E em atraso...
Uma das novidades apresentadas por Isabel Alçada na III Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura foi a formação de voluntários para lerem em escolas, hospitais, lares e outras instituições, quer em Portugal, quer em outros países membros da CPLP. A notícia, com declarações da comissária, pode ser lida aqui.
Mostrando postagens com marcador Plano Nacional de Leitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Plano Nacional de Leitura. Mostrar todas as postagens
domingo, 25 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
PNL: inovações e balanços
O site do Plano Nacional de Leitura está diferente, mais compartimentado e dinâmico (como o genérico do programa dos Gatos Fedorentos, tem coisas a andar à roda).
No Jornal Público, o sociólogo Firmino da Costa faz um balanço positivo dos últimos três anos.
No Jornal Público, o sociólogo Firmino da Costa faz um balanço positivo dos últimos três anos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
A propósito da III Conferência do Plano Nacional de Leitura
Ao lermos o artigo de ontem no Jornal Público (cuja versão reduzida pode ser conferida aqui), constatamos que o grau de escolaridade está associado ao interesse pela leitura, e que a importância das famílias na mediação e promoção é cada vez mais premente. Apesar dos projectos desenvolvidos no pré-escolar e no 1º ciclo, o enquadramento cultural das crianças condiciona, embora não de forma absoluta, a sua relação com o livro. Quando este está apenas associado à escolarização e ao tendencial sucesso escolar torna-se um elemento instrumental e não afectivo na vida dos mais novos.
Se um dos grandes méritos do Plano é, indiscutivelmente, facilitar o acesso mais democrático e generalizado ao livro, é essencial que a leitura ganhe um espaço paralelo ao da escola, especialmente ao da sala de aula de língua portuguesa. Por isso, as Bibliotecas Escolares não devem ser vistas como substitutas das Bibliotecas Municipais e sim parceiras. Parceiras no fundo que oferecem, nas actividades e iniciativas que desenvolvem. Se a Biblioteca Escolar está mais próxima, está também mais fortemente associada ao código da escola. Por seu lado, a Biblioteca Municipal é um espaço de liberdade para os leitores, que não são avaliados por professores ou colegas pelas escolhas que fazem. Para além disso, na Biblioteca Municipal o leitor observa outros leitores anónimos, com idades, comportamentos e motivações diversas, que constituem exemplos.
O envolvimento dos pais é fundamental, mas deve ser conduzido cuidadosamente, para que não sejam eles os primeiros a instrumentalizar a leitura, transformando-a em mais uma ferramenta para garantir o futuro académico ou profissional dos filhos. Os pais, enquanto paradigma fundador, devem ser ajudados a descobrir, também eles, o prazer de ler. Tal como se refere no artigo, é importante apostar na promoção da leitura junto dos adultos. E muitas vezes não há melhor argumento para o conseguir que os próprios filhos.
Se um dos grandes méritos do Plano é, indiscutivelmente, facilitar o acesso mais democrático e generalizado ao livro, é essencial que a leitura ganhe um espaço paralelo ao da escola, especialmente ao da sala de aula de língua portuguesa. Por isso, as Bibliotecas Escolares não devem ser vistas como substitutas das Bibliotecas Municipais e sim parceiras. Parceiras no fundo que oferecem, nas actividades e iniciativas que desenvolvem. Se a Biblioteca Escolar está mais próxima, está também mais fortemente associada ao código da escola. Por seu lado, a Biblioteca Municipal é um espaço de liberdade para os leitores, que não são avaliados por professores ou colegas pelas escolhas que fazem. Para além disso, na Biblioteca Municipal o leitor observa outros leitores anónimos, com idades, comportamentos e motivações diversas, que constituem exemplos.
O envolvimento dos pais é fundamental, mas deve ser conduzido cuidadosamente, para que não sejam eles os primeiros a instrumentalizar a leitura, transformando-a em mais uma ferramenta para garantir o futuro académico ou profissional dos filhos. Os pais, enquanto paradigma fundador, devem ser ajudados a descobrir, também eles, o prazer de ler. Tal como se refere no artigo, é importante apostar na promoção da leitura junto dos adultos. E muitas vezes não há melhor argumento para o conseguir que os próprios filhos.
Marcadores:
Plano Nacional de Leitura,
Promoção da Leitura
terça-feira, 13 de outubro de 2009
III Conferência Internacional do PNL
Decorrerá nos próximos dias 22 e 23 de Outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, a III Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura. Para além da apresentação dos resultados do estudo PNL, serão apresentados e discutidos projectos específicos de promoção da leitura em Bibliotecas Municipais e Escolares. A entrada é livre.O programa consta no site do PNL, e pode ser consultado aqui.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Livros do Plano - A família que não cabia dentro de casa
A família que não cabia dentro de casa, Alexandre Honrado, Âmbar, livro recomendado para o 6º ano, 2º ciclo, leitura autónoma.
A escrita de Alexandre Honrado tem como arma o domínio das emoções prosaicas do quotidiano. A amplitude sociológica das temáticas exploradas (a indiferença dos pais em relação aos filhos, a toxicodependência, a gravidez na adolescência…) alicerça-se em apontamentos cómicos, jocosos ou reflexivos sobre o dia-a-dia comum dos
adolescentes contemporâneos.
Ao contrário do que acontece em grande parte das obras de Alice Vieira, os protagonistas de Alexandre Honrado são paradigmas com que os jovens leitores facilmente se identificam. Por isso, nem sempre a gíria soa natural e na proporção adequada. Em Uma argola no umbigo (Âmbar), por exemplo, as alcunhas e os vícios discursivos da galeria de personagens adolescentes são de tal forma exageradas que podem suspender o efeito de humor desejado.
Já em A família que não cabia dentro de casa a narrativa surpreende pela originalidade temática e pelo ritmo que a estrutura confere aos acontecimentos. O exagero está aqui na situação e na cadência aumentativa do improvável, e esse é o verdadeiro elemento de humor da narrativa. Voltamos a encontrar uma personagem principal feminina, adolescente, com os juízos de valor próprios da idade, a curiosidade pelos outros, o encantamento por figuras excêntricas, o prazer em vivenciar momentos inesperados. A rapariga continua a empregar expressões cifradas, mas tem pouco tempo para dialogar com os seus pares, excepto a vizinha do andar de cima e sua melhor amiga, ‘Galochas’, que é a segunda pessoa a aparecer em sua casa, depois do anúncio de que a avó castelhana iria aportar ao lar, após fractura da perna numa estância de ski.
O que prende o leitor ao livro é a resposta à pergunta: quem vai aparecer a seguir? Esta é a história do livro: uma pacífica família nuclear (pai, mãe e filha) começa a receber pessoas em sua casa de forma totalmente inesperada e sucessiva ao longo de uma única noite. Neste contexto, revelam-se sentimentos, dissipam-se preconceitos e questionam-se atitudes. Para além da avó e da amiga que vai passar a noite a sua casa, há o conflito conjugal da sua madrinha, o primo que saiu da pensão e perdeu a sua namorada ucraniana numa rusga que a levou para a prisão, há ainda a prima Diana ‘Cabeça de Esfregão’, que espalha o terror em grafitis e não só na escola que ambas frequentam. É a partir do relato de Maria Ana que vamos acompanhando os diálogos dos pais, e as soluções improvisadas para resolver cada novo imprevisto. A avó, cujo anúncio de chegada dá início às hostilidades acaba por ficar para o fim, e a ida ao aeroporto transforma-se numa espécie de viagem de conciliação para todos. Claro que, devido ao atraso, não conseguem encontrar a avó…
O optimismo reina durante toda a narrativa, num ambiente cuja máxima será: é possível. Uma mensagem velada numa teia de figuras cómicas, mas que será tão do agrado quanto importante para o leitor. Trata-se da defesa da solidariedade, do respeito pela diferença, de não ajuizar sem tentar conhecer. Mas sem aquele tom moral que se impõe e anula o valor literário da narrativa, em prol de um didactismo ideológico que normalmente desrespeita o leitor e a sua leitura.
Não é um livro denso, complexo, com um vocabulário diversificado ou uma sintaxe elaborada. Não é um livro que tenda ao universal, mas é um livro bem conseguido, despretensioso, equilibrado e divertido.
A escrita de Alexandre Honrado tem como arma o domínio das emoções prosaicas do quotidiano. A amplitude sociológica das temáticas exploradas (a indiferença dos pais em relação aos filhos, a toxicodependência, a gravidez na adolescência…) alicerça-se em apontamentos cómicos, jocosos ou reflexivos sobre o dia-a-dia comum dos
adolescentes contemporâneos.Ao contrário do que acontece em grande parte das obras de Alice Vieira, os protagonistas de Alexandre Honrado são paradigmas com que os jovens leitores facilmente se identificam. Por isso, nem sempre a gíria soa natural e na proporção adequada. Em Uma argola no umbigo (Âmbar), por exemplo, as alcunhas e os vícios discursivos da galeria de personagens adolescentes são de tal forma exageradas que podem suspender o efeito de humor desejado.
Já em A família que não cabia dentro de casa a narrativa surpreende pela originalidade temática e pelo ritmo que a estrutura confere aos acontecimentos. O exagero está aqui na situação e na cadência aumentativa do improvável, e esse é o verdadeiro elemento de humor da narrativa. Voltamos a encontrar uma personagem principal feminina, adolescente, com os juízos de valor próprios da idade, a curiosidade pelos outros, o encantamento por figuras excêntricas, o prazer em vivenciar momentos inesperados. A rapariga continua a empregar expressões cifradas, mas tem pouco tempo para dialogar com os seus pares, excepto a vizinha do andar de cima e sua melhor amiga, ‘Galochas’, que é a segunda pessoa a aparecer em sua casa, depois do anúncio de que a avó castelhana iria aportar ao lar, após fractura da perna numa estância de ski.
O que prende o leitor ao livro é a resposta à pergunta: quem vai aparecer a seguir? Esta é a história do livro: uma pacífica família nuclear (pai, mãe e filha) começa a receber pessoas em sua casa de forma totalmente inesperada e sucessiva ao longo de uma única noite. Neste contexto, revelam-se sentimentos, dissipam-se preconceitos e questionam-se atitudes. Para além da avó e da amiga que vai passar a noite a sua casa, há o conflito conjugal da sua madrinha, o primo que saiu da pensão e perdeu a sua namorada ucraniana numa rusga que a levou para a prisão, há ainda a prima Diana ‘Cabeça de Esfregão’, que espalha o terror em grafitis e não só na escola que ambas frequentam. É a partir do relato de Maria Ana que vamos acompanhando os diálogos dos pais, e as soluções improvisadas para resolver cada novo imprevisto. A avó, cujo anúncio de chegada dá início às hostilidades acaba por ficar para o fim, e a ida ao aeroporto transforma-se numa espécie de viagem de conciliação para todos. Claro que, devido ao atraso, não conseguem encontrar a avó…
O optimismo reina durante toda a narrativa, num ambiente cuja máxima será: é possível. Uma mensagem velada numa teia de figuras cómicas, mas que será tão do agrado quanto importante para o leitor. Trata-se da defesa da solidariedade, do respeito pela diferença, de não ajuizar sem tentar conhecer. Mas sem aquele tom moral que se impõe e anula o valor literário da narrativa, em prol de um didactismo ideológico que normalmente desrespeita o leitor e a sua leitura.
Não é um livro denso, complexo, com um vocabulário diversificado ou uma sintaxe elaborada. Não é um livro que tenda ao universal, mas é um livro bem conseguido, despretensioso, equilibrado e divertido.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Balanço do 2º ano do PNL
No site do Portal do Governo, podem ler-se, em síntese, os resultados da avaliação externa ao 2º ano de funcionamento do Plano Nacional de Leitura. As estatísticas são, à partida, positivas. A maioria das escolas deu continuidade a actividades de leitura orientada, privilegiando assim o contacto com as obras e não apenas com excertos.
Mas é importante disponibilizar diferentes estratégias e continuar a motivar todos os mediadores envolvidos no processo. As famílias têm um papel fulcral no prazer pela leitura, mas não se pode desinvestir na escola, pela sua relação de proximidade com as famílias e pela sua condição sociabilizante. Do mesmo modo, os públicos das diversas faixas etárias merecem acompanhamento e dedicação. Inclusivamente os jovens não leitores. Muitas vezes, quando trabalhamos com os não leitores esquecemo-nos que no futuro muitos deles serão mediadores, na sua condição de pais. Se ao seu comportamento não leitor não estiver associado nenhum preconceito social relativamente à leitura, ser-lhes-á muito mais fácil acolher as actividades dos filhos e acompanhá-los.
O balanço é positivo, mas dois anos são apenas uma ínfima contribuição para a formação da gerações presentes e futuras. E a cada ano os resultados estatísticos serão menos reveladores, à medida que os hábitos didácticos se forem instalando. Depois disso, o que teremos de avaliar são as consequências efectivas junto da comunidade. Que leitores teremos?
Mas é importante disponibilizar diferentes estratégias e continuar a motivar todos os mediadores envolvidos no processo. As famílias têm um papel fulcral no prazer pela leitura, mas não se pode desinvestir na escola, pela sua relação de proximidade com as famílias e pela sua condição sociabilizante. Do mesmo modo, os públicos das diversas faixas etárias merecem acompanhamento e dedicação. Inclusivamente os jovens não leitores. Muitas vezes, quando trabalhamos com os não leitores esquecemo-nos que no futuro muitos deles serão mediadores, na sua condição de pais. Se ao seu comportamento não leitor não estiver associado nenhum preconceito social relativamente à leitura, ser-lhes-á muito mais fácil acolher as actividades dos filhos e acompanhá-los.
O balanço é positivo, mas dois anos são apenas uma ínfima contribuição para a formação da gerações presentes e futuras. E a cada ano os resultados estatísticos serão menos reveladores, à medida que os hábitos didácticos se forem instalando. Depois disso, o que teremos de avaliar são as consequências efectivas junto da comunidade. Que leitores teremos?
Marcadores:
Plano Nacional de Leitura,
Promoção da Leitura
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
2ª Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura
Aproxima-se a 2ª Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura. Será nos próximos dias 23 e 24 de Outubro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tal como aconteceu no ano passado. A promoção da leitura nos países da OCDE, da Comunidade Europeia ou no Reino Unido servirão de exemplos para projectos internos. A literacia e a leitura também serão abordadas, bem como a avaliação externa do Plano durante este 2º ano que termina.
O programa pode ser consultado aqui.
A entrada é livre.
O programa pode ser consultado aqui.
A entrada é livre.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Livros do Plano - Ssschlep
Ssschep, Eugénio Roda (texto), Gémeo Luís (ilustração), Edições Eterogémeas, livro recomendado para o 5º ano do 2º ciclo, leitura autónoma

Ssschlep quando a boca sorve a sopa da colher.
Este é o momento glorioso em que o esforço é recompensado: quando a criança come finalmente a sopa. O álbum tenta, página a página, alcançar o sucesso de realizar a onomatopeia. O que efectivamente acontece, e não é mesmo no final. A criança leva a colher ao prato, e do prato à boca várias vezes, tentando constatar a veracidade da história que a mãe lhe revela: os legumes falam. A criança não os ouve… A mãe explica: falavam, antes de serem passados pela bruxa da varinha mágica. O verde do puré de legumes (e da capa do livro) é desconstruído na tentativa de se encontrarem os ingredientes originais que o fizeram puré, e assim restituir à sopa a liberdade dos legumes. A plurissignificação do léxico aproxima o quadro familiar da refeição da própria invenção, traçando uma ambiguidade referencial no discurso da mãe. Assim se introduz o elemento lúdico que enriquece o texto. Mas o efeito de estranheza comunicacional não se fica pelo léxico. Expressões como: “O que te diz a sopa de alho francês” ganha um novo sentido, fora do reconhecimento comum que significa se gostas ou não de sopa de alho francês. O verbo dizer tem também um sentido denotativo obrigatório, já que o alho francês também fala, agora. Logo, o que disser, será em língua francesa… O jogo semântico inverte o jogo entre o óbvio e o idiomático, obrigando o leitor a reflectir sobre o uso das expressões que utiliza diariamente.
As ilustrações ampliam esta relação comunicação-invenção. A criança, a sua mão, a colher e o prato estão ligados pelas linhas e espaços da mesa. Através desta ligação original, a ilustração ganha uma dinâmica quase animada de alteração das formas e deslocação das linhas no espaço. É uma espécie de ilustração em devir, porque a Ada nova imagem há um vestígio da imagem anterior e um indício de mudança na que se seguirá. Inicialmente esta umbilicalidade acontece apenas no espaço físico que a criança, sentada, ocupa, e o tampo da mesa onde estão o prato e a colher. À medida que os legumes ganham vida numa memória inventada pela mãe, também o prato liberta o seu conteúdo que voa em movimentos circulares. Quando a criança começa a empatizar com a ideia de que a voz dos legumes foram silenciados pela bruxa da varinha mágica que os passou (passar é uma das palavras usadas com dois sentidos) as linhas emaranhadas que emergem do prato enlaçam-se com a mesa, a cadeira e a criança, ocupando por fim um lugar debaixo da mesa. Um esconderijo, uma inversão?
A dupla Eugénio Roda (texto) - Gémeo Luís (ilustração) funciona como poucas no panorama nacional, tal é a sua identidade, a sua voz própria. Busca e encontra matéria para desconstruir, mostrando as suas partes em interacção. Palavra e imagem não se tornam impossíveis de alcançar. Pelo contrário, é muitas vezes o (re)encontro com o mais simples que torna palavras, frases, figuras, movimentos, autênticos momentos poéticos.

Ssschlep quando a boca sorve a sopa da colher.
Este é o momento glorioso em que o esforço é recompensado: quando a criança come finalmente a sopa. O álbum tenta, página a página, alcançar o sucesso de realizar a onomatopeia. O que efectivamente acontece, e não é mesmo no final. A criança leva a colher ao prato, e do prato à boca várias vezes, tentando constatar a veracidade da história que a mãe lhe revela: os legumes falam. A criança não os ouve… A mãe explica: falavam, antes de serem passados pela bruxa da varinha mágica. O verde do puré de legumes (e da capa do livro) é desconstruído na tentativa de se encontrarem os ingredientes originais que o fizeram puré, e assim restituir à sopa a liberdade dos legumes. A plurissignificação do léxico aproxima o quadro familiar da refeição da própria invenção, traçando uma ambiguidade referencial no discurso da mãe. Assim se introduz o elemento lúdico que enriquece o texto. Mas o efeito de estranheza comunicacional não se fica pelo léxico. Expressões como: “O que te diz a sopa de alho francês” ganha um novo sentido, fora do reconhecimento comum que significa se gostas ou não de sopa de alho francês. O verbo dizer tem também um sentido denotativo obrigatório, já que o alho francês também fala, agora. Logo, o que disser, será em língua francesa… O jogo semântico inverte o jogo entre o óbvio e o idiomático, obrigando o leitor a reflectir sobre o uso das expressões que utiliza diariamente.
As ilustrações ampliam esta relação comunicação-invenção. A criança, a sua mão, a colher e o prato estão ligados pelas linhas e espaços da mesa. Através desta ligação original, a ilustração ganha uma dinâmica quase animada de alteração das formas e deslocação das linhas no espaço. É uma espécie de ilustração em devir, porque a Ada nova imagem há um vestígio da imagem anterior e um indício de mudança na que se seguirá. Inicialmente esta umbilicalidade acontece apenas no espaço físico que a criança, sentada, ocupa, e o tampo da mesa onde estão o prato e a colher. À medida que os legumes ganham vida numa memória inventada pela mãe, também o prato liberta o seu conteúdo que voa em movimentos circulares. Quando a criança começa a empatizar com a ideia de que a voz dos legumes foram silenciados pela bruxa da varinha mágica que os passou (passar é uma das palavras usadas com dois sentidos) as linhas emaranhadas que emergem do prato enlaçam-se com a mesa, a cadeira e a criança, ocupando por fim um lugar debaixo da mesa. Um esconderijo, uma inversão?
A dupla Eugénio Roda (texto) - Gémeo Luís (ilustração) funciona como poucas no panorama nacional, tal é a sua identidade, a sua voz própria. Busca e encontra matéria para desconstruir, mostrando as suas partes em interacção. Palavra e imagem não se tornam impossíveis de alcançar. Pelo contrário, é muitas vezes o (re)encontro com o mais simples que torna palavras, frases, figuras, movimentos, autênticos momentos poéticos.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Livros do Plano - A menina gigante
A menina gigante, Manuel Jorge Marmelo e Maria Miguel Marmelo (texto); Simona Traina (ilustração), Campo das Letras, livro recomendado para o 3º ano do 1º ciclo, leitura autónoma
Ana Grande é apresentada como uma menina normal. Com hábitos comuns, comportamentos identificáveis por outras crianças da sua idade, que nunca é revelada: “Ana Grande era uma menina que talvez tivesse a tua idade. Que ia à escola, como tu, que brincava no recreio quando chegava a hora…”. O seu quarto cumpre igualmente essa normalidade, com quadros na parede, a secretária, livros e brinquedos no chão. E lá está Ana, de olhos grandes, debruçada sobre a cama.
Esta é a primeira página do livro e, apesar do título e do nome da personagem, ainda nada a distingue extraordinariamente da maioria das crianças. Apenas quando viramos a página descobrimos que Ana Grande tem umas pernas enormes, que a colocam quase ao nível da estante da sala. Agora sim, depois de conhecermos Ana e de a aceitarmos, agora somos informados deste pormenor, que será o problema condutor da narrativa: Ana era muito maior que as outras crianças. Os inconvenientes que a altura lhe trazia não seriam tão duros, não fosse a reacção dos demais, que a discriminavam, não aceitavam as suas dificuldades e ainda faziam chacota.
Texto e lustração caminham de mãos dadas, ocultando e revelando juntos a mensagem. O ar infeliz da menina contrasta com a alegria dos colegas que a perseguem e lhe chamam nomes no recreio e dentro da sala de aula. A expressão facial de Ana, com destaque para a curva descendente que delineia a sua boca, permanece a mesma ao longo de várias imagens, reforçando a sua infelicidade constante, em situações várias.
O conflito interno de Ana Grande avolumava-se, questionando a sua condição. Até que um dia o drama atinge o seu clímax, quando a menina pergunta aos pais se é adoptada e recebe uma resposta positiva. Aqui se dá uma reviravolta na história: quando foge de casa, Ana encontra no parque uma menina mais velha, alta como ela, que lhe dá a conhecer o lado positivo da sua diferença. Jogar basquetebol é uma actividade em que pessoas como ela têm mais sucesso que as demais.
O final feliz encerra uma mensagem de valorização do indivíduo, não só no que concerne as diferenças explícitas, como acontece com Ana Grande, mas também no caso de pessoas que nunca se destacam em nada, até um dia descobrirem a sua verdadeira vocação. O prazer de fazer algo que nos realiza, algo em que somos bons, faz com que os outros nos vejam com respeito e orgulho. Mas não se trata de uma conquista individual, e por isso o basquetebol, que seria uma resposta adequada pela característica física da personagem, não representa apenas a sua vocação. Sendo um desporto colectivo, integra outras pessoas igualmente altas, permitindo que se sintam identificadas umas com as outras, e criando assim um ambiente de comunidade.
Os autores Manuel Jorge Marmelo e Maria Miguel Marmelo não promovem um discurso pedagógico ou moral explícito. Tudo se reporta aos acontecimentos da vida de Ana, que nos são relatados sob a sua perspectiva.
A linearidade e a objectividade da narração funcionam como sucessivos alertas para a crueldade dos outros, para a sua incompreensão. “Na verdade, Ana Grande não só não podia brincar com os amigos da escola, como também se transformou em objecto de maldade dos outros meninos, que corriam à sua volta, gozando, enquanto lhe chamavam:
- Menina de andas!
- Menina de andas!
- Menina de andas!"
O discurso directo exemplifica os comportamentos, particularizando uma situação que em abstracto não tem o mesmo efeito cruel. A importância do exemplo é reforçada num parênteses narrativo, quando o narrador compara a ‘postura trapalhona e desengonçada’ de Ana à sensação que uma criança tem ao vestir a roupa dos adultos. A ilustração acompanha o exemplo dado pelo texto, reforçando expressivamente a situação com folgas, pregas e caudas que transborda da roupa que duas crianças vestem. A cumplicidade entre palavra e imagem é evidente, e da sua relação sai reforçada a ideia de proximidade aos leitores, pela referencialidade dos elementos que constam das ilustrações espaciais (o quarto, a sala, a escola, o parque…). A definição do traço e a presença do risco dá carácter às personagens, pela imperfeição e desalinho natural à vida das crianças.
Quanto à ilustração da capa-contracapa, só quando vista na sua totalidade oferece a dimensão da menina. Se for vista parcialmente (apenas a capa ou apenas a contracapa) Ana aparenta um tamanho comum. A escolha gráfica não terá sido em vão. Para além disso, sem outro elemento de comparação, Ana não terá uma altura desmedida e, rodeada por objectos familiares, é efectivamente uma menina normal.
Em suma, a alteridade e a diferença são muito mais uma questão de perspectiva do que uma verdade objectiva. Nesse sentido, o livro ultrapassa a tese de que todas as diferenças devem ser aceites e questiona o que é a diferença.
Ana Grande é apresentada como uma menina normal. Com hábitos comuns, comportamentos identificáveis por outras crianças da sua idade, que nunca é revelada: “Ana Grande era uma menina que talvez tivesse a tua idade. Que ia à escola, como tu, que brincava no recreio quando chegava a hora…”. O seu quarto cumpre igualmente essa normalidade, com quadros na parede, a secretária, livros e brinquedos no chão. E lá está Ana, de olhos grandes, debruçada sobre a cama.Esta é a primeira página do livro e, apesar do título e do nome da personagem, ainda nada a distingue extraordinariamente da maioria das crianças. Apenas quando viramos a página descobrimos que Ana Grande tem umas pernas enormes, que a colocam quase ao nível da estante da sala. Agora sim, depois de conhecermos Ana e de a aceitarmos, agora somos informados deste pormenor, que será o problema condutor da narrativa: Ana era muito maior que as outras crianças. Os inconvenientes que a altura lhe trazia não seriam tão duros, não fosse a reacção dos demais, que a discriminavam, não aceitavam as suas dificuldades e ainda faziam chacota.
Texto e lustração caminham de mãos dadas, ocultando e revelando juntos a mensagem. O ar infeliz da menina contrasta com a alegria dos colegas que a perseguem e lhe chamam nomes no recreio e dentro da sala de aula. A expressão facial de Ana, com destaque para a curva descendente que delineia a sua boca, permanece a mesma ao longo de várias imagens, reforçando a sua infelicidade constante, em situações várias.
O conflito interno de Ana Grande avolumava-se, questionando a sua condição. Até que um dia o drama atinge o seu clímax, quando a menina pergunta aos pais se é adoptada e recebe uma resposta positiva. Aqui se dá uma reviravolta na história: quando foge de casa, Ana encontra no parque uma menina mais velha, alta como ela, que lhe dá a conhecer o lado positivo da sua diferença. Jogar basquetebol é uma actividade em que pessoas como ela têm mais sucesso que as demais.
O final feliz encerra uma mensagem de valorização do indivíduo, não só no que concerne as diferenças explícitas, como acontece com Ana Grande, mas também no caso de pessoas que nunca se destacam em nada, até um dia descobrirem a sua verdadeira vocação. O prazer de fazer algo que nos realiza, algo em que somos bons, faz com que os outros nos vejam com respeito e orgulho. Mas não se trata de uma conquista individual, e por isso o basquetebol, que seria uma resposta adequada pela característica física da personagem, não representa apenas a sua vocação. Sendo um desporto colectivo, integra outras pessoas igualmente altas, permitindo que se sintam identificadas umas com as outras, e criando assim um ambiente de comunidade.
Os autores Manuel Jorge Marmelo e Maria Miguel Marmelo não promovem um discurso pedagógico ou moral explícito. Tudo se reporta aos acontecimentos da vida de Ana, que nos são relatados sob a sua perspectiva.
A linearidade e a objectividade da narração funcionam como sucessivos alertas para a crueldade dos outros, para a sua incompreensão. “Na verdade, Ana Grande não só não podia brincar com os amigos da escola, como também se transformou em objecto de maldade dos outros meninos, que corriam à sua volta, gozando, enquanto lhe chamavam:
- Menina de andas!
- Menina de andas!
- Menina de andas!"
O discurso directo exemplifica os comportamentos, particularizando uma situação que em abstracto não tem o mesmo efeito cruel. A importância do exemplo é reforçada num parênteses narrativo, quando o narrador compara a ‘postura trapalhona e desengonçada’ de Ana à sensação que uma criança tem ao vestir a roupa dos adultos. A ilustração acompanha o exemplo dado pelo texto, reforçando expressivamente a situação com folgas, pregas e caudas que transborda da roupa que duas crianças vestem. A cumplicidade entre palavra e imagem é evidente, e da sua relação sai reforçada a ideia de proximidade aos leitores, pela referencialidade dos elementos que constam das ilustrações espaciais (o quarto, a sala, a escola, o parque…). A definição do traço e a presença do risco dá carácter às personagens, pela imperfeição e desalinho natural à vida das crianças.
Quanto à ilustração da capa-contracapa, só quando vista na sua totalidade oferece a dimensão da menina. Se for vista parcialmente (apenas a capa ou apenas a contracapa) Ana aparenta um tamanho comum. A escolha gráfica não terá sido em vão. Para além disso, sem outro elemento de comparação, Ana não terá uma altura desmedida e, rodeada por objectos familiares, é efectivamente uma menina normal.
Em suma, a alteridade e a diferença são muito mais uma questão de perspectiva do que uma verdade objectiva. Nesse sentido, o livro ultrapassa a tese de que todas as diferenças devem ser aceites e questiona o que é a diferença.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
PNL: Um livro novo para cada novo leitor
O Plano Nacional de Leitura lançou uma iniciativa para o início da experiência escolar dos mais novos. Assim, será oferecido um livro a cada criança no seu primeiro dia, na presença dos pais e professores. A ideia é muito boa, porque associa o livro a um momento inesquecível na vida da criança. Mas não só. Porque este momento será partilhado com a família, que poderá assim ser alertada para a importância da leitura. Mais ainda, dá a todas as crianças, sem excepção, de poderem ter em casa um livro seu, mesmo em lares onde não há livros ou quaisquer hábitos de leitura.Aqui fica o pdf com a informação acerca do projecto, brochuras para as famílias e uma etiqueta para as crianças colarem no seu livro.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Como são os alunos que não adquiriram hábitos de leitura?
É mais que sabido que muitos dos alunos que chegam ao 5º ano nunca leram um livro até a fim. Será verdade? E os álbuns que folheava no 1º ano do 1º ciclo? E as bds da Disney? É importante, em primeiro lugar, conhecer efectivamente cada aluno, o que implica ter algumas noções acerca do seu percurso e dos seus gostos.
Os alunos sem hábitos de leitura tendem ao aborrecimento fácil, quase imediato. Uns, porque simplesmente não conseguem perceber o nível discursivo do que estão a tentar ler, outros porque não se conseguem concentrar, outros porque acham profundamente desinteressante o tema ou o estilo do livro.
Assim, será ainda mais difícil recomendar livros para alunos que não tenham hábitos de leitura, porque a sua motivação obedece a vários passos, o primeiro dos quais consiste em ultrapassar a barreira de indiferença e por vezes raiva que muitos sentem em relação ao livro.
Mas não devemos confundir alunos sem hábitos de leitura com alunos com dificuldades de aprendizagem, porque não se estabelece uma relação necessária de causa-efeito entre ambos.
Por isso, a ideia de que livros informativos, banda-desenhada, temas como o futebol ou adivinhas servirão os intentos do professor desesperado, parece-me um pouco simplista.

Por exemplo, um dos livros recomendado para estes alunos (que frequentem o 5º ou 6º ano), pelo PNL, integra uma colecção da Replicação e tem o nome de Puzzles Policiais. Parece-me uma boa ideia. Estes livros são desafios misteriosos, que interagem com o leitor, envolvendo-o e despertando-lhe a curiosidade em desvendar o crime. Não têm uma visão nem simplista nem paternalista do jogo. De tal forma que nos poderão prender a atenção a nós, adultos, tanto quanto podem ser lidos por crianças mais novas, desde que leitoras competentes. É uma boa escolha porque é um livro estimulante, transversal, com um conjunto de crimes a resolver, o que permite uma leitura livre, saltando puzzles, escolhendo pelo título, espreitando o resultado. Este livro pode até ser trabalhado em aula: lê-se um episódio em voz alta. Em grupo, so alunos registam o que consideram ser a resolução do crime. Lêem-se as várias propostas e finalmente desvenda-se o mistério.
Já propor um livro como Mais ou menos meio metro (Ana Saldanha e Gémeo Luís), só porque se
trata de um texto em verso que segue a forma da adivinha, parece-me totalmente descabido. Este álbum exige atenção ao detalhe da ilustração, da paginação, e à relação entre o discurso visual e textual. A sua sensibilidade vai na direcção oposta à de uma criança que não gosta de livros, não se concentra, e deseja informação rápida, acessível e seleccionada. Os alunos do 2º ciclo não ganharão muito em acompanhar as fases da gestação ou em estudar esquemas rimáticos através deste álbum.
trata de um texto em verso que segue a forma da adivinha, parece-me totalmente descabido. Este álbum exige atenção ao detalhe da ilustração, da paginação, e à relação entre o discurso visual e textual. A sua sensibilidade vai na direcção oposta à de uma criança que não gosta de livros, não se concentra, e deseja informação rápida, acessível e seleccionada. Os alunos do 2º ciclo não ganharão muito em acompanhar as fases da gestação ou em estudar esquemas rimáticos através deste álbum. Nenhum livro deve ser vetado a nenhuma criança, mas há livros que não devem ser destinados, em especial, a um determinado público, se a intenção for estimulá-lo para a leitura. Já se o objectivo for de divulgação, no sentido de despertar os alunos para a diversidade de propostas, isso já é outra história...
A principal batalha com alunos sem hábitos de leitura é derrubar um por um os estereótipos que alimentam contra os livros. Depois, o segundo passo é levá-los a ler um livro até ao fim, o que numa primeira fase pode acontecer através da mediação do professor. O terceiro passo será dar-lhes autonomia de escolha, envolvendo-os numa comunidade onde os seus pares lêem, para que a leitura passe a ser normal.
Marcadores:
Plano Nacional de Leitura,
Promoção da Leitura
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Livros do Plano - alterações nas listas
Já está disponível a nova lista de livros recomendados pelo PNL. Depois de um breve olhar, algumas notas:
É de saudar a integração de vários livros da OQO, mas não deixa de ser estranho que quase todos figurem na lista de livros recomendados para leitura autónoma. Será que a qualidade dos livros os afasta da leitura orientada, na perspectiva da equipa que elabora a lista? Serão demasiado bons para se esgotarem em actividades como leituras dramatizadas, jogos de previsão ou leitura colectiva de imagens (estes livros são recomendados para o ensino pré-escolar e 1º ano de escolaridade, ainda que um deles conste da lista para o 2º ano)?
Fica a faltar uma maior presença da Planeta Tangerina, que deu um novo fôlego à edição de álbuns, com uma linguagem própria que não permite que texto e imagem existam em separado.
A ausência da Bruáa é uma séria lacuna, se esperarmos que a equipa do Plano esteja atenta a novos e bons projectos.
Outras alterações são do domínio dos níveis de ensino. Alguns livros que até aqui eram recomendados para o pré-escolar, como A cor instável (Afrontamento) da dupla João Paulo Cotrim (texto) e Alain Corbel (ilustração) ou O ladrão de palavras (Caminho) de Francisco Duarte Mangas (texto) e Alain Corbel (ilustração), são agora recomendados para o 2º e 3º ano do 1º ciclo.
Partindo do pressuposto que a elaboração das listas tem em conta o trabalho realizado pelos docentes e mediadores, podemos crer que estes terão considerado que estes livros seriam difíceis para o seu público. No entanto, há que ter em linha de conta que as escolas têm vindo a adquirir conjuntos de livros com as verbas disponibilizadas, e agora poderão ver os seus esforços defraudados.
Seria por isso importante que a actualização da lista fosse acompanhada por um texto explicativo, que especificasse os critérios e as razões que levaram a equipa a tomar estas e outras decisões, para que pais e educadores se sentissem mais seguros.
Ainda não percorri os títulos recomendados para 2º e 3º ciclos. Acerca deles, nada posso dizer por enquanto.
É de saudar a integração de vários livros da OQO, mas não deixa de ser estranho que quase todos figurem na lista de livros recomendados para leitura autónoma. Será que a qualidade dos livros os afasta da leitura orientada, na perspectiva da equipa que elabora a lista? Serão demasiado bons para se esgotarem em actividades como leituras dramatizadas, jogos de previsão ou leitura colectiva de imagens (estes livros são recomendados para o ensino pré-escolar e 1º ano de escolaridade, ainda que um deles conste da lista para o 2º ano)?
Fica a faltar uma maior presença da Planeta Tangerina, que deu um novo fôlego à edição de álbuns, com uma linguagem própria que não permite que texto e imagem existam em separado.
A ausência da Bruáa é uma séria lacuna, se esperarmos que a equipa do Plano esteja atenta a novos e bons projectos.
Outras alterações são do domínio dos níveis de ensino. Alguns livros que até aqui eram recomendados para o pré-escolar, como A cor instável (Afrontamento) da dupla João Paulo Cotrim (texto) e Alain Corbel (ilustração) ou O ladrão de palavras (Caminho) de Francisco Duarte Mangas (texto) e Alain Corbel (ilustração), são agora recomendados para o 2º e 3º ano do 1º ciclo.
Partindo do pressuposto que a elaboração das listas tem em conta o trabalho realizado pelos docentes e mediadores, podemos crer que estes terão considerado que estes livros seriam difíceis para o seu público. No entanto, há que ter em linha de conta que as escolas têm vindo a adquirir conjuntos de livros com as verbas disponibilizadas, e agora poderão ver os seus esforços defraudados.
Seria por isso importante que a actualização da lista fosse acompanhada por um texto explicativo, que especificasse os critérios e as razões que levaram a equipa a tomar estas e outras decisões, para que pais e educadores se sentissem mais seguros.
Ainda não percorri os títulos recomendados para 2º e 3º ciclos. Acerca deles, nada posso dizer por enquanto.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Livros do Plano - Queres ouvir? Eu conto
Queres ouvir? Eu conto, Irene Lisboa, Editorial Presença, livro recomendado para o 4º ano do 1º ciclo, leitura autónoma


Os contos reunidos neste volume afastam-se dos limites geracionais que normalmente acabam por condenar uma obra ao esquecimento. A estrutura literária a que obedecem as narrativas deriva directamente dos contos tradicionais (e não apenas dos clássicos de Perrault ou dos irmãos Grimm). A sua escrita procura revelar a essência humana, recorrendo a ambientes campestres e bucólicos, em que os comportamentos não sofrem nenhum condicionamento conjuntural. Há um idealismo que a autora não faz por esconder em cada conto, há uma moral que preza o direito ao respeito, independentemente da diferença, o direito à atenção, à consideração, à estima. Enquanto direitos universais, tais temáticas não dependem de contextos concretos, e por isso o espaço e o tempo são sempre indeterminados na macro-estrutura textual. Não estamos perante os quadros sociais transmontanos de Miguel Torga, não se escalpelizam misérias individuais, causas sem razão, infelicidades congénitas e destinos inevitavelmente trágicos. À imagem dos contos tradicionais, a economia narrativa respeita a unidade de acção, tempo e espaço, sem derivações (não esqueçamos que também outros autores, como Eça de Queirós, seguiram a mesma estrutura de género). A linearidade centra o leitor no protagonista, que é na maioria dos casos uma pessoa, mas ocasionalmente pode ser um animal, uma entidade ou um objecto animizado de modo a que se produzam os mesmos efeitos morais. O tempo resulta de uma sucessão de acontecimentos, sem intercalamento de acções, sem desvios, servindo os nós narrativos através da ideia de duração. Acontece, por exemplo, algumas acções, tidas como desafios que geralmente implicam o sacrifício e o sofrimento da personagem, serem muito demoradas no tempo: anos que se passam, horas e horas de caminhadas… Em contraponto, o tempo que passa muito depressa, através de uma breve referência, pauta o ritmo narrativo, e dá conta do que é e não é relevante ser dito. Também os símbolos estão presentes, sendo o mais comum o valor do número três, que muitas vezes enuncia o número de vezes que se repete um desafio, uma instrução, um acidente. O três, enquanto número perfeito, presta-se a inúmeras leituras, desde a santíssima trindade à dialéctica hegeliana. Por isso, a sua recuperação dos contos tradicionais (Os três porquinhos, as três adivinhas do Rei, entre tantos outros…), não é de espantar. Mas a simbologia destes contos não se esgotam aqui, recuperando outros elementos do património etnográfico, como a espiga, por exemplo.
O estilo evidencia um grande domínio da palavra, consubstanciado numa leitura escorreita. As marcas oralizantes verificam-se quer pelo discurso directo, o uso de interjeições, exclamações ou hesitações, quer pelo uso de expressões mais populares como “toma o rumo”, “papéis em fanicos”, “poiso”, “vamos em cata dele”. O uso de um tom coloquial integra o insólito dos acontecimentos, muito típico do conto maravilhoso, conferindo-lhes uma certa legitimidade. No entanto, a disposição sintáctica e a integração lexical são cuidadosamente pensadas, integrando assim, sem provocar estranheza, vocábulos próprios de um discurso cuidado. Este equilíbrio permite que o escrito possa ser lido em voz alta, sem nunca se tornar simplista.
Irene Lisboa, na sua condição de pedagoga, foi bastante perspicaz ao não catalogar esta colectânea: «Histórias para maiores e mais pequenos se entreterem» lê-se no subtítulo. Foge à ideia de público-alvo e reforça a origem tradicional desta escrita, já que os contos tradicionais nunca se destinaram a crianças, embora tivessem sido por elas apropriados. Mas a apropriação derivou sobretudo da transmissão oral deste património pelos adultos, o único que conheciam, bem como da partilha social do acto de contar e ouvir histórias. Nesta comunicação imbricada e interdependente, a autora assenta o principal pressuposto do volume: o desejo de ouvir e de contar. É a única condição necessária para a leitura/ recepção da obra, e muito mais exigente do que um critério etário. A ideia de entretenimento é, neste caso, quase irónica, pois acalenta uma ideia de simplicidade do texto associada ao prazer da comunicação e da imaginação. A ironia, mais uma vez, reflecte a agudeza do pensamento da autora, ao recuperar, contra práticas e teses pedagógicas, a simplicidade da origem tradicional como fundadora e fonte de alimentação permanente da imaginação e da ética. Não se podem isolar estes dois aspectos nos contos apresentados porque nenhum se sobrepõe ao outro, nenhum desequilibra a ordem retórica, nenhum denuncia uma intenção exterior ao texto. Todas as narrativas têm uma moral, mas esta nem sempre é óbvia, porque os finais são por vezes inesperados e não seguem a regra do desenlace feliz.
A presente edição conta com um prefácio acurado de Violante Florêncio, que para além da análise que faz do volume, o relaciona com a obra da autora, contextualizando-a no panorama da literatura infantil dos anos cinquenta do século XX.
O estilo evidencia um grande domínio da palavra, consubstanciado numa leitura escorreita. As marcas oralizantes verificam-se quer pelo discurso directo, o uso de interjeições, exclamações ou hesitações, quer pelo uso de expressões mais populares como “toma o rumo”, “papéis em fanicos”, “poiso”, “vamos em cata dele”. O uso de um tom coloquial integra o insólito dos acontecimentos, muito típico do conto maravilhoso, conferindo-lhes uma certa legitimidade. No entanto, a disposição sintáctica e a integração lexical são cuidadosamente pensadas, integrando assim, sem provocar estranheza, vocábulos próprios de um discurso cuidado. Este equilíbrio permite que o escrito possa ser lido em voz alta, sem nunca se tornar simplista.
Irene Lisboa, na sua condição de pedagoga, foi bastante perspicaz ao não catalogar esta colectânea: «Histórias para maiores e mais pequenos se entreterem» lê-se no subtítulo. Foge à ideia de público-alvo e reforça a origem tradicional desta escrita, já que os contos tradicionais nunca se destinaram a crianças, embora tivessem sido por elas apropriados. Mas a apropriação derivou sobretudo da transmissão oral deste património pelos adultos, o único que conheciam, bem como da partilha social do acto de contar e ouvir histórias. Nesta comunicação imbricada e interdependente, a autora assenta o principal pressuposto do volume: o desejo de ouvir e de contar. É a única condição necessária para a leitura/ recepção da obra, e muito mais exigente do que um critério etário. A ideia de entretenimento é, neste caso, quase irónica, pois acalenta uma ideia de simplicidade do texto associada ao prazer da comunicação e da imaginação. A ironia, mais uma vez, reflecte a agudeza do pensamento da autora, ao recuperar, contra práticas e teses pedagógicas, a simplicidade da origem tradicional como fundadora e fonte de alimentação permanente da imaginação e da ética. Não se podem isolar estes dois aspectos nos contos apresentados porque nenhum se sobrepõe ao outro, nenhum desequilibra a ordem retórica, nenhum denuncia uma intenção exterior ao texto. Todas as narrativas têm uma moral, mas esta nem sempre é óbvia, porque os finais são por vezes inesperados e não seguem a regra do desenlace feliz.
A presente edição conta com um prefácio acurado de Violante Florêncio, que para além da análise que faz do volume, o relaciona com a obra da autora, contextualizando-a no panorama da literatura infantil dos anos cinquenta do século XX.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Livros do Plano sofrem atrasos via CTT
Nem a propósito, os livros que esperamos ansiosamente ainda não chegaram. O carteiro tem vindo, e nada... Vamos esperar. Pode ser que para a semana já os tenhamos por perto, ou uma grande chatice nos Correios...
Até lá, outras cartas chegarão!
Até lá, outras cartas chegarão!
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Livros do Plano - O Têpluquê e outras hstórias
O Têpluquê, Manuel António Pina, Bárbara Assis Pacheco (ilust.), Assírio e Alvim, livro recomendado para 2º ano do 1º ciclo, leitura autónoma


Manuel António Pina explora, de livro para livro, o mesmo universo imaginário, onde o ideário nunca é traído nem tão pouco repetitivo. Por isso não será de espantar que a Sara de O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973) reapareça na penúltima história deste livro acompanhada pelo escaravelho contador de histórias, que retorna pela segunda vez ao volume, depois de ter feito companhia a Ana em «Conversa com um escaravelho». Convém não esquecer que esta personagem é a mesma que narra as histórias ao menino, no livro Histórias que me contaste tu (Assírio e Alvim). A presença das mesmas personagens em narrativas diversas dá à obra do escritor uma amplitude dialógica. O acto de contar assume na escrita de Manuel António Pina uma maior cumplicidade dialéctica entre o desvendar e o reencontrar. Firma-se um pacto afectivo neste reconhecimento. Tal pacto sustenta assim a intenção de absurdo que preside às narrativas. Pensar num mundo onde a lógica pode ser sempre desviada noutro sentido supera os paradigmas fechados de experimentações fantasiosas. Este absurdo não resulta de um cenário, ou sequer serve um mistério, um destaque diegético, como acontece por exemplo em Estranhões e Bizarocos de José Eduardo Agualusa (D. Quixote). Neste livro, o estranho e o diferente têm como finalidade um juízo afectivo assente no estilo imagético e sensorial do escritor. Agualusa reinventa a fábula, partindo do maravilhoso como herança literária. No final, a narrativa fecha-se com um remate moral. No caso das narrativas de Manuel António Pina o absurdo existe na sua base e não como recurso retórico. Este absurdo tem como finalidade esticar e desconstruir as lógicas, sejam elas discursivas, como acontece com o narrador fantástico que é o escaravelho da batata, sejam elas linguísticas, como acontece com a «Revolução das Letras» ou com o «Têpluquê», sejam elas religiosas/ míticas (como acontece com Lázaro e a sua alma), ou mesmo piscanalíticas, no caso do pensamento. Todavia, a organização do livro não apresenta nem organiza categorias a transformar, não cria qualquer método exterior ao ritmo próprio da sucessão de histórias. Este fluir natural que não obedece a limites é coerente com a própria intenção subversiva dos textos, e por isso fica a cargo dos limites físicos do livro o fim das histórias.
Aqui, o nonsense oferece a possibilidade de desviar cada objecto dos seus limites. Tudo pode ser relacionado numa liberdade criativa sem fim. A ideia de disparate é suplantada pelo espanto, porque as narrativas ficam sempre em aberto, suspensas até nova recuperação, até novo encontro. O jogo com o leitor constrói-se assim: entre o espanto e a procura, entre a primeira descoberta e o reencontro. A exploração do alfabeto através das consoantes e das vogais, das letras mais frequentes e das mais ausentes das palavras ou da sua forma, concede à escrita uma essência própria, diferente do sentido utilitário com que as letras são usadas em prol do sentido que procuramos. A proposta está lançada, a estratégia demonstrada, basta segui-la uma e outra vez, e descobrir novas combinações, novas alcunhas, novos prazeres… É claro que nem todas as histórias serão óbvias para os leitores, muitas soarão estranhas. Mas romper os limites não pode deixar uma sensação de reconforto como uma fábula tradicional. A escrita de Manuel António Pina permite desde cedo que o leitor conviva com esse mistério fundador da grande literatura: aquela que desconcerta e não entretém.
O que não significa ausência de ternura, de comicidade, de proximidade. Pelo contrário, abrir novas portas e explorar novos lugares só é possível com este pacto entre autor-leitor. Um pouco como acontece com Alice no País das Maravilhas. Se não nos sentíssemos convidados, aceitaríamos o desafio?
«A Ana tinha um ioiô muito bonito
que fazia tudo o que ela queria
quando ela dizia «para cima» o ioiô ia para baixo
quando ela dizia «para baixo» o ioiô ia para cima
Como gostava muito muito daquele ioiô
A Ana fazia de conta que não percebia
Para o ioiô ir para cima dizia «para baixo»
Para o ioiô ir para baixo dizia «para cima»
E como o ioiô gostava muito muito da Ana
Era o ioiô mais obediente que havia
Quando ia para cima fazia de conta que ia para baixo
Quando ia para baixo fazia de conta que ia para cima»
(pp. 51-52)
Aqui, o nonsense oferece a possibilidade de desviar cada objecto dos seus limites. Tudo pode ser relacionado numa liberdade criativa sem fim. A ideia de disparate é suplantada pelo espanto, porque as narrativas ficam sempre em aberto, suspensas até nova recuperação, até novo encontro. O jogo com o leitor constrói-se assim: entre o espanto e a procura, entre a primeira descoberta e o reencontro. A exploração do alfabeto através das consoantes e das vogais, das letras mais frequentes e das mais ausentes das palavras ou da sua forma, concede à escrita uma essência própria, diferente do sentido utilitário com que as letras são usadas em prol do sentido que procuramos. A proposta está lançada, a estratégia demonstrada, basta segui-la uma e outra vez, e descobrir novas combinações, novas alcunhas, novos prazeres… É claro que nem todas as histórias serão óbvias para os leitores, muitas soarão estranhas. Mas romper os limites não pode deixar uma sensação de reconforto como uma fábula tradicional. A escrita de Manuel António Pina permite desde cedo que o leitor conviva com esse mistério fundador da grande literatura: aquela que desconcerta e não entretém.
O que não significa ausência de ternura, de comicidade, de proximidade. Pelo contrário, abrir novas portas e explorar novos lugares só é possível com este pacto entre autor-leitor. Um pouco como acontece com Alice no País das Maravilhas. Se não nos sentíssemos convidados, aceitaríamos o desafio?
«A Ana tinha um ioiô muito bonito
que fazia tudo o que ela queria
quando ela dizia «para cima» o ioiô ia para baixo
quando ela dizia «para baixo» o ioiô ia para cima
Como gostava muito muito daquele ioiô
A Ana fazia de conta que não percebia
Para o ioiô ir para cima dizia «para baixo»
Para o ioiô ir para baixo dizia «para cima»
E como o ioiô gostava muito muito da Ana
Era o ioiô mais obediente que havia
Quando ia para cima fazia de conta que ia para baixo
Quando ia para baixo fazia de conta que ia para cima»
(pp. 51-52)
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Livros do Plano - Guia Familiar para os Monstros lá de Casa
Guia familiar para os monstros lá de casa II, Stanislav Marijanovic, Dinalivro, livro recomendado para o 1º ano do 1º ciclo, leitura autónoma
Através deste livro ilustrado pode o leitor conhecer uma diversidade de monstros que nos povoam o quotidiano. Cada retrato apresenta marcas que remetem para a sua função: o monstro da tagarelice tem um microfone, o monstro atarefado tem muitas mãos ocupadas com papéis, pentes, chávenas de café ou lápis; já o monstro dos atrasos traz consigo relógios que iludem a hora verdadeira.Em jeito de enciclopédia, a galeria de personagens é apresentada ao leitor em discurso directo, com algumas sugestões para o salvar de tal incómodo. Curioso é que nem sempre estes monstros têm características com as quais os mais pequenos se identifiquem. Aparecem também monstros especificamente destinados aos adultos, nomeadamente aos pais, e serão os filhos a ter a importante missão de os encontrarem e agirem, em defesa dos adultos. «A maior parte das vezes, o Faretutus ataca os graúdos e, assim, compete às crianças ajudar os mais velhos a combater este monstro. Levem os vossos pais diariamente ao parque para fazerem exercício e apanharem ar fresco. Obriguem os graúdos a fazer refeições saudáveis e a ler bonitas histórias, antes de irem cedinho para a cama.»
A metáfora dos monstros parte de um universo lúdico e fantasioso para caracterizar problemas e atitudes do dia a dia, promovendo a sua identificação e contextualização. As sugestões apresentadas tentam deslocar as regras de aprendizagem social e comportamental de um discurso impositivo ou pedagógico para o transformar num jogo em que o leitor será o herói. Combater os monstros é combater a preguiça, a desarrumação, a gulodice, a batotice, a indecisão. «Quando o Ambigus está por perto, não serás capaz de escolher coisa alguma, nem o sabor do teu gelado, nem o filme que queres ver, nem mesmo a marca de cereais a comprar para o pequeno-almoço. Qualquer decisão se transforma num pesadelo! Por isso, decide com rapidez, antes que seja tarde demais! Enquanto hesitas e deixas o tempo passar, o filme começa, os amigos vão-se embora e o gelado derrete.»
O monólogo implica um emissor mistério que estabelece um pacto de cumplicidade com o leitor e lhe revela truques e informações preciosas.
Este universo é invisível aos outros, mas o pacto afirma-se pela comprovação das atitudes de todos, adultos e crianças, quando estão sob a influência destas criaturas horrendamente cómicas. Não é um livro literário, na medida em que a sua tipologia segue as regras da comunicação. Mas os dados informativos podem transformar o livro num objecto a que se recorre, a cada situação, para confirmar a existência de um monstro, ou quem sabe, para lhe acrescentar algum. A ideia não pretende esgotar-se aqui, neste segundo volume, visto que não se verifica uma ordem específica na apresentação das criaturas, cujos nomes têm o encanto da referência latina, e uma tradução, tal como acontece com a botânica, ou a zoologia. O facto de o livro não esgotar o assunto faz dele um desafio para a imaginação do leitor, o que é muito importante.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Livros do Plano - O Ladrão de Palavras
O ladrão de palavras, Francisco Duarte Mangas (texto), Alain Corbel (ilustração), Caminho, livro recomendado para pré-escolar, leitura em sala de aula
O ladrão de palavras é uma figura negra, sem qualquer marca que o identifique a
não ser a silhueta humana e os olhos vermelhos. Posiciona-se estrategicamente num ramo de uma árvore, num plano superior ao da aldeia que ataca. O saco, que ainda não apresenta, é do seu tamanho, contrastando em cor (amarelo torrado) com o seu detentor. Eis a primeira leitura que fazemos do livro, pela capa e contracapa. Não há, por isso, nenhum mistério aparente relativamente ao autor do roubo de palavras, e sim acerca da forma como o faz, ou o que o leva a fazê-lo. Porque «as palavras, nesse tempo, eram de ouro.», lemos na primeira página. E o dourado das folhas e do saco aproxima-se do castanho da árvore e das casas, conferindo ao cenário uma melancolia triste de Outono, em que as folhas perdem o fulgurante verde da Primavera e do Verão. A melancolia decorre de uma tristeza crescente provocada pelo empobrecimento progressivo de todos, a quem são roubadas as palavras luminosas. A luz, bem como o contraste dia e noite, o alastramento da nuvem e o aspecto sombrio do bosque, são elementos centrais na representação metafórica do silenciamento. É nesta direcção que a narrativa avança, reforçando o seu pendor simbólico através da introdução intercalada de metáforas e comparações. Estabelece-se assim um diálogo entre a riqueza da linguagem (discursiva e pictórica) que preside ao livro e a sua ausência como tema narrativo, que confere profundidade e coerência interna à construção retórica da obra. A tentativa de resolução do problema não reside nunca na curiosidade, nem dos mais novos, que são condicionados pelos adultos – todos sabiam que era no bosque que o ladrão guardava o saco com as palavras, mas ir ao bosque era proibido, porque era perigoso. Não há, por isso, mistério. Só rostos fechados de crianças e adultos, cogumelos sombrios e desmesurados que ameaçam invadirem a aldeia, e um fenómeno: uma estranha barba verde que prolifera na face das crianças. Este é o momento de reacção dos adultos que, ao chamarem o médico, iniciam, sem o saber, um percurso contra o ladrão de palavras. Será porque as crianças ainda simbolizam a esperança? Será a barba verde um prenúncio ambivalente de tal sentimento? Só perante a receita prescrita pelo médico pode o leitor participar do momento do roubo, invisível, irrepreensível. Confirma-se então o método selectivo do ladrão, que escolhe palavras importantes, fortes, que dão sentido ao mundo e à vida das pessoas. Coragem é uma das que se destaca.
O nó desfaz-se num grito, o da coragem de uma mulher, que logo é imitada por outros sugerindo a força do grupo. «Uma mulher ergueu a voz e os braços na direcção da nuvem: afrontou (afrontar; o verbo que procurávamos) o silêncio. De repente, outros habitantes resgataram a coragem, a palavra coragem, adormecida no bosque dos cogumelos!» E esta mulher contraria o cinzento que preenche as formas geométricas das casas e das árvores do bosque, cujas folhas são pontos cinzentos que rodeiam ramos alinhados numa névoa monocromática. Aqui, a relação antitética das cores das guardas ganham finalmente sentido.
O desenlace fecha simbolicamente a narrativa, desfazendo um equívoco alimentado desde a capa: o ladrão de palavras não era um homem. «Ele, afinal, era uma palavra – a palavra medo.» Porque as palavras podem ser mais fortes que os homens, ensombrando-os e silenciando-os. A poesia deste texto alerta para o perigo da pobreza da linguagem, confrontando-o com os efeitos luminosos da sua riqueza.
não ser a silhueta humana e os olhos vermelhos. Posiciona-se estrategicamente num ramo de uma árvore, num plano superior ao da aldeia que ataca. O saco, que ainda não apresenta, é do seu tamanho, contrastando em cor (amarelo torrado) com o seu detentor. Eis a primeira leitura que fazemos do livro, pela capa e contracapa. Não há, por isso, nenhum mistério aparente relativamente ao autor do roubo de palavras, e sim acerca da forma como o faz, ou o que o leva a fazê-lo. Porque «as palavras, nesse tempo, eram de ouro.», lemos na primeira página. E o dourado das folhas e do saco aproxima-se do castanho da árvore e das casas, conferindo ao cenário uma melancolia triste de Outono, em que as folhas perdem o fulgurante verde da Primavera e do Verão. A melancolia decorre de uma tristeza crescente provocada pelo empobrecimento progressivo de todos, a quem são roubadas as palavras luminosas. A luz, bem como o contraste dia e noite, o alastramento da nuvem e o aspecto sombrio do bosque, são elementos centrais na representação metafórica do silenciamento. É nesta direcção que a narrativa avança, reforçando o seu pendor simbólico através da introdução intercalada de metáforas e comparações. Estabelece-se assim um diálogo entre a riqueza da linguagem (discursiva e pictórica) que preside ao livro e a sua ausência como tema narrativo, que confere profundidade e coerência interna à construção retórica da obra. A tentativa de resolução do problema não reside nunca na curiosidade, nem dos mais novos, que são condicionados pelos adultos – todos sabiam que era no bosque que o ladrão guardava o saco com as palavras, mas ir ao bosque era proibido, porque era perigoso. Não há, por isso, mistério. Só rostos fechados de crianças e adultos, cogumelos sombrios e desmesurados que ameaçam invadirem a aldeia, e um fenómeno: uma estranha barba verde que prolifera na face das crianças. Este é o momento de reacção dos adultos que, ao chamarem o médico, iniciam, sem o saber, um percurso contra o ladrão de palavras. Será porque as crianças ainda simbolizam a esperança? Será a barba verde um prenúncio ambivalente de tal sentimento? Só perante a receita prescrita pelo médico pode o leitor participar do momento do roubo, invisível, irrepreensível. Confirma-se então o método selectivo do ladrão, que escolhe palavras importantes, fortes, que dão sentido ao mundo e à vida das pessoas. Coragem é uma das que se destaca.O nó desfaz-se num grito, o da coragem de uma mulher, que logo é imitada por outros sugerindo a força do grupo. «Uma mulher ergueu a voz e os braços na direcção da nuvem: afrontou (afrontar; o verbo que procurávamos) o silêncio. De repente, outros habitantes resgataram a coragem, a palavra coragem, adormecida no bosque dos cogumelos!» E esta mulher contraria o cinzento que preenche as formas geométricas das casas e das árvores do bosque, cujas folhas são pontos cinzentos que rodeiam ramos alinhados numa névoa monocromática. Aqui, a relação antitética das cores das guardas ganham finalmente sentido.
O desenlace fecha simbolicamente a narrativa, desfazendo um equívoco alimentado desde a capa: o ladrão de palavras não era um homem. «Ele, afinal, era uma palavra – a palavra medo.» Porque as palavras podem ser mais fortes que os homens, ensombrando-os e silenciando-os. A poesia deste texto alerta para o perigo da pobreza da linguagem, confrontando-o com os efeitos luminosos da sua riqueza.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Livros do Plano - Capitães da Areia
Capitães da Areia, Jorge Amado, D. Quixote, livro recomendado para o 9º ano do 3º ciclo, leitura orientada em sala de aula, grau de dificuldade III
Capitães da Areia é hoje um reconhecido clássico da literatura brasileira, sendo um dos romances mais representativos da escrita comprometida de Jorge Amado. O que pode, à primeira vista, parecer uma característica negativa para a qualidade estética da obra, desvanece-se com a leitura. 
A descrição do dia a dia do bando de meninos de rua mais temido da Bahia torna-se aliciante a cada novo episódio, à medida que o leitor se embrenha no conhecimento das personagens e das suas actividades. Furtos, rixas, e até violações constam do cardápio que Jorge Amado nos oferece, a par de sentimentos de raiva, angústia, profunda revolta. A solidão dos elementos principais da narrativa (Pedro Bala, Professor, Sem Pernas, João Grande, Pirulito, Volta Seca, Gato…) funde-se com o rigoroso cumprimento de regras de honra e respeito que estabelecem entre si e para com aqueles que os estimam, como o Padre José Pedro ou Don’Aninha. A voz omnisciente do narrador veste, a cada capítulo, a pele de um dos meninos, aclarando os paradoxos interiores que o assola, denunciando sempre a ambiguidade da sua condição natural de criança ou adolescente que se esconde numa imagem exterior de violência, e com a qual muitas vezes não sabe lidar.

A descrição do dia a dia do bando de meninos de rua mais temido da Bahia torna-se aliciante a cada novo episódio, à medida que o leitor se embrenha no conhecimento das personagens e das suas actividades. Furtos, rixas, e até violações constam do cardápio que Jorge Amado nos oferece, a par de sentimentos de raiva, angústia, profunda revolta. A solidão dos elementos principais da narrativa (Pedro Bala, Professor, Sem Pernas, João Grande, Pirulito, Volta Seca, Gato…) funde-se com o rigoroso cumprimento de regras de honra e respeito que estabelecem entre si e para com aqueles que os estimam, como o Padre José Pedro ou Don’Aninha. A voz omnisciente do narrador veste, a cada capítulo, a pele de um dos meninos, aclarando os paradoxos interiores que o assola, denunciando sempre a ambiguidade da sua condição natural de criança ou adolescente que se esconde numa imagem exterior de violência, e com a qual muitas vezes não sabe lidar.
Particularmente exemplar é o episódio em que Pedro Bala tenta violar uma rapariga que vê a caminhar na praia, depois de ouvir pela primeira vez a história de seu pai, um herói para os estivadores do cais, grevista que morrera em luta por melhores condições para si e todos os seus companheiros. Ao ver a rapariga, Pedro Bala persegue-a, acabando por violá-la. Toda a descrição da abordagem do rapaz e do acto sexual provocam um profundo mau estar ao leitor, que até aqui preza naturalmente a ponderação e capacidade de liderança do jovem. O desenlace do episódio, no entanto, transforma poder em arrependimento. Pedro Bala acompanha a rapariga até à rua, de forma a protegê-la de outros bandidos e, quando se separam, a rapariga que até aqui apenas chora, insulta-o e cospe para o chão como sinal de repulsa. No final, Pedro Bala fica ainda mais abalado do que quando vê a rapariga, porque agora tudo se mistura: a admiração pelo pai, a revolta por ter sido morto e pelas injustiças que os pobres sempre sofrem, e o seu acto, que agora condena e não o libertou desta mágoa que vinha sentindo.
A densidade das personagens não permite que os seus actos sejam legitimados e que estas apareçam apenas na sua condição de vítimas, que obviamente são. O realismo do discurso, a gíria e o calão, o recurso ao diálogo e às descrições muito visuais conferem à narrativa uma leitura quase cinematográfica. A câmara acompanha os passos de um ou mais meninos numa sequência, surge em seguida um flashback contextual, numa nova sequência, retomando enfim a acção principal. Em todas elas, observam-se sempre grandes planos de pormenores do rosto, das expressões ou dos movimentos de cada um. A atenção dos elementos do bando serve precisamente a tensão diegética, e é a partir dos seus olhos que se vêem as várias condições sociais da Bahia, com as suas preocupações, os seus pecadilhos privados, as suas demonstrações de poder e os seus preconceitos.
É claramente um livro político, no sentido em que se denuncia a desigualdade continuada entre ricos e pobres, e em que os Capitães da Areia são um paradigma irónico de múltiplos sentidos, já que são temidos por todos, mas ninguém os quer conhecer, imaginando que os seus líderes serão adultos e não adolescentes entre os 12 e os 15 anos, cuja necessidade tornou espertos, multifacetados e unidos, numa organização invejada por muitos. Certo é que este bando, que ainda reserva uma dose privilegiada de inocência (como acontece quando Volta Seca e Sem Pernas vão trabalhar no velho carrossel de Nhozinho França), serve como exemplo embrionário do que mais tarde poderá ser a violência gratuita de adultos que se alicerçam sobre a descriminação e parcial julgamento da sociedade dita de bem. A poeticidade da linguagem de Jorge Amado alimenta a sintaxe com ritmos sensuais, despojados e lânguidos, para subitamente os interromper num surto de dor. Neste balancear tecem-se as linhas de um romance cuja principal marca será não evitar os conflitos, nunca dourar um cenário mas sim evidenciar a beleza e a fealdade do mundo. E o leitor cede à tentação de acrescentar… como ele é.
A densidade das personagens não permite que os seus actos sejam legitimados e que estas apareçam apenas na sua condição de vítimas, que obviamente são. O realismo do discurso, a gíria e o calão, o recurso ao diálogo e às descrições muito visuais conferem à narrativa uma leitura quase cinematográfica. A câmara acompanha os passos de um ou mais meninos numa sequência, surge em seguida um flashback contextual, numa nova sequência, retomando enfim a acção principal. Em todas elas, observam-se sempre grandes planos de pormenores do rosto, das expressões ou dos movimentos de cada um. A atenção dos elementos do bando serve precisamente a tensão diegética, e é a partir dos seus olhos que se vêem as várias condições sociais da Bahia, com as suas preocupações, os seus pecadilhos privados, as suas demonstrações de poder e os seus preconceitos.
É claramente um livro político, no sentido em que se denuncia a desigualdade continuada entre ricos e pobres, e em que os Capitães da Areia são um paradigma irónico de múltiplos sentidos, já que são temidos por todos, mas ninguém os quer conhecer, imaginando que os seus líderes serão adultos e não adolescentes entre os 12 e os 15 anos, cuja necessidade tornou espertos, multifacetados e unidos, numa organização invejada por muitos. Certo é que este bando, que ainda reserva uma dose privilegiada de inocência (como acontece quando Volta Seca e Sem Pernas vão trabalhar no velho carrossel de Nhozinho França), serve como exemplo embrionário do que mais tarde poderá ser a violência gratuita de adultos que se alicerçam sobre a descriminação e parcial julgamento da sociedade dita de bem. A poeticidade da linguagem de Jorge Amado alimenta a sintaxe com ritmos sensuais, despojados e lânguidos, para subitamente os interromper num surto de dor. Neste balancear tecem-se as linhas de um romance cuja principal marca será não evitar os conflitos, nunca dourar um cenário mas sim evidenciar a beleza e a fealdade do mundo. E o leitor cede à tentação de acrescentar… como ele é.
domingo, 27 de abril de 2008
Pausa nos Livros do Plano
Os Livros do Plano pára durante duas semanas. Retoma com Capitães da Areia, de Jorge Amado, recomendado para o 9ºano, leitura orientada em sala de aula, grau de dificuldade III. Até lá, boas leituras!
Assinar:
Postagens (Atom)