Estava a ler um dos últimos posts no blog da Pó dos Livros acerca dos tops e da sua viciação (ou não). É um facto que os escaparates, as montras, os destaques, todos os lugares em que as capas aparecem visíveis nas livrarias, são pagos. (É importante ressalvar que há livrarias pequenas que não vendem montras nem escaparates.) Por isso, esses livros vendem mais. Logo, condicionam os tops, já que as pessoas não escolhem aquele livro de entre um leque mais vasto mas apenas entre aqueles cuja imagem vem até si.
As Bibliotecas Municipais verificam que os livros que destacam são os mais requisitados, porque estão mais acessíveis para os leitores.
É um facto e deve ser aproveitado por aqueles que não precisam de (se) vender. Nas Bibliotecas Municipais, bem como nas Bibliotecas Escolares, pode haver critérios de qualidade e diversidade. É claro que as Bibliotecas confrontam-se com outra situação, mais nobre, no que respeita a estas cedências: têm de ser espaços democráticos com a principal função de criar e alimentar leitores. Alguns começam por se alimentar de tops e vão precisamente à sua procura. Se não os encontram, no imediato, não retornam, porque não têm hábitos de leitura nem de pesquisa.
Contudo, há ainda espaço para o desconhecido, e para o bom, e esse pequeno oásis não pode ser desperdiçado. Veja-se a qualidade gráfica de algumas editoras, como a Tinta da China. Atente-se na excelente tradução de autores de referência de países eslavos, bálticos, escandinavos, como a Cavalo de Ferro. Desafiem-se leitores com o catálogo político e provocador da Antígona. Admire-se a elegância na edição de poesia da Assírio e Alvim. Mas não se esqueçam os livros de bolso da colecção Biblioteca Independente (parceria Assírio e Alvim, Relógio d'Água, Cotovia). Há mais, muitas mais. Há mais mundo para além das capas com fotografias e tipos de letra desenhada, ou símbolos místicos e muitas páginas, no interior.
Há teatro, crónica, ensaio. Há os Clássicos. Há Banda Desenhada, ilustração. Há que pensar bem quando se fazem aquisições. Há que contrariar fenómenos. As regras do marketing são sempre as mesmas: adornar, criar expectativas, associar produtos a estatutos ou juízos afectivos. Basta usá-las contra a imediatez trucidante da arte, que caminha paralelamente, lentamente, e persiste, e recupera, sempre...
Como as lindas epopeias de Homero, cujas edições (Cotovia) me conquistam e reconquistam quando passo por elas, na minha estante.
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