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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ana Isabel Queiroz | A Paisagem de Terras do Demo

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Paisagem de Terras do Demo»?
R- «A Paisagem de Terras do Demo» é o mais extenso e elaborado dos textos documentais que escrevi até agora. Escrevê-lo, e vê-lo publicado, deu-me uma satisfação muito particular. Nele se combina a minha paixão pela Literatura com a minha paixão pelo Ambiente.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Este livro resulta de um trabalho de investigação que, tratando de paisagem, tem a obra de Aquilino Ribeiro como catalisador. Julgo que fica demonstrado que a Literatura pode ser uma fonte de informação sobre as paisagens do passado e um elemento a ter em conta na gestão do território. Ao mesmo tempo que recoloca nas leituras actuais as sempre modernas obras do escritor, valoriza e evidencia as memórias ecológicas que estes textos encerram.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- O enorme potencial revelado pelo estudo da obra de Aquilino Ribeiro servirá ainda de base para uma publicação sobre a avifauna portuguesa. Através dos seus textos, será possível descobrir mais de seis dezenas de espécies diferentes.
Para além disso, continuo a olhar para as representações da Natureza e do Ambiente em obras de outros escritores dos séculos XIX, XX e XXI. É um trabalho que, em breve, dará outros frutos, mas não sei ainda dizer exactamente quais serão.
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Ana Isabel Queiroz
A Paisagem de Terras do Demo
Esfera do Caos, 14,90€

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Paulo da Trindade Ferreira | Fazer do Tempo um Aliado


1-De que trata este seu livro «Fazer do Tempo um Aliado»?
R- Com este livro pretende-se, de uma forma geral, fazer uma abordagem sobre o tempo, não o tempo em si enquanto realidade abstracta, mas o tempo sentido, imaginado, desejado e vivido pelas pessoas. Indefinível em si mesmo, ele, apenas, o cenário onde as pessoas e as coisas se vão transformando no tempo que se aprende a olhar e a entender o mundo de uma forma diferente. Dada a grande proximidade entre o tempo e as pessoas que o vivem, facilmente surgem, entre ambos, diversas afinidades e múltiplas cumplicidades. O tempo vivido jamais poderá reduzir-se a uma sequência de segundos registada pelos ponteiros do relógio que, após uma fugaz duração, acaba por cair no esquecimento. Quantas vezes por se querer ganhar o tempo medido pelo relógio e assinalado pelo calendário, se acaba por perder o tempo vivido?

2-De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Por um lado, considera-se menos aceitável invocar, com frequência, a falta de tempo para, desta forma, justificar a incapacidade de organização pessoal. Por outro lado, responsabilizar o tempo por tudo o que de negativo acontece. O tempo não constitui qualquer problema. Problemático, sim, é o modo menos adequado como este é utilizado pelas pessoas. Daí a importância de fazer do tempo um aliado. Certas formas de lidar com o tempo estão, à partida, minadas de contradição, o que lhes retira sentido, credibilidade e eficácia. Mais importante do que a gestão do tempo é a gestão adequada de si próprio, no tempo, o que implica uma consciência devidamente esclarecida sobre o que se quer e deve realizar. Uma vez atingindo este objectivo, será possível, então, fazer com prazer aquilo que se quer e tornar agradável aquilo que se deve.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- No tempo em que as mudanças, a nível pessoal, grupal e organizacional se concretizam, parece-me ser oportuno elaborar um escrito sobre o tema.
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Paulo da Trindade Ferreira
Fazer do Tempo um Aliado
Presença, 12,80€

Maria José Varandas | Ambiente-Uma Questão de Ética

1-De que trata este seu livro «Ambiente-Uma Questão de Ética»?
R- O livro centra-se no problema fundamental da crise ecológica- a atitude humana na sua dimensão relacional. Defende-se aqui que a evolução tecnocientífica não tem correspondido a um real e efectivo progresso moral. A crise de valores instalada, o gradual empobrecimento da componente relacional da acção, afecta profundamente as relações que o homem mantém consigo próprio e com o seu mundo, nomeadamente, com o seu mundo natural. Daí que o livro veicule a ideia que o problema do Ambiente é, mais do que um problema de engenharia, um problema de ética. O panorama da reflexão ética contemporânea, que o livro dá conta, corrobora esta tese dando pistas para a sua resolução e, sobretudo, propondo um horizonte de salvação do humano que inevitavelmente passará pela reconciliação do Homem com a Natureza.

2-De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- O quão necessário é, hoje em dia, até por uma questão de sobrevivência e saúde, repensar a acção na sua dimensão ética e axiológica. Valores como o respeito e responsabilidade, deveres e obrigações, prudência e precaução devem ser integrados num discurso dirigido para o futuro, que enfrente com sucesso os ideais iluministas e positivistas de progresso sem limites, cujas consequências negativas mais óbvias foram o consumismo desenfreado, a exaltação do individualismo e, em consequência, a exploração abusiva dos recursos naturais. O que a crise ecológica demonstra é que à medida que o mundo das coisas, dos produtos e artefactos da tecnociência, se expande e multiplica, o mundo humano empobrece e corre riscos sérios de vir a ser profundamente afectado. E tal merece ser objecto de reflexão e de decisão que encare com seriedade a urgência de uma mudança de atitude, no sentido do respeito e da responsabilidade pela vida em geral.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Irá ser publicado em breve pelo Centro de Filosofia da FLUL um artigo sobre Estado, Educação e Mercado: qual o futuro do ensino das humanidades no seio da economia global?
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Maria José Varandas
Ambiente-Uma Questão de Ética
Sextante Editora, 13,90€

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Extraordinárias Aventuras da Justiça Portuguesa (As) – Sofia Pinto Coelho



“As Extraordinárias Aventuras da Justiça Portuguesa” é, segundo a própria autora, um livro onde se expõe casos absolutamente extraordinários que demonstram que, para além de cega, em Portugal a justiça é uma aventura, assemelhando-se a “um prédio que não tem gestão de condomínio e que no seu patamar cada condómino faz o que quer.”

Foi com uma enorme expectativa que iniciei a leitura deste livro. Não porque conhecesse a autora (de facto já tenho visto um ou outro programa “Perdidos e Achados”, mas porque logo na sinopse me pareceu estar em presença de algumas histórias que tornam a justiça em Portugal algo que, vá lá, sui generis.

A estrutura da obra é, por si só, bastante apelativa. Divididos em 11 capítulos, todos com título que nos situa quanto ao género dos factos abordados (ex: cap. 5. condições de trabalho (nos tribunais); cap. 8: Julgamentos; etc), a autora vai dissertando sobre casos que acompanhou pessoalmente ou que lhe chegaram ao conhecimento através dos próprios implicados. Logo, todas as histórias são verídicas e, meus caros e caras, fica-se com a ideia de a justiça em Portugal concorrer com sistemas judiciais do Burkina Faso ou do Botwsana (sem menosprezo para estes países).

É assustador ler tantas histórias de falta de condições, excesso de trabalho, incompetência, abuso de poder, vaidade, servilismo ou corrupção. Às tantas dava por mim a rir e a pensar: “isto só pode ser anedota. Não pode ser possível isto acontecer em Portugal. Fará Portugal parte da Europa?”.

Há histórias verdadeiramente surreais, horríveis algumas que expõem não só os vícios do sistema Judicial (vícios que se conhecem mas que teimam em não se mudar) português como, em especial, os vícios da alma lusa.

A ironia da autora faz-se sentir praticamente em todos os factos narrados. Há histórias tão estúpidas, tão rídiculas, tão irracionais, que a única forma de as encararmos é com ironia, rezando, contudo, para que nunca nos aconteça a nós, pois o grave de todas as narrações é que ouve gente prejudicada, gente que se viu sem chão por um sistema que lida com papéis e não com pessoas.

Entrelinhas também se sente críticas aos juízes (sôtoresjuízes), alguns sem qualquer aptidão para o importante papel que desempenham e para a classe dos advogados. Atente-se na críticas do bastonário da Ordem dos advogados aos juízes, aos advogados e ao próprio sistema judicial português: "É nosso dever denunciar e combater esses resíduos para que a honradez, a honorabilidade e a respeitabilidade de toda a classe não seja manchada pela existência de algumas maçãs podres que persistem em existir no nosso seio", declarou Marinho Pinto. “O advogado auxilia a pessoa que cometeu um crime ou é suspeita de ter cometido um crime a defender-se em juízo, mas não auxilia as pessoas a cometer crimes, muito menos a cometê-los em nome de alguns clientes. Esta ideia tem que ficar bem clara porque existem resíduos na nossa profissão que não actuam assim". Faz agora sentido muito do que o bastonário tem proferido.

É triste perceber a realidade em Portugal e é, sobretudo, aterrador.

Licenciada em Direito, Sofia Pinto Coelho começou a sua actividade de jornalista no semanário Expresso e actualmente trabalha na estação de televisão SIC, onde se especializou em temas jurídicos.

Já foi distinguida com o "Prémio Justiça e Comunicação Social Dr. Francisco Sousa Tavares", atribuído pela Ordem dos Advogados, e com o "Prémio Especial do Júri" no Festival de Cinema de Cartagena das Índias, Colômbia, por uma reportagem.

Actualmente coordena o programa “Perdidos e Achados”.

Classificação: 5

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dietética do Cérebro


“Dietética do Cérebro” de Jean-Marie Bourre, nutricionista e neurossociólogo, aborda o grande órgão ainda pouco conhecido, tomando como ponto de partida as suas investigações sobre o ácido alfa-linoleico, que participa em grande medida na construção e funcionamento do cérebro. Com a evolução das neurociências e dos seus progressos consideráveis no conhecimento da arquitectura do sistema nervoso, o papel dos nutrientes ganhou estrelato, sobretudo pelo seu efeito na preservação estrutural e funcional do cérebro.
A obra detém-se na estrutura cerebral e alimentos ideais, na escolha das boas gorduras, vitaminas, proteínas, taninos e carotenóides, constituindo-se como “Bio-Diet-Ética” e guia prático na selecção de alimentos correctos. Editado pelo Instituto Piaget, o livro revela-se extremamente útil, sobretudo na escolha de cada nutriente e no seu preço, determinando o custo real e controlado de uma boa dietética para o cérebro.
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Jean-Marie Bourre
Dietética do Cérebro. A Nova Aposta
Instituto Piaget

sábado, 10 de outubro de 2009

Mundo é Curvo (O) - David M. Smick


Editora: Editorial Presença
Edição: 1ª Edição, Outubro 2009
Tradução: Ana Cristina Pais

David M. Smick é um consultor experiente e bem sucedido. Dirigindo a sua própria empresa de consultadoria, Johnson Smick International, Inc., David M. Smick foi conselheiro de vários candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Fundador e editor da revista “The International Economy”, é também habitual colaborador do “The Wall Street Journal” e “The New York Times”, o que por si só demonstra ser uma sumidade em economia.
Conforme ele refere logo no início do livro ”comprometi-me a escrever sobre este complicado sistema a que chamamos de nova economia global porque assisti na primeira fila e provavelmente desempenhei um modesto papel na sua criação”, David M.Smick coloca então todo esse conhecimento ao dispor do público no sentido de explicar os caminhos da economia global e a forma como a mesma foi nascendo e transformando a vida de todo o planeta.

A ideia inicial de Smick é que o mundo financeiro actual não é plano, mas curvo, pois a falta de transparência não permite aos analistas ver para além da linha do horizonte. O autor inicia então uma viagem que nos revela como chegámos ao presente, como funcionam os mercados internacionais e como a globalização passou a facilitar a transferência de capitais e o investimento global.

Não sendo um amante, nem sequer um grande interessado por questões económinas ou financeiras, foi com agrado que respondi afirmativamente ao convite da Editorial Presença para ler e analisar este livro.

Li-o com interesse e de facto, pese embora existam partes que pouco ou nada me dizem, por outro lado achei interessante compreender a econonomia e a forma como ela se desenvolveu e se desenvolve em países como a China e o Japão. Até porque é compreensível que dificilmente a China poderá ser uma potência económica, face não só à mentalidade como, e sobretudo, ao sistema político. Nem sequer é crível que os chineses estejam preparados para ser uma potência. Serão os dados conhecidos da China, fornecidos somente pelo estado chinês, verdadeiros?

Descobri também que os chineses são umas meras máquinas de trabalho e que, esse estado, não faz qualquer tipo de planeamento para o futuro da sua população. São tipo robôs, não existe planos de Segurança Social, ali, depois da velhice, as pessoas estão entregues a si próprias, sem qualquer apoio. É isso que a Europa quer para ela? Claro que não e fiquei com a ideia que é um erro alguém se preocupar com a economia da China.

Sendo efectivamente um livro de economia, a linguagem acessível de David M. Smick, permite-nos ler e entender a mensagem do livro e ela é simples: a economia é muito volátil, não acredite que a crise passou, ela pode ser apenas utópica, esteja sempre preparado para nova crise, pois, de um momento para o outro tudo pode mudar e, com isso, mudar drasticamente a vida de milhões de famílias e até a face de nações.

“o que dizer de um sistema financeiro mundial que num instante parece estar a sair-se lindamente e no seguinte age como se o mundo estivesse a chegar ao fim?”

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Carlos Santos | E Agora, Obama?

1- De que trata este seu livro «E Agora, Obama?»?
R- É uma visão prospectiva do que são os 4 primeiros anos da Presidência Obama. Incidindo sobre 4 vectores: política internacional, economia, energia & ambiente, e assuntos internos (educação e saúde nos EUA). Na vertente de Política Internacional, precisamente a que foi agora base do Nobel concedido a Barack Obama, é salientada a sua visão multiralista e o regresso dos EUA à comunidade das nações depois da Administração Bush. É também previsto e analisado o seu esforço de não proliferação de armamento: tanto a nível do escudo anti-missil que efectivamente suspendeu, como a nível do relacionamento com o Médio e Extremo Oriente.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Procuro no essencial transmitir a materialização da mensagem de esperança do candidato Obama na constituição de uma equipa governativa, a sua Administração, e numa sequência efectiva de políticas (a nível externo, de segurança, de ambiente, etc.) que a traduzissem em algo de concreto. Aparentemente, a Academia Sueca terá julgado que essa nova abordagem à política internacional, com a reinserção dos EUA numa perspectiva multilateralista e do respeito pelo diálogo internacional, seria merecedora de uma recompensa imediata. Mesmo que os frutos das políticas perspectivadas no livro e que Obama tem arrojadamente vindo a cumprir não se traduza no curto prazo. O processo negocial com a Síria para condicionar o Irão, por exemplo, exige a espessura histórica do tempo.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- A figura de Lula da Silva, o Presidente cessante do Brasil exerce sobre mim particular fascínio. Tenho praticamente concluído um livro sobre a sua Presidência e a forma como apesar das extraordinárias dificuldades do tecido económico e social brasileiro foi capaz de repensar o lugar do Brasil no mundo, tornando-o numa das mais dinâmicas economias emergentes. Em poucas palavras, não só foram reduzidas as condições extremas de pobreza de parte da sociedade Brasileira como o Brasil se transformou de devedor em credor do FMI. Foi uma aventura de 8 anos fantástica.
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Carlos Santos
E Agora, Obama?
Esfera do Caos, 16,80€

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Para um balanço da cultura portuguesa

Homem de cultura, o autor propõe-se logo no título desta obra dissertar, em “cinco exercícios disciplinados”, sobre o tema de sua especialidade, na sua contemporaneidade. Não vêm do nada estes propósitos, porque o professor se tem desdobrado em actividades múltiplas, do trabalho de investigação e produção teórica à prática das iniciativas, de que são exemplo a gestão artística que desenvolveu à frente da Culturgest e a coordenação da área da criatividade e criação artística na Fundação Calouste Gulbenkian.
O primeiro exercício é modelar dos propósitos do autor, que partindo das diferentes formas de governar na área cultural aproveita para estabelecer alguns caminhos e limites de (ad)ministrar a cultura, propondo, por exemplo, uma revisão do conceito de cultura que considera “fulcral na constituição de um discurso simbólico”.
E assim propõe que se deixe de lado a ideia de cultura vigente (“uma espécie de depósito a que se vai buscar obras de culto ou chavões de identidades fabricadas”) para pensar “um sistema de inter-relações dos membros de um grupo – entre si, mas também entre as suas práticas e memórias – e não como um armazém ou um banco de dados”.
Não é que os arquivos estejam deitados para trás das costas. Não, pelo contrário, “uma política cultural de esquerda actual e cosmopolita deve proteger e tratar com particular cuidado e atenção os arquivos” nas suas diversas manifestações. E escreve-o com o cuidado de esta ser à esquerda uma nota distintiva, entre outras.
A não perder, a decomposição em três ciclos da história da cultura em Portugal durante as últimas quatro décadas: de 25 de Abril de 1974 até ao final da década de 70, período que crisma de “a cantiga é uma arma”; o segundo ciclo, a primeira metade da década de oitenta, aquele em que se pretende “‘ter’ uma cultura como as da Europa e que quer ser ‘desesperadamente moderno’”; o terceiro ciclo, 1986-1998, abriga-se num slogan: “Já somos internacionais. Falta sermos cosmopolitas!”.
E é este último período que remete para o título do livro, dando passagem a estes nossos novos século e milénio, com a procura de uma “escala justa”.
Porque, recorda o autor, verificou-se um salto comunicacional nas últimas décadas do século XX, com novos meios materiais que permitem o do “it yourself”, que disputa lugar num tempo de “conexão em tempo real e permanente à escala global”.
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António Pinto Ribeiro
À procura de escala – cinco exercícios disciplinados sobre cultura contemporânea
Livros Cotovia, 12€

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os caminhos do homem

É natural que cada um, ao cabo de muitas leituras, experiências e reflexões acabe por sujeitar o acervo de conhecimentos assim constituído a um trabalho de síntese, de balanço, de busca ou consolidação do sentido da vida, dos valores que a orientam, do que a condicionou ao longo da evolução do Homem – e do patamar a que chegou/chegámos.
A Humanidade surge assim, em suma, como tema de uma obra que, a avaliar pelo currículo do autor, deveria incidir sobre “economia do desenvolvimento, sobre sistemas de informação, ou, por devaneio, um relato de viagens”, como preconiza no prefácio da obra Emílio Rui Vilar – sim, o ex-ministro dos primeiros governos constitucionais. E apresentador e apresentado partilham actualmente responsabilidades no Conselho de Auditoria do Banco de Portugal.
A surpresa sobre a temática de “A Humanidade, essa desconhecida” justifica-se com o facto de o seu autor, Rui Conceição Nunes, ser economista de formação, “professor de economia de muitas gerações de estudantes”, e ter tido “intervenção cívica e governativa”. Foi, por exemplo, secretário de Estado do Planeamento do IV Governo Constitucional, com Jacinto Nunes a ministro.
Daí que o prefaciador se revele espantado com esta longa interrogação sobre a trajectória da Humanidade, numa obra em que se traça “um fresco de multi-imagens dessa linha de claros e escuros, de grandezas e misérias, de barbárie de generosidade, de avanços e recuos”. Em suma, e citando George Steiner, “a complexidade trágica da vida humana”.
O autor, ele mesmo, recorre ao paralelo, por antagonismo, levantado por Alexis Carrell, em “L’Homme cet inconnu”, em que propunha, recorda, “a eliminação dos que não obedeciam a padrões determinados a priori”. “Essa não é, actualmente, a ideologia dominante quanto ao direito a existir, ressalva o autor.
Muitas são as questões levantadas por Rui Conceição Nunes ao longo de una viagem pela história (em grande parte) das ideias, da civilização, da política: “a herança greco-romana, o Cristianismo, a expansão árabe, as descobertas, a ética protestante, o Renascimento, a independência da América, a Revolução Francesa – e mesmo a revolução bolchevista, o nazismo e tudo o mais que moldou a civilização actual – no bom e no mau”.
É um livro de histórias e não de história, eis como nos é apresentado este trabalho. Sem uma moral evidente, como reconhece o autor ao confessar que “não é possível fazer um juízo definitivo sobre se os factos históricos (…) foram ou não benéficos para a Humanidade”. É que, reconhecidamente, “não é possível identificar de uma forma perfeita e eterna o que é bom ou mau” e, por isso, “em muitos casos, os ‘inimigos’ da Humanidade acabaram por lhe fazer bem”.
Talvez se aplique aqui o velho princípio de que tudo está bem quando acaba bem. E isso, o porvir, é que não cabe neste trabalho, esse é um caminho claramente recusado.
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Rui Conceição Nunes
A Humanidade, essa desconhecida
Bond, Books on Demand, 19€

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Manual clássico de bem governar

Já lhe chamaram o grande educador da Europa. É o resultado de uma obra em que perpassam os grandes valores do Homem, os do seu tempo e do tempo de sempre. E que, por isso, também devem tocar-nos nos dias de hoje – de tanta confusão política, ideológica, moral.
Há solução? Aconselha Plutarco alguém que a razão “incita a fazer política” e que pede “instruções políticas”, em primeiro lugar a colocar “no fundamento da acção política” uma orientação cujo princípio assenta no discernimento e na razão.
Dito isto, o filósofo desaconselha que a opção resulte de “qualquer disputa ou por falta de outras actividades”, uma vez que observou haver quem, sem nada de interessante para fazer em privado, se virasse para os assuntos públicos “usando a política como um passatempo”.
E há os que, uma vez nela embarcados por acaso – como no caso de um barco – acabaram por enfadar-se mas não conseguem sair facilmente e “já em alto mar, olham ao longe, nauseados e maldispostos, mas são obrigados a ficarem e adaptarem-se às circunstâncias”.
O problema, comenta, é que os assim feitos navegadores da política acabam a denegri-la, condenando-a e deplorando-a, “ou porque caíram em descrédito enquanto esperavam a glória, ou porque se debatem com situações perigosas e tumultuosas”.
Dos motivos para entrega à vida política afastado está, claro, o interesse ou o lucro, coisa que Plutarco exemplifica com a “ceifa de ouro” que Estrabocles e Dromoclides usavam para brincar com a tribuna.
Estas e outras palavras que o leitor descubra são de todos os tempos. Como a questão dos amigos, dos benefícios particulares, dos favores que “não atraem a inveja”, os “honestos e generosos” que não lhe repugnam. Condena, isso sim, “as petições indignas e insensatas”, que devem ser recusadas com suavidade, explicando com cuidado que são indignas pelo seu valor e reputação.
Bom, para resumir, Plutarco legou-nos um manual de boas maneiras e decência para orientação de todos e dos que à causa pública se dedicam.
Que fique mais uma máxima em vésperas destes sufrágios que mobilizam as atenções: “Nem sempre são as rivalidades sobre as coisas comuns que acendem a disputa na cidade, mas muitas vezes dissensões vindas de assuntos e conflitos privados que, passando para o plano público, semeiam o distúrbio por toda a cidade.”
O que estes gregos sabiam, não é?
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Plutarco
Conselhos aos políticos para bem governar
Publicações Europa-América, 14,90€

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Filosofia e Ciências Humanas: livro+cd-rom


O Instituto Piaget acaba de editar mais uma obra de referência no campo da filosofia e das ciências humanas, agora em formato dicionário. Além disso, é oferecido um extra de grande utilidade para estudantes e outros interessados nestas matérias: um CR-Rom pesquisável que permite uma consulta rápida e complementar da edição em papel.
São centenas de entradas reunidas em mais de 600 páginas. Ideias básicas e pouco desenvolvidas mas que valem como porta de entrada e primeiro olhar sobre o muito amplo universo desta área do conhecimento.
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Louis-Marie Morfeaux/Jean Lefranc
Novo Dicionário da Filosofia e das Ciências Humanas
Instituto Piaget, 47,25€

terça-feira, 7 de julho de 2009

A injustiça que a Ditadura ditou

A defesa do salazarismo nem sequer passa muito pela negação das arbitrariedades, dos abusos, dos excessos e desumanidades cometidas. Há quem tente matizar a prática ditatorial do sistema, desculpabilizá-la, até remeter para os ofendidos uma parte das responsabilidades. Muito tem sido demonstrado quanto ao que se fez contra os menos domesticáveis e amansados pela mão pesada de Salazar e seus acólitos.
O que se passou no domínio da Justiça é que nem sempre foi desnudado, denunciado, historiado. A verdade é que a vertente histórica é indispensável a qualquer acusação ao comportamento dos supostos agentes judiciais (e judiciários) ao longo dos quase quarenta anos que o massacre durou.
Excesso, poderá dizer-se, quando se fala de massacre. Será? “Durante a ditadura que precedeu o regime democrático em que vivemos, dezenas de milhares de opositores ao regime foram encarcerados”, regista o ministro da Justiça, Alberto Costa, no prefácio desta obra dedicada à investigação historiográfica dos Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo. Ao cálculo do número, acrescenta que “a maior parte deles nunca foi submetida a julgamento ou foi alguma vez presente a um juiz”.
O tamanho e o significado da ignomínia e da violação dos direitos fundamentais passa por esse excesso que é o de sonegar o direito à absolvição de quem nenhum desmando cometeu, de ordem criminal ou cívica. Pior é que, relatam os historiadores no livro, muitos dos que acabaram por passar pelos tribunais especiais tenham constatado a disponibilidade e fervor com que juízes e delegados do Ministério Público toleravam e até estimulavam o comportamento agressivo da PIDE, cujos agentes compareciam nas audiências e ajudavam a culpabilizar os “réus”. Um exemplo é a ordem de prisão dada por um juiz a um advogado em pleno tribunal.
Nada admira, este quadro e outros devidamente investigados por uma equipa de especialistas da Universidade Nova de Lisboa. “Os tribunais políticos especiais eram (…) uma peça importante do sistema de repressão punitiva, progressivamente centrado na polícia política, que a Ditadura foi montando um tanto atabalhoadamente até 1933 (…) mas que a emergência do Estado Novo, a partir dessa data, institucionalizou duradouramente”, escreve Fernando Rosas na Introdução da obra.
Dividido em três partes, o livro começa por analisar a conjuntura histórica em que surgiram os tribunais políticos especiais, a evolução dos seus regimes jurídicos e funcionamento. Passa depois à lista dos réus e suas características sociológicas, tempos de prisão, sentenças, etc. E por fim procurou saber o destino dos juízes e outros magistrados envolvidos, no pós-25 de Abril, quantos foram efectivamente afastados e com que sanções, quantos puderam prosseguir, e como, na carreira judicial.
Sem êxito, sublinhe-se, porque isto de arquivos é complicado.
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Fernando Rosas (coord.), Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha, Maria Inácia Rezola
Tribunais políticos – Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo
Temas e Debates/Círculo de Leitores, 19.95€

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Quando Lisboa era boémia

José Machado Pais tem uma dupla vantagem: é um sociólogo de primeira água, tendo realizado investigações interessantíssimas e de claro interesse para a sociedade portuguesa – o estudo “Ganchos, Tachos e Biscates. Jovens, Trabalho e Futuro” é uma referência inultrapassável; mas é, também, um autor com um discurso muito fluido, o que torna as suas obras acessíveis e de leitura bastante atraente.
Características que estão mais uma vez presentes em “A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX”, agora em reedição, mais de duas décadas após a primeira publicação.
Trata-se, como o autor explica logo no prefácio, de um estudo sociológico que se desenvolve em torno de uma problemática concreta: «Em que medida os submundos de uma sociedade permitirão chegar a um melhor entendimento das suas estruturas?».
José Machado Pais procurava indícios do desenvolvimento do capitalismo em Portugal quando, no decurso da investigação, “tropeçou” numa Lisboa boémia como espaço socialmente fechado sobre si na primeira metade do século XIX, e que depois, no virar do século, se abre, esbatendo-se as fronteiras entre a Lisboa boémia e a Lisboa respeitável. Que forças sociais terão levado à mudança?, interroga-se. «A resposta achei-a no desenvolvimento das relações capitalistas que a partir do último quartel do século XIX se começaram a sentir no recôndito de alguns submundos da cidade de Lisboa», adianta, explicando que ao seguir uma concepção sociológica e histórica virada para o quotidiano de gente ordinária não desvalorizou as temporalidades de longa duração nem desconsiderou as estruturas sociais.
E é assim que, ao longo da obra que expõe a investigação, o leitor toma contacto com figuras como prostitutas, fadistas, proxenetas, chulos, marialvas, marinheiros, criadas e costureiras, numa miscelânea de tipos sociais que contribuem para o retrato de uma sociedade num determinado período temporal.
A administração política e legislativa do fenómeno da prostituição, a par (ou por causa) dos chamados imperativos morais, os valores sociais – quando a moda parisiense do passeio público obriga a regulamentar o acantonamento das mulheres públicas (as prostitutas) para que não sejam confundidas com as pudicas burguesas que deixam o recato do lar –, é um dos aspectos mais interessantes da investigação. Uma referência ainda para as condições sociais e económicas que transformam criadas e costureiras em prostitutas.
Igualmente relevante, o tecido social burguês que transporta, suporta e transforma o fado e o ambiente em que este se desenvolve de boémio em canção nacional, de entretenimento de vagabundos e degenerados a género tocado em salões chiques.
O que se passa, conclui o sociólogo, «é que as transformações que a sociedade portuguesa de finais do século XIX viveu se repercutem em todas as latitudes». No caso da prostituição, as formas economicamente produtivas estão relacionadas com os universos culturais, e com o desenvolvimento do capitalismo no país dá-se uma abertura do mundo da boémia aos meios que o circundam.
Mas como Machado Pais sublinha, diga-se, em abono da verdade, que este não foi um fenómeno específico de Portugal. «Por toda a Europa de finais do século XIX a prostituição começa a ser uma indústria perfeitamente organizada em que participam importantes banqueiros judeus e polacos».

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José Machado Pais
A Prostituição e a Lisboa Boémia – do século XIX a inícios do século XX
Ambar, 18,50€

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Os fascismos que nos deram

Tema central do século XX, particularmente da primeira metade, o fascismo (como o nazismo) continua na ordem do dia, dadas as tendências manifestadas em algumas sociedades europeias de aceitação de organizações de extrema-direita, racistas e xenófobas. E, curiosamente, com alguns pontos de coincidência nos processos que permitiram a ascensão e instalação dessa direita totalitária há pouco mais de cem anos – em Itália, na Alemanha, mas igualmente noutros países.
Esta obra de Manuel Loff, resultado em livro de uma investigação de doutoramento, não é obviamente de leitura para a maioria das pessoas. Mas poderá ser de muita utilidade, no entanto diminuída pela não inclusão de um índice remissivo, que para um texto de 900 páginas seria de grande utilidade. E mais quando as referências se entrecruzam, ao longo da obra, envolvendo nomes, datas e fontes.
Sobre as fontes e personagens da obra é o próprio autor quem alerta que se trata de um território de análise tão amplo e diversificado, e talvez ambíguo, “quanto o da mentalidade política das elites pode conduzir o investigador a admitir como fontes documentais passíveis de uma análise relevante uma lista infindável de objectos”.
Explica o autor que o tema central do trabalho é o salazarismo e o franquismo, não Portugal e os portugueses, o mesmo acontecendo com Espanha e o franquismo. Tal como prefere a referência ao salazarismo num sentido mais amplo do que o de Estado Novo, explicando que este traduz uma auto-designação adoptada pelos dirigentes do regime, em que a dimensão ideológica se secundariza face à dimensão sistémica e formal.
Uma curiosa verificação pelo investigador é a de que as cartas dirigidas a Salazar por Theotónio Pereira, enquanto embaixador em Madrid, eram sistematicamente amputadas, na transcrição para a série documental do Ministério dos Negócios Estrangeiros. E porquê? Não molestar a figura, o comportamento político e a postura pretensamente neutralista assumida por Franco durante a II Guerra Mundial. E como o faziam? Pasme-se: por omissão pura e simples, ou pela transformação da linguagem e da própria mensagem. Admirava-se alguém da censura que devastava a Imprensa?
Muito interessante o aclaramento do pretenso neutralismo português no conflito, quando Manuel Loff levou um alto responsável inglês a admitir que a prosseguirem as tomadas de posição de Salazar, tal poderia ser “o primeiro passo para a destruição da aliança anglo-portuguesa” e para o “desaparecimento do império português”. No mesmo sentido vai o relato do conflito entre o embaixador português em Londres, Armindo Monteiro – pró-Aliados –, e o Presidente do Conselho. Acabou afastado do cargo e nunca voltou a ter qualquer cargo governamental.
Para que a História não seja branqueada…
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Manuel Loff
“O nosso século é fascista!”, O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)
Campo das Letras, 36€

quinta-feira, 14 de maio de 2009

As vozes dos trabalhadores

A produção sociológica em Portugal é cada vez mais extensa, embora nem sempre os seus resultados cheguem ao conhecimento do grande público, independentemente do interesse geral da investigação. Por isso é de louvar a publicação de um desses estudos em livro, transpondo, dessa forma, os muros da academia.
Vem isto a propósito do mais recente volume da série Trabalho e Sociedade, uma parceria entre o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e a editora Almedina. Da autoria dos sociólogos Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo, o livro “As Vozes do Trabalho nas Multinacionais” analisa, como o subtítulo da obra indica, o impacto dos Conselhos de Empresa Europeus (CEE) em Portugal, valorizando a visão dos representantes portugueses nessas instâncias.
O livro reflecte a longa investigação sociológica dos investigadores do CES sobre a experiência portuguesa no âmbito dos CEE’s, instituídos pela Directiva 94/45/CE com o objectivo de oficializar (impor) a criação de mecanismos de informação e consulta transnacionais de trabalhadores, respondendo assim ao peso cada vez maior das multinacionais no tecido laboral e, por via dessa alteração, ao crescente défice de representação dos trabalhadores nas organizações.
O estudo, que incluiu trabalho de campo com entrevistas aos representantes dos trabalhadores portugueses nos CEE e a realização de inquéritos às entidades patronais, apresenta diversos ângulos, nomeadamente a dimensão quantitativa dos CEE’s; a expressão da aplicação da Directiva; a constituição formal e o funcionamento dos CEE’s; a negociação de acordos e a eficácia dos CEE’s no que diz respeito ao cumprimento dos objectivos plasmados na Directiva.
«(…) Constatámos, entre vários outros pontos, que a Alemanha, a França e o Reino Unido são os países da UE-27 com maior número de multinacionais abrangidas pela Directiva e, simultaneamente, aqueles que estabeleceram o maior número de CEE’s; que os sectores de actividade onde existem mais CEE’s constituídos são o metalúrgico (34,3%) e o Químico (23%); que o número de representantes portugueses eleitos e/ou nomeados para ocupar lugares em CEE’s é de 201; que apenas sete multinacionais com sede em Portugal preenchem as condições para o estabelecimento de CEE’s; e que apenas uma dessas, o Grupo Banco Espírito Santo, constituiu um CEE», referem os autores nas considerações finais.
Quanto aos objectivos fundamentais dos CEE’s – a informação e a consulta –, a maioria dos representantes dos trabalhadores portugueses considera que o Comité permite realmente um maior acesso à informação, especialmente sobre a actividade da multinacional e os seus problemas, mas essa informação é muito limitada a nível local. Já no que diz respeito à segunda premissa, o desalento é praticamente geral: ineficácia da consulta e incapacidade de influenciar a decisão. Ou seja, só excepcionalmente as informações são transmitidas e discutidas antes da tomada de decisão, «o espaço para consulta é praticamente residual».
Um problema que, constatam os investigadores, «se vê agravado pelo facto da Directiva não prever quaisquer sanções no caso de as administrações não cumprirem o estipulado nos acordos».
Para os representantes dos trabalhadores portugueses, uma das mais-valias dos CEE’s é tornar visível, através da troca de experiências laborais, as desigualdades nas condições de trabalho e salariais, levando-os a percepcionar os comités como «uma alavanca através da qual as condições de trabalho podem vir a ser niveladas a seu favor».
«Se os CEE’s parecem particularmente eficazes para resolver questões ligadas às condições de trabalho, nomeadamente em termos de saúde, higiene e segurança no trabalho, já as questões salariais se encontram arredadas dos tópicos de questões objecto de informação e consulta», referem os sociólogos, ressaltando que a capacidade de intervenção dos CEE’s decresce quando se trata de questões como reestruturações ou deslocalizações.
Também realçado pelos representantes portugueses é o facto de os CEE’s permitirem o acesso a um patamar de decisão superior, «constituindo os CEE’s espaços privilegiados para a resolução informal de problemas locais».
Ainda no âmbito das possibilidades práticas dos CEE’s encontra-se a solidariedade transnacional, um aspecto importante mas pouco explorado e no qual os portugueses deviam investir mais.
«É igualmente necessário que os CEE’s deixem de funcionar como caixas de ressonância dos (fundados) receios e clivagens locais e nacionais e se assumam efectivamente como instituições incontornáveis na construção do diálogo social transnacional», concluem Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo.

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Hermes Augusto Costa e Pedro Araújo
As Vozes do Trabalho nas Multinacionais – o impacto dos Conselhos de Empresa Europeus em Portugal
Almedina/CES, 16€

quarta-feira, 22 de abril de 2009

António Pinto Ribeiro | À Procura da Escala

1- De que trata este seu livro?
R-É um conjunto de cinco ensaios de análise e de problematização de aspectos da Cultura Contemporânea; os aspectos mais focados são a produção nas artes, a relação das cidades coma cultura e com os seus habitantes segundo os novos modos de viver em comunidade, a relação cultural dos actores políticos e culturais europeus com África e, finalmente, um destaque é dado às condições de produção, de criação e de difusão da cultura em Portugal desde o 25 de abril de 1974

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R-que aquilo que se designa como cultura é uma actividade complexa, que implica disputa de territórios, choques, conflitos, mercados a par de ser um aspecto da vida fundamental para o progresso da humanidade e conhecimento do humano.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-estou a escrever um longo ensaio sobre memória e conflito.
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António Pinto Ribeiro
À Procura da Escala
Cotovia

quarta-feira, 15 de abril de 2009

História em molho de especiarias

Veneza, Lisboa e Amesterdão foram as três cidades escolhidas por este historiador para chegar ao comércio das especiarias, o que lhe interessava. Foi uma aventura, como lhe chama no prefácio, que o levou a comer em casa de plantadores indianos de pimenta, ir à conversa com venezianos descendentes dos príncipes venezianos, aventureiros holandeses e marinheiros portugueses.
Aprendeu muito, no campo prático, como quando, por exemplo, foi levado aos campos e viu como se colhe e limpa o gengibre; entendeu as razões que levaram tanta gente, alguns especialistas, a dizerem e escreverem disparates. Pura preguiça, em muitos casos, desprezo pela história da comida e da culinária, noutros.
Antes de deslocar-se a qualquer das três cidades-charneira da investigação, o autor dedicou-se ao caso de St. Albans, uma antiga cidade inglesa de peregrinação, ao encontro da comida de um senhor feudal, um fantasma medieval. Um restaurante, em suma, em que pairam “aromas de especiarias doces e picantes”, especializado que é em comida balti, um tipo de comida sul-asiática originária do Baltistão, em tempos identificado com o Xangri-Lá.
Aqui, à mesa com uma travessa de guisado de borrego picante, o historiador sente como seria interessante sentar ali alguns académicos para que “compreendessem como é perfeitamente verosímil o relato medieval acerca do incrível uso de quase um quilo de especiarias num único banquete”.
E se eram caras, as especiarias! O autor recorda em abono do elevado preço as origens míticas do produto, mas sobretudo o dinheiro que se podia ganhar ao comprá-las num sítio e vendê-las noutro. “Sempre que a pimenta mudava de mãos, sempre que passava por uma alfândega ou era sujeita a impostos, o seu preço disparava”, escreve. E havia lucro substancial de um comerciante e dos próprios Estados.
Para se ter ideia dos lucros proporcionados por este comércio, basta considerar que os venezianos obtinham receitas líquidas confortáveis mas não exageradas de 40%, o que significava o dobro dos lucros dos banqueiros florentinos à época. Quanto aos portugueses, regista, podiam obter lucros de 150% ou mais na comercialização em Lisboa da pimenta que compravam no sul da Índia.
Não é preciso mais para entender os porquês da primeira grande globalização da História, e, eventualmente, compará-la com esta segunda, a nossa, com negócios de outras “pimentas” que igualmente multiplicam preços com a travessia dos oceanos.
Bom apetite e não abuse do picante, caro leitor!
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Michael Krondl
O sabor da conquista – ascensão e queda das três grandes cidades das especiarias
Edições 70, 19,90€

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os comunistas ainda têm a culpa de tudo?

O interesse dos americanos pela história da Rússia (entenda-se comunismo) existe desde que o comunismo por lá se fez notar. Recorde-se o esforço de John Reed, simpático para os sovietes, esse nada imparcial, assumidamente interessado na Revolução em que Lenine pontuava e que ele foi conhecer.
Pretensamente independentes surgiriam muitas obras, ao longo das décadas, uma boa parte sobre o que foi o grande obreiro da implantação dos sovietes. Outras focavam-se em Estaline, para aproveitar o lado sórdido do sujeito e assim atingir o que realmente interessava em Washington: denegrir a que era anunciado como uma mudança do mundo em favor dos pobres, humilhados e explorados.
Haverá quem se lembre das campanhas dinamizadas nas “inocentes” Selecções do Reader’s Digest, contendo as mais diversas “investigações”, ensaios e peças de vários géneros (até anedotas!). E, paralelamente, no mundo editorial livresco, lá estavam as tais obras de historiadores, políticos e investigadores de diversa índole, procurando ir mais longe nas tintas negras com que se pintava os líderes de Leste, e a respectiva doutrina marxista.
Autores de outras nacionalidades se deixaram fascinar, alguns deles por personagens de comunistas, ou pela própria ideologia, embora longe de a ela aderirem. Em muitos casos, o que se dizia e escrevia sobre o marxismo, os sovietes e todo esse mundo mantinha-se obscuro, manipulado por um lado ou pelo outro.
Desfeita a “cortina de ferro”, morto ou domesticado o papão, nova onda de investigações procurou reforçar esse trabalho, justificando-o com um olhar mais próximo, nos casos em que isso foi possível com base em fontes e arquivos do próprio regime que se finou às mãos da perestroika. Noutros casos, foram tombos ocidentais, entretanto desclassificados e disponíveis a consultas públicas, que proporcionaram novas abordagens, com elementos diversos, por via de intervenientes também diferentes. Os resultados, porém, não divergem muito.
No caso deste livro, escreve o autor que “começou com uma ideia e um plano: a ideia era compilar uma narrativa geral sobre o comunismo em todo o mundo; o plano era fazê-lo, reunindo principalmente a literatura secundária existente em todos os países que conviveram com o comunismo”.
Para recolha de informação, Robert Service aproveitou um ano sabático no Instituto Hoover, na Universidade de Stanford, e ficou espantado com a dimensão do acervo. Assim, surgiu um livro que “investiga o comunismo nos seus muitos aspectos”; analisa os “estados comunistas, as suas lideranças e sociedades”; a ideologia comunista e “a atracção que este exerce sobre pessoas de fora desses estados”.
Enfim, uma história mundial do comunismo, como Service ousa referir. E daí que o título, com a possibilidade de parecer provocatório, irónico ou desdenhoso, remeta antes para uma tentativa alargada de perceber tal alastramento de uma filosofia política nascida na cabeça de dois homens – Marx e Engels.
Recordando a forma como se relacionou com a ideia do comunismo, Service detém-se no efeito que nele, e em colegas de escola, teve a Revolta Húngara, com os relatos e fotos nos jornais da época. Lembra a invasão do Tibete, e que “os livros dados como prémio anual na catequese incluíam testemunhos da resistência cristã ao ataque do totalitarismo marxista-leninista”.
Mas soma-lhe o interesse que lhe despertou o estudo da literatura russa na universidade, tornando-lhe óbvia a necessidade de conhecer as raízes históricas “da ordem soviética”. “Além disso, esse foi um período em que os estudantes debatiam o marxismo. Havia discussões infindáveis sobre a natureza iminentemente despótica ou potencialmente libertadora do comunismo”.
Esta tendência para o debate trazida da juventude levou este professor de Oxford e do St. Anthony’s College a uma leitura não tão aberta. O tom geral da obra é de hostilidade, como a referência genérica aos dirigentes comunistas que “olhavam pelos seus interesses e se alguma vez se preocupavam com o bem-estar do povo, isso só acontecia depois das suas próprias necessidades terem sido satisfeitas”.
O maoísmo, por exemplo, “era uma variante do marxismo-leninismo. A sua falência era evidente para a maioria dos chineses muito antes de Mão ter morrido”.
Service reconhece, no entanto, que desde a Segunda Guerra Mundial os líderes ocidentais se opunham a toda e qualquer forma de comunismo onde quer que aparecessem indícios. “Mas esta política foi abandonada nos anos 70, quando os EUA efectuaram uma aproximação com a República Popular da China e até apoiaram o regime de terror comunista de Pol Pot”, reconhece.
É este exemplo de esforço de compensação que, afinal, dá um tom novo a esta obra. O anticomunismo já não é tão primário como no tempo de MacCarthy. Já não é preciso, pensam muitos políticos, conselheiros, investigadores, etc., por esse mundo fora.
De Service estão publicadas entre nós, pela Europa-América, duas outras obras, na senda da investigação do comunismo: as biografias de Lenine e de Estaline.
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Robert Service
Camaradas
Publicações Europa-América, 35,99€

quinta-feira, 5 de março de 2009

Viver o Amor


O filósofo, professor catedrático, espiritualista e super palestrante Osho é o autor de “Viver o Amor”. Na sequência de outras obras publicadas sobre a mesma temática, este grande pensador contemporâneo desafia-nos, nesta obra, trazida até nós pelas mãos da Pergaminho, a reflectirmos sobre o amor. A grande novidade desta obra é que o autor apresenta-nos uma forma inovadora de amor. Tanto o amor que podemos dar aos outros como a nós próprios. Uma das teses apresentadas no livro leva o leitor a perceber a importância da reciprocidade amorosa. O pensador lembra que “se num relacionamento um pessoa continua a dar e o outro se limita a receber, ambos vão sofrer”. A auto-estima baixa a níveis nunca antes vistos, e os amantes tornam-se mendigos. É preciso dar e receber, e o sexo não pode ser o centro, mas sim o amor. Osho lembra que muitas relações são desfeitas porque, num determinado estádio da vida em conjunto, o casal se olha com intencionalidade mais sexual que amorosa. O homem e a mulher reduzem-se a objectos mecanizados que só se satisfazem sexualmente, esquecendo outras necessidades sentimentais, vitais e até emocionais.
O autor chega mesmo a não hesitar em referir que é perfeitamente normal o casal ter adversas variações sentimentais entre si. Há momentos estavam dispostos a morrer um pelo outro, noutro instante eram capazes de se matarem um ao outro. Osho diz que esta harmonia é normal. O importante é serem francos e fiéis. É fundamental o diálogo e impreterível aprofundarem segredos.
O escritor é um grande defensor da união entre as pessoas. “A solidão é triste, a unicidade não”, refere. No entanto, têm de existir traços em comum, algo que os relacione. Esta ideia de Osho acaba por parecer contrastar com uma outra. O autor lembra que o amor é uma brisa perfumada que entra em nossa casa, mas que não tem de ser obrigatoriamente permanente. “Na vida tudo é mudança e a mudança, por vezes, é maravilhosa”.
O escritor indiano, que chegou a ser descrito, por Dalai Lama, como um mestre iluminado, apresenta-nos uma escrita sóbria e séria. O seu discurso é poderoso e as frases curtas travam-nos a leitura e obrigam-nos a pensar em silêncio. Recomendo vivamente a obra!
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Osho
Viver o Amor
Pergaminho, 17,00 €

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O que os “tios” fizeram por nós

O 25 de Abril continua vivo. Pelo menos como matéria de investigação revela-se um campo não esgotado. Se internamente ainda não foram revelados todos os documentos, nem recolhidos todos os depoimentos, nem vasculhados todos os arquivos, informação há que vai ficando disponível em centros não nacionais.
É o caso, nesta investigação, da relação entre “Os EUA e a Revolução Portuguesa”, um tema que fez correr rios de tinta logo enquanto o 25 de Abril durou – em que grau Carlucci e Kissinger interferiram e influenciaram os acontecimentos (ou pretenderam fazê-lo)?
À época, correram as mais diversas notícias do posicionamento de Washington, e do seu apoio directo, chegando mesmo publicado o valor do “investimento” para conter o papão gonçalvista. Pela parte soviética, os autores assinalam o facto de os arquivos da URSS ainda “permanecerem inacessíveis aos investigadores, o que não permitiu aprofundar os vários registos que apontavam para um enorme apoio de Moscovo ao Partido Comunista Português entre 1974 e 1976”.
Um oficial da Defense Intelligence Agency (DIA) foi enviado a Lisboa (1 a 4 de Junho de 1975) e não hesita em fazer eco do apoio soviético aos esquerdistas portugueses, num montante entre 35 e 40 milhões de dólares em 1974. Pelo contrário, refere-se, havendo oficiais moderados do MFA sem simpatia pelo curso esquerdista de Portugal, os diplomatas americanos estavam de mão atadas: “Queixaram-se de que no quadro da direcção política [de Washington] tinham muito pouco a oferecer-lhes”, restando o “encorajamento verbal”.
O referido oficial da DIA propunha, então, para ajudar Portugal a enveredar pelo caminho da social-democrata, que Washington “demonstrasse a sua boa vontade”, apoiasse Lisboa, desde logo “cancelando o embargo de armas” ao país, estabelecendo “um programa de ajuda militar que manteria abertas linhas de comunicação com os portugueses e aumentaria a influência dos EUA”.
O conflito entre o homem no terreno, que sujava as mãos (Carlucci), e Kissinger, no seu alto cargo de secretário de Estado, não podia ser mais eloquente: o embaixador em Lisboa manteve uma leitura da situação em que Soares tinha o seu papel, enquanto o secretário de Estado norte-americano mostrava pouca simpatia por socialistas, e muito menos pela presença de comunistas nos governos.
Mas, a 17 de Junho de 1975, Arthur Hartman, responsável pelos Assuntos Europeus no governo norte-americano, telefonou a Henry Kissinger para preparar a reunião da manhã do secretário de Estado.
“Queremos ter, imediatamente, uma descrição precisa de Carlucci sobre o que está a fazer. Você vai dizer-lhe que espero que ele esteja a fazer todos os possíveis para que Costa Gomes e [Melo] Antunes percebam que vamos apoiá-los nos seus esforços para impor uma direcção mais moderada. Queremos que eles façam isto com tanto tacto quanto possível”, ordenava Kissinger.
Trata-se de um exemplo de como duas visões de uma mesma revolução num mesmo país diferiam substancialmente. E é uma ajuda substancial para entender como todas as interferências externas, umas solicitadas outras claramente abusivas, tiveram influência, muitas vezes decisiva, na evolução do 25 de Abril, no seu desfecho, no ciclo que se abriu e nos trouxe ao que somos hoje.
Uma nota: os autores ressalvam que esta obra não deve ser entendida como “uma história da revolução portuguesa”, mas sim, antes, uma avaliação do “impacto da actuação norte-americana no resultado final da passagem do regime autoritário para a democracia em Portugal”.
Por outro lado, o desenvolvimento da investigação que se consubstanciou no livro integrava um projecto em três componentes: a elaboração da tese de doutoramento de um dos autores (Tiago Sá Moreira); a obra, ela mesma; e a criação de um centro de documentação sobre as relações luso-americanas desde a Segunda Guerra Mundial.
Claro que a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) é um dos proponentes do projecto, com o Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-UNL).
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Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá
Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa
Publicações Dom Quixote, 23€