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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Da Imaginativa - Raimundo Lúlio, Vida E Obras, E Tentativa De Análise E Leitura, de Dennys Robson Girardi

TRECHO:
INTRODUÇÃO
O presente trabalho de conclusão do curso de Filosofia, da Faculdade de Filosofia São Boaventura, tem por título “Da Imaginativa”. “Da Imaginativa” é um pequeno capítulo dentro de uma das obras antiaverroístas de Raimundo Lúlio, denominada “O livro da Lamentação da Filosofia”.
O pensamento de Lúlio, espalhado em inumeráveis e multifárias escritas, profundas e complexas, é simples, não num sentido unidimensional, simplório, de fácil compreensão, mas concentrado e uno, e repetido em mil e mil variantes e modalidades, criando estruturações cada vez mais complexas, bem concentradas. Assim, por ser simples nesse sentido, para a expor o pensamento de Lúlio, exige-se muito trabalho, competência e saber.
Este pequeno trabalho de conclusão do curso de Filosofia não pode nem deseja de alguma forma apresentar o próprio pensamento de Lúlio, por ser iniciante e de pouco saber. Espera apenas ser como que o início de um longo estudo a que gostaríamos de nos dedicar, na medida da possibilidade a nós concedida. Assim, o objetivo principal deste trabalho é, como expressamos no seu subtítulo, apresentar a vida e a obra de Raimundo Lúlio, e fazer uma tentativa bem breve e, talvez, pouco abalizada de entender, a nosso modo, o pequeno capítulo do livro “Da Lamentação da Filosofia”.

sábado, 6 de outubro de 2007

A Clavícula seu Apertorium / A Chave Universal, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

Prefácio
Raimundo Lúlio, filósofo e alquimista catalão, nasceu em Palma de Maiorca no ano de 1235, sendo filho de uma família muito rica. Os seus contemporâneos chamavam-lhe o iluminado. Escreveu mais de duas centenas e meia de livros. Até à idade de trinta e um anos levou uma vida turbulenta e, por causa de uma paixão violenta e infeliz, mudou radicalmente de vida; voltou a Palma, em 1266, para levar uma vida ascética e virtuosa depois de repartir os bens entre os seus filhos.
Viajou muito, em 1277 esteve em Montpelier onde escreveu vários livros e, em 1286, esteve em Roma. Daí foi para Paris, onde também escreveu várias obras, prosseguindo os seus estudos de alquimia e tendo aí conhecido um alquimista famoso, Mestre Arnaldo Vila-nova. No ano de 1291, já com trinta e seis anos, dirigiu-se a Tunis para pregar mas estabeleceu controversas com o muçulmanos. Por isso, o sultão mandou-o prender. Fugiu da prisão e embarcou para Nápoles, onde viveu vários anos dando conferências. Voltou a Roma para falar com o papa Celestino V. Desde 1299 pregou aos judeus de Maiorca, Chipre, Síria e Arménia. Regressou a Itália e a França, por onde viajou de 1302 a 1305, falando sempre em público e escrevendo. Passou à Inglaterra, alojando-se no hospital de Santa Catalina, onde escreveu uma obra de alquimia. É muito conhecida a transmutação que fez para o rei Eduardo III, de mercúrio e estanho em ouro, com que o monarca fez cunhar moedas chamadas raimundinas ou rosas nobres.
Em 1307 voltou a pregar aos mouros e visitou Hipona, Argel e Bughiah, onde pregou na praça pública. O povo enfurecido quis matá-lo. Salvou-o o mufti, mas esteve preso durante seis meses, findos os quais o embarcaram para Itália. À chegada, o barco naufragou, mas ele salvou-se. Não obstante isto, voltou a África, desembarcando outra vez em Bughiah para pregar no deserto durante dez meses. Cansado de esconder-se, em 30 de Junho de 1315, saiu para pregar na praça pública mas o povo apedrejou-o fora de portas. O seu corpo ainda com vida, foi recolhido por uns genoveses que o levaram para o seu navio. Morreu à vista de Palma. Sepultaram-no nessa cidade, na igreja de São Francisco, onde ainda hoje se pode visitar o seu túmulo.
A Clavícula é a obra alquímica mais importante de Raimundo Lúlio. Tal como outros grandes alquimistas do passado, como Alberto o Grande no Composto dos Compostos, Basílio Valentim no Último Testamento e Nicolau Flamel no Breviário, o Mestre escreveu esta obra também em linguagem clara, o que não era e ainda não é usual fazer-se.
Não obstante, esta linguagem só poderia ser entendida pelos alquimistas seus contemporâneos ou pelos sábios e estudiosos, dentre os quais haveria, também, alguns nobres. À plebe, por falta de instrução, estavam vedados esses conhecimentos.
Apesar de todos os nossos conhecimentos actuais, a compreensão desta obra, mesmo em linguagem clara, continua, como outrora, vedada à maioria das pessoas, mesmo àquelas que possuam formação académica superior, inclusivamente em química.
Para a poder compreender, é absolutamente necessário conhecer a terminologia espagírica daquela época, isto é, os nomes comuns das matérias, dos vasos e utensílios e o modus operandi.
É por aqui que terão de começar aqueles que estiverem interessados em tentar fazer a obra alquímica de Raimundo Lúlio.
Por fim, não queremos terminar este prefácio sem dar alguns conselhos úteis aos filhos da Arte: todas as matérias referidas nesta obra alquímica, que, no nosso entender, nos parece verdadeira, deverão ser canónicas, quer dizer, ser tanto quanto possível de origem natural e tratadas como manda a Arte.
O vitríolo deverá ser extraído das águas dos pequenos lagos artificiais provenientes das águas pluviais infiltradas nas minas a céu aberto de pirite e de calcopirite; o cinábrio, proveniente do sulfureto natural de mercúrio bem como o respectivo azougue comum; o salitre de origem animal ou revivificado; o sal comum, tal como foi extraído das salinas marinhas; o tártaro, retirado directamente dos tonéis de vinho e tratado segundo a Arte e, por fim, o espírito de vinagre destilado a partir do vinagre forte de vinho.
Rubellus Petrinus.


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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O Livro da Lamentação da Filosofia / A Lamentação da Filosofia, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

A versão portuguesa do livro "A LAMENTAÇÃO DA FILOSOFIA" foi feita do texto original latino, escrito no ano de 1311. Encontra-se na Coleção "CORPUS CHRISTIANORUM - CONTINUATIO MEDIAEVALIS" - RAIMUNDI LULLI OPERA LATINA - Parisiis: Turnholti Typographi Brepols Editores Pontificii MCMLXXV, editado por Hermogenes Harada O.F.M.

Os manuscritos apresentam diversos títulos para a obra. A edição crítica os relaciona: Da lamentação. Da lamentação dos doze princípios da Filosofia contra os averroístas. Da lamentação da Filosofia. Da lamentação da Filosofia ao rei dos francos. Doze princípios da Filosofia. Doze princípios da Filosofia do mestre Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios da Filosofia, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física de Raimundo. Doze princípios da Filosofia de Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. A queixa da Filosofia contra os averroístas. A queixa da Filosofia a respeito dos averroístas. A lamentação da Filosofia. A lamentação da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. O livro da lamentação dos Doze Princípios da Filosofia contra os averroístas. O livro da lamentação da Filosofia. O livro da lamentação da Filosofia ou os Doze Princípios da Filosofia. A Física de Raimundo. Do lamento da Filosofia, da Teologia e de Raimundo. Do lamento da Teologia e de Raimundo.

Deus, com tua altíssima sabedoria e virtude
Começa o Livro da Lamentação da Filosofia.

Ao soberano Filipe, o mais ilustre dos príncipes e o mais pacífico rei dos francos, que refulge por favor de Jesus Cristo e sua ajuda admirável com coroa excelentíssima dos reis, e maravilhosamente ornado pela graça dele tanto por bens da natureza quanto por bens da alma, a Filosofia e seus Doze Príncipios máximos dão graça por muito e muito tempo para o aumento de frutuosa saúde.

I. Prólogo

É sabido certamente que deve ser impetrado o auxílio junto àquele que triunfa pela claridade do poder. E como eu vos conhecesse brilhar mais do que os outros, entre os reis da cristandade, pelo poder e pelo zelo da fé cristã, e, sobretudo, pela caridade, por isso, a vós recorro, tal como a um auxiliar condigno e coluna máxima da verdade, impetrando ajuda contra a injúria feita a mim, na vossa cidade de Paris, pelos averroístas. Eles afirmam que, segundo o meu modo de entender, isto é, pelo intelegível, que é meu sujeito, a fé católica é errônea e falsa; mas pelo crer, dizem ser ela verdadeira. E por esse motivo me fazem grande injúria, porque o meu intelecto não implica contradição entre entender e crer. A este respeito, portanto, na medida de minhas forças, peço defesa.

Não obstante digam que crêem na santa fé católica e que não entendem que a mesma seja falsa, afirmam, contudo, não entenderem que uma virgem possa parir um filho e que do nada se faça algo, e o mesmo asseguram de outros artigos da fé. Dizem que isto deve ser concedido quanto ao sentido e quanto à imaginação, mas não quanto às doze imperatrizes divinas, mencionadas no livro "De Natali", que são relativas aos princípios da teologia, enquanto Deus existe como sujeito da própria teologia. Dessa forma, podem negar que a virgem deu à luz um menino e assim por diante.

Eu, porém, sou a Filosofia de duas maneiras: primeiramente, com o sentido e a imaginação meu intelecto causa a ciência. Depois, com as doze imperatrizes, que são: (1)Divina Bondade, (2) Magnitude, (3) Eternidade, (4) Poder, (5) Sabedoria, (6) Vontade, (7) Virtude, (8) Verdade, (9) Glória, (10) Perfeição, (11) Justiça, (12) Misericórdia. Com estas sou superior e tenho uma coroa de ouro; com o sentido e a imaginação sou inferior, tendo uma de prata.

Disse a Filosofia, suspirando e chorando: Eu confesso perante estes meus princípios os quais são: (1) Forma, (2) Matéria, (3) Geração, (4) Corrupção, (5) Elementos, (6) Vegetação, (7) Sentido, (8) Imaginação, (9) Movimento, (10) Intelecto, (11) Vontade, (12) Memória, que nunca concebi fraude ou engano contra a teologia; pelo contrário, confesso que sou serva dela, para que através daquelas coisas, que concebo pela alma, entenda os entes reais e louve e bendiga a Deus e as imperatrizes e tenha conhecimento da essência de Deus e de sua operação intrínseca, bem como das imperatrizes e dos atos das mesmas.

Ai de mim triste e sofredora, disse a Filosofia, e acaso vós, meus outros princípios sabeis que sou tal? E vós outros, disse a Filosofia, que sois? Todos responderam, a não ser o Intelecto, que calou. Disseram que era a verdadeira e legítima serva da teologia.

E tu Intelecto, disse a Filosofia, que dizes? Respondeu o Intelecto: Eu sou quase inteiramente falso, visto que meu discurso, em Paris, se fundamenta em opiniões e, assim, que posso dizer? A minha luz deve ser pela claridade e verdade, mas está ofuscada e tenebrosa pelos falsos erros dos filósofos, que tanto me sufocam, a ponto de mal ter fôlego e força. Outro remédio não vejo, a não ser que Deus me ajude através do rei dos Francos e, quanto antes, porque os erros crescem e as verdades são sufocadas. Paris, entretanto, é o fundamento, porque corre a fama que estou mais nela que em qualquer outra cidade.

Enquanto a Filosofia assim se lamentava e lastimava e em alta voz clamava: Ai de mim, onde estão os religiosos, homens bem letrados e devotos e também outros que me ajudem, enquanto assim a Filosofia clamava, suspirava e lacrimava, aconteceu que Raimundo, a Contrição e a Satisfação saíram de Paris, falando do perverso estado do mundo. Em certo prado ameníssimo, sob certa árvore, na qual muitas avezinhas cantavam, encontraram a Filosofia e seus princípios acima referidos. Ela estava ali, recreando-se, de certa forma, graças à beleza da árvore e aos gorjeios dos pássaros. E também ali havia uma fonte muito linda.

As senhoras supramencionadas e Raimundo pediram-lhe por que razão tanto se lamentava e lastimava.

Ela mesma deu a razão e narrou-lhes aquelas coisas, que foram mencionadas acima. Dito isso, a Filosofia rogou a Raimundo e às senhoras que fossem ao rei dos Francos e dissessem aquelas coisas, que ouviram e pedissem que pusesse remédio; e dissessem ao rei que ficaria um peso na sua consciência, caso não fizesse isso.

Mas, as senhoras e Raimundo quiseram saber primeiro o estado dos seus princípios. Isso agradou à Filosofia, que ordenou que a Forma primeiro falasse de si mesma e de tal modo, que as senhoras e Raimundo pudessem ter dela conhecimento.

iciais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.

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sábado, 29 de setembro de 2007

Do Nascimento do Menino Jesus, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

CARTA AO MAGNÍFICO SENHOR REI DA FRANÇA

Ao ilustríssimo e magnífico senhor Filipe, pela graça de Deus rei da França, gloriosíssimo e insigne por muito sincera caridade. (1)

Que o menino para nós nacido, um filho que se nos deu (2), e que ansiamos por encontrar, Jesus Cristo feito Homem, conceda-vos bom governo e vos oriente por inteiro a procurar a sua glória e a sua honra. Assim, clementíssimo Rei, aceitai com alegria este opúsculo, no qual, como um peregrino, podereis de algum modo contemplar o abençoado Recém-nascido, alcançando a contemplação de ambas as naturezas d'Ele, que juntamente com o Pai e com o Espírito Santo reina, Deus bendito em trindade de pessoas. Amém.

Proêmio

Ah, Senhor! Inspirai naqueles que crêem em Vós o afeto e a ação de fazerem-se semelhantes a Vós, e o irrevogável propósito de manterem-se constantes em tal pensamento, e de não terem nenhuma parte com os infiéis, e de cumprirem os mandamentos da vossa lei. Fazei-nos, Senhor, verdadeiros sem orgulho, humildes sem fingimento, alegres sem devassidão, justos sem erros, serenos sem jactância, pobres sem miséria; sem avareza, ricos; sábios mediante o estudo, sem vontade de parecer arrogantes.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Livro do amigo e do Amado, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

Sobre a vida que levava o ermitão Blanquerna

Blanquerna costumava levantar-se à meia noite, abria as janelas de sua cela para ver o céu e as estrelas e começava sua oração o mais devotadamente que podia, de tal modo que toda a sua alma estivesse mergulhada em Deus e seus olhos em lágrimas e prantos. Blanquerna contemplava Deus e chorava longamente até a madrugada. Depois entrava na igreja, tocava para as matinas, e vinha o diácono que o ajuda a rezá-las. Após a aurora, cantava a missa. Terminada a missa, Blanquerna dirigia algumas palavras sobre Deus ao diácono, para que se enamorasse dEle, e ambos, falando de Deus e de suas obras, choravam juntos por causa da grande devoção que sentiam nas palavras que diziam. Depois disto, o diácono entrava na horta, trabalhava um pouco e Blanquerna saía da igreja e distraía sua alma do trabalho que tinha suportado, e dirigia seu olhar para as montanhas e as planícies para daí tirar alguma recreação.

Logo que Blanquerna se sentia reconfortado, entrava em oração e contemplação ou lia os livros da Divina Escritura ou o "Livro de Contemplação", e permancia assim até a hora de terça. Depois, rezavam a terça, a sexta e nona; e depois da terça, o diácono retornava e preparava algumas verduras ou legumes para Blanquerna. Na horta, ou em outras coisas, Blanquerna trabalhava para não ficar ocioso e ter melhor saúde. Entre o meio-dia e a hora de nôa, depois de ter comido, voltava sozinho à igreja para dar graças a Deus.

Terminada a sua oração, costumava passear uma hora pela horta até a fonte, ou por todos aqueles lugares onde melhor pudesse alegrar sua alma. A seguir, dormia para melhor aguentar o trabalho da noite. Terminado o sono, lavava suas mãos e o seu rosto e esperava até que tocassem as vésperas, para as quais voltava o diácono. Acabadas as vésperas, diziam as completas, e o diácono ia embora. Blanquerna considerava tudo aquilo que mais lhe agradasse e melhor o preparasse para entrar em oração.

Após o pôr-do-sol, Blanquerna costumava subir ao terraço que estava sobre a sua cela e permanecia em oração até o primeiro sono, olhando o céu e as estrelas com os olhos chorosos e o coração devoto, absorvido nas honras de Deus e nas faltas que os homens cometem contra Ele neste mundo. Blanquerna, contemplando do pôr-do-sol ao primeiro sono, ficava em tão grande recolhimento e fervor, que, já uma vez na cama e dormindo, às vezes lhe parecia que continuava com Deus, tão forte era a sua oração.

Blanquerna permaneceu nessa vida e nessa felicidade até conseguir que todas as pessoas daquelas redondezas tomassem grande devoção às virtudes do altar da Santa Trindade que havia naquela capela. E, movidos pela devoção, vinham à capela muitos homens e mulheres que perturbavam Blanquerna em sua oração e contemplação. E para que as pessoas não perdessem a devoção que tinham àquele lugar, hesitava em dizer-lhes que não viessem mais, e por isto Blanquerna mudou sua cela para um monte que distava uma milha da igreja e outro tanto do local onde ficava o diácono. Permaneceu nesse lugar e não queria à igreja nas horas em que aí houvesse gente, nem queria que algum homem ou alguma mulher viesse para aquela cela para onde se tinha mudado.

Assim viveu o ermitão Blanquerna, considerando que nunca estivera em tão prazerosa vida nem tão bem disposto para levantar sua alma a Deus. Tão santa vida era aquela em que Blanquerna estava que Deus o abençoava e encaminhava para lá todos os que tinham devoção pelas virtudes daquele lugar onde estava a capela; e assim o Papa, os cardeais e seus oficiais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.

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terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

Introdução

Começa aqui o livro sétimo, a respeito das bestas.

Despedindo-se do filósofo, pôs-se Félix [1] a caminhar por um vale repleto de árvores e fontes. Tendo-o cruzado, encontrou dois homens de cabelos e barba longos, vestidos mui pobremente. Saudou-os e foi por eles saudado.

- Belos senhores, disse-lhes Félix, de onde vindes e a que Ordem pertenceis? Porque, pelas vossas vestes, bem parece que entrastes em alguma Ordem.

- Senhor, responderam-lhe os dois homens, estamos vindo de terras distantes e atravessamos uma planície próxima daqui, onde um bando de animais selvagens tenta escolher seu rei. Pertencemos à "Ordem dos Apóstolos", [2] representando nossas vestes e nossa pobreza a conduta que tinham os Apóstolos enquanto estiveram neste mundo.

Admirou-se muito Félix de os dois homens terem ingressado em Ordem tão elevada como aquela dos Apóstolos e disse-lhes estas palavras:

- A Ordem dos Apóstolos é a mais nobre de todas as Ordens e quem nela professa não deve temer a morte, e sim mostrar o caminho da salvação aos infiéis que estão no erro, bem como dar aos cristãos testemunho de vida santa, tanto pelas obras como pelas prédicas: pois, o homem que esteja em tal Ordem não pode deixar de pregar e fazer todas as boas obras ao seu alcance.

Estas e muitas outras palavras disse Félix aos dois homens que se diziam da Ordem dos Apóstolos.

- Senhor, retorquiram eles, não somos dignos de levar a mesma vida perfeita dos Apóstolos; todavia, procuramos representar a imagem de sua conversão, através de nossas vestes, de nossa pobreza e da peregrinação que fazemos pelo mundo, indo de país em país. Temos esperança de que Deus há de enviar ao mundo homens de vida santa, professos da Ordem dos Apóstolos, os quais, donos de ciência e da boa palavra, saberão pregar e converter os infiéis, com a ajuda de Deus; haverão também de dar bom exemplo aos cristãos pela sua vida e palavras santas. Para que Deus se mova de piedade e os cristãos desejem o surgimento desses homens, procuramos representar a imagem dos Apóstolos.

Agradou-se bastante Félix do que lhe disseram os dois homens e tendo com eles chorado copiosamente, acrescentou estas palavras:

- Ah, Senhor Deus, Jesus Cristo! Onde estão o fervor santo e a devoção que costumavam existir nos Apóstolos, os quais para Vos amar e conhecer não temiam nem os sofrimentos nem a morte? Bom Senhor Deus, oxalá seja do vosso agrado a chegada breve dos tempos em que se torne real a vida santa que estes homens com sua imagem representam.

Dito isso, Félix recomendou a Deus os santos homens e se dirigiu para o local onde os animais selvagens procuravam escolher seu rei.

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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Vida Coetânea, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

Em 1311, nas vésperas do Concílio de Viena, Ramón Llull conta a sua vida, presumivelmente aos seus amigos da Cartuxa de Vauvert. Mão anónima escreveu a Vida Coetânea, que permanece a fonte quase única para o conhecimento da biografia do Doutor Iluminado e, por conseqüência também desta Vida de Ramón. Thomas Le Myésier, ao reunir os textos lullianos para o Electorium que havia de entregar os manuscritos da Biblioteca de Vauvert, a que Ramón doara uma cópia de todas as suas obras.

Para a tradução, tomei por base a versão castelhana de Ana Maria Saavedra e Francisco Samaranch, usando a latina para tirar dúvidas e a catalã para suavizar a estrutura demasiado rígida da tradução castelhana, ela mesma feita muito junto à letra do original latino.

Os textos latino e catalão da Vita Coetanea encontram-se em Ramón Llull, Obras Literárias, edição preparada e anotada por Miguel Battlori e Miguel Caldentey (BAC, 1948).

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domingo, 9 de setembro de 2007

O Livro da Ordem de Cavalaria, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull

Deus honrado, glorioso, que sois cumprimento de todos os bens, por vossa graça e vossa bênção começa este livro que é da Ordem de Cavalaria.

INICIA O PRÓLOGO
1
Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender.

A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda, do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro; a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.

2
Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes, e em um bosque grande, abundante de águas e árvores frutuosas, fez sua habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso, o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro, e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.

3
Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos, onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes o prado e as árvores que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias, de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de sua vida neste mundo.

4
Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes. E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora, o cavaleiro que na floresta fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.

5
Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro, deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou a ler em um livro que tinha em sua falda. O palafrém, quando foi à fonte, bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso; e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito santa.

Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro se maravilhou fortemente como tinha chegado naquele lugar.

6
O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro, e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente e disse:

— Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por que vieste aqui?

— Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E por isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste lugar.

7
Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo. Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:

— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.

8
O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria, e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que Deus lhe havia dado.

— Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.

9
Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro:

— Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir a regra e a ordem de cavalaria.

— Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar todas as suas forças para honrar a cavalaria.

10
O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse:

— Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria, a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.

11
— Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem, por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.

12
O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém e se foi para a corte muito alegremente. E sábia e ordenadamente deu e apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse trasladar, para que de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.

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