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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

As Cidades Invisíveis

Autor: Italo Calvino
Título Original: Le città invisible (1972)
Editora: Biblioteca Sábado
Páginas: 178
ISBN: 978-84-612-9211-0
Tradutor: José Colaço Barreiros

Sinopse: Marco Polo fala a Kublai Kan das cidades do Ocidente, maravilhando o imperador mongol com as suas descrições. Estas cidades, no entanto, existem apenas na imaginação do mercador veneziano: a sua vida encontra-se apenas dentro das suas palavras, uma narrativa capaz de criar mundos, mas que não tem forças para destruir «o inferno dos vivos». Este livro tem o lirismo dos livros de poemas, poemas que por vezes descrevem cidades e outras vezes a forma de pensar e de ser dos seus habitantes. Invertendo os papéis do Livro das Maravilhas, através do qual Marco Polo revelou o Oriente ao mundo ocidental, Calvino arquitectou o livro que o estabeleceria como uma das referências incontornáveis da literatura pós-moderna.

Italo Calvino já não me era um autor desconhecido, depois de Sr. Palomar, voltei à leitura das suas obras e foi em bom tempo que o regressei, assim como também foi a melhor obra que poderia ter escolhido. Impulsionado pela crítica da Canochinha e por estar de férias, aproveitando o meu tempo livre a ler obras mais curtas, escolhi a sua obra-prima, mas certamente Calvino será um autor o qual irei sempre regressar.

“As cidades invisiveís” é um maravilhoso livro, onde podemos viajar através das suas encantadoras palavras, escritas com a mesma sensibilidade com que os poetas escrevem os seus poemas. Por vezes, parei para pensar no quanto deveria ter dado imenso prazer ao seu autor escrever aquelas frases maravilhosas.

A história é simples, provando que é mesmo na simplicidade das coisas que podemos encontrar a genialidade, influenciada por, ou talvez seja mais correcto dizer, homenageando, o livro de viagens de Marco Polo, Calvino cria uma obra onde a história é uma conversa entre o navegador Marco Polo e o imperador Kublai Kan, sobre as cidades do Ocidente, cidades essas que são imaginadas pelo navegador, sempre de forma a  que magia, a beleza e o fantástico se encontrem, como forma de encantamento, quer ao seu imperador, quer a nós, leitores, que vamos atrás das suas palavras .

Não é à toa que, segundo dizem, este é um dos livros favoritos dos arquitectos e também dos viajantes, aliás viajar é o que mais fazemos com as palavras de Calvino.

Poderia dissertar eternamente sobre a sua beleza, mas a melhor descrição que encontrei para o livro, está dentro do próprio, logo na página 43:

“As descrições das cidades visitadas por Marco Polo tinham este dom: podia andar-se por elas com o pensamento, nelas podia perder-se, parar a apanhar fresco, ou fugir a correr.”

10/10 - Obra-Prima

sábado, 8 de agosto de 2009

Se numa noite de Inverno um viajante

« Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Levanta a voz, senão não te ouvem: "Estou a ler! Não quero que me incomodem!". Não devem ter-te ouvido, com aquele barulho todo; fala mais alto, grita:”Estou a começar a ler o novo romance de Italo Calvino!”…»

É com este convite especial que o autor nos introduz no seu novo romance cuja arquitectura assenta nos inúmeros percalços que assaltam um leitor e uma leitora desde o momento em que se vêem confrontados com a súbita interrupção da história de Se numa noite de Inverno um viajante e decidem investigar a origem de tal facto.

O romance divide-se em doze capítulos, os primeiros dez seguidos cada um de um título que introduz uma história diferente, sempre iniciada e interrompida num momento aliciante da leitura. Os capítulos com numeração parecer conter a voz do autor empírico Ítalo Calvino, os restantes iniciam dez romances de autores imaginários, cada um com um título diferente, resultantes da busca incessante que o leitor faz para averiguar o que se passou, de facto, com o percurso do romance com que iniciou a leitura. O conjunto dos diferentes títulos surge, a dado momento, num texto corrido constituindo ele mesmo um corpo significativo: Se numa noite de Inverno um viajante, fora do casario de Malbork, debruçando-se da escarpada falésia sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entrelaçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pela lua à volta de uma cova vazia ,- Que história lá ao fundo espera o fim?

Este livro, de surpreendente estrutura, torna-se original pelo permanente diálogo com o leitor que é também personagem e, por outro lado, com o leitor real, aproximando-nos da construção narrativa e levando-nos a apreciar a mestria da escrita, com um conjunto de expressões que apetece reter, passar para um caderno para reler um dia.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

As Cidades Invisíveis

Sinopse: Marco Polo fala a Kublai Kan das cidades do Ocidente, maravilhando o imperador mongol com as suas descrições. Estas cidades, no entanto, existem apenas na imaginação do mercador veneziano: a sua vida encontra-se apenas dentro das suas palavras, uma narrativa capaz de criar mundos, mas que não tem forças para destruir «o inferno dos vivos». Este livro tem o lirismo dos livros de poemas, poemas que por vezes descrevem cidades e outras vezes a forma de pensar e de ser dos seus habitantes. Invertendo os papéis do Livro das Maravilhas, através do qual Marco Polo revelou o Oriente ao mundo ocidental, Calvino arquitectou o livro que o estabeleceria como uma das referências incontornáveis da literatura pós-moderna.

Sinceramente, nem sei por onde começar a opinião deste livro. Aproveitei as mini-férias do Carnaval para o ler e dei a tarefa por concluída em algumas horas, tal foi a forma como fiquei hipnotizada com esta leitura.

Não é um livro muito fácil de descrever - a sinopse é, contudo, bastante elucidativa - ou de catalogar. Trata-se da colocação em palavras de uma imaginação prodigiosa. O livro não tem propriamente uma história, para além do facto de termos Marco Polo a falar de diversas cidades ao imperador Kublai Kan. As várias cidades vão desfilando diante dos nossos olhos, agrupadas por temas (Memória, Desejo, Sinais, Subtis, Trocas, Olhos, Nome, Mortos, Céu, Contínuas e Ocultas), sendo que cada tema contém 5 cidades ordenadas segundo um esquema cuidado, mas que nem por isso impede o leitor de se sentir completamente enredado no que está a ler.

A grande maioria das cidades descritas são completamente surreais: desde cidades debaixo de terra ou de água, a cidades suspensas ou que consistem em duas metades, em que uma delas periodiocamente vai viajar por outras paragens. Mas, para além do surrealismo físico, estas cidades são também descritas através dos sentimentos dos seus habitantes, dos quais conhecemos os pensamentos e estados de espírito, que, frequentemente, se reflectem na própria cidade descrita.

A escrita é simplesmente genial: faz-nos viajar, imaginar, pensar. Pensar que todas as cidades descritas podem ser lados de apenas uma cidade, pensar no verdadeiro significado de tantas descrições e reflexões. Para mim, uma das conclusões a tirar deste livro é que a imaginação tem muita força. Termino este post tal como o livro termina, com esta frase genial:

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.

10/10 - Obra-prima

[Livro n.º 14 do meu Desafio de Leitura]

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Palomar

A primeira sensação que tive quando acabei de ler "Palomar", de Italo Calvino, foi mesmo que, numa outra altura da minha vida, iria, certamente, relê-lo. E, talvez, com essa releitura, iria apreciar esta obra duma outra maneira, duma maneira quiçá mais "madura", porque este livro merece ser lido com tempo (certamente irei relê-lo numa altura de férias), pensado, discutido e depois ser-lhe feita uma reflexão mais séria.

Digamos que, envolvido que estou no rebuliço dos dias e na falta de tempo, a altura para o ler não terá sido a melhor, e talvez desse mais valor a um livro mais “imediato” e não a um que necessita de ser lido com mais tempo, como refiro atrás.

Não quero dizer com isto que "Palomar" seja um mau livro, com uma história complicada, difícil, muito antes pelo contrário, a história, ou melhor, o conjunto de histórias de tão simples que são, merecem serem melhor percebidas, melhor discutidas e isso apenas com tempo e com uma reflexão. Não é à toa que eu considero o final muito melhor do que o seu início, provavelmente já me estava a habituar ao seu estilo, embora me pareça que no último capítulo tenha as reflexões mais pessoais com as quais acabamos por nos identificar depressa.

O livro gira à volta do Sr. Palomar e das suas "aventuras", que acabam sempre numa reflexão filosófica. Ele está dividido em 3 capítulos, "As férias de Palomar", "Palomar na cidade" e "Os silêncios de Palomar", que depois estão subdivididos em pequenas histórias, onde descobrimos alguns sentidos às coisas mais mundanas do mundo.

Foi o primeiro livro de Calvino que li, certamente irei voltar a ler mais obras suas, principalmente as mais conhecidas.

Simples, muito narrativo e com reflexões merecedoras de destaque, é um livro que nos ajuda a ver o mundo com outros olhos e a reparar nas coisas mais simples que, muitas vezes, nos passam ao lado.

7/10 - Bom