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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A Dádiva

Autor: Toni Morrison
Título Original: A Mercy (2008)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 137
ISBN: 9789722342384
Tradutor: Fernanda Pinto Rodrigues

Sinopse: Da autoria da primeira mulher negra a ser distinguida com o Prémio Nobel da Literatura (1993), A Dádiva é um romance extraordinário que se passa na América do Norte de finais do século XVII. Profundas divisões sociais e religiosas, opressões e preconceitos exacerbados propiciam o cenário ideal para a implantação da escravatura e do ódio racial. Jacob Vaark é um comerciante anglo-holandês que apesar de se manter à parte do negócio dos escravos, que então dá os primeiros passos, acaba por aceitar uma menina negra, Florens, como pagamento de uma dívida de um fazendeiro de Maryland. Nesta parábola do nascimento traumático dos Estados Unidos, Morrison revela-nos o que se esconde sob a superfície de qualquer tipo de sujeição, incluindo a da paixão, e o quanto essa falta de liberdade é nociva para a alma.

Opinião
Já vinha com alguma curiosidade para conhecer a obra de Toni Morrison, a primeira escritora negra a ser distinguida, em 1993, com o Prémio Nobel da Literatura, pelos elogios da crítica, um pouco por todo o mundo, e também, por exemplo, António Lobo Antunes, que se confessou admirador da sua obra no livro de entrevistas com João Céu e Silva; por isso foi com imenso interesse que comecei a ler “ A Dádiva”.

Logo nas primeiras páginas somos conquistados pela sua escrita belíssima e ao longo do livro percorremos de forma encantadora a estória de uma escrava que é vendida, pela sua mãe, a um fazendeiro que iria mudar a sua vida.

O livro percorre ainda a história da América no século XVII, as divisões sociais e religiosas, entre os brancos e os negros, a escravatura, os ódios e amores de uma sociedade onde os negros são maltratados e vitimas de opressões e preconceitos vários.

É sobretudo um livro que cativa o leitor, onde se percorre as suas palavras belas, onde somos confrontados com algumas frases de cortar a respiração de tanta beleza nelas inseridas; reli algumas partes, apenas pelo prazer de ler uma escrita encantadora.

Apesar de ser pequeno, é um livro com uma grandiosidade imensa. Houve momentos em que andava indeciso entre ler depressa ou gozar com calma a leitura de páginas tão bonitas.

Toni Morrison ficará como uma escritora que quero imenso conhecer o resto da sua obra; se os seus romances tiverem o valor igual ou equivalente a este pequeno livro, então a autora americana será das melhores romancistas da história da Literatura.

9/10 - Excelente

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Amor e Guloseimas

Autor: Kate Jacobs
Título Original: Comfort Food (2008)
Editora: Porto Editora
Páginas: 352
ISBN: 9789720045072
Tradutor: Isabel Alves

Sinopse
Prestes a completar cinquenta anos, Augusta "Gus" Simpson, a popular apresentadora de Cozinhar com Gusto!, dá consigo a planear um aniversário que preferiria ignorar - o seu. Está a ficar cansada de ser a anfitriã perfeita, a mãe-galinha, a mulher que é sempre o porto de abrigo para todos os que a rodeiam. Para piorar as coisas, a sua carreira corre perigo - o canal de televisão quer aumentar as audiências do programa e para isso vai buscar a bela e ambiciosa Carmen Vega, ex-Miss Espanha, que depressa se transformará na nova menina bonita da culinária.
Mas Gus não vai desistir sem dar luta - e a temperatura vai subir, no estúdio e fora dele. Porque ela percebe que poderá não só rejuvenescer a sua carreira como melhorar a sua vida familiar - e talvez mesmo a sua vida amorosa.

Opinião
Amor e Guloseimas é o último livro da escritora americana Kate Jacobs, que já tinha sido publicada em Portugal com o livro O Clube de Tricô de Sexta à Noite (cuja adaptação ao cinema, com a participação de Julia Roberts, se prevê estrear em 2010).

A personagem principal deste Amor e Guloseimas é Gus Simpson, uma mulher prestes a chegar aos 50 anos, que dedica a sua vida, há década e meia, à culinária e ao programa televisivo Cozinhar com Gusto!. No entanto, as audiência estão a baixar e, para além da crise de meia-idade e dos problemas das suas duas filhas, Gus vê-se a braços com a perspectiva de ter de partilhar o seu programa com um novo valor do mundo da cozinha, Carmen Vega, que se transforma rapidamente na sua rival.

É uma história divertida a espaços, mas que fala essencialmente sobre mudanças e sobre a forma como lidamos com elas. Nunca é tarde para mudar, aprender, evoluir. Por vezes um pouco previsível, mas não tanto como se poderia supor à partida, este livro acaba por se transformar numa leitura agradável em que as páginas facilmente se voltam. Confesso que gostei de acompanhar as aventuras desta família e as várias referências à comida revelam-se ideais para confortar estes dias mais frios.

7/10 - Bom

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

As Obras-Primas de T.S. Spivet

Autor: Reif Larsen
Título Original: The Selected Works of T.S. Spivet (2009)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 396
ISBN: 9789722342568
Tradutor: Alice Rocha

Sinopse
Este romance de estreia, de características invulgares, apresenta-nos Tecumseh Sparrow Spivet, um rapazinho de 12 anos que tenta submeter os enigmas da vida, às configurações de mapas variados, que vai organizando por temas nas paredes do seu quarto. Este cartógrafo genial consegue mesmo colaborar em publicações científicas, sem revelar a sua idade. Um dia é surpreendido por um telefonema anunciando-lhe a atribuição de um importante prémio. Spivet terá de partir sem que ninguém saiba, numa longa e solitária travessia da América. O livro reproduz os fascinantes desenhos, nota e mapas, do jovem cientista.

Opinião
As Obras-Primas de T.S. Spivet é um exemplo típico da aplicação do famoso ditado "os olhos também comem", porque estamos perante uma edição fantástica e que raramente vemos por cá. O livro tem um formato mais "quadrado" que o habitual, para dar espaço às inúmeras notas laterais que o livro contem e que reclamam para si grande parte do apelo visual desta edição. Mas, para além das notas, é de louvar a encadernação de capa dura e todo o aspecto gráfico do livro. Aqui ficam umas fotos para ficarem com uma ideia melhor em relação ao que afirmei (cliquem para aumentar):








Passando à história que este livro nos traz: o protagonista e narrador é Tecumseh Sparrow Spivet, um jovem de 12 anos que vive com os pais e a irmã num rancho do Montana e que se trata de uma criança com características muito peculiares, sendo a principal o facto de gostar de cartografar tudo, tanto séries de lençóis freático como o grau de regularidade com que o seu pai dá golos num copo de whiskey. T.S. é um jovem com uma mente prodigiosa e este livro reflecte muito bem a sua personalidade. Nem sempre é fácil encarar como verosímil um cientista tão jovem ter uma linguagem tão prolífica e um conhecimento tão vasto, mas, afinal de contas, estamos perante um prodígio. Por causa disso, T.S. colaborava frequentemente com as publicações do Smithsonian, entre outras prestigiadas revistas, e no início desta história recebe um telefonema de um responsável desta instituição, que desconhece a sua idade e que deseja comunicar-lhe que venceu um importante prémio no campo da ciência, convidando-o a ir a Washington D.C. recebê-lo. Depois de pensar no assunto, T.S. decide aceitar o convite e partir para uma viagem solitária e furtiva dentro de um comboio que irá atravessar o país numa viagem de mais de 3.000 km. Antes da viagem, T.S. roubou um caderno da sua mãe, na qual ficará a conhecer a história de uma antepassada, mulher pioneira no campo da ciência.

As notas laterais são um complemento especial e essencial ao centro da história, mas poderão distrair o leitor do enredo principal caso o nível de concentração não seja elevado, pelo que é importante que estejamos atentos e que sigamos com atenção a narrativa de T.S., até porque ele própria salta constantemente entre vários assuntos. Apesar disso, foi com entusiasmo que segui esta história e me apaixonei pela peculiaridade do seu protagonista.

Há secções verdadeiramente maravilhosas, espelho de uma mente brilhante e diferente de tudo o que tinha lido até hoje, e essa foi uma característica que o autor manteve, e bem, do início ao fim do livro. O que na minha opinião não se manteve constante foi a fluidez e o interesse do enredo, que vai perdendo algum fôlego à medida que avançamos na história, mas mesmo assim tratou-se de uma viagem  muito agradável que fiz com o pequeno T.S. Vale pela edição fantástica e pela peculiaridade e originalidade da personagem e da escrita. Fico muito curiosa para conhecer livros futuros deste autor.

8/10 - Muito Bom

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Santuário Perdido

Autor: Raymond Khoury
Titulo Original: Sanctuary
Editor: Editorial Presença
Páginas: 416
ISBN: 9789722342483
Tradutor: Fátima Andrade

Sinopse: "Três acontecimentos, aparentemente isolados, dão o mote para este thriller cheio de acção e referências históricas. Nápoles, Novembro de 1749: um homem é atacado a meio da noite por estar na posse de um segredo que consumiu toda a sua vida. Bagdade, Abril de 2003: um batalhão do exército norte-americano descobre um cenário macabro na cave de um homem conhecido por hakeem, o médico. Sul do Líbano, Outubro de 2006: a arqueóloga Evelyn Bishop é raptada pouco depois de ter visto as fotos de uma série de valiosas antiguidades. Em O Santuário Perdido, Khoury relata-nos a tortuosa investigação em que Mia se envolve para descobrir o misterioso desaparecimento da mãe, Evelyn Bishop, e desvendar uma conspiração que atravessa os tempos."

Opinião: As intrigas que misturam História com suspense sempre me atraíram, pelo que O Santuário Perdido não foi excepção. Dado que já tinha lido outra obra do autor (Scriptum - O Manuscrito Secreto), este estava mais do que bem referenciado. Porém, para o bem e para o mal, e como todos nós sabemos, não existem dois livros iguais.

O reaparecimento de um estranho símbolo antigo desencadeia a acção da história. As origens do mesmo e a razão pela qual atrai tantos olhares e interesses levam o leitor a percorrer, em simultâneo, três períodos históricos e vários países. A narrativa começa no passado distante, mas é, em 2006, com o desaparecimento de uma arqueóloga que entramos verdadeiramente na trama, descobrindo um rol de personagens intrigantes. Todas têm um lado obscuro que, ao longo das páginas, vai sendo explicado. Por vezes, diga-se, demasiado explicado, perdendo-se o fio à meada e prejudicando o desenvolvimento da acção.

Esta obra é, sem dúvida, o resultado de uma grande e exaustiva pesquisa por parte do autor Raymond Khoury, não só sobre o símbolo em causa, mas também sobre o quadro político-social em que decorre a acção principal. Daí que o livro esteja pejado de magníficas descrições que, de certo, contrabalançam com a vivacidade e suspense da trama policial. Num momento, sentimo-nos encurralados, noutro experienciamos culturas diferentes da nossa.

Numa análise muito pessoal, acho que falta a esta obra emoção e a ligação das personagens com o leitor falha por completo. São planas, simples, sem paixão. Por outro lado, é rica em conhecimentos sobre temas que, entretanto, surgem associados ao símbolo de que trata a obra. No geral, fiquei com a sensação de que este livro não me deixa saudades.

5/10 - Razoável

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Processo

Autor: Franz Kafka
Título Original: Der Proceb (1925)
Editora: Assírio & Alvim
Páginas: 314
ISBN: 972-37-0515-X
Tradutor: Álvaro Gonçalves


Sinopse: Um belo dia, Joseph K., um bem sucedido gerente bancário, é subitamente preso no seu próprio quarto, sem saber porquê nem por quem. Vê-se então envolvido num labiríntico e absurdo processo que decorre secretamente algures nas secretarias instaladas nos sótãos e é conduzido por juízes menores, que têm a mera incumbência de o inquirir.
Concebido em 1914 (na sequência do doloroso rompimento do noivado com Felice Bauer), de uma forma fragmentária, com capítulos completos e outros por completar, passíveis de serem facilmente deslocados dentro de uma estrutura circular, o romance O Processo — que é em si também um fragmento — constitui para Kafka a forma ideal para expressar a fragmentação do mundo e da realidade em que vive o homem moderno. Nesta perspectiva, O Processo representa um marco na história do romance moderno.
A versão que se apresenta aqui é a tradução directa do texto alemão baseado nos manuscritos de Kafka, que anula todas as alterações introduzidas pelo amigo e testamenteiro Max Brod, na sua primeira edição de 1925.

Existem livros, os também chamados de “clássicos” que mesmo que não os tivéssemos lido, já todos ouvimos falar e quase sabemos a história de cor. “O Processo”, de Franz Kafka , é um deles: já todos ouvimos falar do livro que deu origem ao “processo kafkaniano”, um processo onde a vítima se vê envolvida, e é condenada, sem saber o porquê e de que trata a tal condenação.

Neste livro, Kafka cria a história de um homem, gerente bancário, que no dia do seu aniversário é, no seu próprio quarto, feito prisioneiro. Sem que lhe dêem explicações para o sucedido, o homem é levado a tribunal, estando, como vamos entretanto percebendo, logo condenado à partida, quase sem hipóteses de defesa.

Nas páginas seguintes, acompanhamos Joseph K. tentando defender a sua inocência, ao mesmo tempo que tenta descobrir o motivo de tal processo e do seu envolvimento, uma busca que apenas o levará a um beco sem saída.

O livro funciona como um espelho da sociedade naquele tempo, e dos tempos seguintes. Kafka conseguiu criar um livro intemporal, em que durante as gerações futuras as suas páginas nunca envelheceram, nem ficaram desactualizadas.

Posteriormente, Kafka ainda cria as páginas “Fragmentos”, pequenos contos que, embora estejam à parte da história principal, têm a mesma personagem e são pequenas histórias de uma personagem que ficou no imaginário da história da Literatura. Joseph K, a par de muitas outras, estará sempre na história da Literatura como das melhores personagens mais importantes criadas por um escritor.

Foi o meu primeiro livro de Kafka, adorei a maneira como escreve e certamente será um escritor a revisitar a sua obra muito brevemente.

10/10 - Obra-prima

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Mundo Invisível


Autor: Shamim Sarif
Título Original: The World Unseen (2001)
Editora: Contraponto
Páginas: 272
ISBN: 9789896660222
Tradutor: Tânia Ganho

Sinopse
África do Sul. 1950. As primeiras leis raciais do apartheid começam a ser implementadas. Amina é uma jovem de espírito livre que desafiou as convenções da comunidade indiana em que cresceu e decidiu trabalhar por conta própria. É dona de um café, um sítio cheio de boa disposição, música, comida caseira… e mistura de raças. O seu sócio é negro, a sua empregada é mestiça, a clientela é de todas as cores e feitios – e Amina tem muitas vezes de subornar a polícia para conseguir manter o café aberto.
Miriam é uma jovem indiana mãe de família, tradicional e subserviente. O seu casamento foi combinado pela família e ela faz todos os possíveis para manter um bom ambiente em sua casa – apesar dos acessos de raiva do marido.
Quando estas duas mulheres se conhecem, o encontro entre os seus dois mundos vai transformar as suas vidas…

Opinião
Shamim Sarif é uma escritora inglesa, com raízes indianas e sul-africanas. Para além de escrever, é também realizadora e argumentista, tendo adaptado este "O Mundo Invisível" ao grande ecrã no decorrer do ano passado. A sua forte ligação com a África do Sul inspirou-a a escrever este livro, cuja história decorre no início da década de 50 do século passado, poucos anos após a implementação do apartheid. Para quem não está muito a par deste conceito, tratou-se de um regime implementado na África do Sul em 1948, sustentado pela lei, e que consistia numa série de regras que davam o poder aos brancos e remetiam os restantes povos a uma existência separada, completamente desprovida da maioria dos direitos que, nos dias de hoje, consideramos fundamentais para a existência da igualdade.

Neste contexto, vamos seguindo a história de duas mulheres: Amina e Miriam. As duas têm raízes indianas e, por isso, são vítimas das rígidas leis que a implementação do apartheid trouxe consigo. Amina é uma jovem independente, "maria-rapaz", que gere um café (em parceria com o seu amigo Jacob) e que tenta levar a sua vida o mais longe possível de toda a segregação que vê à sua volta. Miriam é uma dona-de-casa, mãe de 3 filhos, no seio de uma família conservadora, que se casou com Omar porque a sua família assim o entendeu. O encontro entre estas duas mulheres vai fazer com que Miriam comece a perceber que fazer as coisas de determinada forma apenas porque é aquilo que dela esperam pode, na maioria das vezes, não ser motivo suficiente para o fazer. O livro aborda também o assunto tabu (infelizmente, continua a sê-lo nos dias de hoje) do amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Mas isso é um detalhe irrelevante: o que é importante reter é que, independentemente de idades, sexos, raças ou religiões, o amor não deve conhecer barreiras.

Este livro teve o condão de me fazer interessar pelo que se passou na África do Sul na segunda metade do século XX (o apartheid foi apenas legalmente abolido em 1994), a tentar compreender o que leva alguém - ou um grupo de pessoas - a definir legalmente, entre outras coisas, quem se pode ou não amar. Sou da opinião que, para enfrentarmos o futuro, temos de compreender o passado. E analisar o apartheid permite-nos não só encarar extremos inconcebíveis da segregação racial, mas também perceber que a raiz da discriminação (seja ela de que natureza for) é algo que está presente no ser humano quase desde sempre. Felizmente, nos dias que correm muitas destas coisas deixaram de fazer qualquer sentido, mas continuam a existir racistas, homofóbicos e pessoas que não param um segundo para pensar que todos deveríamos ter os mesmos direitos

"O Mundo Invisível" é um livro bem escrito, com uma história cativante, que leva o leitor a folhear página atrás de página levado pela curiosidade do que vai acontecer e de como irá a história terminar. A questão é que ela não chega realmente a terminar... O final aberto deixa à imaginação do leitor o destino das personagens cuja vida acompanhou durante algum tempo. Não sou grande fã de finais abertos, mas compreendo a intenção da autora ao querer que este relato fosse uma "fotografia" da vida destas duas mulheres, durante um determinado espaço de tempo. O certo é que foi uma leitura que me deu prazer, que me fez pensar, que me fez aprender. Altamente recomendado.

9/10 - Excelente

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Canção do Dragão

Autor: Anne McCaffrey
Título Original: Dragonsong (1976)
Editora: Gailivro
Páginas: 218
ISBN: 9789895576845
Tradução: CEQO - Tradução, Consultoria Linguística e Ensino

Sinopse
Durante séculos, o mundo de Pern enfrentou uma força destrutiva, conhecida por Fios. Porém, os magníficos dragões que sempre protegeram Pern, assim como os homens e as mulheres que neles voavam, começaram a escassear. À medida que cada vez menos dragões deslizam pelos ares e a destruição insiste em cair do céu, Menolly, uma rapariga de quinze anos, tem apenas um sonho: cantar, tocar e compor a música que lhe é tão familiar - deseja tornar-se Harpista. Mas, apesar do seu grande talento, o pai acredita que uma rapariga não merece ocupar uma posição tão respeitada e proíbe-a de seguir os seus sonhos.
Menolly foge e depara-se com nove lagartos-de-fogo que poderão salvar o seu mundo… e mudar a sua vida para sempre.

Opinião
"A Canção do Dragão" é o primeiro livro de uma nova trilogia, O Salão do Harpista, que decorre em Pern, à semelhança dos anteriores livros da Anne McCaffrey publicados pela Gailivro ("O Voo do Dragão", "A Demanda do Dragão" e "O Dragão Branco"). Em termos temporais, "A Canção do Dragão" decorre na mesma altura de "A Demanda do Dragão" e partilha a cena da eclosão dos dragões, em que Jaxom impressiona Ruth, o dragão branco (par que iremos conhecer melhor em "O Dragão Branco").

Neste livro, de tom marcadamente mais juvenil que os anteriores, vamos encontrar Menolly num dos Domínios subordinados ao Weyr de Benden. Menolly é uma jovem muito dotada musicalmente, aprendiz do Harpista Petiron, que sempre encorajou o seu talento. Quando este morre, Menolly vê-se subitamente proibida pelo seu pai de tocar e cantar e para se livrar desta opressão começa a vaguear por sítios fora do Domínio do Mar. Num desses "passeios" e por força de mais uma queda de Fios, Menolly encontra uma ninhada de lagartos-de-fogo, que irão ajudá-la a compreender o que verdadeiramente deseja para a sua vida.

Foi agradável regressar a Pern nesta pequena história, mas confesso que senti falta da presença dos dragões e dos seus cavaleiros (apesar dos aparecimentos esporádicos) e a partir do momento em que Menolly se desloca para o Weyr de Benden, a história ganhou um novo alento e emoção. Foi bom rever Lessa e a sua rainha Ramoth, bem como toda a dinâmica no Weyr de Benden. É um bom complemento à trilogia já publicada, mas julgo que, pelo menos este livro, não consegue proporcionar o mesmo nível de emoção apresentado anteriormente. Ainda assim, aguardo com curiosidade pela publicação do 2.º volume desta trilogia, "A Cantora dos Dragões".

Uma nota final relativa à tradução: alguns termos próprios do universo de Pern foram, neste livro, traduzidos de forma diferente dos livros anteriormente publicados. Por exemplo, zona intermédia passa a meio e Cidadela passa a Domínio. Fica a sugestão de uniformização destas (e outras) expressões em edições/publicações futuras.

7/10 - Bom

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Porta dos Infernos

Autor: Laurent Gaudé
Título Original: La Porte des Enfers (2008)
Editora: Porto Editora
Páginas: 240
ISBN: 9789720042828
Tradutor: Isabel St. Aubyn

Sinopse
A caminho da escola, levado pela mão do pai, Pippo é atingido por uma bala perdida no meio de uma refrega das máfias de Nápoles. Matteo e Giuliana, os pais, passam a viver obcecados pela vingança - mas Matteo não consegue a coragem necessária para abater Cullaccio, o responsável pela morte do seu filho.
Abandonado pela mulher, Matteo vagueia pela noite de Nápoles, onde travará conhecimento com um conjunto de personagens estranhos: Grace, um travesti felliniano, Garibaldo, dono de um café que permanece aberto toda a noite, o velho padre Mazerotti e o professore Provolone, um especialista em questões esotéricas que lhes garante que é possível descer aos Infernos e que conhece, na própria Nápoles, uma das entradas possíveis.
Acompanhado do padre, Matteo aventura-se então nas entranhas do Reino dos Mortos em busca do seu filho perdido...

Opinião
"A Porta dos Infernos" é o mais recente livro do escritor francês Laurent Gaudé, tendo vencido o Prémio Goncourt em 2004. Deste autor, já foram também traduzidos em Portugal, os livros Noite Dentro, Moçambique e Outras Narrativas, O Sol dos Scorta, Eldorado e A Morte do Rei Tsongor (todos das Edições ASA).

Neste livro, seguimos duas linhas temporais: 1980, quando Pippo foi atingido acidentalmente por uma bala, e todos os acontecimentos que lhe sucederam, nomeadamente a dor dos seus pais, a partida de Giuliana e a descida de Matteo ao Inferno para resgatar o filho; 2002, quando Pippo persegue o homem que o baleou para poder, finalmente, conseguir vingar os acontecimentos de há 22 anos.

Esta é uma história que fala sobre o efeito devastador que a morte de um ente querido pode ter na vida das pessoas. Não pretende ensinar-nos a lidar com a dor, antes descreve a eterna vontade que temos de poder voltar a rever quem perdemos e de, muitas vezes, reparar a injustiça que essa impossibilidade traz consigo. É uma história forte, cheia de momentos de reflexão a juntar a elementos fantásticos/de terror. A descida ao Inferno é particularmente impressionante, e apresenta uma visão muito negativa da transição das almas para a paz eterna.

Gostei bastante da escrita de Laurent Gaudé, da forma e carácter que deu às suas personagens. A única crítica que posso fazer-lhe é que gostaria que o livro tivesse sido um pouco mais desenvolvido, em especial no que se refere às personagens secundárias. De resto, bastante recomendado.

8/10 - Muito Bom

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Aliança das Trevas

Autora: Anne Bishop
Título Original: The Shadow Queen (2009)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 336
ISBN: 9789896371692
Tradutor: Cristina Correia

Sinopse
A ex-rainha Bhak é agora apenas Cassidy, uma habitante de Dharo que perdeu o seu privilégio após a sua corte ter preferido servir a deslumbrante e bem relacionada Kermilla. Numa terra dizimada pelo seu passado - em tempos governada por rainhas corruptas que foram banidas após uma vaga de destruição e violência - o Príncipe Senhor da Guerra Theran Grayhaven, procura uma parceira para o ajudar a restaurar a sua terra e a sua linhagem. O seu povo vive sem líder e sem esperança e precisa de uma rainha que se recorde do código de honra e dos costumes antigos. Com a ajuda de Saetan - Senhor do Inferno - Theran descobre Cassidy, que parece ser a mulher ideal. Tudo parece bem até que o casal se depara com as suas incompatibilidades e Cassidy conhece um misterioso servente que apela ao seu coração. Será Cassidy forte o suficiente para convencer um povo amargurado a servir novamente uma rainha?

Opinião
Aliança das Trevas é mais um livro decorrido no mundo das Jóias Negras, que Anne Bishop celebrizou com a trilogia original, composta por Filha do Sangue, Herdeira das Sombras e Rainha das Trevas. A história presente neste livro decorre dois anos após os acontecimentos relatados no último livro da trilogia e relaciona-se também com Anel Oculto, uma vez que as personagens da família Grayhaven são descendentes de Jared e Lia, os protagonistas desse livro.

Neste livro, regressamos a Dena Nehele (em Terreille) e percebemos que depois da destruição causada por Jaenelle, continua a ser uma terra cheia de conflitos entre os Sangue e os plebeus. Theran Greyhaven, cada vez mais preocupado com todos estes problemas, decide recorrer a Daemon Sadi para o ajudar a encontrar uma Rainha e tentar serenar os ânimos. A sugestão de Jaenelle, é Cassidy, uma Rainha anteriormente rejeitada pela sua corte, quem se dirige a Dena Nehele para ocupar o cargo, preparada para enfrentar todas as dificuldades.

Como já disse anteriormente, cada novo livro decorrido neste mundo criado por Anne Bishop é como reencontrar velhos amigos. Este não foi excepção, pois voltamos a ter a companhia de Saetan e dos seus filhos Daemon e Lucivar, bem como de Jaenelle. A adaptação de Cassidy à sua nova corte e todos os desafios que irá encontrar é entrelaçada com o dia-a-dia da vida das personagens já nossas conhecidas, com particular destaque para as recordações do passado que continuam a assolar Daemon e Saetan que, neste livro, dão mais alguns passos rumo à recuperação.

Adoro este mundo, estas personagens e a escrita da Anne Bishop, sempre carregada de humor, sensualidade e, quando é necessário, violência. Gosto da forma como a autora está a explorar novas personagens e enredos no mundo que os fãs tanto gostam, sem abandonar as personagens que todos adoramos. Aliança das Trevas é indispensável a todos os fãs da autora!

8/10 - Muito Bom

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A Melodia do Adeus

Autor: Nicholas Sparks
Título Original: The Last Song (2009)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 368
ISBN: 9789722342209
Tradutor: Alice Rocha

Sinopse
Com apenas dezassete anos, Verónica Miller, ou "Ronnie" como carinhosamente a tratam, vê a sua vida virada do avesso quando o casamento dos pais chega ao fim e o pai se muda da cidade de Nova Iorque para uma pequena cidade costeira na Carolina do Norte. Três anos não são suficientes para apaziguar o seu ressentimento, e quando passa um Verão na companhia do pai, Ronnie rejeita com rebeldia todas as suas tentativas de aproximação, ameaçando antecipar o seu regresso a Nova Iorque. Mas será na tranquilidade que envolve o correr dos dias em Wrightsville Beach que "Ronnie" irá descobrir a beleza do primeiro amor, quando conhece Will, e vai afrouxando, uma a uma, todas as suas defesas, deixando-se tomar por uma paixão irrefreável e de efeitos devastadores. Nicholas Sparks é, como sabemos, um mestre da moderna trama amorosa e, neste livro, usa de extrema sensibilidade para abordar a força e a vulnerabilidade que envolvem o primeiro encontro com o amor e o seu imenso poder para ferir... e curar.

Opinião
"A Melodia do Adeus" é o mais recente livro de Nicholas Sparks, autor de quem já tive oportunidade de ler vários livros, dos quais destaco "O Diário da Nossa Paixão", que foi o meu preferido. Este livro foi escrito simultaneamente com o argumento do filme The Last Song, que conta com a participação de Miley Cyrus, estando a sua estreia prevista para 2010.

Ronnie e Jonah, o seu irmão mais novo, moram em Nova Iorque com a mãe, mas durante as férias de Verão rumam ao sul para passar algum tempo com o pai. Ronnie não falava com o pai há 3 anos, quando os pais se separaram, e por isso não encara esta viagem e estadia de forma muito entusiasmada. No entanto, depois de alguns dias em Wrightsville Beach, depois de conhecer Will e de começar a melhorar a relação com o pai, percebe que afinal as suas férias de Verão não irão ser tão más como esperava.

Apesar de ser um autor pouco amado pelos críticos literários profissionais, a verdade é que cada lançamento novo de Nicholas Sparks é, invariavelmente, um sucesso de vendas, porque há muitos leitores que, mais que um livro bem escrito, procuram um livro que os emocione. Não é um grande escritor, mas também não é com essa expectativa que se deve partir para os seus livros. Deve-se, sim, partir com a expectativa de encontrar um livro que fala sobre sentimentos, sobre relações humanas e que, neste caso, consegue emocionar o leitor ao ponto de ser preciso ir buscar uns lencinhos para conter as lágrimas na parte final.

É um livro que fala não só do amor na adolescência, mas principalmente do amor entre pais e filhos, e acho que isso foi muito bem conseguido, especialmente na recta final. Contudo, achei que nos primeiros dois terços do livro houve partes demasiado longas e duas linhas de enredo em destaque (relacionadas com duas personagens secundárias) que foram praticamente esquecidas no último terço para dar primazia à linha principal da história.

No entanto, com todas as falhas que possa apresentar, foi um livro que li quase sempre com vontade, que me emocionou e cuja leitura recomendo a quem gosta do género.

7/10 - Bom

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

As Atribuações de Jacques Bonhomme

Autor: Telmo Marçal
Editora: Gailivro
Páginas: 279
ISBN: 9789895576760

Sinopse
O primeiro contacto com a prosa eficiente e económica, directa, de Telmo Marçal introduz-nos de, forma imediata, nas regras do mundo em que viemos cair: Estamos realmente na jaula da fera encurralada, mas eis que, afinal, somos nós essa fera.
(…) Há, no entanto, um motivo legítimo para entrarmos assim incautos: não temos por hábito encontrar este tipo de prosa esta forma de pensarmos o mundo, na nossa literatura portuguesa.
(…) Somos perfeitos na caricatura mordaz. Mas quando se trata de construir mundos racionais, ainda que fechados e claustrofóbicos como os que aqui encontrarão, de imaginar uma alternativa ao nosso presente ou mesmo ao passado histórico idolatrado por este povo (ainda que não passe de uma versão expurgada dos pecados cometidos), quando, afinal, nos negam o romance das coisas não temos grande experiência… A nossa ficção científica, quando se manifesta, apropria-se normalmente de universos alheios que encontrara nas leituras dos romances estrangeiros; quando em raras ocasiões se aventura no caminho da especulação social, fá-lo timidamente ou assente em abordagens subjectivas ou puramente pessoais.
(…) em Telmo Marçal a opressão é total, implacável, e não há forma de escapar à intensidade ao que o momento presente nos impede de olhar para o futuro e nos força a sobreviver, a não ser pela ocasional ironia.

Opinião
As Atribulações de Jacques Bonhomme é um livro de contos dentro de um ambiente de ficção científica, escritos por um autor português que escreve sob o pseudónimo de Telmo Marçal. Com várias histórias publicadas em fanzines, webzines, antologias ou mesmo na revista online BANG!, esta é a sua estreia a solo em livros.

Os contos deste livro transpõem os Jacques "de todos os tamanhos, cores e feitios" que existem no nosso mundo, para os Jacques que existem em mundos imaginários, "naqueles que lembram o nosso, em mundos que nos ficam distantes, e até em alguns que ainda não aconteceram". O ponto comum e transversal a todos os contos é o conjunto de indivíduos peculiares que os protagonizam, que vão tentando sobreviver nos mundos caóticos e asfixiantes que habitam.

Vários dos contos têm um tom e contexto marcadamente distópico, decorrendo em sociedades futuristas (ou nem por isso) em que a opressão de quem tem o poder parece comprometer a "normal" vivência dos seres humanos. Esta opressão é um tema recorrente ao longo destas histórias, frequentemente pontuadas por momentos de humor (negro) que funcionam mais ou menos como falsos balões de oxigénio, uma vez que os ambientes dark que o autor descreve tomam conta do leitor, independentemente de tudo o resto.

Gostei praticamente de todos os contos, mas os meus preferidos foram "Os Virtuosos", "O Pico de Hubert" (já publicado na antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados), "A Amizade", "Os Cofres de Kalvbard" e "Eu Sou um Carrasco" - podem ler este último na BANG! n.º 5.

Não é normal ver a publicação de livros de contos em Portugal, de autores portugueses, muito menos no género de ficção científica. E, melhor ainda, com qualidade. Para mim, foram várias viagens por um género que normalmente não leio, cada uma delas com um sabor especial. Não é um livro fácil de ler ou que possa ser lido por qualquer pessoa em qualquer estado de espírito. Mas, se têm vontade de experimentar uma coisa diferente e original, aqui fica esta sugestão. Espero que se continuem a fazer apostas em livros deste género por cá.

8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Exército Perdido

Autor: Valerio Massimo Manfredi
Título Original: L'Armata Perduta (2008)
Editora: Porto Editora
Páginas: 448
ISBN: 978972004188
Tradutor: José J.C. Serra

Sinopse
Xenofonte não foi apenas o biógrafo de Sócrates, foi também o comandante militar da famosa Retirada dos Dez Mil. Esta é a sua história - e a história de uma mulher que, por amor, tudo abandonou...

A vitória não é o único caminho para a glória. Ano 401 a.C. - Trinta anos de guerra entre Esparta e Atenas levaram a Grécia ao limite das suas forças. Nesse momento de profunda crise, Ciro, irmão do imperador persa Artaxerxes, decide reunir um enorme exército de mercenários gregos, que passará à História como o "Exército dos Dez Mil". Ainda que tenha anunciado que o seu propósito era combater tribos rebeldes, o verdadeiro objectivo desta marcha de três mil quilómetros continua a ser um dos grandes enigmas da Antiguidade. Depois da morte de Ciro numa batalha, os mercenários ficaram abandonados à sua sorte num território que lhes era hostil. Pouco depois, os chefes gregos seriam aniquilados numa emboscada. Xenofonte, um culto guerreiro ateniense, toma o comando da fracassada expedição e empreende o regresso à pátria. A seu lado, sempre, uma figura de mulher: Abira, a jovem que tudo abandonou para o seguir.

O Exército Perdido narra a épica aventura dos Dez Mil e, simultaneamente, a história de um amor incondicional que nunca vacilou diante das maiores adversidades.

Opinião
"O Exército Perdido" é um retrato fiel, e como o próprio autor refere, verosímil, da famosa jornada levada a cabo pelo Exército dos Dez Mil, no início do séc. V a.C. O jovem príncipe persa, Ciro, contrata 10.000 soldados e mercenários para conquistar destronar o seu irmão Artaxerxes, Rei dos Persas. Nesta expedição militar, encontrava-se também Xenofonte, um grego que, durante os dois anos em que o exército existiu, escreveu um diário no qual relatou todos os acontecimentos e locais por onde passou. Este diário é uma das mais famosas obras gregas, a Anábase.

O livro é-nos contado na primeira pessoa por Abira, em analepse, uma vez que no início do livro Abira já voltou das suas aventuras, depois de ter acompanhado o percurso do Exército dos Dez Mil, por amor a Xenofonte. É pela voz dela que conhecemos não só Xenofonte e as grandes figuras daquele grande exército, mas também o soldado anónimo e as mulheres, constantemente esquecidos na história.

O relato do percurso do exército é extremamente detalhado, bem como de todos os recontros e lutas com tropas persas e outros inimigos que iam encontrando pelo caminho. O livro é também fértil em intrigas políticas, e aqui o autor apresenta explicações prováveis para factos omissos ou suspeitos. Apesar de algo romanceado, especialmente pela presença de Abira, este livro aproxima-se mais de um relato histórico do que propriamente de uma obra de ficção. Confesso que estava à espera de um maior desenvolvimento a nível de personagens, mas compreendo a opção do autor. E depois, como amante da história que sou, gostei de saber mais sobre a história deste exército, tendo o livro servido de ponto de partida para algumas pesquisas que fiz acerca da época e das personagens históricas retratadas. Nota-se a pesquisa que esteve por detrás da composição deste livro, sendo que na Nota do Autor, no final do livro, este nos revela que fez inclusivamente 3 expedições científicas para reconstituir o itinerário do exército.

Resumindo, foi uma boa leitura, especialmente recomendada para quem gosta de romances históricos e se interessa por este período da história.

7/10 - Bom

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Livro dos homens sem luz

Autor: João Tordo
Editora: Temas & Debates
Páginas: 201
ISBN: 9789727597406

Sinopse
"Quando fiz 35 anos nada tinha a que pudesse chamar meu. Não possuía casa própria ou emprego fixo, amigos ou conhecidos de que me pudesse orgulhar, conforto financeiro ou qualquer perspectiva de futuro. Vivia sozinho numa apartamento modesto, o terceiro andar de uma antiga habitação social em Finsburry Park, em frente de uma residência de estudantes, um edifício antigo de tijolo castanho que parecia derreter com a chuva e que albergava toda a espécie de gente. Na altura, julguei que iria apodrecer ali o resto dos meus dias, antes de descobrir o estranho destino que me estava reservado."

Opinião
Depois de uma intensa procura pelo primeiro romance da autoria de João Tordo, recentemente galardoado com o Prémio Saramago, à custa do seu excelente "As 3 vidas", não resisti muito tempo e dediquei-me à sua leitura com o mesmo sentimento de admiração e prazer que tenho ao ler as suas obras. Apesar deste ser o seu primeiro romance, a escrita de João Tordo demonstra uma enorme maturidade, se bem que aqui as suas influências literárias sejam mais "claras". No entanto, é também aqui que começa a ser construída a "voz própria" dos seus romances, com alguns elementos comuns a todos eles.

Desde os elementos fantásticos, à boa medida dos livros de Edgar Allan Poe, a grande influência literária do autor português, às descrições quase cinematográficas, à boa maneira de um Paul Auster, passando pela enorme envolvência que coloca na história, levando a que o leitor não queira parar de o ler, e terminando na forma muito bem escrita, são todos elementos comuns aos 3 romances deste autor português.

A história versa sobre um homem, marcado pela solidão e pela perda dos seus familiares, que resolve escrever "antes que venha a morte", começando a observar pela janela os seus dois vizinhos. E é então que começa a surgir, para mim o seu grande ponto forte: dentro dessa história, o homem cria histórias sobre essas pessoas, originando uma espiral de acontecimentos fantásticos, que irá terminar no fim como se de um puzzle se tratasse.

Espero ansiosamente o seu próximo livro. Definitivamente, João Tordo é dos melhores contadores de estórias portugueses, e, continuando assim, irá confirmar-se como um dos grandes romancistas do futuro.

8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Corte dos Traidores

Autor: Robin Hobb
Título Original: Royal Assassin (2.ª metade)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 368
ISBN: 9789896371555
Tradutor: Jorge Candeias

Sinopse
Os Seis Ducados estão mais vulneráveis do que nunca. Enquanto o príncipe herdeiro combate os Navios Vermelhos com a sua frota e a força do seu Talento, o rei Sagaz enfraquece a cada dia com uma misteriosa doença e bandos de Forjados dirigem-se para Torre do Cervo matando todos pelo caminho.
Mais uma vez, Fitz é chamado para servir como assassino real. Mas o jovem esconde outro segredo: ninguém pode saber que formou um vínculo com um jovem lobo através da magia proibida da Manha e, se for descoberto, arrisca-se a uma sentença de morte.
Quando o príncipe herdeiro embarca numa perigosa missão para pôr fim à ameaça dos Navios Vermelhos, a corte é entregue nas mãos do príncipe Majestoso que tem os seus próprios planos maquiavélicos para o reino. Cabe ao jovem bastardo proteger o verdadeiro rei numa corte prestes a revelar a face dos traidores num clímax memorável.

Opinião
"A Corte dos Traidores" é o 3.º volume da Saga do Assassino e corresponde à segunda metade de Royal Assassin, o 2.º volume da trilogia original. O livro anterior tinha deixado muitas coisas pendentes, por isso foi com elevada expectativa que parti para esta leitura (podem ver as minhas opiniões sobre os primeiros dois volumes desta Saga aqui e aqui).

Tal como o título indica, este livro foca-se essencialmente em intrigas decorridas na corte do Rei Sagaz, após a partida do príncipe e Rei Expectante Veracidade numa demanda pela ajuda dos Antigos, de modo a colocar um ponto final nas ameaças constantes dos Navios Vermelhos. Com a saúde do Rei cada vez mais débil e aproveitando o facto de o irmão mais velho se encontrar longe da corte, o príncipe Majestoso tudo tenta para conseguir o poder para si próprio. No entanto, o jovem Fitz, bastardo do falecido Príncipe Cavalaria, está a par das intenções de Majestoso e, com a ajuda de Breu, da rainha Kettricken, de Castro e do Bobo, irão tentar salvar a vida do seu Rei e guardar o trono até que o príncipe Veracidade regresse.

Mais uma vez, foi um prazer continuar a acompanhar esta história, não só pelo interesse cada vez maior que o enredo proporciona, mas também pela ligação que criamos com as personagens e os seus dilemas e pela escrita maravilhosa desta autora. O facto de termos uma história contada na primeira pessoa pode ou não funcionar bem, dependendo da habilidade do autor, mas aqui funciona na perfeição. Não só é extremamente bem conseguida a forma como a autora "veste a pele" da sua personagem, como contribui bastante para aumentar o interesse do leitor pelas personagens secundárias, pois como apenas as vemos pelos olhos de Fitz, fica sempre aquela sensação de mistério e curiosidade no ar.

As intenções dos Ilhéus, que continuam a atacar os povoados costeiros, "forjando" os seus habitantes, permanecem uma incógnita. A dada altura, refere-se a probabilidade de a maldade não ter propriamente um motivo, mas existir apenas por existir. Não estou convencida dessa possibilidade e, por isso, aguardo com expectativa o desenlace desta situação.

O livro tem um final poderoso e emocionante. Daqueles que nos fazem acreditar em determinada coisa para na página seguinte percebermos que, afinal, não era assim. E o que realmente aconteceu abre excelentes perspectivas para o próximo volume, "A Vingança do Assassino", que deverá sair em Janeiro de 2010. Mal posso esperar!

9/10 - Excelente

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Homem Pintado

Autor: Peter V. Brett
Título Original: The Painted Man/The Warded Man (2008)
Editora: Gailivro
Páginas: 606
ISBN: 9789895576777
Tradutor: Renato Carreira

Sinopse
Por vezes existem boas razões para se ter medo do escuro. Arlen vive com os seus pais na sua quinta isolada a meio dia de viagem do pequeno povoado de Tibbet’s Brook. Mas no mundo de Arlen quando a noite cai uma estranha névoa começa a erguer-se do chão, uma névoa que promete uma morte terrível para todos aqueles que sejam suficientemente loucos para enfrentar a escuridão, pois demónios esfomeados, que não podem ser feridos por armas comuns materializam-se na névoa para se alimentarem dos seres vivos. Quando a noite cai as pessoas não têm outra alternativa se não esconderem-se nas suas casas cuidadosamente guardadas com símbolos mágicos de protecção que são a única coisa capaz de manter os demónios à distância até que chegue o nascer do sol. Nesta história três jovens irão oferecer à humanidade uma última e fugaz hipótese de sobrevivência.

Opinião
Já andava com este livro debaixo de olho praticamente desde que foi lançado no ano passado, devido às várias opiniões positivas que tinha lido em blogs internacionais, pelo que foi com bastante agrado que tomei conhecimento que ia ser publicado por cá.

A história deste livro decorre num mundo fictício, onde a chegada da noite traz consigo o aparecimento de perigosos demónios que atacam os humanos, na maioria das vezes resultando na morte destes. A única forma de combater estas perigosas criaturas é através de uns símbolos mágicos, as guardas, que são colocadas à volta das casas, ou que são utilizadas em círculos portáteis sempre que é necessário passar a noite ao relento. É neste contexto que vamos acompanhando o crescimento de três jovens, Arlen, Leesha e Rojen, cada um com capítulos próprios. Arlen deseja ser Mensageiro e tem uma aptidão especial para desenhar e memorizar guardas; Leesha demonstra, desde muito cedo, as suas aptidões como Herbanária; Rojen, apesar do defeito nos seus dedos, encanta com o seu violino enquanto aprendiz de Jogral. A dada altura do livro, a história dos três irá cruzar-se e alterar a forma como até então se encarou a luta contra os demónios.

Gostei especialmente da ideia que serviu de base à criação deste mundo e desta história, no que diz respeito à existência dos demónios (de chama, vento, madeira e areia, entre outros), que se demonstram seres misteriosos e aparentemente impiedosos e imbatíveis. Achei o mundo criado bastante credível e as passagens que relataram mais sobre a sua história agradaram-me particularmente.

É fácil identificarmo-nos com as personagens principais e as suas lutas, mas nem sempre senti que este aspecto tivesse sido tratado com a profundidade necessária. Achei que o autor foi muito bem sucedido na narração da parte da acção da história, mas nem sempre na parte emocional. Outra coisa que senti foi algum desequilíbrio no tratamento temporal da história: por vezes, existem grandes saltos no tempo que sentimos serem dados de forma pouco natural, para que a história chegue a determinado ponto que o autor deseja relatar. Fica a sensação que algo mais poderia ter sido contado nestes lapsos temporais. No entanto, apesar disto, foi uma história que gostei imenso de ler e a que me senti agarrada na maior parte do tempo. Sem dúvida que quero saber como vai terminar, mas parece que o 2.º volume desta trilogia só irá ser publicado na língua original em Abril de 2010, pelo que ainda teremos de esperar mais algum tempo pela respectiva tradução.

8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Arte de Amar

Autor: Elizabeth Edmondson
Título Original: The Art of Love
Editora: Edições ASA
Páginas: 400
ISBN: 9789892305370
Tradutor: Isabel Alves

Sinopse: "Polly Smith está a tentar sobreviver enquanto artista quando Oliver, seu amigo e mecenas, a convida a ir para casa do pai no Sul de França. Entusiasmada por poder fugir do frio e da chuva de Londres e do noivo monótono, Polly pede a sua certidão de nascimento para poder requerer um passaporte. Mas é aí que o seu mundo desaba: aquela que sempre pensou ser sua mãe é, na verdade, sua tia; a identidade do pai é desconhecida e até o seu próprio nome não está correcto.
A sua «fuga» para o sol da estimulante da Riviera imprime uma nova vida à sua pintura, mas nem tudo corre bem na mansão onde está hospedada. O pai de Oliver foi forçado a abandonar a Inglaterra no meio de um escândalo e, apesar do sofisticado e cosmopolita grupo de amigos que o rodeia, está prestes a ser apanhado pelo seu passado. E, embora Polly se encontre no centro de uma teia de mentiras, o seu próprio futuro começa a tomar um novo e fascinante rumo..."

Opinião: Às vezes, existem livros que nos deixam divididos. Metade dispensável, metade interessante e ficamos com a sensação de que o dito livro podia ter sido algo mais. Este é, sem dúvida, o caso de A Arte de Amar. Confesso que, agora, as minhas expectativas quanto à obra de Elizabeth Edmonson estão reduzidas para metade.

A Arte de Amar é composto por duas partes distintas: a primeira, centralizada na personagem principal, Polly; e, a segunda, uma intriga, onde várias (e demasiadas) personagens se misturam até se chegar ao início de vida de Polly. O livro começa com uma procura de identidade da protagonista que, de repente, descobre que não é quem pensa. Este é o ponto de partida para a autora desvendar a vida de Polly, fazendo o leitor saltitar entre o passado e o presente. Existem, nesta parte, muitas passagens mortas que não trazem nada de novo à acção e atrasam uma estória que, a meu ver, podia ter sido mais conseguida.

Um dos pontos negativos do livro é, para mim, as inúmeras personagens da obra que, com base em explicações superficiais e, às vezes, demasiado forçadas, entram na acção. No final, por caminhos e atalhos, acaba por se perceber a ligação entre elas, ainda que se fique com a sensação de que a autora deu muita atenção a estórias paralelas. O final da primeira parte, início da segunda, acontece quando todas as personagens se cruzam, coincidentemente, num espaço de diversão. A razão deste acontecimento parece demasiado forçada e denota-se a clara intenção da autora de fazer a transição do espaço e motivo da acção.

A segunda parte é mais interessante, mas peca por ter um desenvolvimento demasiado rápido que leva, muitas vezes, o leitor a reler passagens e a perguntar-se como é que tal acontecimento se deu. A intriga policial é cativante não só porque existe sempre um mistério por desvendar, mas também porque está associada ao lado romântico da estória. O final é tocante, mas, infelizmente, demasiado óbvio.

Confesso que fiquei bastante surpresa com a obra de Elizabeth Edmonson. Ainda agora, 300 e tal páginas depois, me pergunto qual foi a intenção da autora com o título. Não condiz com a história; porventura as razões por que a autora o escolheu sejam um bom motivo para se aventurarem nesta leitura. Com reserva qb, claro.

6/10 – Bom, mas recomendado com reservas

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

North and South

Autor: Elizabeth Gaskell
Ano de Publicação: 1854
Editora: Penguin
Páginas: 528
ISBN: 9780140620191

Sinopse
When her father leaves the Church in a crisis of conscience, Margaret Hale is uprooted from her comfortable home in Hampshire to move with her family to the north of England. Initially repulsed by the ugliness of her new surroundings in the industrial town of Milton, Margaret becomes aware of the poverty and suffering of the local mill workers and develops a passionate sense of social justice. This is intensified by her tempestuous relationship with the mill-owner and self-made man, John Thornton, as their fierce opposition over his treatment of his employees masks a deeper attraction. In "North and South", Elizabeth Gaskell skillfully fused individual feeling with social concern, and in Margaret Hale created one of the most original heroines of Victorian literature.

Opinião
Já anteriormente vos tinha falado deste livro, a propósito de ter visto a adaptação televisiva da BBC, no início do ano, que adorei. Na altura, comprei o livro mas só agora decidi lê-lo, uma vez que a White Lady já o tinha começado e decidimos fazer uma espécie de mini leitura conjunta no fórum (podem também ler a opinião dela sobre este livro aqui).

North and South foi publicado originalmente em 22 partes na revista semanal Household Worlds, editada por Charles Dickens, entre Setembro de 1854 e Janeiro de 1855, tendo sido publicado em forma de livro ainda durante 1855. A história decorre em meados do século XIX, sendo o título do livro indicativo do tema principal que trata: as diferenças entre o norte e o sul de Inglaterra nessa época, com o norte altamente industrializado, por contraste com o pacífico e solarengo sul.

O livro acompanha a história da jovem Margaret Hale, que se vê deslocada da sua casa no sul, em Helstone, para Milton, no norte, uma vez que o seu pai, um homem da Igreja, se vê perante problemas de consciência quanto ao conteúdo da doutrina que advoga, decide abandonar o seu ofício e deixar para trás a vida que tinham conhecido até então. A família de Margaret instala-se então em Milton, uma cidade do norte  bastante industrializada e completamente diferente do local de onde tinha vindo, com grande abundância de fábricas de algodão e com problemas sociais muito graves. O dono de uma dessas fábricas, John Thornton, torna-se aluno do pai de Margaret e apaixona-se por ela, apesar de todas as suas diferenças.

Apesar do destaque dado às personagens e aos seus sentimentos, este é um livro que aborda de forma bastante detalhada as questões sociais que advieram da luta de classes que nessa época começaram a fazer-se sentir mais vigorosamente, por força da evolução das relações entre a classe trabalhadora e a classe empregadora, e que muitas vezes se concretizavam em greves. Margaret torna-se amiga de algumas pessoas de origem mais humilde e toma contacto com as suas dificuldades. Esta característica da personagem foi muito provavelmente influenciada pela experiência pessoal da autora, pois colaborava com várias instituições de caridade.

Acho que, por mais que tente, não vou conseguir exprimir como deve ser o quanto este livro me marcou... mas não custa tentar! As personagens são muito  bem construídas e podemos facilmente relacionar-nos com elas, com os seus dilemas e alegrias. Gostei muito das duas personagens principais, mas a minha preferida acabou por ser a mãe de John, Mrs. Thornton, pela personalidade vincada e sinceridade que sempre demonstrou. O enredo é muito bom: a história de amor que a autora nos conta é daquelas que quebram o coração mais duro e que deixam a suspirar a menos romântica das pessoas, mas é, ao mesmo tempo, genialmente entrelaçada com as questões sociais  que aborda e com o retrato deste período da história de Inglaterra. Ao longo de todo o livro, assistirmos a diálogos extremamente interessantes (muitas vezes entre John e Margaret) que nos permitem perceber todas estas questões e pensar no quanto as coisas evoluíram (ou não) depois de um século e meio. Isto leva a outro aspecto que me fez adorar este livro: Elizabeth Gaskell escreve maravilhosamente. É incrível a forma como ela entrelaça as palavras, como sabe colocá-las no sítio exacto e como, muitas vezes, diz as coisas sem as dizer. É daquele tipo de livros que nos traz a vontade de transcrever inúmeras passagens, mas fico-me por uma que aparece na primeira vez em que Margaret visita a casa dos Thorntons (não contém spoilers). Eis como transformar a descrição da divisão de uma casa na caracterização das pessoas que a habitam:

Everything reflected light, nothing absorbed it. The whole room had a painfully spotted, spangled, speckled look about it, which impressed Margaret so unpleasantly that she was hardly conscious of the peculiar cleanliness required to keep everything so white and pure in such an atmosphere, or of the trouble that must be willingly expended to secure that effect of icy, snowy discomfort. Wherever she looked there was evidence of care and labour, but not care and labour to procure ease, to help on habits of tranquil home employment; solely to ornament, and then to preserve ornament from dirt or destruction.
Para resumir, este livro apresenta, na minha opinião, um equilíbrio perfeito entre enredo, personagens, contexto e escrita. O único defeito que lhe aponto é um final um pouco apressado, mas a própria autora explica que o facto de esta história ter sido originalmente publicada em formato de revista lhe trouxe algumas limitações que nem sempre lhe permitiram desenvolvê-la como gostaria. Mas nada que belisque a minha opinião geral. Dá que pensar o dom que algumas pessoas têm de, apenas com palavras, emocionarem uma pessoa ao ponto de vivermos estas histórias como se fossem reais, tornando a viragem da última página como a despedida de um amigo querido. E encontrar livros que proporcionem este nível de ligação emocional é o objectivo último que me guia nesta busca incessante. Peço desculpa pela extensão desta opinião, mas o  entusiasmo é tanto que a minha vontade é ficar aqui o resto do dia a falar deste livro :)

Termino esta opinião pedindo encarecidamente que alguma editora se disponha a publicar a tradução desta obra-prima. Não compreendo como é possível que, até hoje, ninguém o tenha feito. O livro é imperdível! Até lá, podem, caso entendam, comprá-lo pela módica quantia de 3€, no Book Depository. Também está disponível online, uma vez que a obra já faz parte do domínio público. E, agora que o li, posso dizer-vos, com toda a sinceridade: a adaptação desta história maravilhosa na mini-série da BBC é muito fiel e consegue transmitir todo o sentimento presente no livro. Escusado será dizer que recomendo vivamente tanto o livro como a sua adaptação.

10/10 - Obra-Prima

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Mar em Casablanca

Autor: Francisco José Viegas
Editora: Porto Editora
Páginas: 234
ISBN:978-972-0-04287-3

Sinopse
O que une um cadáver encontrado nos bosques que rodeiam o belo Palace do Vidago e um homicídio no cenário deslumbrante do Douro? O que une ambos os crimes às recordações tumultuosas dos acontecimentos de Maio de 1977 em Angola? Jaime Ramos, o detective dos anteriores romances de Francisco José Viegas, regressa para uma nova investigação onde reencontra a sua própria biografia, as recordações do seu passado na guerra colonial - e uma personagem que o persegue como uma sombra, um português repartido por todos os continentes e cuja identidade se mistura com o da memória portuguesa do último século.

Opinião
Conhecedor, e admirador, da poesia de Francisco José Viegas, e depois de ter lido, há algum tempo um romance dele e ter-me agradado, lancei-me com curiosidade na leitura de “ O Mar em Casablanca”.

Depois do grande sucesso de “Longe de Manaus”, livro que ainda não li mas em relação ao qual tenho alguma curiosidade, Francisco José Viegas editou mais uma aventura da personagem Jaime Ramos, um inspector que, segundo o próprio autor revelou várias vezes, é quase um espelho do seu criador. De facto, conhecendo um pouco dos gostos do Francisco José Viegas, revelados quer no seu blog, quer nas suas crónicas jornalísticas, pode-se dizer que a imagem do criador paira em cada gosto, em cada gesto e em cada palavra da personagem principal. Além disso, o autor aproveita para inserir a sua personagem em locais da sua referência, e neste livro é a vez do Douro surgir em grande destaque, homenageando-o com belas frases escritas que nos dá vontade de conhecê-lo ainda melhor. Muito engraçado foi ler sobre alguns locais onde Jaime Ramos passava, o bar onde ele descarregava as suas frustrações, de tempos em tempos, que eu próprio gosto de frequentar. Já almocei no restaurante onde ele almoçava, também calcorreei as ruas conforme ele o fazia, o que dava um toque de alguma familiaridade à história, pois parecia que o estava a ver à minha frente.

O livro, como em todos os policiais, conta a investigação de dois assassinatos, com a personagem Jaime Ramos no leme da investigação, mas, sinceramente, achei que, embora com bastantes referências policiais, não é o verdadeiro policial, com momentos de suspense, que estamos habituados a conhecer. É, acima de tudo, um livro onde está bem patente, logo no primeiro capítulo, o síndroma dos derrotados da vida, das frustrações, das perdas, a luta contra os seus fantasmas do passado e do presente. Arrisco a dizer que Jaime Ramos deverá estar no final da sua carreira, questionando o significado da sua vida, em tom melancólico e bastante saudosista.

Extremamente bem escrito, com passagens muito bonitas, principalmente as pequenas narrativas intituladas “os sonhos de Jaime Ramos”, penso que talvez tenha faltado alguma coisa para que o livro fosse ainda melhor. Achei um pouco aborrecido alguns monólogos, aliás penso que existem monólogos a mais, e julgo que ser publicitado como policial, poderá desiludir quem aprecie esse género literário. No entanto, estamos perante um livro que nos dá prazer ler.

8/10 - Muito Bom

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Clube de Sangue


Autora: Charlaine Harris
Título Original: Club Dead (2003)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 256
ISBN: 9789896371579
Tradutor: Renato Carreira

Sinopse
Há apenas um vampiro com a qual Sookie Stackhouse está envolvida, pelo menos de forma voluntária, e esse vampiro é Bill. Mas recentemente, ele tem estado um pouco distante. E noutro Estado. Eric, o seu chefe sinistro e sensual, julga saber onde encontrá-lo e, quando dá por isso, Sookie está a caminho de Jackson, no Mississippi, para se infiltrar no submundo do Clube de Sangue. Este clube é um local perigoso onde a sociedade vampírica se reúne para descontrair e beber um copo de O positivo. Mas quando Sookie finalmente descobre Bill - apanhado num acto de traição séria - ela não tem a certeza se o quer salvar... ou afiar estacas.

Opinião
"Clube de Sangue" é o 3.º volume da Saga do Sangue Fresco, da autoria da americana Charlaine Harris, que a editora Saída de Emergência continua a publicar por cá. Já li os dois primeiros volumes (podem ver as minhas opiniões aqui e aqui) e, como gostei bastante, não poderia deixar de ler esta nova adição à série.

Neste livro, continuamos a acompanhar as aventuras de Sookie Stackhouse e o seu enorme talento para se meter em sarilhos, num mundo onde os vampiros vivem às claras, apesar de manterem a sua aura misteriosa e as suas práticas pouco ortodoxas. Sookie namora com o vampiro Bill, que é chamado para uma missão secreta em Jackson e desaparece misteriosamente. Ela é a melhor hipótese de o encontrar devido aos seus talentos como telepata, e por isso ruma a Jackson acompanhada do lobisomem Alcide, para tentar descobrir o seu paradeiro.

Os livros têm as mais variadas utilidades e vão servindo ou não os propósitos a que se propõem. Este (e os anteriores) têm o claro objectivo de conduzir o leitor numa aventura cativante, divertida e arrepiante, que é plenamente conseguido. Charlaine Harris continua a mostrar-nos como funciona a sociedade vampírica e as suas hierarquias, mas vai introduzindo novas espécies; se no livro anterior tivemos oportunidade de conhecer as ménades e perceber um pouco mais dos metamorfos, neste o conhecimento estende-se aos lobisomens. 

Adoro o sentido de humor que a Charlaine Harris emprega à sua personagem principal, Sookie (dou por mim a rir-me sozinha), e a forma como o rumo central da história, à parte as aventuras presentes em cada livro, vai evoluindo naturalmente, tal com as suas personagens. Sookie apresenta uma evolução considerável e é aqui apresentada como uma mulher muito mais confiante e corajosa, mas com as dúvidas que todos temos. Eric, o superior de Bill, que já no livro anterior tinha tido bastante protagonismo, continua em grande neste volume; é uma personagem que cativa, não só pelo mistério que a sua história que suscita, mas também pela sua personalidade mordaz. Bill tem vindo a perder protagonismo, mas fica no ar a curiosidade da evolução da sua relação com Sookie.

Aguardo ansiosamente pelos próximos volumes!

8/10 - Muito Bom

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma longa viagem com António Lobo Antunes

Autor: João Céu e Silva
Editora: Porto Editora
Páginas: 494
ISBN: 978-972-0-04070-1

Sinopse
No armazém onde escreve, António Lobo Antunes alimenta-se da difusa claridade do criador premiado e com sucesso em todo o mundo mas, ao mesmo tempo, gasta-se na escuridão do homem marcado pelas vaidades que protagonizou no passado, por um dia de violência que não esquece em Angola e pela ausência de uma paixão que o cegue para a eternidade. Houve momentos suaves nestes meses de bastante conversa, mas não muitos, porque as suas confissões resultam do verdadeiro conflito que mantém com a vida, da contínua dificuldade em ouvir o que as vozes da literatura lhe dizem e da necessidade de deixar registado um trabalho inigualável quando comparado com os escritores contemporâneos.

Ao longo desta viagem, António Lobo Antunes sorriu e chorou, contou segredos e anedotas, blasfemou e perdoou, foi cruel com quem não se espera, nada simpático com os autores de bestsellers, deixou ver como concebe um livro do princípio ao fim, confessou o medo de um dia ser incapaz de iniciar um romance, desabafou sobre o amor falhado com a mulher da sua vida, radiografou as relações com a família, revelou o pânico de voltar a sofrer com o cancro, explicou porque é que já não espera quase nada dos anos que lhe falta viver e assumiu que as tendências suicidas ainda não o abandonaram. Uma entrevista que foi uma longa-metragem dos muitos medos e das poucas alegrias que fazem de António Lobo Antunes o único autor português que só vive para o ofício da escrita, mesmo que à beira do apocalipse pessoal.

Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes será, a partir de agora, o retrato mais verdadeiro do escritor que sempre se proibiu de contar toda a sua verdade.


Opinião
Um livro de entrevistas é sempre complicado de definir, ainda por cima quando são feitas num espaço de tempo alargado, como estas que decorreram num espaço 3 anos. Isto possibilita que a pessoa entrevistada possa contradizer-se facilmente, o que, sendo o entrevistado o escritor António Lobo Antunes, acontecerá várias vezes.

Depois de Miguel Torga e José Saramago, dois autores que tenho imensa curiosidade em conhecer os seus livros de entrevistas, João Céu e Silva convida-nos a entrar no mundo do escritor António Lobo Antunes.

Nesta “Longa Viagem com António Lobo Antunes”, o entrevistado leva-nos a viajar pela sua vida, e apesar de ser uma entrevista, o livro acaba por ser um monólogo, onde só ele é que decide para onde nos leva, definindo claramente o caminho que lhe interessa seguirmos.

Conhecemos o seu método de trabalho, aliás acompanhamos, com imensa curiosidade e bastante interesse, a escrita de dois livros, os seus gostos, as suas alegrias, a amizade que tem por certas pessoas, as suas relações amorosas, a sua criação de certos “mitos”, os seus fantasmas, a relação com a literatura, a curiosidade em conhecer novos autores portugueses , que dará lugar a um certo pessimismo, os críticos, e os seus ódios de estimação, principalmente dentro do meio literário. Curiosa a sua “ relação” com Saramago: apesar de mostrar sempre inimizade e rancor, não hesita, em alguns momentos, em destacá-lo como dos melhores escritores no panorama literário português.

António Lobo Antunes cria e alimenta a imagem de um escritor sofredor, com vida difícil, com tendências suicidas, bastante pessimista, onde o seu passado continua a atormentar o seu presente. Por vezes, ficamos na dúvida se as histórias que ele conta sobre a sua vida são retiradas dos seus livros, se aconteceram ou apenas inventadas no momento. Se em situações como na descrição da amizade com algumas pessoas, na relação com a literatura e nas recordações da guerra colonial sentimos sinceridade nas suas palavras, noutros momentos sentimos a sensação de dúvida.

Indispensável para quem é fã e para uma melhor compreensão do seu, ou melhor, dos seus mundos.

7/10 - Bom