico), relações sem futuro porque o seu coração estava entregue, aprisionado. As suas entregas são uma forma de prostituição, pois e consoante ele defendia: ”Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, e por todas com a mesma dor, sem atraiçoar nenhuma”.
A estrutura do romance não segue uma cronologia linear.
Marquez joga com as memórias dos personagens. Flash-back’s constantes compõem a obra, sempre num ritmo pausado, calmo, como deve ser vivido o amor. Um romance cheio de imagens mentais.
Gostei muito do romance fundamentalmente por causa da escrita de Marquez. Ele encanta. A forma como escreve é musical, poética e inimitável. Dá realmente um enorme prazer ler este livro, pois as palavras fluem compondo um texto narrativo a roçar o poético.
A simbologia que emprega é muito forte, agarrando-nos e dando-nos quase a possibilidade de vivermos aquelas vidas, pois ficamos com a sensação que todo aquele amor, é, ao fim e ao cabo, um pouco da nossa pretensão, do nosso próprio ideal romântico.
Um livro vivo e que nos faz viver um amor eterno.

domingo, 29 de julho de 2007

Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Marquez

Todos nós temos aqueles livros que consideramos especiais. Uns pela construção narrativa, outros pela história, outros ainda pela mensagem que nos transmitem ou pelo que ensinam, mensagens e ensinamentos esses que podem alterar toda uma filosofia de vida, um modo de pensar, uma forma de olhar o mundo que nos rodeia ou outra percepção da História.
Como toda a gente, tenho eu também na memória algumas obras que tiveram o condão de me proporcionarem algumas das sensações/percepções acima mencionadas. Obras que recomendo sempre que posso, tentando contudo explicar esse fascínio ou, pelo menos, onde e porquê considero essa obra especial.
Posto isto, apenas espero que no fim desta opinião tenham compaixão de mim e não me crucifiquem, pois muitos irão certamente dizer "cobras" e "lagartos" desta opinião e especialmente da pontuação que atribuo.
A legião de fãs do "Cem anos de solidão" são mais do que as mães. Há 2, 3 anos li este famoso livro e sinceramente não gostei. No entanto algo ficou a moer cá dentro. Fiquei deveras incomodado comigo mesmo pelo facto de tanta gente adorar este livro e eu não ter gostado, assim, resolvi relê-lo esperando vir a entender a beleza e magia que tantos apregoam.
A história em si é extremamente confusa e surrealista. Entrar no mundo de Macondo é difícil dada a imensa irrealidade de tudo o que a rodeia.
Uma vila no meio de nada é cenário para a história de uma família que se confunde com a origem da própria vila. Numa aura mágica, num tempo indefinido e, ao mesmo tempo longínquo, Macondo está praticamente fechada ao exterior, sendo apenas um grupo de ciganos que faz uma pequena e frágil ligação a esse mundo exterior. É neste pedaço de terra, quase uma terra de ninguém, onde vive a família Buendía, figura central da história. Uma estranha família que tem o faculdade de gerar pessoas com algum dom estranho e todos eles com um caminho tortuoso pela frente, caminho esse que tem um ponto em comum: a solidão.
Nesse família existe uma estranha e curiosa particularidade que é, talvez, a imagem de marca do romance: todos têm os nomes iguais, ou seja, os netos herdam os nomes dos avôs/avós, existindo assim um cruzamento confuso de personagens onde facilmente perdemos a noção de quem é quem.
Curioso também verificar que Garcia Marquez menciona várias vezes personagens que já faleceram, parecendo-nos assim que todos eles são imortais (penso até que é propositado), e que todos eles têm um pedaço de um outro e um pedaço de todos.
Como elo familiar em quase toda a história, surge a matriarca (Úrsula) que vê nascer e morrer praticamente todas as gerações.
É uma história que combina diversos elementos: os problemas sociais e políticos, o progresso inexorável, a vida quotidiana, a história de um povo, a morte, o amor, o sobrenatural, o humor e o incesto. Nessa combinação, é realmente um livro espantoso, porque consegue associar todos estes elementos de uma forma magistral, mas e ao colocar a realidade numa categoria onírica, num mundo absurdo onde a lógica é propositadamente deixada de parte, fez com que não conseguisse apreciar a obra e nem compreende-la na sua natureza, ou seja, não compreendo o porquê de esta ser considerada uma obra-prima da literatura.
De todo o romance, gostei essencialmente da parte final onde Marquez demonstra o seu jeito para a escrita, mas o resto do livro foi-me penoso ler, dadas as inúmeras vezes que me perdi no vasto rol de personagens e no vasto rol de acontecimentos absurdos, embora admita que a personagem de Melquiades é um perfume que Marquez nos oferece de princípio ao fim.
Resumindo e concluindo: Um romance que não me agradou e nem me proporcionou momentos de lazer. Um mundo surrealista, onde o passado se mistura com o presente de uma forma quimérica, parecendo que estamos numa outra dimensão. Uma imensa galeria de personagens com nomes idênticos que aumentam ainda mais a confusão e onde a trajectória do destino se repete geração após geração. De notar também, confesso, não ser este o género literário predilecto.