FONTE: ESPIRITUALIDADE E CIÊNCIA
tradução: Ligia Cabus (Mahajah!ck)
Crítias: Então, ouça Sócrates, esta estranha narrativa que, no entanto, certamente é verdadeira, bem como Sólon, que contou a história, e que foi o mais sábio entre os sete sábios. Ele era parente e grande amigo de meu avô, Drópidas, como ele mesmo disse em muitos de seus poemas; e Drópidas disse a Crítias, meu pai, que lembrava e nos contava sobre uma antiga e maravilhosa atuação dos atenienses que caiu no esquecimento, ao longo do tempo e da destruição da Raça Humana, e uma, em particular, que era a maior de todas as Raças, e o relato do que se passou será um testemunho adequado da nossa gratidão a vocês...
Sócrates: Muito bom! E o quê é essa antiga e famosa proeza da qual Crítias falou e que não é mera lenda mas uma ação histórica do Estado Ateniense recontada por Sólon!
Crítias: Eu vou contar uma velha história do mundo que ouvi de homem já bastante idoso; Crítias, na época, tinha quase noventa anos e eu dez anos de idade. Era o "dia de Apaturia", também chamado "dia de registro na juventude" [entrada na adolescência] no qual, de acordo com o costume, nossos pais conferiam-nos prêmios pela declamação de poemas e muitos de nós cantavam poemas de Sólon, que eram novidades naquele tempo. Um de nossa tribo, talvez porque fosse sua real opinião, ou talvez porque quisesse agradar Crítias, disse que na sua opinião [dele] Sólon não era apenas o mais sábio dos homens, porém era também o mais nobre dos poetas. O velho homem, eu me lembro bem, iluminou-se diante disso e falou, sorrindo: "Sim, Amynander, se Sólon tivesse, apenas, como outros poetas, feito da poesia o negócio de sua vida e tivesse completado o relato que trouxe com ele do Egito e não se sentisse compelido, em razão de fatos e perturbações que ele encontrou [instabilidade política] quando voltou a este país, empenhando-se, então, em atender a outras tarefas, [se tivesse escrito o poema sobre a coisas fabulosas que aprendeu no Egito] na minha opinião ele teria sido um poeta tão famoso quanto Homero ou Hesíodo.
E sobre o quê era este poema, Crítias? perguntou alguém.
Sobre a mais grandiosa ação já empreendida pelos atenienses e que deveria ser muito famosa mas o tempo e a destruição completa dos atores desse drama impediram que história chegasse até nós. "Conte-nos", disse outra pessoa, "conte-nos a história toda e de quem Sólon ouviu essa tradição".
E ele começou: "No Delta Egípcio, o rio Nilo se divide, existe um certo distrito que é chamado Saís, e uma grande cidade do distrito, também chamada Saís, e essa é a cidade na qual nasceu o rei Amasis. Ali os cidadãos têm uma divindade fundadora: os egípcios a chamam de Neith mas eles dizem que é a mesma chamada pelos atenienses de "Atena". Os cidadãos desta cidade gostam muito dos atenienses e dizem que, de alguma forma, se relacionam com o povo de Atenas.
"Sólon, levado por Thrither [um sacerdote egípcio], foi recebido com grandes honras e perguntou aos sacerdotes qual dos mestres era o mais sábios em antiguidades [história antiga]; Sólon descobriu que nem ele nem qualquer outro heleno sabiam qualquer coisa de real valor sobre os tempos antigos.
Em uma ocasião, quando estavam falando de antiguidades, ele [Sólon] começou a discorrer sobre coisas de outros tempos quando nossa parte do mundo, o Phoroneus, que é chamado "o primeiro", e sobre Níobe e depois sobre o Dilúvio; falou sobre a vida de Deucalião e Pirra e traçou a genealogia de seus descendentes, a linha do tempo, as datas dos eventos aos quais se referia.
Thereupon, um dos sacerdotes, que era muito velho, disse: "Oh, Sólon, Sólon, vocês helenos são como crianças e não há homens velhos entre os helenos." – Diante disso, disse Sólon: "O que você quer dizer com isso?"
– Quero dizer o que disse; que em termos de mentalidade vocês são muito jovens. Não há entre vocês idéias ancoradas em ciências antigas ou antigas tradições; e eu lhes dizer a razão disso: aconteceram e novamente acontecerão muitas destruições da raça humana deflagradas por muitas causas. Existe uma estória que vocês devem ter preservado, sobre Faetonte, o filho de Hélios, que sem saber conduzir os cavalos, tomou a carruagem de seu pai para percorrer o caminho que Hélios fazia todos os dias e provocou um grande desastre, queimando tudo na face da Terra.
Hoje, isso é uma expressão em forma de mito, mas, de fato, significa o declínio dos corpos que se movem em torno da Terra e nos céus; uma conflagração recorrente, que acontece em longos intervalos de tempo; quando isso acontece, aqueles que vivem nas montanhas e em outros lugares secos, estão mais sujeitos à destruição do que aqueles que vivem à margem dos rios, dos lagos ou do mar. Mas, por outro lado, quando os deuses purgam a terra pela água [e não pelo fogo, como Faetonte],então os pastores, os montanheses, são os sobreviventes e perecem os que vivem nas cidades, próximos aos rios e fontes, a beira-mar; são levados pelas enchentes, submergem no oceano. Mas nesse país, nem nesse tempo nem em qualquer outro a água veio do alto sobre os campos, tendo sempre a tendência de vir de baixo, razão pela qual as coisas preservadas aqui são as mais antigas.
O fato é que a Raça Humana, a população, cresce em certas épocas e decresce em outras e o que sempre aconteceu em seu país e no nosso ou em qualquer outra região da qual tenhamos conhecimento, todos os feitos grandes e nobres ou qualquer outro evento memorável, tudo o que tem sido escrito sobre os acontecimentos do passado, está preservado em nossos templos. Enquanto vocês [gregos] e outras nações mantêm escrituras e somente estes registros que interessam ao estado, no momento presente, ignoram que a pestilência [a catástrofe] pode estar vindo dos céus para dizimar todos e deixar apenas aqueles dentre vocês que são destituídos das letras e da educação e assim, deste modo, vocês têm de começar tudo novamente, como crianças, sem nada saber do aconteceu nos tempos mais antigos, entre nós [o Egito] e entre vocês mesmos [gregos].
As genealogias de vocês, gregos, que você Sólon nos tem contado, são relatos de crianças porque, em primeiro lugar, vocês se lembram de um dilúvio apenas, quando existiram muitos deles; em segundo lugar, vocês ignoram que habitaram em sua terra os homens da mais nobre e bela raça que jamais existiu, raça da qual você e seu povo são os descendentes. Isso é desconhecido por vocês porque muitas gerações de sobreviventes da destruição morreram sem deixar qualquer vestígio. Houve um tempo, Sólon, antes do maior dilúvio de todos, quando a cidade que hoje é Atenas era a primeira nas guerras e proeminente pela excelência de suas leis, pelos feitos notáveis, pela constituição magnífica de seus cidadãos.
Maravilhado, Sólon queria saber mais sobre aquela raça e aquele tempo. "Todos vocês são bem-vindos para ouvir sobre eles, Sólon" – disse o sacerdote – "por você mesmo, pela cidade e, sobretudo, pela glória da deusa que é protetora e civilizadora [educadora] de ambas as cidades [Atenas e Saís]. Ela fundou sua cidade mil anos antes da nossa, recebendo da Terra e Efaistos a semente de sua raça; e depois, fundou a nossa, um fato que está preservado em nossos registros sagrados como acontecido há oito mil anos atrás, como ensinaram os cidadãos de nove mil anos atrás. Eu informarei brevemente a você sobre suas leis e a nobreza de seus feitos conforme as escrituras sagradas deles mesmos. Se você comparar estas leis com as suas próprias verá muitas das nossas leis são contrapartida das suas.
Existe uma casta de sacerdotes, que é separada de todas as outras; depois vêm os artesãos, que exercem suas muitas artes e não se misturam com as outras castas; e também existe a classe dos pastores e dos caçadores bem como a dos agricultores. Você observará que os guerreiros no Egito são separados de outras classes e são comandados pela lei da guerra e são equipados com escudos e lanças e a deusa fala primeiro entre vocês, e então, aos países asiáticos e nós, entre os asiáticos, fomos os primeiros a adotar essas leis.
Sabiamente, você notará o cuidado da lei com o mais puro, buscando e compreendendo toda ordem de coisas, da profecia, a medicina e todos os elementos necessários à vida humana e todo tipo de conhecimento relacionado. Essa ordem de coisas foi estabelecida pela deusa e dada a vocês quando estabeleceram sua cidade; e ela escolheu este lugar da Terra, onde você nasceu, porque ali viu o arranjo harmonioso das estações e viu que aquela terra produziria os mais sábios dos homens.
A deusa, que amava a guerra e a sabedoria escolheu aqueles que seriam semelhantes a ela mesma; e ali vocês se estabeleceram com suas leis, que ainda são as melhores, e excedem toda a raça humana nesta virtude e eram os filhos e os discípulos dos deuses. Grandes e maravilhosos feitos de seu Estado foram registrados em nossa história mas um deles supera a todos em grandeza e valor. Foi quando uma força muito poderosa e agressiva levantou-se contra a Europa e Ásia mas sua cidade pôs um fim ao terror.
Esta força veio do oceano Atlântico, naqueles dias em que o Atlântico era navegável; e existia uma ilha situada em frente ao estreito [estreito de Gibraltar] que vocês denominam Colunas de Hércules. A ilha era maior que a Líbia e a Ásia juntas e era o caminho para outras ilhas através das quais era possível atravessar e chegar ao outro lado do continente que era cercado pelo verdadeiro oceano [passando do Mediterrâneo ao Atlântico]. O mar interior do estreito de Hércules (Gibraltar) era apenas um porto com uma entrada estreita; do outro lado, era o verdadeiro mar e a terra, ali, podia verdadeiramente ser chamada de "continente".
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Estreito de Gibraltar, ponto de referência na localização do continente-ilha submerso chamado de Atlantis ou Atlântida, segundo Platão. Ligando o mar Mediterrâneo ao oceano Atlântico, a passagem de Gibraltar teria sido aberta pelo mitológico herói grego Hércules e suas margens são as "colunas de Hércules", a última fronteira do mundo para os navegadores do Mediterrâneo na antiguidade clássica.
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Então, na ilha de Atlantis existiu um grande e maravilhoso império, que tinha leis vigentes em toda a "ilha-continente" e em muitas outras além de partes da Líbia, "dentro" das colunas de Hércules tão distantes do Egito e da Europa quanto do Tirreno [parte ocidental do mar Mediterrâneo]. O vasto poder [de Atlantis] empenhou-se, então, em subjugar de um só golpe nosso país e os seus [as cidades-estado gregas] e toda a terra nos limites do estreito; e então, Sólon, seu país [Atenas] brilhou à frente de todos, na excelência de sua virtude e força, por sua bravura e perícia militar; [Atenas] liderou os helenos; e quando não havia esperança de trégua, quando compelida a estar sozinha, submetida a um grande perigo, Atenas derrotou e triunfou sobre os invasores e manteve à salvo da escravidão aqueles que ainda não tinham sido subjugados e libertou todos os outros que habitavam os limites de Hércules [área do mediterrâneo, estreito de Gibraltar]. Posteriormente aconteceram terremotos violentos e inundações e em apenas um dia e uma noite de tempestades (chuvas) Atlântida e todo o seu povo foram tragados pelo oceano. Esta é a razão pela qual naquela parte, o mar é inavegável, intransponível, porque está saturado de lama.
E eu gostaria de invocar Mnemosine (Memória) porque parte significativa do que tenho para contar depende do favor da deusa das recordações, para que possa recontar tudo o que disseram os sacerdotes e que Sólon trouxe consigo. Deixem-me começar observando que, os nove mil anos que mencionei são um resumo dos anos que tinham se passado desde o começo da guerra entre os que habitavam para além das coluna de Hércules e aqueles que habitavam "dentro" do estreito. De um lado os combatentes da cidade de Atenas e seus aliados; do outro, os reis da Ilhas de Atlantis, que outrora tinham sob seu poder um território maior que a Líbia e a Ásia; território que desapareceu entre tremores de terra e maremotos que tornaram o Atlântico praticamente inacessível. A história se desenrola e entram em cena numerosas tribos bárbaras e Helenos que existiam então. Mas devo ainda descrever os Atenienses tal como eram naqueles dias e seus inimigos e ainda o poder e a forma de governo de cada um. Comecemos pelos atenienses...
Muitos grandes dilúvios aconteceram durante aqueles nove mil anos... Os deuses repartiram entre si toda a Terra em diferentes porções. Ergueram templos, fizeram sacrifícios. Poseidon recebeu a ilha de Atlantis; o deus tinha filhos com uma mortal e instalou, mulher e filhos, em uma parte da ilha; na costa, voltada para o oceano, existia uma planície muito fértil. Próximo, no centro da ilha, havia uma montanha não muito alta. Nesta montanha habitavam os primeiros mortais deste país: um casal, ele chamado Evanor e ela Leucipa. Tinham uma única filha, Cleito.
Quando a donzela se tornou mulher, seus pais morreram e foi por ela que Poseidon se apaixonou e teve filhos com ela. Ela morava na montanha da planície, que foi cercada de canais circulares e concêntricos, alternando faixas de terra e água. Havia três faixas de água e duas de terra... [Os filhos]... eram cinco pares de gêmeos varões. Atlantis foi dividida em dez regiões: o mais velho do primeiro par, chamado Atlas, ficou com a ilha-colina onde morava sua mãe, que era um lugar magnífico e nomeado de Atlantic [Atlântica ou Atlântida]; e Atlas ficou sendo o rei de todo império. Os outros irmãos foram feitos príncipes por Poseidon. Eles governariam todos os homens. O gêmeo de Atlas, Gades ou Gaderius, ficou com terras interiores das colunas de Hércules.
O segundo par de gêmeos eram Ampheres e Evaernon; o terceiro, Mneseus e Autochthon [Autóctone]; o quarto par de gêmeos, Elasipo e Mestor; e o quinto, Azaes e Diaprepes. Todos estes e seus descendentes foram governantes de numerosas ilhas em mar aberto e também já foi dito que eles migraram para lugares distantes das colunas de Hércules, muito além do Tirreno e do Egito.
Atlas tinha, então, uma família numerosa e honrada e seus descendentes mantiveram o reino por muitas gerações e detinham muitas riquezas, tantas quantas jamais foram possuídas por outros reis e potentados. Muitas especiarias eram trazidas de países estrangeiros mas a ilha era auto-suficiente e fornecia tudo que era necessário a uma vida confortável. O subsolo possuía minerais e um precioso metal do qual hoje só resta o nome: orichalcum.
Também havia florestas abundantes de onde se extraía a madeira e campos que alimentavam pessoas e animais domésticos e selvagens. Havia um grande número de elefantes na ilha Atlântica e outros variados tipos de animais, de lagos e montanhas, rios e planícies. [Os atlânticos possuíam também deliciosas] ... fragrâncias, perfumes, extraídos de raízes, ervas, flores e frutas. [Havia pomares ... e templos, palácios, portos, docas.
[Ainda na ilha]... os palácios no interior da cidadela eram construídos com um templo, dedicado a Cleito e Poseidon no centro, extremamente inacessível e rodeado de ouro; foi o lugar onde nasceram os dez príncipes e onde eram realizados rituais anuais... Todo o exterior do templo era coberto de prata, e os pináculos [torres] de ouro. O interior do templo era de mármore decorado com ouro, prata e orichalcum... estátuas de ouro, como a do próprio deus [Poseidon] em sua carruagem de seis cavalos alados, cercado de Nereidas e golfinhos... Do lado de fora, rodeando o templo, havia vinte estátuas de ouro, representando os príncipes e suas mulheres... Havia fontes de água quente e fria... Havia muitos templos dedicados a muitos deuses... jardins e lugares para o laser. Alguns somente para os homens... [e havia haras, pistas para cavalos]... As docas estavam sempre repletas de naus trirremes e armazéns por onde circulavam mercadores de todo o mundo... ― O TEXTO DE PLATÃO TERMINA ABRUPTAMENTE.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
O que o jabuti disse a Aquiles, de Lewis Carroll
TRECHO:
Aquiles alcançou o jabuti, e sentou-se confortavelmente em suas costas.
"Então chegaste ao fim de nosso percurso?" disse o jabuti "Apesar de que
ele consiste de infinitas séries de distâncias? Pensei que algum espertinho
ou outro havia provado que isso não podia ser feito?"
"Pode ser feito," disse Aquiles. "Foi feito! Solvitur ambulando (2). Percebes
que as distâncias estavam constantemente diminuindo: e então -"
"Mas e se elas estivessem constantemente aumentando?" o jabuti
interrompeu. "Então?"
"Então eu não estaria aqui," Aquiles modestamente retrucou; "e você já
teria dado várias voltas ao redor da terra, neste momento!"
"Você me engraça - digo amassa," disse o jabuti; "pois você é pesado, sem
dúvida! Bem agora, você gostaria de ouvir sobre um percurso, que a
maioria das pessoas imagina poderem chegar ao final em um passo ou dois,
enquanto na verdade consiste de um número infinito de distâncias, cada
uma mais longa que a anterior?"
"Gostaria muito na verdade!" disse o guerreiro grego, enquanto ele tirava
de seu capacete (poucos guerreiros possuíam bolsos naquele tempo) um
enorme bloco de notas e um lápis. "Prossiga! E fale devagar, por favor!
Taquigrafia ainda não foi inventada!"
"Aquela bela Primeira Proposição de Euclides!" o jabuti murmurou em
devaneios. "Você admira Euclides?"
"Apaixonadamente! Até então, pelo menos, do modo que alguém pode
admirar um tratado que não será publicado por alguns séculos vindouros!"
Aquiles alcançou o jabuti, e sentou-se confortavelmente em suas costas.
"Então chegaste ao fim de nosso percurso?" disse o jabuti "Apesar de que
ele consiste de infinitas séries de distâncias? Pensei que algum espertinho
ou outro havia provado que isso não podia ser feito?"
"Pode ser feito," disse Aquiles. "Foi feito! Solvitur ambulando (2). Percebes
que as distâncias estavam constantemente diminuindo: e então -"
"Mas e se elas estivessem constantemente aumentando?" o jabuti
interrompeu. "Então?"
"Então eu não estaria aqui," Aquiles modestamente retrucou; "e você já
teria dado várias voltas ao redor da terra, neste momento!"
"Você me engraça - digo amassa," disse o jabuti; "pois você é pesado, sem
dúvida! Bem agora, você gostaria de ouvir sobre um percurso, que a
maioria das pessoas imagina poderem chegar ao final em um passo ou dois,
enquanto na verdade consiste de um número infinito de distâncias, cada
uma mais longa que a anterior?"
"Gostaria muito na verdade!" disse o guerreiro grego, enquanto ele tirava
de seu capacete (poucos guerreiros possuíam bolsos naquele tempo) um
enorme bloco de notas e um lápis. "Prossiga! E fale devagar, por favor!
Taquigrafia ainda não foi inventada!"
"Aquela bela Primeira Proposição de Euclides!" o jabuti murmurou em
devaneios. "Você admira Euclides?"
"Apaixonadamente! Até então, pelo menos, do modo que alguém pode
admirar um tratado que não será publicado por alguns séculos vindouros!"
sábado, 27 de outubro de 2007
A metamorfose ou O asno de ouro, de Lucio Apuleyo
Advertência
A tradução que publicamos do ASNO DE OURO, de Apuleyo, é a atribuída à Diego López da Cortegana, que foi arcediano de Sevilha pelos anos de 1500. Desejando facilitar sua leitura, modernizamos a ortografia e, às vezes, levemente, a sintaxe da velha versão castelhana.
Cotejamo-la além, minuciosamente, com o original latino, e apenas foi preciso modificar algum nome próprio e alguma passagem má interpretada. Conservamos a divisão em capítulos e os epígrafes de Cortegana. O texto latino se divide só em livros.
Neste livro, composto ao estilo de Mileto, poderá conhecer e saber diversas histórias e fábulas, com as quais deleitará seus ouvidos e sentidos, se quiser ler e não menosprezar, ver esta escritura egípcia, composta com engenho das ribeiras do Nilo; porque aqui verá as fortunas e figuras de homens convertidas em outras imagens e tornadas outra vez em sua mesma forma. De maneira que se maravilhará do que digo. E se quer saber quem sou, em poucas palavras lhe direi isso: Minha antiga linhagem teve sua origem e nascimento nas colinas do Himeto ateniense, no istmo da Efirea e em Tenaro de Esparta, que são cidades muito férteis e nobres, celebradas por muitos escritores. Nesta cidade de Atenas comecei a aprender sendo moço; depois vim à Roma, onde com muito trabalho e fadiga, sem que professor me ensinasse, aprendi a língua natural dos Romanos. Assim que peço perdão se em algo ofender, sendo eu rude para falar língua estranha. Que até a mesma mudança de meu falar responde à ciência e estilo variável que começo a escrever. A história é grega, entende-a bem e haverá prazer.
Primeiro livro
Argumento
Lucio Apuleyo, desejando saber arte mágica, foi à província de Tessália, onde estas artes se sabiam; no caminho se juntou terceiro companheiro a dois caminhantes, e andando naquele caminho foram contando certas coisas maravilhosas e incríveis de um embaixador e de duas bruxas feiticeiras que se chamavam Meroe e Panthia, e logo diz de como chegou à cidade Hipata e de seu hospedeiro Milón, e o que a primeira noite aconteceu em sua casa. Lê e verá coisas maravilhosas.
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A tradução que publicamos do ASNO DE OURO, de Apuleyo, é a atribuída à Diego López da Cortegana, que foi arcediano de Sevilha pelos anos de 1500. Desejando facilitar sua leitura, modernizamos a ortografia e, às vezes, levemente, a sintaxe da velha versão castelhana.
Cotejamo-la além, minuciosamente, com o original latino, e apenas foi preciso modificar algum nome próprio e alguma passagem má interpretada. Conservamos a divisão em capítulos e os epígrafes de Cortegana. O texto latino se divide só em livros.
Neste livro, composto ao estilo de Mileto, poderá conhecer e saber diversas histórias e fábulas, com as quais deleitará seus ouvidos e sentidos, se quiser ler e não menosprezar, ver esta escritura egípcia, composta com engenho das ribeiras do Nilo; porque aqui verá as fortunas e figuras de homens convertidas em outras imagens e tornadas outra vez em sua mesma forma. De maneira que se maravilhará do que digo. E se quer saber quem sou, em poucas palavras lhe direi isso: Minha antiga linhagem teve sua origem e nascimento nas colinas do Himeto ateniense, no istmo da Efirea e em Tenaro de Esparta, que são cidades muito férteis e nobres, celebradas por muitos escritores. Nesta cidade de Atenas comecei a aprender sendo moço; depois vim à Roma, onde com muito trabalho e fadiga, sem que professor me ensinasse, aprendi a língua natural dos Romanos. Assim que peço perdão se em algo ofender, sendo eu rude para falar língua estranha. Que até a mesma mudança de meu falar responde à ciência e estilo variável que começo a escrever. A história é grega, entende-a bem e haverá prazer.
Primeiro livro
Argumento
Lucio Apuleyo, desejando saber arte mágica, foi à província de Tessália, onde estas artes se sabiam; no caminho se juntou terceiro companheiro a dois caminhantes, e andando naquele caminho foram contando certas coisas maravilhosas e incríveis de um embaixador e de duas bruxas feiticeiras que se chamavam Meroe e Panthia, e logo diz de como chegou à cidade Hipata e de seu hospedeiro Milón, e o que a primeira noite aconteceu em sua casa. Lê e verá coisas maravilhosas.
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Mitologia greco-romana
terça-feira, 28 de agosto de 2007
A sabedoria dos antigos, de Francis Bacon
Prefácio
Os tem pos mais re cu a dos (ex ce to os fa tos que le -
mos nas escrituras sagradas) estão envoltos em silêncio
e esquecimento. Ao silêncio da Antigüidade segui -
ram-se as fá bu las dos po e tas; é às fá bu las, os es cri tos
que possuímos. Assim, entre os recessos da Antigüida -
de e a me mó ria e evi dên cia dos sé cu los que se se gui ram,
des ceu como que um véu de len das, o qual se in ter pôs
en tre o que pe re ceu e o que sub sis tiu. Temo que, na
opinião de muitos, esteja me divertindo com um jogo,
usan do, para usur par as fá bu las, da mes ma li cen ça a
que os po e tas re cor re ram para in ven tá-las. E é bem ver -
da de que, se pu des se ali vi ar a ari dez de meus es tu dos
com a prática de semelhantes amenidades, para gáudio
pró prio ou alhe io, eu o fa ria. Não ig no ro quão fle xí vel é
a matéria da fá bu la, quão ma leá vel – e que, com um pou -
co de en ge nho e gar ru li ce, se lhe pode atribuir plausivel -
men te o que nun ca pre ten de ram di zer. Não me es que ço
também de que mu i to se abu sou des sas co i sas; com efe i -
to, para dar foros de venerável antigüidade a suas pró -
prias invenções e doutrinas, homens houve que distor -
ce ram as fá bu las dos po e tas em seu fa vor. Essa va i da de
não é nova nem rara, mas an ti ga e fre qüen te. Cri si po
outrora, interpretando os velhos poetas como se inter -
pretasse sonhos, fê-los filósofos estóicos. Mais absurda -
mente ainda, os alquimistas transferiram para suas ex -
periências de fornalha os passatempos e brincadeiras
dos poetas sobre as transmutações dos corpos. Tudo
isso argüí e ponderei, considerando ainda a leviandade e
a presteza com que as pessoas embalam sua imaginação
nas ale go ri as. Mas, ain da as sim, não pos so mu dar de
idéia. É que, para co me çar, não con vém per mi tir à li cen ça
e à insanidade de uns poucos conspurcarem a honra das
pa rá bo las em ge ral, já que isso se ria co i sa pro fa na e pe -
tu lan te. Uma vez que a re li gião se de le i ta nes ses véus e
sombras, removê-los impediria todo comércio entre o
humano e o divino. Mas falemos apenas da sabedoria
dos ho mens. Sem dú vi da – con fes so-o com can du ra –,
par ti lho da se guin te opi nião: por sob nú me ro não pe -
queno de fábulas dos poetas antigos jazem, desde o co -
me ço, um mis té rio e uma ale go ria. Bem pode dar-se que
meu gosto reverente pelos tempos recuados me haja le -
va do lon ge de ma is. A ver da de, po rém, é que em al gu -
mas des sas fá bu las, tan to na for ma e tex tu ra do re la to
quan to na ade qua ção dos no mes pe los qua is se dis tin -
guem os seus personagens, encontro uma conformidade
e uma conexão com a coisa significada, tão próximas e
tão notórias que a ninguém ocorreria negar-lhes inten -
cionalidade e reflexão: elas foram, desde o início, conce -
bi das de pro pó si to. Pois quem se ria tão in cré du lo e cego
à obviedade das coisas para, ouvindo que depois da
que da dos Gigantes a Fama sur giu como sua fi lha pós tu -
ma, não per ce ber de pron to que isso se re fe re à mur mu -
ração dos partidos e aos boatos sediciosos que sempre
circulam durante algum tempo depois da su pres são de
um mo tim? Quem, in te i ra do de que o gi gan te Tifão cor -
tou e le vou con si go os ten dões de Jú pi ter (os qua is Mer -
cúrio lhe rou bou para de vol vê-los ao pai), não ve ria logo
que o fato se re la ci o na a re be liões bem-sucedidas, pe las
qua is os reis têm cor ta dos, ao mes mo tem po, os “ten -
dões” do dinheiro e da autoridade? Pois não é sa bi do
que, mediante palavras sábias e éditos justos, os ânimos
dos súditos podem ser reconciliados, e por assim dizer
“roubados e devolvidos”, de sorte a recuperarem os reis
sua for ça? Ha ve rá quem, in for ma do de que na me mo rá -
vel cam pa nha dos de u ses con tra os gi gan tes o zur rar do
burro de Sileno pôs a es tes em fuga, não no ta rá que se me -
lhante episódio foi inventado em alusão às ambiciosas
tentativas dos rebeldes, dissipadas como geralmente o
são por fal sos bo a tos e vãos ter ro res? Ora, exis tem tam -
bém conformidade e significação nos próprios nomes,
evidentes a todos. Métis, consorte de Júpiter, significa
claramente prudência; Tifão, arrogância; Pã, o universo;
Nê me se, vin gan ça, e por aí além. Mas não encontramos,
aqui e ali, inserções de fragmentos de histórias reais, por -
meno res acrescentados à gui sa de or na men to, épo cas
confundidas, pedaços de uma fábula enxertados em outra
e uma nova alegoria introduzida? Tais coisas não pode -
riam deixar de produzir-se em histórias inventadas
(como es tas) por ho mens que vi ve ram em di fe ren tes épo -
cas e que tinham diferentes objetivos – sendo alguns mais
modernos, ou tros mais an ti gos, uns pro pen sos à fi lo so -
fia, ou tros à po lí ti ca. Assim, que isso não nos per tur be.
Há, po rém, ou tro in dí cio, e não dos mais des pre zí ve is,
de que tais fá bu las con têm um significado oculto e implí -
ci to: é que al gu mas de las são tão ab sur das e tão nés ci as,
se nos ativermos simplesmente ao relato, que é de crer
estejam anunciando alguma coisa de longe, proclaman do
que tra zem em si uma pa rá bo la. Por quan to uma fá bu la
verossímil talvez tenha sido composta por simples des -
fas tio, à imi ta ção da his tó ria; mas, ante uma nar ra ti va
que homem nenhum poderia ter concebido ou propalado,
podemos presumir que dissimula alguma outra inten -
ção. Que dizer desta invencionice: Júpiter toma Métis
por es po sa; logo que a vê grá vi da, de vo ra-a; ei-lo grá vi do,
ele pró prio – e a par te jar, de sua ca be ça, Palas inteira -
mente armada!? Penso que ninguém teve jamais sonho
tão monstruoso e extravagante, inteiramente alheio às
formas naturais do pensamento.
Mas a con si de ra ção que mais peso tem para mim é
que pou cas des sas fá bu las, tais qua is as en ca ro, fo ram
realmente inventadas pelos bardos que as recitaram e
celebrizaram – Homero, Hesíodo e os outros. Houves -
sem elas sido fru to da que les tem pos e da que les au to res,
por cujo in ter mé dio che ga ram até nós, eu não me da ria
o trabalho de esmiuçar grandeza ou majestade em se -
melhantes fontes. Todavia, a um escrutínio atento, per -
cebemos que foram divulgadas não como invenções
inéditas, mas como histórias cridas e consabidas. E,
uma vez que são contadas de diferentes maneiras por
escritores quase contemporâneos, percebe-se com faci -
li da de que aqui lo que to das as ver sões têm em co mum
veio de fonte antiga, enquanto as partes divergentes são
acréscimos introduzidos por vários autores com a finali -
da de de em be le zar. Essa cir cuns tân cia, a meu ver, va lo -
ri za-as ain da mais, dado que en tão não po dem ser con -
si de ra das nem in ven ções, nem fru to da épo ca dos pró -
prios poetas, mas relíquias sagradas e brisas de tempos
melhores – recolhidas das tradições de países mais anti -
gos e so pra das pe las fla u tas e trom pas dos gre gos.
Não obs tan te, se al guém per sis tir em acre di tar que o
significado alegórico das fábulas não é de forma alguma
ori gi nal e au tên ti co – ou seja, que a fá bu la veio an tes e a
alegoria depois –, não insistirei; contudo, deixando-lhe
embora a satisfação de afetar um juízo tão grave (posto
que obtuso e frouxo), combatê-lo-ei em outro terreno,
se va ler a pena. As fá bu las têm-se pres ta do a dois usos
diferentes e, o que é estranho, a propósitos contrários:
elas iludem e escamoteiam, mas ao mesmo tempo es -
clarecem e ilustram. Para sustar polêmicas, deixemos
de par te o pri me i ro des ses usos e su po nha mos que as
fábulas eram criações sem propósito definido, elabora -
das ape nas por pra zer. Mas, e o se gun do uso? Ne nhum
raciocínio engenhoso nos fará ignorá-lo. Um homem de
faculdades medianas não negará que essa é uma aquisi -
ção grave e sóbria, isenta de vaidades; utilíssima às ciên -
ci as e às ve zes in dis pen sá vel a elas. Re fi ro-me à ado ção
das parábolas como método de ensino, graças ao qual
invenções novas e abstrusas, distantes do arrazoado
vulgar, encontram passagem fácil para o entendimento.
Por isso mes mo, nos tem pos re cu a dos, quan do as cri a -
ções e so lu ções da ra zão hu ma na (in clu in do as que hoje
são banais e consabidas) ainda eram novas e intrigan -
tes, o mun do an da va re ple to de toda a sor te de fá bu las,
enigmas, parábolas e símiles. Ora, tais criações não
eram usadas para obscurecer e ocultar significados, mas
como um meio de ex pli cá-los – pois o in te lec to hu ma no
mostrava-se então tosco e avesso às sutilezas que não
iam di re ta men te ao âma go do sen ti do (para não di zer
que era in ca paz de apre en dê-las). Assim como os hi e ró -
glifos vieram antes das letras, as parábolas vieram antes
dos ar gu men tos. E ain da hoje, se al guém qui ser lan çar
nova luz so bre um as sun to na men te hu ma na, sem
ofen sa ou as pe re za, deve ado tar o mes mo sis te ma e pro -
cu rar a aju da dos sí mi les.
Do que aí fi cou dito, con cluo o se guin te: a sa be do ria
das eras an ti gas foi imen sa ou afor tu na da; imen sa se, de
indústria, excogitou um disfarce ou tropo para o signifi -
cado; afortunada se, desinteressadamente, deu matéria
e ocasião a tantas contemplações meritórias. Minhas
penas, se para alguma coisa valerem, serão de qualquer
maneira recompensadas: estarei projetando luz sobre a
Antigüidade ou sobre a própria natureza.
Que o as sun to já foi es mi u ça do por ou tros, bem o
sei; mas, se ouso dizê-lo (e digo-o sem afe ta ção), os tra -
balhos até hoje feitos nesses moldes, embora extensos e
fatigantes, quase despojaram a investigação de toda a
sua beleza e valor. Homens inexperientes na matéria,
sabedores de pouco mais que trivialidades, aplicaram o
sentido das parábolas a certas generalizações e observa -
ções corrique iras, sem captar sua verdadei ra força, sua
adequação genuína e seu alcance profundo. Aqui, no
entanto, vereis (se não nos enganamos) que, embora os
temas sejam velhos, o tratamento é novo. Afastamo-nos
das planícies abertas e avançamos rumo a alturas mais
dis tan tes e mais no bres.
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Os tem pos mais re cu a dos (ex ce to os fa tos que le -
mos nas escrituras sagradas) estão envoltos em silêncio
e esquecimento. Ao silêncio da Antigüidade segui -
ram-se as fá bu las dos po e tas; é às fá bu las, os es cri tos
que possuímos. Assim, entre os recessos da Antigüida -
de e a me mó ria e evi dên cia dos sé cu los que se se gui ram,
des ceu como que um véu de len das, o qual se in ter pôs
en tre o que pe re ceu e o que sub sis tiu. Temo que, na
opinião de muitos, esteja me divertindo com um jogo,
usan do, para usur par as fá bu las, da mes ma li cen ça a
que os po e tas re cor re ram para in ven tá-las. E é bem ver -
da de que, se pu des se ali vi ar a ari dez de meus es tu dos
com a prática de semelhantes amenidades, para gáudio
pró prio ou alhe io, eu o fa ria. Não ig no ro quão fle xí vel é
a matéria da fá bu la, quão ma leá vel – e que, com um pou -
co de en ge nho e gar ru li ce, se lhe pode atribuir plausivel -
men te o que nun ca pre ten de ram di zer. Não me es que ço
também de que mu i to se abu sou des sas co i sas; com efe i -
to, para dar foros de venerável antigüidade a suas pró -
prias invenções e doutrinas, homens houve que distor -
ce ram as fá bu las dos po e tas em seu fa vor. Essa va i da de
não é nova nem rara, mas an ti ga e fre qüen te. Cri si po
outrora, interpretando os velhos poetas como se inter -
pretasse sonhos, fê-los filósofos estóicos. Mais absurda -
mente ainda, os alquimistas transferiram para suas ex -
periências de fornalha os passatempos e brincadeiras
dos poetas sobre as transmutações dos corpos. Tudo
isso argüí e ponderei, considerando ainda a leviandade e
a presteza com que as pessoas embalam sua imaginação
nas ale go ri as. Mas, ain da as sim, não pos so mu dar de
idéia. É que, para co me çar, não con vém per mi tir à li cen ça
e à insanidade de uns poucos conspurcarem a honra das
pa rá bo las em ge ral, já que isso se ria co i sa pro fa na e pe -
tu lan te. Uma vez que a re li gião se de le i ta nes ses véus e
sombras, removê-los impediria todo comércio entre o
humano e o divino. Mas falemos apenas da sabedoria
dos ho mens. Sem dú vi da – con fes so-o com can du ra –,
par ti lho da se guin te opi nião: por sob nú me ro não pe -
queno de fábulas dos poetas antigos jazem, desde o co -
me ço, um mis té rio e uma ale go ria. Bem pode dar-se que
meu gosto reverente pelos tempos recuados me haja le -
va do lon ge de ma is. A ver da de, po rém, é que em al gu -
mas des sas fá bu las, tan to na for ma e tex tu ra do re la to
quan to na ade qua ção dos no mes pe los qua is se dis tin -
guem os seus personagens, encontro uma conformidade
e uma conexão com a coisa significada, tão próximas e
tão notórias que a ninguém ocorreria negar-lhes inten -
cionalidade e reflexão: elas foram, desde o início, conce -
bi das de pro pó si to. Pois quem se ria tão in cré du lo e cego
à obviedade das coisas para, ouvindo que depois da
que da dos Gigantes a Fama sur giu como sua fi lha pós tu -
ma, não per ce ber de pron to que isso se re fe re à mur mu -
ração dos partidos e aos boatos sediciosos que sempre
circulam durante algum tempo depois da su pres são de
um mo tim? Quem, in te i ra do de que o gi gan te Tifão cor -
tou e le vou con si go os ten dões de Jú pi ter (os qua is Mer -
cúrio lhe rou bou para de vol vê-los ao pai), não ve ria logo
que o fato se re la ci o na a re be liões bem-sucedidas, pe las
qua is os reis têm cor ta dos, ao mes mo tem po, os “ten -
dões” do dinheiro e da autoridade? Pois não é sa bi do
que, mediante palavras sábias e éditos justos, os ânimos
dos súditos podem ser reconciliados, e por assim dizer
“roubados e devolvidos”, de sorte a recuperarem os reis
sua for ça? Ha ve rá quem, in for ma do de que na me mo rá -
vel cam pa nha dos de u ses con tra os gi gan tes o zur rar do
burro de Sileno pôs a es tes em fuga, não no ta rá que se me -
lhante episódio foi inventado em alusão às ambiciosas
tentativas dos rebeldes, dissipadas como geralmente o
são por fal sos bo a tos e vãos ter ro res? Ora, exis tem tam -
bém conformidade e significação nos próprios nomes,
evidentes a todos. Métis, consorte de Júpiter, significa
claramente prudência; Tifão, arrogância; Pã, o universo;
Nê me se, vin gan ça, e por aí além. Mas não encontramos,
aqui e ali, inserções de fragmentos de histórias reais, por -
meno res acrescentados à gui sa de or na men to, épo cas
confundidas, pedaços de uma fábula enxertados em outra
e uma nova alegoria introduzida? Tais coisas não pode -
riam deixar de produzir-se em histórias inventadas
(como es tas) por ho mens que vi ve ram em di fe ren tes épo -
cas e que tinham diferentes objetivos – sendo alguns mais
modernos, ou tros mais an ti gos, uns pro pen sos à fi lo so -
fia, ou tros à po lí ti ca. Assim, que isso não nos per tur be.
Há, po rém, ou tro in dí cio, e não dos mais des pre zí ve is,
de que tais fá bu las con têm um significado oculto e implí -
ci to: é que al gu mas de las são tão ab sur das e tão nés ci as,
se nos ativermos simplesmente ao relato, que é de crer
estejam anunciando alguma coisa de longe, proclaman do
que tra zem em si uma pa rá bo la. Por quan to uma fá bu la
verossímil talvez tenha sido composta por simples des -
fas tio, à imi ta ção da his tó ria; mas, ante uma nar ra ti va
que homem nenhum poderia ter concebido ou propalado,
podemos presumir que dissimula alguma outra inten -
ção. Que dizer desta invencionice: Júpiter toma Métis
por es po sa; logo que a vê grá vi da, de vo ra-a; ei-lo grá vi do,
ele pró prio – e a par te jar, de sua ca be ça, Palas inteira -
mente armada!? Penso que ninguém teve jamais sonho
tão monstruoso e extravagante, inteiramente alheio às
formas naturais do pensamento.
Mas a con si de ra ção que mais peso tem para mim é
que pou cas des sas fá bu las, tais qua is as en ca ro, fo ram
realmente inventadas pelos bardos que as recitaram e
celebrizaram – Homero, Hesíodo e os outros. Houves -
sem elas sido fru to da que les tem pos e da que les au to res,
por cujo in ter mé dio che ga ram até nós, eu não me da ria
o trabalho de esmiuçar grandeza ou majestade em se -
melhantes fontes. Todavia, a um escrutínio atento, per -
cebemos que foram divulgadas não como invenções
inéditas, mas como histórias cridas e consabidas. E,
uma vez que são contadas de diferentes maneiras por
escritores quase contemporâneos, percebe-se com faci -
li da de que aqui lo que to das as ver sões têm em co mum
veio de fonte antiga, enquanto as partes divergentes são
acréscimos introduzidos por vários autores com a finali -
da de de em be le zar. Essa cir cuns tân cia, a meu ver, va lo -
ri za-as ain da mais, dado que en tão não po dem ser con -
si de ra das nem in ven ções, nem fru to da épo ca dos pró -
prios poetas, mas relíquias sagradas e brisas de tempos
melhores – recolhidas das tradições de países mais anti -
gos e so pra das pe las fla u tas e trom pas dos gre gos.
Não obs tan te, se al guém per sis tir em acre di tar que o
significado alegórico das fábulas não é de forma alguma
ori gi nal e au tên ti co – ou seja, que a fá bu la veio an tes e a
alegoria depois –, não insistirei; contudo, deixando-lhe
embora a satisfação de afetar um juízo tão grave (posto
que obtuso e frouxo), combatê-lo-ei em outro terreno,
se va ler a pena. As fá bu las têm-se pres ta do a dois usos
diferentes e, o que é estranho, a propósitos contrários:
elas iludem e escamoteiam, mas ao mesmo tempo es -
clarecem e ilustram. Para sustar polêmicas, deixemos
de par te o pri me i ro des ses usos e su po nha mos que as
fábulas eram criações sem propósito definido, elabora -
das ape nas por pra zer. Mas, e o se gun do uso? Ne nhum
raciocínio engenhoso nos fará ignorá-lo. Um homem de
faculdades medianas não negará que essa é uma aquisi -
ção grave e sóbria, isenta de vaidades; utilíssima às ciên -
ci as e às ve zes in dis pen sá vel a elas. Re fi ro-me à ado ção
das parábolas como método de ensino, graças ao qual
invenções novas e abstrusas, distantes do arrazoado
vulgar, encontram passagem fácil para o entendimento.
Por isso mes mo, nos tem pos re cu a dos, quan do as cri a -
ções e so lu ções da ra zão hu ma na (in clu in do as que hoje
são banais e consabidas) ainda eram novas e intrigan -
tes, o mun do an da va re ple to de toda a sor te de fá bu las,
enigmas, parábolas e símiles. Ora, tais criações não
eram usadas para obscurecer e ocultar significados, mas
como um meio de ex pli cá-los – pois o in te lec to hu ma no
mostrava-se então tosco e avesso às sutilezas que não
iam di re ta men te ao âma go do sen ti do (para não di zer
que era in ca paz de apre en dê-las). Assim como os hi e ró -
glifos vieram antes das letras, as parábolas vieram antes
dos ar gu men tos. E ain da hoje, se al guém qui ser lan çar
nova luz so bre um as sun to na men te hu ma na, sem
ofen sa ou as pe re za, deve ado tar o mes mo sis te ma e pro -
cu rar a aju da dos sí mi les.
Do que aí fi cou dito, con cluo o se guin te: a sa be do ria
das eras an ti gas foi imen sa ou afor tu na da; imen sa se, de
indústria, excogitou um disfarce ou tropo para o signifi -
cado; afortunada se, desinteressadamente, deu matéria
e ocasião a tantas contemplações meritórias. Minhas
penas, se para alguma coisa valerem, serão de qualquer
maneira recompensadas: estarei projetando luz sobre a
Antigüidade ou sobre a própria natureza.
Que o as sun to já foi es mi u ça do por ou tros, bem o
sei; mas, se ouso dizê-lo (e digo-o sem afe ta ção), os tra -
balhos até hoje feitos nesses moldes, embora extensos e
fatigantes, quase despojaram a investigação de toda a
sua beleza e valor. Homens inexperientes na matéria,
sabedores de pouco mais que trivialidades, aplicaram o
sentido das parábolas a certas generalizações e observa -
ções corrique iras, sem captar sua verdadei ra força, sua
adequação genuína e seu alcance profundo. Aqui, no
entanto, vereis (se não nos enganamos) que, embora os
temas sejam velhos, o tratamento é novo. Afastamo-nos
das planícies abertas e avançamos rumo a alturas mais
dis tan tes e mais no bres.
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