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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O Jogo do Anjo

Sinopse: Na Barcelona turbulenta dos anos 20, um jovem escritor obcecado com um amor impossível recebe de um misterioso editor a proposta para escrever um livro como nunca existiu a troco de uma fortuna e, talvez, muito mais.

Com deslumbrante estilo e impecável precisão narrativa, o autor de A Sombra do Vento transporta-nos de novo para a Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos, para nos oferecer uma aventura de intriga, romance e tragédia, através de um labirinto de segredos onde o fascínio pelos livros, a paixão e a amizade se conjugam num relato magistral.

«Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.»

Eis-nos de volta a Barcelona, desta vez nas primeiras décadas do século XX. Acompanhamos David Martín, um jovem que trabalha num jornal e que aí começa a sua carreira de escritor. Várias peripécias levam a que um misterioso editor francês, Andreas Corelli, entre em contacto com David para lhe encomendar um livro muito especial. A partir daí, a história desenvolve-se com twists q.b., misturados com com elementos de mistério, terror e romance, estando a paixão pelos livros sempre omnipresente (todos eles, aparentemente, já uma presença constante nas histórias deste escritor).

Já no livro anterior tinha achado, e este só veio confirmar: Carlos Ruiz Zafón tem uma prosa maravilhosa, que enreda o leitor na sua teia. Certamente, um dos melhores escritores que tive o prazer de ler. Contudo, neste livro, a história não me cativou tanto. Não por ser má ou estar desprovida de interesse, mas acho que teve a ver com o facto de nunca me ter sentido emocionalmente ligada à personagem principal e às suas aventuras e desventuras. Apesar de a história ser narrada na primeira pessoa, senti-me sempre uma espectadora e tive alguma dificuldade em "entrar" na personagem e nas suas motivações. A história é interessante (prova disso é que li este livro relativamente depressa) e, a espaços, realmente emocionante, mas fiquei sempre com a sensação que faltava qualquer coisa.

Gostei das "piscadelas" à história d'"A Sombra do Vento": foi muito bom regressar ao Cemitério dos Livros Esquecidos e conhecer um pouco mais da história da família Sempere.

Tal como muita gente, adorei "A Sombra do Vento", daí as enormes expectativas que criei para a leitura deste livro. Tal como já referi noutras alturas, nem sempre as grandes expectativas são boas companheiras de leitura, como neste caso. É impossível dissociar este livro do anterior e, apesar da possível comparação ingrata, considero-o inferior. Não quer isto dizer que não estejamos perante um excelente livro e que não recomende a sua leitura.

8/10

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sombra do Vento (A) - Carlos Ruiz Zafón

Grande sucesso em Espanha e praticamente em todos os países onde foi publicada, “A sombra do vento” é um livro que fala de livros e da influência que os mesmos podem ter na vida daqueles que os lêem.

A acção situa-se em Barcelona em meados da década de 40 (século XX) onde ainda se vive sob o espectro da guerra civil que assolou toda a Espanha e sob a ditadura de Franco.

Daniel Sempere, o principal personagem e narrador da história, de mão dado com o pai é levado à descoberta de um local mágico e misterioso: O cemitério dos livros esquecidos. Gigantesca e labiríntica biblioteca onde são guardados os livros saídos de circulação e há muito esquecidos pela sociedade.

Logo aqui há uma clara referência à estrutura labiríntica imagina por Umberto Eco no seu livro “O nome da Rosa” e, na minha perspectiva, uma crítica à sociedade pela forma como trata os seus livros, para além de ele próprio fomentar a idéia da importância de todos os livros como veículo de cultura.

Esta cena inicial torna-se assim na premissa para todo o enredo que irá rodar sob o livro que Daniel escolhe do Cemitério dos livros esquecidos: A Sombra do Vento, escrito pelo enigmático e obscuro Julián Carax.

Apaixonado pela história contida no livro, Daniel empreende uma busca por mais livros deste autor, acabando por entrar numa intrincada teia de ódios, assassinatos, paixões e amizades que vão para além do imaginado e que se situam muitos anos antes do nascimento de Daniel.

Zafón é muito inteligente na forma como cria o enredo e, sobretudo, na forma como liga vários pormenores e personagens de outros autores da literatura e isso é algo que mais me surpreendeu e me fez apaixonar pelo livro.

Como história em si, posso afirmar, segundo a minha opinião, que não é uma grande história, já tenho lido muito melhor, porém uma das mais valias deste livro é a influência de outros autores e dos seus gêneros. É nítida a influência do gótico de Egdar Allan Poe. O inspector Fumero, até na descrição do seu aspecto físico, é quase um clone do inspector Javert nos “Miseráveis” e até no seu relacionamento com Fermín, um dos personagens mais fascinantes, faz lembrar as situações com Jean Valjean no referido título.

Achei curiosa a forma como o autor consegue jogar com vários estilos literários, quase que altera os estilos de página a página. Ora cria um clima de autêntico romance psicológico ao estilo de um Dostoeivsky, como passa para um policial, um thriller povoado de imagens e situações góticas e sobrenaturais, acabando num estilo histórico e até de costumes.

É claro que isso é intencional e dá ao romance algo de inédito, até porque é também uma forma do autor homenagear escritores universais e gêneros.

Bela é também a sua escrita e as metáforas criadas. Facilmente descreve situações de uma forma poética, de uma profundidade emocional e intelectual superior.

Não é de forma nenhuma um livro difícil de ler, é sim um livro belíssimo que fala de outros livros e das capacidades humanas em todas as suas vertentes, tendo também a capacidade de analisar a História e o peso que a mesma tem com comportamento do ser humano enquanto individualidade e em grupo.