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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Escada de Corda

Título: A Escada de Corda
Autor:Negrito Nigel Richardson
Tradução: Jaime Araújo
Edição: Presença
Colecção: Noites Claras
Nº de páginas: 208
"Mungo adora Londres e detesta o campo. Nunca se imaginaria a viver rodeado de árvores, flores e camponeses. Mas um dia, o pai, que ele adorava, adoece gravemente e morre, deixando Mungo e a sua mãe numa situação financeira difícil.
Sem outra alternativa, são obrigados a trocar a casa de Londres por uma casinha na província. Mungo vê-se agora rodeado de tudo aquilo de que não gosta. Sente-se miseravelmente. Sozinho, sem o pai, sem amigos, com todos os problemas existenciais próprios da adolescência... É então que o insólito acontece... Mungo encontra outro Mungo em tudo semelhante a si, até no nome! Será que a chegada deste Mungo paralelo servirá apenas para duplicar o caos em que já se encontrava a vida de Mungo? Ou será que traz na manga um plano extraordinário para o ajudar? Tudo é possível neste romance surpreendente que mistura na perfeição fantástico, ficção-científica
, thriller psicológico e universos paralelos."
Está disponível a partir de hoje o mais recente número da colecção Noites Claras. Como muitos de vocês já sabem, apesar de ser uma colecção mais vocacionada para um publico jovem, os livros costumam tratar temas muito interessantes e podem ser lidos com prazer tanto pelos mais novos como por adultos.
A personagem principal desta narrativa é Mungo, um adolescente londrino com o qual não simpatizei nada ao inicio. É um filho de uma família abastada que se acha superior aos demais e se diverte a fazer asneiras, a beber, a fazer pequenos furtos, a rebaixar os outros e a gozar e espancar os mais vulneráveis. A mãe, como tantas vezes, pensa que o filho é um prodígio, um exemplo a seguir.
Depois de um episódio nada feliz em Londres encontramos Mungo e a sua mãe em plena mudança para o campo. O pai de Mungo morreu de doença súbita e deixou a família na falência obrigando a mãe a voltar para a aldeia e para a casa onde havia sido criada. Rapidamente percebemos que a "Aldeia dos Mortos" - como a apelida Mungo - é um lugar que apesar de não muito distante de Londres, parou no tempo. Não há lojas de CD's, não há mercearias modernas, os habitantes para além de maioritariamente idosos, não seguem as tendências da moda e têm ocupações muito pouco citadinas. A aversão de Mungo pelo local é instantânea mas nada pode fazer para contrariar a realidade.
Mas num lugar onde nada de extraordinário parece acontecer, a vida de Mungo vai sofrer uma reviravolta espantosa e o insolito vai imperar após uma tarde de chuva em que Mungo conhece um jovem bimbo com quem partilha não apenas o nome mas muitas outras coisas... Depois desse primeiro "encontro", o Mungo bimbo desaparece e o leitor, tal como o personagem principal, começa a perceber que por alguma razão desconhecida apenas é possível encontrá-lo em ocasiões de chuva algo intensa. A partir daqui nada é aquilo que parece... E no final, que se revela surpreendente, acabamos por gostar de Mungo (devia dizer dos Mungo) e perdoar-lhe algumas das suas atitudes.
Gostei bastante da ideia em torno da qual se desenvolve esta história, uma ideia feita de "ses" , de opções que quando tomadas criam um universo que se torna real mas que podia não o ser se a escolha feita tivesse sido outra. Para perceberem melhor...fez-me lembrar um pouco o Donnie Darko, numa versão mais soft ou o Efeito Borboleta (não sei se já viram estes filmes). A teoria dos mundos paralelos, do viajar de uns para outros e conseguir viajar através do tempo e do espaço, as realidades que se moldam às escolhas que fazemos. A escrita do autor é leve e fluída o que nos permite avançar na estória apesar desta complicada temática subsequente e os estranhos personagens acabam por nos cativar de uma forma que inicialmente não prevíamos.
Enfim, ficção-cientifica à parte é uma narrativa algo estranha mas que acaba por envolver-nos e despertar em nós a curiosidade não só em relação à história de Mungo mas também à nossa própria história. O que poderia ser diferente se em determinada ocasião a nossa escolha tivesse sido outra? E se não tivéssemos tomado esta ou aquela atitude? Pode ser uma boa escolha para este Natal.
7/10
Nota:
A Presença também edita hoje o mais recente título de Sandra Carvalho, "A Sacerdotisa dos Penhascos".

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Por Treze Razões

Título: Por Treze Razões
Autor: Jay Asher
Tradução: Alice Rocha
Edição: Ed. Presença
Nº de páginas: 308

"Naquele dia quando Clay regressou da escola, encontrou à porta de casa uma estranha encomenda com o seu nome escrito, mas sem remetente. Ao abri-la descobre que, dentro de uma caixa de sapatos, alguém colocara sete cassetes áudio, com os lados numerados de um a treze. Graças a um velho leitor de cassetes Clay prepara-se para ouvi-las quando é sobressaltado pela voz de Hannah Baker de dezasseis anos, que se suicidara recentemente e por quem ele estivera apaixonado. Na gravação, Hannah explica os seus treze motivos para pôr fim à vida, que a cada um deles correspondia uma pessoa e que todas elas iriam descobrir na gravação o seu contributo pessoal para aquele trágico desfecho."
Por Treze Razões está disponível a partir de hoje, 20 de Outubro, numa livraria perto se si... Este é o 3º volume da colecção «Noites Claras», uma colecção original direccionada para o público juvenil, onde são incluídos assuntos relacionados com os problemas mais sérios da adolescência e da juventude. Uma colecção que, como já devem ter reparado, sigo com o maior dos prazeres.
O que leva uma jovem de 16 anos a cometer suicídio? Como pode alguém tomar uma decisão destas? É repentino ou será pensado? As respostas a estas e outras perguntas relacionadas com o tema são-nos respondidas de uma forma tocante num relato devastador mas belíssimo feito a duas vozes. Por um lado temos Clay, um jovem que amava em segredo uma rapariga que se suicida sem que ele lhe tenha revelado os seus verdadeiros sentimentos. Por outro lado temos a voz de Hannah que quando se vê sufocada pela vida e toma a decisão de deixar tudo para trás, deixa também algumas cassetes nas quais revela os seus motivos.
É verdadeiramente estranha a sequência de sentimentos que experimentamos ao fazer esta viagem pelos últimos meses de vida da personagem, o modo como à medida que vamos lendo nos assaltam a memória episódios que pensávamos há muito esquecidos, coisas que nos fizeram, coisas que fizemos... " Ninguém pode ter a certeza do impacte que exerce na vida dos demais. A maior parte das vezes, nem nos passa pela cabeça. E, não obstante, não podemos evitar exercê-lo." É este o coração de toda esta narrativa, quem nunca sofreu danos colaterais por algo que outro alguém fez? Quem nunca provocou algum tipo de dor noutra pessoa mesmo que não intencionalmente? E se as nossas acções impensadas levarem alguém a um acto tão desesperado como o suicídio, como vamos reagir ao sabê-lo? E se sentirmos que podíamos ter salvo alguém se tivéssemos tido coragem para dizer o que sentimos ou simplesmente para agir de modo diferente em determinada altura?
Longe de ser um incentivo ao suicídio, esta belíssima narrativa é um elogio à vida, um relato de situações pelas quais todos passamos uma vez na vida, um retrato da dor provocada pela impotência e pela perda mas sobretudo um incentivo a ser diferente, a olhar os outros "com olhos de ver" e a respeitar a diferença que torna cada ser humano único. Tudo isto conseguido através de uma escrita muito simples e muito jovem que deixa o leitor completamente desarmado e que o leva a identificar-se com os personagens e as situações.
Apesar de direccionado para um público mais jovem só posso dizer... Adorei.
9/10
Para mais informações ou para matar a curiosidade podem recorrer ao site oficial ou ao blog do autor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quantas estrelas tem o céu?

Titulo: Quantas estrelas tem o céu?
Autor: Giulia Carcasi
Tradução: Madalena Guerra
Edição: Ed. Presença
Nº de páginas: 340 (196+144)

"Alice e Carlo, os protagonistas deste romance, são dois jovens de dezoito anos a terminar o secundário. Sonhadores, rebeldes e vulneráveis, vivem intensamente o turbilhão de experiências e emoções que agita os seus dias e a entrada num mundo adulto que ainda compreendem mal. Um romance contado a duas vozes, de Alice e de Carlo, duas perspectivas distintas que se complementam, duas histórias que se reflectem uma na outra e se encontram na descoberta e no desejo de um amor verdadeiro e profundo. Um olhar lúcido e real sobre a vida de dois jovens adolescentes, temperado com a dose certa de romantismo."

Ler este romance, que saiu para as nossas livrarias em Agosto, foi como voltar de novo à escola secundária. Regressar de novo a um tempo em que tudo é grande e intenso, qualquer pequena zanga, qualquer paixoneta ganha ali dimensões apocalípticas e nós sempre preocupados, sempre querendo viver tudo ao mesmo tempo;voltei a uma época em que não pensamos, não vivemos, simplesmente "adolescemos"...

Alice e Carlo contam-nos em primeira mão todo o seu percurso pelo 12º ano até à entrada na faculdade. Acompanhamo-los nesta viagem repleta de amores frustrados, de desejo de experimentar, de necessidade de aceitação, de problemas com os pais entre outras coisas tão típicas desta fase da vida que nos molda e nos torna naquilo que seremos mais tarde.

A escrita é simples como se espera de uma narrativa na primeira pessoa, ao estilo "diário" e pontuada com pensamentos com os quais me identifiquei bastante (revendo aquilo que fui e pensava) principalmente em relação à Alice. O humor e os episódios que nos fazem rir povoam toda a narrativa, tornando-a leve e bem disposta até nos momentos que parecem mais penosos para os personagens. Um aspecto que me agradou bastante nesta edição, não sei se aconteceu o mesmo com a edição italiana, foi o facto de o livro estar dividido em duas partes podendo ser lido como dois livros em separado - até o sentido de ambos está invertido, isto é, o livro de Carlo está "de pernas para o ar" em relação ao de Alice - até as capas são diferentes.

Recomendo a quem tenha filhos adolescentes (talvez os compreendam melhor), aos próprios adolescentes (para que vejam que "adolescer" é igual em praticamente todo o mundo e as coisas não lhes acontecem só a eles). Desaconselho a quem não gosta de livros virados para um público mais adolescente e/ou com uma linguagem marcadamente jovem.
6/10

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Pacto - O Crime de ter Nascido

Título: O Pacto - O crime de ter nascido
Autor: Gemma Malley
Tradução: João Martins
Edição: Editorial Presença
Nº de páginas: 287
"Planeta Terra, ano 2140. A ciência oferece aos humanos a possibilidade de se tornarem imortais, mas, dada a escassez de recursos, a imortalidade só é garantida à custa da renúncia à descendência. O Pacto é o compromisso que sela tal decisão. Quebrá-lo é ir contra as leis da Natureza, e as consequências são aterradoras. Anna conhece-as demasiado bem. É uma Excedente, uma criança que não deveria ter nascido. Desde bebé que está em Grange Hall, a instituição que prepara todos os Excedentes para o terrível destino que os espera no mundo exterior. Mas um dia recebe a visita de Peter, um jovem Excedente que vem revolucionar para sempre a sua visão de si própria e do mundo… Uma estreia absolutamente original."
Ainda que nos possa parecer um livro direccionado para um público mais jovem, pela sua temática e pelas questões que levanta, esta é uma obra que pode ser desfrutada pelo público mais adulto sem quaisquer problemas.
Partindo de uma permissa que nos é muito familiar - a vida actual com todas as suas doenças, problemas ambientais e sobretudo o medo da velhice e da morte - a autora faz um verdadeiro exercício de Filosofia que nos leva a um verdadeiro campo de concentração (Grange Hall) em 2140. O mundo tornou-se num lugar muito diferente, um local ainda menos simpático e mais egoísta e é esta nova realidade que dá que pensar ao leitor.
Como consequência da visão egocêntrica e egoísta que o Homem tem do planeta no início do século XXI, pensando sempre que reciclar chegava, que a crise ecológica vinha muito longe e que para a travar bastava não andar tanto de carro, a sociedade mundial assiste a um esgotamento quase total das reservas energéticas. Simultâneamente, os cientistas descobrem o modo de prolongar indefinidamente a vida, evitando doenças e a grande maioria das naturais consequências do envelhecimento humano. Estas novas realidades levam a que as autoridades invertam a ordem natural da vida, contrariando a natureza - para que os velhos possam viver para sempre é condenada a nova vida e os nascimentos são proibidos por lei pois cada novo ser humano põe em perigo toda a Humanidade sendo visto apenas como mais um que vem esgotar os parcos recursos disponíveis. Contudo, há quem resista a esta nova visão da vida e tudo faça para que um dia o Homem possa "regressar às origens".
Além de levantar questões sobre os avanços da ciência e da tecnologia na sociedade actual (e sobre as suas possíveis consequências), Gemma Malley apresenta-nos alguns personagens que se tornam interessantes sobretudo pelo modo como retratam o comportamento e o pensamento humanos em situações de grande adversidade. É uma boa leitura de praia ou de fim-de-semana pois, apesar da temática implícita nos deixar a pensar e de a história ser algo previsível, a escrita é ligeira, o livro é pequenino e a tradução pareceu-me bastante boa.
7/10 (seria um 6.5 mas...)