O leitor marginalizado
Não há grandes novidades acerca dos ateliers Diz-me quem és, dir-te-ei o que lês, da passada 3ª feira, em Alcobaça. O primeiro grupo era bastante homogéneo, reagiu bem às actividades e dividiu-se quanto às preferências. Nota-se, aliás, que quando há um número razoável de leitores no grupo as influências no que respeita a votação dos livros é menor. Houve quem não ficasse totalmente satisfeito com o seu perfil de leitor, por não se considerar tão ligado aos livros...
O grupo da tarde parecia menos interessado. Mas rapidamente se percebeu que tudo dependia de quatro rapazes que dominavam a restante turma, com comentários e uma postura de indiferença arrogante. Logo no início, apontaram um colega como o único qu gostava de ler, e como se isso fosse motivo de chacota. Assim estiveram até ao final do atelier, embora dois deles tivessem como resultado do questionário um perfil reticente e não desinteressado pela leitura.
Com o desenrolar do atelier a turma foi-se soltando, desinibindo e participando com interesse. Houve até duas raparigas que ficaram bastante entusiasmadas com Abadazad, tendo até escrito o título do livro na mão para não se esquecerem. Uma delas já tinha tentado começar a ler A Biblioteca Mágica, tendo reconhecido a capa de Abadazad por existir em sua casa - o livro era do irmão. Do outro lado da sala, igualmente distante dos líderes, um aluno interessou-se pelo Diário Secreto de Adrian Mole e por Abadazad. Já O Rapaz que chutava porcos continuou a suscitar bastante interesse. Quanto ao aluno marginalizado, confirmei a gravidade da situação com o professor. Os líderes são desportistas e bons alunos, curiosamente. O seu comportamento, aparentemente, corresponde mais ao de alunos fracos e desmotivados do que a alunos com médias de 5, como é o caso. Por isso, a sua atitude em relação à leitura tem uma conotação social mais do que uma incapacidade que obviamente não têm. Em compensação, o outro aluno tem um corpo franzino, mais infantil, é claramente mais frágil e sensível. Suporta a chacota para poder acompanhar a turma, mas não tem amigos. Esconde o prazer de ler e procura os professores para trocar impressões sobre livros. Não tem auto-confiança e mostra claras dificuldades de concentração, pelo que as suas notas são fracas.
É um dos casos claros de quão violenta pode ser a fase da adolescência, podendo marcar uma pessoa para sempre. Esta situação inverte a clássica associação entre leitura e sucesso escolar, e não é virgem. O que salva este adolescente são, apesar de tudo, os livros que devora, e que o transportam para outra dimensão, onde está em segurança. Pelo menos isso.
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