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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

João Pombeiro | 30 Anos de Mau Futebol

1- De que trata este seu livro «30 Anos de Mau Futebol»?
R- É um anedotário com as frases mais hilariantes do futebol português nos últimos 30 anos. Os protagonistas são os futebolistas, dirigentes, árbitros e empresários. Há de tudo um pouco: metáforas, comparações, bitaites, gaffes, etc. O futebol também foi criado para nos fazer rir. E não é que conseguem?

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Não há uma mensagem especial. O futebol é sobretudo gozo (do bom). Este é mais um. Durante mais de um ano recolhi centenas de frases em jornais e revistas. Escolhi as melhores e agora só espero que os leitores possam gozar bem este anedotário. Vale a pena.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento, nada. Mas vamos ver o que acontece em 2010.
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João Pombeiro
30 Anos de Mau Futebol
Quetzal Editores

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Cor. Sousa e Castro | Capitão de Abril, Capitão de Novembro

1- De que trata este seu livro «Capitão de Abril, Capitão de Novembro»?
R – O livro "Capitão de Abril, Capitão de Novembro" é a narrativa do percurso pessoal de um jovem capitão que, por razões geracionais e outras fortuitas, se vê envolvido, ora como participante activo, ora como observador previligiado, num conjunto de acontecimentos político-militares que marcaram a história de Portugal no ùltimo cartel do século XX.

2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R – Gostaria que a partir da leitura do meu livro pudesse ficar clara a noção das dificuldades que se apresentaram nessa época , quer no plano pessoal, quer no plano institucional, a quem a todo o custo queria manter uma linha de coerência ético-política.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – Por agora não estou a escrever, mas tenho em mente publicar no próximo ano um livro de ficção.
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Cor. Sousa e Castro
Capitão de Abril, Capitão de Novembro
Guerra e Paz

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fundamentalismo para principiantes


José Alberto Braga, também conhecido pelo seu pseudónimo JAAB (José Alberto de Araújo Braga!), nasceu em Braga e logo emigrou para o Brasil, talvez para aguçar o seu humor irónico… Multifacetado, trabalhou no teatro, rádio, televisão, dando particular relevo à cultura Portuguesa, pelo que fundou um jornal e duas revistas dedicadas a temas portugueses.
Raul Solnado disse dele que “José Braga é humorista. Um grande humorista!”, enquanto Jô Soares, depois de desistir de tentar descrever o seu trabalho, disse somente: “Só posso dizer que espero que vocês se divirtam tanto como eu me diverti ao ler o seu trabalho.”
Gostei especialmente da sua explicação de Burocracia: “É uma espécie de teia de aranha tecida pelo lado do avesso. Só que o meu amigo encontra-se invariavelmente do lado contrário.”
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José Alberto Braga (JAAB)
Fundamentalismo para Principiantes
Planeta Editora

O Céu sobre Berlin


“O Céu sobre Berlin”. Assim se intitula o mais recente livro de Danyel Guerra. “(Pre)textos de Viagens” é o subtítulo desta colectânea de crónicas e “road stories” (estórias de estrada), encenadas nas cidades de Berlin, Bilbao, Guetaria, San Sebastián/Donostia, Vitoria/Gasteiz, Barcelona, Oviedo, Gijón e La Manga del Mar Menor.
“O Trabantáxi de Berlin” assume-se como o (pre)texto âncora da publicação, editada pelo editora Aleph, com produção gráfica de Estratégias Criativas. O croniconto evoca a travessia a pé, pelo autor, do Muro de Berlim. Quando estamos a menos de um mês da passagem dos 20 anos da queda (ou derrube) do “Berliner Mauer”, Danyel Guerra reflete sobre esse acontecimento, que simbolizou a ruína da chamada cortina de ferro e dos regimes socialistas de obediência soviética.
Outro (pre)texto genuinamente instigante do ponto de vista político-cultural será “Entrando por el cano”. Nele, o autor adopta o estilo típico do publicismo, polemizando sobre as relações, frequentemente equívocas, entre Portugal e o Estado espanhol.
“O Céu sobre Berlin” encerra, na contracapa, com um texto síntese de Fernanda Rodrigues dos Santos, que sublinha a pulsão cinemática instalada pelo autor nestas narrativas viajantes.
Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, num dia de Vénus do mês de Novembro, sob o signo de Escorpião. Radicado em Portogaia há vários anos, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desde 1983 tem sido, nas horas (mal)pagas, redactor de jornalismo. Em 1987 publicou o “Guia de Verão/Porto/Roteiro Jovem”, edição do FAOJ-Porto. Mais recentemente, em 2004, deu à estampa, para o selo Armazém Literário, “Em Busca da Musa Clio”, ensaio biográfico sobre o árcade portuense Tomás Gonzaga. Pela mesma editora foi publicado, em 2008, o volume de cronicontos “Amor, Città Aperta”.
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Danyel Guerra
O Céu Sobre Berlin

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Para salvar o Planeta

Com a cimeira de Copenhaga à porta, vale a pena ouvir o que os investigadores têm a dizer sobre o aquecimento global. Muito se tem dito e escrito sobre o tema e só não está informado quem não quer, tal é o volume de informação disponível nos mais variados suportes.
Portugal não fugiu à regra e entre as muitas obras publicadas, de autores estrangeiros ou nacionais, refira-se o didáctico “Como Arrefecer o Planeta”, de João Lin Yun, professor associado no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador na área da Astronomia e Astrofísica (em que é doutorado pela Universidade de Boston).
Em menos de centena e meia de páginas, João Lin Yun dá ao leitor as informações necessárias para compreender as razões do aquecimento global – e com uma clareza espantosa, provando que a ciência não tem de ser enfadonha nem incompreensível.
Depois de introduzir o problema das alterações climáticas (“a maior ameaça ao futuro da humanidade”), nos capítulos seguintes o autor desenvolve o tema com informação sobre o equilíbrio do planeta, aquecimento e arrefecimento (naturais) da Terra, efeito estufa ou fontes de carbono e respectivo mercado.
Em capítulos com títulos sugestivos como “As soluções”, João Lin Yun faz uma breve exposição sobre os vários tipos de energias renováveis, terminando ironicamente com a pergunta: “Afinal, como se arrefece o planeta?” A resposta é uma verdade de La Palisse: «A Terra tem uma única forma de arrefecer, a saída de energia para o Espaço, na forma de radiação infravermelha. Arrefece como um ferro eléctrico desligado (colocado no vácuo). Por isso, para arrefecer a Terra, temos de deixá-la arrefecer, não tapando as saídas de radiação infravermelha com as nossas emissões de gases com efeito estufa.»
Mas o mais interessante de todo o livro talvez seja a enumeração dos riscos para Portugal das mudanças climáticas, salientando-se, entre elas, as secas prolongadas alternadas com inundações severas, a deterioração da qualidade da água, a desertificação do Alentejo e o aparecimento de mais insectos e de doenças tropicais.
Prosseguindo o seu cunho absolutamente didáctico, o livro deixa vários exemplos práticos que estão ao alcance do cidadão comum e que podem contribuir para o arrefecimento global. O planeta agradece.
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João Lin Yun
Como Arrefecer o Planeta
Editorial Presença, 12,50€

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Resta a água da colónia

A alguns rios bastaria o tumulto dos mitos que alimentam para que fosse de sobressalto a sua corrente, agitado o percurso, acidentada a história. Atropelam as nossas memórias as piranhas do Amazonas, as múmias do Nilo, as cheias do Mississípi, as valsas do Danúbio, o Rio Amarelo na orgia da cor, e por aí adiante.
O Congo (que por devaneio nacionalista/tribal já foi Zaire), esse, emerge das grandes matas de África, marco da colonização portuguesa, palco maior dos seculares horrores africanos, mapa de cobiça – sempre, pelos escravos primeiro, os diamantes e o ouro depois, as madeiras exóticas, o cobre, e o cobalto nos nossos dias.
O grande rio que pareceu limitar o continente à brevidade da costa acabaria por tornar-se a veia de comunicação essencial à exploração colonial que, ainda assim, no século XIX, apenas despertou os apetites do rei belga Leopoldo. Os exploradores como Livingstone e Stanley abriram o caminho, a vilanagem não tardaria.
Os nossos dias acordaram um jornalista inglês para a descida do Rio Congo, ele que cobria para o seu órgão todo o continente e que acabou por ali aterrar em serviço. A percepção dessa realidade de um país deixado nos braços de políticos corruptos, na agitação permanente e na inexistência de leis, nas doenças e na incerteza somaram-se a uma velha semente deixada pela mãe do próprio jornalista que ainda jovem, na década de 50 do século XX, por ali tinha viajado – em segurança, paz e conforto invejável.
Tudo somado, o jornalista fez-se aventureiro, leu muito, consultou gente que conheceu em trabalho no próprio Congo, planificou o que pôde com apoio da Internet, conseguiu que o seu jornal lhe desse cobertura. E fez-se ao caminho para o que não tardará a parecer ao leitor mais uma loucura do que uma hipótese séria de cobrir milhares de quilómetros por terra e rio, sem cobertura logística de praticamente nenhum tipo. Bem, na verdade, socorrendo-se do que no terreno ainda funciona: grupos de apoio disto e daquilo, forças da ONU, de ajuda humanitária, missionários ou do que deles resta (ou é possível).
E lá se fez ao terreno de todas as provações, mais numa viagem ao futuro do que ao passado, veja-se o paradoxo, quando o jornalista dá em pensar que afinal, neste país, a faixa etária que mais de perto viveu o desenvolvimento ali levado pelo século XX (sob a forma de colonialismo!) foram os velhos que ainda restam. Os outros, os mais jovens, já não têm memória das estradas e ferrovias que há muitas décadas passaram porventura pelas suas aldeias. É que ele vai encontrar carris, por exemplo, ao longo de uma vereda deixada pela selva e que percorre… numa motocicleta de pequena cilindrada.
Conta-lhe um grego de família emigrada, numa etapa da viagem em Kisangani: “Nasci aqui, no Congo. Quando os meus pais me levaram de regresso à Grécia, em criança, lá era mais atrasado do que aqui. E eu ansiava por voltar ao Congo, porque era mais desenvolvido do que a Grécia. Consegue imaginar?”.
Chegados aqui justificar-se-ia um suspiro de saudade… das colónias, não? Mas os antigos colonialistas não deixaram o chão que deu uvas. Hoje “crescem” ali as mesmas e outras matérias-primas que justificam todos os investimentos e corrupções. Eles continuam por lá, alguém compra os minérios, faz funcionar as linhas (não ferroviárias, que essas enferrujaram…) mais ou menos clandestinas de transporte, paga aos cleptómanos sanguinários de hoje como já subornou e alimentou os de ontem – os de sempre, aqui como em qualquer outro lugar.
É assim que um pouco desse país vai descendo todos os dias em direcção ao oceano que dissimula o sangue de todas as chacinas, ao Ocidente que tem a consciência suficientemente infinita para viver em paz no clamor de tantas mortes, aos consumidores que querem lá saber…
E por isso o ciclo se repete nos sucessivos golpes de Estado, em manobras infindáveis justificadas por jazidas que emergem nas bolsas internacionais, em discursos bem intencionados de políticos que não leram, não viram, não sabem. Nem querem saber que este mundo é tão estranho, tão diferente, que aqui “no Alto Congo, onde há cem anos um caçador belga podia comprar bilhetes de ferribote, em 2004 é tão impossível comprar uma Coca-Cola como ir à Lua”.
Até a Coca-Cola? Pois, esta gente alimenta-se de mandioca e bananas, bebe água do rio mal fervida quando é possível, come pequenos peixes que aparentemente é o que consegue apanhar. Pelos vistos, quando nos anos 60 o governo foi entregue às gentes de Mobutu, a que se seguiram outros iguais, e depois outros não menos piores, ninguém se lembrou das canas de pesca do aforismo chinês (ou do livrinho vermelho de Mao…). E, lembre-se, não é por a China estar ausente: uma boa parte do cobalto que hoje se escoa pelas frinchas da corrupção vai ser embarcada em Durban com destino à indústria que agrava a quota de carbono devida por Pequim.
Aqui chegados, alto lá que se calhar estamos a afundar-nos em demagogia. Claro que os povos africanos têm a sua quota de responsabilidade e Butcher não ilude a questão. “A crueldade e a ganância dos ditadores africanos devem ser criticadas, mas também é verdade que os povos africanos não foram capazes de trabalhar em conjunto para controlar os excessos dos ditadores. O poder do povo em África bate um infeliz recorde”, assinala.
O poder do povo ficou reduzido às águas da colónia que foi belga, e que hoje é apenas de um rio que se chama Congo. Vermelho, de sangue, diz Tim.
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Tim Butcher
Rio de Sangue
Bertrand Editora, 18€

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A marca vitriólica do Barreiro

Há pouco mais de um século, a mão de um grande industrial lançou no Barreiro, margem Sul do Tejo, em frente de Lisboa, a semente do que viria a ser o maior empório fabril português. Assim nascia um conglomerado de empresas que marcaria a vida económico-financeira do país durante grande parte do século XX, quase sete décadas.
Assim nascia um conglomerado de empresas que durante grande parte do século XX marcaria a vida económico-financeira do país – e do Barreiro. Disso dá conta Jorge Morais
Foi um passo de gigante o que Alfredo da Silva então deu, atravessando o rio com a produção de adubos, que fabricava em Alcântara. Do lado de lá, aproximava-se do grande local de consumo desta sua produção – as terras cerealíferas do Alentejo – e ficava com uma matéria-prima essencial, as pirites dali provenientes, mais acessível pelo transporte ferroviário, uma mais-valia logística e económica.
O ácido sulfúrico, pois claro. As pirites são a base da síntese do ácido sulfúrico, que como o autor assinala foi o químico inorgânico que mais pesou na economia das nações, no século XX. Ele era usado na produção de fertilizantes, mas também nos decapantes, detergentes, ácidos, sulfatos, refinação do petróleo, papel.
As unidades do Barreiro fortaleciam-lhe também a posição nos óleos, que produzia em Alferrarede, um ramo de negócio que incluía o sabão e as estearinas. A nova posição estratégica garantia-lhe uma posição hegemónica no mundo das oleaginosas, a via para o monopólio, que passava igualmente pelo transporte fluvial e marítimo, tanto na distribuição dos produtos acabados como na recepção de matérias-primas de outros meridianos e latitudes. E, em crescendo, o estuário ali à beira, estava mesmo a pedir o lançamento de uma empresa de transporte marítimo, e quem diz isto por que não pensar em estaleiros? E, depois, tudo o resto que viria a constituir o universo CUF – Companhia União Fabril.
Pensar grande, pensar futuro, foi o que Alfredo da Silva fez, quando em 1907 adquiriu os terrenos de uma anterior fábrica de cortiça. Foi a partir desse espaço fundador que ele consolidou o grupo industrial que mais tarde passaria ao grupo familiar dos Mellos, sendo que um dos seus principais protagonistas no pré-25 de Abril e nos tempos que se seguiram, de tentativas de refundação e recuperação, José Manuel de Mello, morreu há ainda pouco tempo. Incensado, pela dimensão e significado do império cufista.
Claro que um aparelho industrial da dimensão referida polarizaria a vida da terra. O Barreiro dos anos 60, o eixo desta abordagem – talvez tempo da infância do autor, quando “viu” a vila com olhos de menino – fervilhava em torno dos turnos fabris, dos incidentes, ritmos, produções, vida associativa e social que a organização industrial proporcionava – e determinava.
Uma das ruas centrais da vila era a do Ácido Sulfúrico, ainda hoje existente, num espaço “civil” conquistado à adormecida e/ou aniquilada actividade industrial de há quase quatro décadas. Outras ostentavam nomes como o de Rua dos Superfosfatos, Travessa da Glicerina ou Rua da Pirite. Eram, na verdade, estes, pilares do fervilhar da terra.
Um quotidiano que o autor tão bem sintetiza na evocação da sirene do meio-dia, “a poderosa ‘buzina’ que ecoava por toda a freguesia chamando dez mil almas à pausa do almoço”. Como este aviso, eram os ritmos das fábricas que determinavam tudo o resto, nos seus 200 hectares que ocupava na fase final, tendo sob a sua alçada linhas férreas privativas, bairros de habitação, refeitórios, laboratórios, escolas, posto médico, bombeiros, etc..
Uma organização social, a do Barreiro, que obedecia a um figurino político-social herdado da segunda metade do século XIX e prevalecente na Europa até depois da Primeira Grande Guerra, assente, como recorda o autor, na figura do “patrão-pai”. A obra social lançada por Alfredo da Silva logo com o arranque da implantação do pólo industrial foi nessa linha.
Mas não era esse mundo, por si, uma garantia de paz. Alfredo da Silva já tinha provado o sabor (e revezes) das lutas operárias e políticas, sobretudo na sequência do sidonismo, que apoiou. E assim procurou refúgio em Paris, certamente espevitado pelas greves no Barreiro e dois atentados pessoais. O seu nome, esteve, de resto, lembra o autor, inscrito na lista negra da “noite sangrenta”.
Não é que, em 1907, o fundador da CUF desconhecesse as tradições do Barreiro, já não “uma pacata terra de pescadores e camponeses que repentinamente despertasse para o progresso tecnológico”. Não, Alfredo da Silva sabia “que não encontraria uma população dócil, acomodada ou subserviente, quando começou a contratar operários no Barreiro”. Mas acreditou no efeito atenuador da obra social que trazia para aplicar – e concretizou.
Os tempos menos pacíficos atravessariam, naturalmente, as longas décadas de crescimento do império da CUF. Os últimos anos antes do 25 de Abril de 1974 registariam focos de perturbação social, com a presença da GNR cada vez mais necessária à dissuasão dos contestatários. Assim aconteceu nos anos 60, e até antes: por exemplo, em 1943, pouco depois de D. Manuel de Mello, genro de Alfredo da Silva, assumir a presidência da CUF, as fábricas foram atingidas pela greve e o “Barreiro submetido à tutela militar”. Tudo isto, apesar de uma relação tensa com o salazarismo, que Alfredo da Silva já arrastara, com algumas vitórias, e que os herdeiros Mello assumiram e mantiveram. Com lucros.
Quando o 25 de Abril se apresentou como obra feita, o quadro já não era brilhante neste como noutros grupos industriais, portugueses e não só. Jorge de Mello é aqui evocado na sua recordação de que “a fase final do regime é uma corrida contra o tempo, procurando internacionalizar o grupo, explorando as suas possibilidades de abertura na sociedade portuguesa, sobretudo em direcção à Europa”. A crise do petróleo fazia-se um grande abanão, já tremiam as grandes economias mundiais.
O Barreiro ficou como é hoje, comido lentamente pelas nacionalizações, por essa crise que lhes era alheia. E paralisado, até hoje, o aparelho industrial que ocupava grande parte do seu território, uma mescla caótica de actividades que se cruzavam, enfrentavam e que muitos detestavam – apesar de delas dependerem economicamente. E até o característico smog barreirense, que tantos protestos alimentava, acabou de vez.
O definhamento das indústrias, sob a novel designação de Quimigal, mais o dos caminhos-de-ferro que alimentavam outro pólo, o das oficinas da CP, ditou o marasmo de hoje. A concentração industrial cedeu o passo a um dormitório de novas e velhas urbanizações, o desânimo tomou conta das antigas e novas gentes, a esperança até já reside na nova ponte que há-de atravessar o Tejo e atracar no Barreiro exactamente no ponto onde já houve CUF.
Paradoxos dos tempos. E, tudo somado, lembra o autor, resta hoje “no Barreiro uma memória benévola, temperada pelos senões que qualquer actividade humana comporta”. Uma memória benévola, diga-se, que cada vez mais se fez complacente no sentido de comprazimento – uma imagem de marca dos nossos tempos face ao passado, mesmo que amargo. Não é assim com o chocolate?
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Jorge Morais
Rua do Ácido Sulfúrico – Patrões e operários: um Olhar sobre a CUF do Barreiro
Bizâncio, 12, 15€

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Os olhos dos estrangeirados

A década de 60 foi uma sangria em Portugal. A maioria das pessoas nem se aperceberia do clima de “claustrofobia democrática” em que se vivia, embora muitos dos que melhor a suportavam e até apoiavam tenham passado sobre as brasas… até hoje. Mas esses são outros voos de outras aves.
O que interessa para aqui é o ambiente sentido sobretudo pelos pobres, muitos e muito pobres, que passadas décadas nada mais tinham visto do que promessas madrastas de uma mãe pátria avarenta, prepotente, arrogante, apesar do que exigia em troca. Empurrados por esta vida desataram, pouco a pouco, a procurar sítios onde empurrar a vida – a Europa, claro, que apesar da exiguidade de passaportes se alcançava a pé, com documentos falsos, como era possível. “A salto” se chamava ao processo de migração clandestino.
Por outras paragens andavam milhares, muitos e cada vez mais jovens, numa guerra em que não tiveram escolha. Era o outro lado da sangria, uma lavra de morte que exauria forças, meios e expectativas. E que pedia sempre mais braços, mais armas, mais dinheiro. E que lançava as labaredas de um desgosto nos meios mais esclarecidos, nas burguesias, nas universidades, na própria tropa – que curiosamente abria os olhos, cansada da guerra. Afinal, a claustrofobia atingia instâncias dos menos pobres e até razoavelmente instalados.
Destes jovens com mais meios e mais sedentos de aventura e novos mundos, muitos acabaram por fugir, mais ou menos clandestinamente, mais ou menos desiludidos, com razões politicamente fundadas ou apenas levados pelo cansaço, a desilusão, o desgosto. Na verdade, a Mocidade Portuguesa não os convencia… a todos. Mas, não se iludam, muitos sim. Outros voos de outras aves, também aqui.
Claro que quando o 25 de Abril possibilitou o regresso de toda essa gente, foi uma agitação. Os guerreiros à força desataram a querer o regresso a toda a brida e – não só por isso, mas também – foi o fim da guerra a toda a velocidade. Daí a “entrega” das colónias, porque quem queria mais vagares não tinha a pressa da tropa. Uma questão de velocidades.
Fronteiras abertas, os emigrantes por razões económicas não terão sentido a febre do regresso – afinal, eles fá-lo-iam logo que tivessem atingido o tecto das ambições. Os outros, os que tinham formação política ou lá próximo, esses, certamente encontrariam razões para se reinstalarem no seu país natal. A darem uma força ao regime democrático, influenciando decisões, entrando na máquina do poder, eles que tinham logrado formação de excelência, em muitos casos.
Curiosamente, muitos vieram cheirar os novos ventos políticos, alguns encontraram quanto queriam, dedicaram-se à nova política, adaptaram-se. Construíram carreiras. Mas, sabe-se, muitos nem fizeram questão de vir ver. E outros viram e rapidamente fizeram meia volta.
Destes, dos que nem aceitaram o desafio ou desistiram, quatro tinham começado a construir novos caminhos nos países de acolhimento, como refugiados políticos tinham tido boas oportunidades. As suas inteligências, boa preparação e desempenho elevado abriu-lhes portas, criou-lhes verdadeiros centros de interesse.
Encontraram noutros países o ambiente, a qualidade de vida, a vida política, a todos os níveis, que Portugal sempre lhes negara. Que, diz a História, na sua leitura, nunca proporcionou. E Portugal, os portugueses, já não brilhavam no fundo do túnel da política que lhes tinha indicado o caminho da deserção – não, já, da vida militar, mas de tudo. Isto é: não valia a pena o regresso, o país não tem cura.
É um livro imperdível por quanto nos faz repensar aqueles anos em que cada um destes quatro se fez à fuga. A situação de um deles, então jornalista, chegou mesmo a dar brado na própria Assembleia Nacional pelo tratamento militar que lhe foi dado, incorporado sob regime disciplinar. Impregnado de actividade política, acabou como alto quadro da UE.
Outro, partiu cedo, talvez menos politizado, mas o desencanto do mundo portuense à volta não lhe deu margem. Cientista feito, estabeleceu-se na investigação universitária belga, abriu caminhos que lhe deram a satisfação de uma vida. Regresso? Ora, ora…
Outro, foi de militância funda, andou pela clandestinidade do Partido Comunista, desiludiu-se da disciplina interna, das relações, contestou… acabou excluído. Era um duplo sinal de que pouco mais teria para fazer por cá. Lá está também na Bélgica, professor e investigador na área da psicologia cognitiva. Também ficou bem com a vida de Bruxelas.
Por fim, um poeta, homem que começou por ligar-se à ONU, depois às instâncias europeias, politólogo, professor.
Encontraram-se todos nas estradas de Bruxelas, sobretudo. Reconheceram-se mutuamente valor, ajudaram-se, e perceberam esse laço de união no espírito crítico, por vezes ácido, contundente, com que vêem o Portugal resultante da revolução de 1974. Algo que se traduziu na recusa de voltar, no desinteresse, na perspectiva de inutilidade.
Um quadro que não é partilhado de igual modo e com igual intensidade por todos os quatro protagonistas deste périplo pelo passado – estrangeirados, como se dizem. Ao longo de quatro jantares arrebicados e carregados de simbólica, em que por vezes perpassa o desgosto final por não terem “podido” – ou “querido” – voltar, estes ilustres portugueses ajudam-nos a reflectir sobre o Portugal das últimas quatro décadas.
Ferem-nos, porque nos desprezam como colectivo, pondo-se à margem, reconhecendo-se elitistas, vendo-nos do alto da Europa. Às vezes andam por ali o remorso, a farpa também ao país de acolhimento, aos hábitos dos outros, ao seu modo de ser e de viver. Mas, no conjunto, estes estrangeirados não nos têm em muito boa conta. E talvez tenham razão. É ler e perceber porquê.
Então o Godinho, o Godot feito personagem central de uma história em que aparece uma única vez? Sim, aparece numa esquadra, e mal, é um retrato nada favorável: corrupto, cheio de estratagemas, desregrado… um português, o português? Relapso, excrescência de uma tropa fandanga recrutada num universo de feios, porcos e maus.
Por fim, a curiosidade de o livro ter sido escrito e impresso de acordo com as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Opção determinada, bem ponderada. O tema é, aliás, debatido no último jantar, aproveitando-se para cilindrar quantos, em Portugal, atacaram a entrada em vigor do acordo.
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Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa, José Morais, Manuel Paiva
À espera de Godinho – Quando o futuro existia
Bizâncio, 15€

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Nem só de CIA vivem os americanos

Os tenebrosos mundos das forças criadas e mantidas como sustentáculo de actividades sombrias, pantanosas e tantas vezes criminosas dos Estados têm sempre surpresas para oferecer-nos. É o caso desta organização, RAND, que o título da edição americana comporta e caiu na versão portuguesa, talvez por via dessa obscuridade que tornaria tudo menos aliciante e até chocante.
Pois este acrónimo existe, lá está ele numa rápida e superficial visita ao Google, plasmado num texto afinal esclarecedor publicado pela Wikipedia em versão inglesa (http://en.wikipedia.org/wiki/RAND): corresponde à Rand Corporation, um “global policy think tank”.
Na capa da edição portuguesa de “Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano” assinala-se que o New York Times sintetizou o livro assim: “A história do obscuro grupo de intelectuais que moldou o mundo moderno.”
Já o autor explica que a designação resulta da contracção de “research and development”, pesquisa e desenvolvimento, sendo que os seus detractores optaram por atribuir-lhe outras funções: “pesquisa e nenhum desenvolvimento”. Mas não deixa de ter envolvimentos, no mundo da política – e, portanto, da economia, das guerras, das fomes, etc. – ou não fosse por isso e para isso que foi constituída.
Má vontade, dir-se-á, porque o trabalho constatou, entre outros factos, que a RAND ajudou, nos anos 50, a Administração americana, nas mãos de Eisenhower, a enfrentar a ameaça de guerra termonuclear com a então União Soviética; na década seguinte, o envolvimento norte-americano no Sudeste Asiático foi lá buscar cabeças para os “principais cargos políticos”. Mais, o autor entende que a estrutura reduzida do governo de Reagan, nos anos 80, e a sua política intervencionista serão resultado das actividades do “think tank”. Muito se pensa por ali!
Indo ao campo prático, o autor, que obteve uma autorização da própria RAND para sobre ela escrever, regista que, por exemplo, no final dos anos 50 um engenheiro da organização desenvolveu o conceito de “packet switching”, ou rede de comutação de dados, que se revelaria básico na concepção e funcionamento da Internet.
Nos últimos 60 anos, recorda a Wikipedia, mais de três dezenas de vencedores do Prémio Nobel tiveram ligações com a organização em algum ponto das suas carreiras. Quanto às áreas de trabalho correntes, aí estão as políticas juvenis, a justiça civil e criminal, a educação, o ambiente e a energia, a saúde, a política internacional, os mercados de trabalho, a segurança nacional, as infraestruturas, a política de informações, gestão de crises e preparação para desastres, etc. Um mundo que, como se vê, dá para intervir em tudo, em todo o lado, em qualquer oportunidade.
Na governação da RAND estão representados vários grupos de interesses, encontrando-se aí, por exemplo, o nome de Francis Fukuyama; entre os eméritos, Frank C. Carlucci; no quadro dos que por lá passaram temos Walter Mondale, Condoleezza Rice e Donald Rumsfeld.
Para terminar, foca um exemplo do trabalho desenvolvido por estes cérebros: foi um consultor da RAND, Vernon L. Smith, prémio Nobel da Economia em 2002, quem estabeleceu a base teórica da desregulação dos mercados energéticos nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. Um outro colaborador, William Vickrey, também ele Nobel da Economia em 1996, em partilha com James A. Mirrlees, forneceu o fundamento da subida dos preços cobrados pelas companhias de electricidade, telefones e transportes aéreos durante os períodos de maior uso. E no seu palmarés está a criação da portagem rodoviária urbana, actualmente tão em voga.
Como se ilustra, entre cabeças pensadoras, punhos de dinamite, e arsenais de todo o tipo, Estados não-párias como os EUA têm as suas reservas bem constituídas e oleadas, para o que der e vier.

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Alex Abella
Os soldados da sombra – Ascensão e afirmação do império americano
Editorial Bizâncio, 16€

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Inglaterra sob o olhar americano

Não é por acaso que é considerado um dos melhores escritores de viagens da actualidade e os seus livros são “best sellers”. A verdade é que o norte-americano Bill Bryson tem uma enorme curiosidade por tudo o que o rodeia (especialmente atitudes e comportamentos), lança um olhar de verdadeira descoberta sobre os países que visita, tem sentido de humor e alguma bonomia na forma como encara os “defeitos” dos locais – e a sua escrita reflecte tudo isso.
Assim, ler um dos seus livros dá ao leitor, mais do que a sensação de ficar a conhecer aquela terra como se lá estivesse estado, a enorme vontade de lá ir, espicaçando-lhe o apetite mas deixando a sensação de que ainda há muito para descobrir… quanto mais não seja para verificar, “in loco”, se as coisas e as pessoas são realmente assim, como Bryson as descreve.
Um dos seus maiores sucessos foi agora editado pela Bertrand em versão de bolso, tornando-se um pouco mais acessível à maioria das bolsas (mesmo daqueles que não conhecendo o género e/ou o autor recusam gastar muito numa aproximação relutante). Trata-se de “Crónicas de Uma Pequena Ilha”.
A “pequena ilha” é, claro, a Inglaterra, e Bryson diverte-se (e diverte-nos) a descrever “os comportamentos civilizados casuais” dos ingleses, ou seja, as incongruências daquele povo, segundo os padrões de um norte-americano – mesmo que “imigrado” na ilha desde 1977, tinha então 15 anos.
Embora tenha vivido em Inglaterra com a mulher e quatro filhos (instalaram-se em North Yorkshire), o autor observa a realidade sempre como alguém de fora, um “estrangeiro” a quem o convívio permite uma certa complacência. E denota, em muitas das suas apreciações, um olhar absolutamente americano – bem patente, por exemplo, na opinião emitida a propósito dos sindicatos, quando recorda o período em que trabalhou no The Times.
Apesar disso (ou talvez por isso), “Crónicas de Uma Pequena Ilha” proporciona uma divertida leitura, muito a propósito nesta época estival.
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Bill Bryson
Crónicas de Uma Pequena Ilha
Bertrand Editora, 10€

terça-feira, 7 de julho de 2009

Em Roma, como os romanos

Ano especial este de 2009, de crise e de eleições, de sol apagando-se e de política incendiada. O jogo da conquista do poder já anda na rua, deu os primeiros resultados e atiçou os ânimos. Mesmo sem calor, a coisa promete, com os candidatos jogando no tudo por tudo e as massas – eles assim o desejam – arrastadas nessa onda exaltada.
Daí a actualidade deste Cícero que nos lembra: “O vulgo tem apenas um meio de ganhar os favores da nossa ordem ou de nos prestar serviço: ajudar-nos e escoltar-nos durante as campanhas eleitorais.”
Quando estas palavras foram alinhadas, Roma ia despedaçada por convulsões e as campanhas eleitorais desempenhavam um papel importante nas carreiras políticas. “Nada é mais inconstante do que a multidão, nada é mais obscuro do que as intenções dos homens e nada é mais falacioso do que o sistema dos comícios”, recorda o editor no prefácio ao livrinho (que na verdade reúne três textos da mesma época).
Claro que hoje os meandros políticos e os processos de arregimentação mudaram e até há quem se congratule com o fim dos comícios. Certo que, hoje como ontem, “nem tudo se resume a astúcia, embustes e perfídia”, mas há muitos procedimentos que pouco ou nada mudaram. Uma razão, entre outras, para rever a origem de alguns truques, processos e misérias humanas.

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Quinto e Marco Túlio Cícero
Pequeno Manual de Campanha Eleitoral
Publicações Europa-América, 8,51€

domingo, 14 de junho de 2009

Não seja rezingão


Richard Carlson foi considerado um dos maiores especialistas mundiais em Felicidade e redução do stresse, sendo autor de mais de 30 best-sellers.
No seu percurso da escrita sobre desenvolvimento pessoal dscobriu que o maior obstáculo ao nosso aperfeiçoamento espiritual são… os outros.
Neste livro é-nos apresentada uma fórmula de como sobreviver num mundo recheado de gente mesquinha, incompetente, arrogante e mal-intencionada.
É um novo livro da colecção de Desenvolvimento pessoal da Pergaminho que, de uma forma divertida, nos fornece conselhos práticos para lidar com pessoas difíceis.
Num formato simples sobre como melhor lidar com as várias situações do dia-a-dia, este é um bom livro para ser lido, quer pelos rezingões da vida, para melhor perceberem o efeito que causam no resto dos mortais, quer por aqueles que, tendo que lidar com esses mesmos rezingões, desejam agir com eles de uma forma livre de tensões.
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Richard Carlson
Não seja rezingão
Pergaminho, 11€

sábado, 30 de maio de 2009

Defender a língua portuguesa


O escritor Cristóvão de Aguiar traz para o formato livro a sua intervenção na blogosfera. O autor confessa: «nunca gostei de ver a nossa língua maltratada». Mas, nos jornais (e não só) as situações menos correctas são muitas. Começou por corrigir estas falhas recorrentes como autor do blogue A Destreza das Dúvidas.
Esse intenso trabalho passou agora a livro e quem ganha somos todos nós que queremos escrever melhor. São inúmeras as dicas e sugestões que este livro apresenta, sempre com o rigor e simplicidade. Útil, conciso, directo.
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Cristóvão de Aguiar
Charlas sobre a Língua Portuguesa
Almedina, 12€

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Força dos Afectos


O título do livro soava um bocado lamechas... embora o olhar demasiado sério da menina de sardas da capa o contradissesse...
Na realidade é um livro de uma humanidade comovente.
Torey Hayden, a autora conta-nos uma sua experiência, enquanto professora do ensino especial.
Agora imaginem que deparam com uma turma de meninos assim:
- três crianças da Irlanda do Norte, entre os 6 e os 14 anos, que assistiram a actos de terrorismo, cujos pais foram mortos e que deram por si a viver nos EUA com familiares emigrados
- um rapazinho de 11 anos esquizofrénico
- uma menina de 7 anos autista
- uma menina de 8 anos com sexualidade precoce
Parece complicado?
Mas há mais! Porque estas crianças têm famílias igualmente complicadas, particularmente Leslie, a menina autista.
Torey consegue gerir tudo isto, com uma ternura, um empenhamento e uma admirável firmeza.
Melhor, consegue resultados extraordinários com estes míudos.
Espanta-nos esta maravilhosa professora, envolve-nos, ensina-nos também.
Um livro lindíssimo, que faz rir e faz chorar, bem escrito, sem pretenciosismos literários. Directo! Daqueles livros em que ficamos com vontade de conhecer a autora, dar-lhe os parabéns, um abraço apertado e dizer: Muito Obrigada minha Senhora por ser como é!
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Torey Hayden
A Força dos Afectos
Editorial Presença, 20,00 €

sábado, 4 de abril de 2009

Casos de Polícia

Os crimes estão na moda devido à extensa cobertura mediática que recebem, casos como o desaparecimento da pequena Maddie ou a descoberta da «casa dos horrores» na Áustria merecem.
Tal como os casos que lhe deram origem, são livros substancialmente diferentes embora ambos procurem a verdade e as «explicações» possíveis para o que se passou.
Muitas vezes as televisões evidenciam as partes mais espectaculares e superficiais do crime ou da investigação. Mas, em forma de livro, os autores vão mais longe e procuram esclarecer e destacar com maior clareza as diversas facetas destes dois casos de polícia. São, por isso, importantes para conhecer e compreender e para reflectir.
O caso Maddie é aqui analisado em profundidade com uma visão vinda do interior da Polícia Judiciária, num testemunho directo do autor que foi um dos principais investigadores no terreno.
O perfil de Josef Fritzl que este livro mostra resulta de uma intensa e completa pesquisa para tentar perceber o percurso, as motivações e os actos do «monstro» austríaco.
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Gonçalo Amaral
Maddie-A Verdade da Mentira
Guerra e Paz, 13,30€
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Nigel Cawthorne
A Casa dos Horrores
Ideias de Ler, 13,90€

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Milhões de Mulheres à Espera de um Encontro – Uma história de vida, amor e encontros na internet



Um livro curioso e bem disposto, bastante íntimo e assumidamente escrito na primeira pessoa.

Sean Thomas é jornalista e um daqueles solteirões inveterados, que quase a passar a barreira dos quarentas, vê os amigos e as amigas a casar-se, ter filhos, divorciar-se, enquanto teimosamente continua em busca da parceira ideal.

Até que um dia, o seu editor da revista Men’s Health lhe sugere escrever um artigo sobre o mundo das relações amorosas na internet e porque não aproveitar a boleia do trabalho e encontrar a parceira perfeita?

Sean desconfia. Encontrar a mulher dos seus sonhos via net?! Estaria o editor a chamar-lhe incapaz de conseguir parceira por vias “normais”? Que mulheres verdadeiramente interessantes se exporiam assim em sites de encontros? E o romantismo? Haveria lugar para o romance neste frio mundo de teclas, fios, cabos subterrâneos e encontros às cegas?

Mas não se discute com o patrão, trabalho é trabalho e como da proposta faz parte o pagamento integral, das despesas dos doze primeiros encontros... o nosso Sean atira-se de cabeça para o universo dos amores cibernéticos.

E é adorávelmente sincero, com o picante da auto crítica bem humorada, Sean conta-nos tudo, as suas expectativas, as suas inseguranças, as desilusões, o vício de ficar dias colado ao computador, os pormenores por vezes caricatos dos encontros, as contas astronómicas de registo nos sites que promovem o amor, as suas descobertas sobre a sua própria sexualidade e a dos homens em geral.

Um livro bem escrito, honesto e muito divertido sobre os amores e desamores na internet.

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Sean Thomas

Milhões de Mulheres à Espera de um Encontro

Editorial Presença, 15,00 €

O Despertar dos Mágicos


Lembro-me de ter lido há mais de trinta anos, este mesmíssimo livro, numa edição de capa preta. Na altura foi um deslumbramento. Pudera!
Nessa época em Portugal, só se falava de coisas concretas e palpáveis, esquerdas e direitas, revoluções e contra revoluções, não havia lugar para mistérios, fenómenos paranormais, visitantes do espaço, manifestações do oculto e outras “coisas esquisitas”.
Creio que hoje estamos numa época diferente e mais abertos à ideia de um universo vasto e misterioso, que se mistura sem aviso e frequentemente sem ámen científico, com nosso mundo supostamente concreto e palpável do dia a dia (veja-se o que dizem os mais avançados estudos de física quântica!).
Começa a haver espaço para uma dimensão espiritual do Homem, sem esta estar forçosamente ligada a qualquer religião. Já nem tudo o que não se explica científicamente em laboratório é superstição ou demência.
O Homem enquanto Ser está mais amplo, recuperou a alma, o espírito, ou que lhe quisermos chamar.
Nestes dias em que as teorias da conspiração fazem já parte das conversas de café, em que a ideia de visitantes extraterrestres não parece descabida a quase ninguém, O Despertar dos Mágicos é um clássico velhinho, desactualizado em muitos pontos, é certo, mas mantem a aura de magia, fascínio e arrojo que os seus autores lhe deram página a página.
Continua a ser um livro recomendável para quem nunca o leu e um prazer nostálgico para quem o teve nas mãos algum dia.
Porque este livro continua a deixa-nos com “a pulga atrás da orelha”, num mundo de assuntos nunca completamente explicados: Civilizações desaparecidas como a Atlândida ou a Lemúria, Stonehenge, a alquimia e os alquimistas, os negros rituais nazis por detrás dos factos políticos, ovnis e extraterrestres, e mais e mais!
Bom e interessante livro a ler ou a reler.
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Louis Pauwels e Jacques Bergier
O Despertar dos Mágicos
Bertrand Editora, 18,95 €

quinta-feira, 19 de março de 2009

Viver com a tribo

A relação entre cinema e literatura é por demais conhecida. Mas, mais recentemente e devido à cada vez maior influência da televisão, os papéis inverteram-se e são as séries que justificam a edição de livros. Há vários exemplos, como “Sahara”, do incontornável Michael Palin. Ou o agora publicado em Portugal “Tribo – Aventuras num mundo em mudança”, de Bruce Parry, em colaboração com Mark McCrum (que deu forma e tornou legível o livro).
“Tribo”, o livro, vem na sequência da série da BBC com o mesmo nome, aproveitando o seu êxito e, já agora, o muito material recolhido e o trabalho feito ao longo de mais de quatro anos de filmagens.
O objectivo da BBC foi «fazer uma série de programas emocionantes sobre os povos indígenas que habitam alguns dos lugares mais remotos do mundo», uma abordagem prática que respondesse a perguntas concretas como a subsistência, a interacção familiar e social, os sentimentos e crenças dessas gentes. E considerou que a melhor forma de responder a tais questões «seria convencer o apresentador Bruce Parry a viver nestas comunidades durante um certo período de tempo. Não permanecer num acampamento nas proximidades, na companhia da equipa, mas viver de facto como os habitantes dia e noite».
O livro é, pois, o relato escrito do que foi a experiência de Bruce Parry enquanto viveu como “um homem da tribo”, ou seja, entre os habitantes das 15 tribos dos cinco continentes objecto de divulgação nos programas de televisão.
Essa experiência, com o que teve de melhor e com as situações menos felizes ou compreensíveis aos olhos de citadinos ocidentais, (pre)enche as quase três centenas de páginas do livro, contribuindo para “destruir” a visão romântica e estereotipada do indígena exótico e mostrando ao leitor que, independentemente do lugar e condições em que habitam, os homens são, no essencial, todos iguais.
“Tribo” está escrito num estilo coloquial e dinâmico, o que torna a leitura uma aventura também para o leitor.

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Bruce Parry
Tribo – Aventuras num mundo em mudança
Publicações Europa-América, 24,91€

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Olho de Jade


Depois de ter escrito, em 2004, “O Lago Sem Nome”, uma história de amor e conflito na China Moderna, Diane Wei Liang apresenta ao leitor o seu mais recente sucesso. Chama-se “O Olho de Jade”. A obra, publicada em 2008, igualmente pela mão da Editora Bizâncio, retrata-nos a história da primeira mulher a tornar-se investigadora particular na China, mais propriamente em Pequim, a cidade que mais parece um país e, como tal, com milhões de casos para investigar e descobrir. A detective chama-se Mei Wang, e trabalha por paixão e independência em diferentes casos. Ela é uma mulher de sucesso, rica e amante de luxos. As suas regras são quase sempre encontrar contra-estratégias para se poder afirmar num país onde reina um partido ardil e de regras tenebrosas como breu. Aliás, apesar de se tratar de uma ditadura, onde os direitos humanos são diariamente violados e o lápis vermelho do Partido Comunista Chinês rasga muitas publicações à nascença, pode dizer-se que esta obra é escrita com verdade e largueza, pois a autora vive nos EUA desde o Massacre na Praça de Tiananmen. Distanciou-se em tempo e espaço, e isso permitiu-lhe arrefecer a sua reflexão e retratar as suas vivências que acabam por suportar este seu novo romance.
Todo o enredo do romance começa quando Mei Wang é contactada por um amigo para que investigue e tente encontrar um valioso e poderoso jade da dinastia Han, roubado de um museu durante os anos da Revolução Cultural. Podemos dizer que esta investigação é remetida para um segundo plano. A protagonista, ao entrar nos meandros das buscas, começa a descobrir verdades pouco claras da história chinesa. A autora coloca em cena um conjunto de personagens de diferentes estratos sociais, dos mais pobres aos mais abonados e poderosos. É neste palco que tudo gira. Os ricos casinos de luz e yuans contrastam muitas vezes com fracas e miseráveis ruelas onde a descalça miséria abunda.
O livro é, essencialmente, uma parábola da sociedade chinesa centrada na ascensão social e cega nas desigualdades sociais. No caminho da sua investigação, Mei percebe, pela primeira vez, que há crimes que nunca foram investigados, inocentes presos e criminosos à solta. A leitura desta obra é empolgante, um verdadeiro modelo de jornalismo de investigação que ajuda a perceber a política do país mais populoso do mundo. Valeu a pena ler. Parabéns Diane!
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Diane Wei Liang
O Olho de Jade
Bizâncio, 12,50 €

terça-feira, 3 de março de 2009

De bicicleta até à Mongólia

Os momentos de crise – social ou simplesmente individual – levam muitas vezes a mudanças de vida radicais, quase sempre forçadas. Mas também há quem, num dado momento do seu percurso, opte pela mudança, ou apenas um por interregno, um parêntesis no quotidiano rotineiro, quantas vezes (quase sempre) considerado de sucesso pelos padrões estabelecidos.
Foi o que aconteceu a Antoine de Changy, de 36 anos, e a Célina Antomarchi-Lamé, de 34. Após vários anos de dedicação às respectivas carreiras, ambas na área dos Recursos Humanos e das Finanças, ele em Nova Iorque e ela em Paris, decidiram parar. Parar para fazerem o que sempre desejaram: viajar muito, com muito tempo, sem grandes planos espacio-temporais. Especialmente queriam conhecer o “outro”, criar laços, penetrar no seu universo cultural. E foi o que fizeram, depois de casarem em 2003: montaram as bicicletas e viajaram da Turquia até à Mongólia, onde acabaram por ficar mais de um ano partilhando o dia-a-dia de uma família nómada de criadores de gado.
O resultado dessa aventura é o diário de viagem “A Voz da Estepe – De Istambul aos confins da Mongólia, ao encontro dos nómadas do Altai”.
Escrito na primeira pessoa por Changy, o próprio explica a dupla assinatura no facto de a companheira, não tendo embora colaborado na redacção do livro, ter participado na sua elaboração com sugestões e opiniões. «E participou igualmente com o seu indispensável entusiasmo que manteve ao longo dos 962 dias de viagem», sublinha.
O trajecto foi escolhido com o objectivo de cumprir os sonhos de infância: Changy idealizava a Mongólia, Célina tinha a obsessão do Irão. Com estes dois objectivos definidos, desenharam o seu mapa: Turquia, Irão, Turquemenistão, Usbequistão, Quirguizistão, Oeste da China, Mongólia.
O livro segue o percurso da aventura, relatando o que a tornou única e dando ênfase aos momentos que só o prazer da descoberta sabem valorizar – como a oferta do lenço curdo, por um jovem orgulhoso da sua identidade proibida por Ancara.
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Antoine de Changy e Célina Antomarchi-Lamé
A Voz da Estepe – De Istambul aos confins da Mongólia, ao encontro dos nómadas do Altai
Publicações Europa-América, 18,98€