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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Manuel Dias da Silva | A Gola do Tempo

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Gola do Tempo»?
R- “A Gola do Tempo” é mais uma etapa no meu percurso literário e, de certo modo, uma mudança de estilo, dentro duma evolução natural na vida de um autor.
Este livro, na essência, não é diferente dos outros, porque um autor escreve sempre o mesmo livro. Simplesmente, cada obra é vestida de forma diferente. Vamos mudando ao longo do tempo e escolhemos outras metáforas, mas, no fundo, é sempre algo de nós, umas vezes mais escondido do que outras, que está subjacente ao que se escreve. Um autor vê o mundo, e aquilo que o rodeia, através da sua personalidade e dos valores em que se apoia e acredita.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- O que me motivou a escrever “A Gola do Tempo” foi o facto de ir vendo a rapidez como o meu pai ia definhando fisicamente. A certa altura, ele, que já era surdo, foi, sucessivamente, deixando de andar e, quase, de falar. E esta evolução começou a pôr-me a questão: o que pensará uma pessoa nestas circunstâncias?
Assim, foram surgindo os poemas, propositadamente datados, sendo o último do dia da sua morte, que formaram “A Gola do Tempo”. Direi que é um livro que radica no nosso interior, onde se alojaram angústias – “enganam-nos as imagens” -, incertezas – “há sombras que nos habitam” -, medos – “do desconhecido … / do silêncio … / de algum deus, / de olhar fulminante” - e se questionam as opções tomadas ao longo da viagem. “E se tudo não fosse mais que inquietação?”
Viagem na procura da utopia, e da perfeição - “Nos limites do espírito, / julgamos possível ainda? / encontrar a chave que abre / a porta obscura dos homens” -, onde deuses e mitos estão presentes, ajudando, ou prejudicando, “mesmo quando o infinito parece indecifrável”.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Neste momento não tenho nenhum projecto em curso. Depois de ter publicado, em 2008, o livro “O Som dos Lagares”, julgo importante parar, o tempo necessário, para libertar o espírito de determinada linha, forma e metáforas. Direi que, neste momento, estou num período de pausa, que poderá durar meses, anos, ou sempre.
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Manuel Dias da Silva
A Gola do Tempo

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pedro Braga Falcão | Do Princípio

1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Do Princípio»?
R- O livro «Do Princípio» significa exactamente o seu título. É o primeiro livro que publico. Além disso, gosto da polissemia, dos diversos sentidos latentes nesta expressão. No contexto da minha poesia, este livro resulta da selecção de três ciclos que foram escritos em fases diferentes da minha vida, «Odes de uma Jovem Ausência», no ano de 2005, «A Arte da Fuga», em 2007, e finalmente «O Monólogo de Cassandra», em 2008. Apesar de ter bastante mais poesia escrita, considerei que estes três livros de certa forma consistiam num todo, que pretende mostrar fases diferentes por que naturalmente um poeta passa ao longo do seu crescimento como pessoa e autor, especialmente no caso de um homem ainda jovem, como eu sou. Publicar um livro, especialmente um primeiro, provocou-me sentimentos ambíguos. Quando o vi impresso, foi dos momentos mais felizes da minha vida. Os dias que antecederam e que sucederam a esse momento foram de intensa agonia. A minha intenção quando escrevo não é, à partida, publicar. Obedeço-me, simplesmente. Daí que este livro seja à partida uma traição a mim próprio: é doloroso ver-me assim tão desprotegido naquelas páginas. Porque o fiz? Talvez por esse momento em que entrei na Cotovia e vi as minha letras espalhadas num papel que já não me pertencia. Lembrar-me-ei para sempre desse sentimento. É extraordinariamente verdadeiro. Gostava de poder dizer que foi por simples generosidade que o fiz, mas muito sinceramente não sei ser crítico da minha própria criação, que tem para mim um valor que nunca terá para ninguém. Que alguém possa sentir num verso por mim escrito a força que as palavras têm em unir-se; é essa, julgo, a intenção mais altruísta deste princípio.

2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- Como já referi, o livro consiste em três ciclos diferentes, e portanto não existe uma só ideia que lhes presida aos três ciclos. Não consigo precisar que ideia, se é que ela existe, está na origem de cada um destes três livros. Em relação às «Odes de uma Jovem Ausência», muito sinceramente, considero que não interessa fazê-lo. Talvez ajude na «Arte da Fuga» se o leitor atentar nas pessoas dos verbos. Uma possível «ideia» deste ciclo passa por aí. Em relação ao último, «O Monólogo de Cassandra», posso precisar o que me levou a escrevê-lo. O livro nasceu alguns anos antes de ser escrito, numa aula de Literatura Grega, com o grande mestre Pedro Serra, que no seu discurso sinfónico falava de Cassandra, a desgraçada sacerdotisa que, por castigo divino, foi amaldiçoada com o dom de prever a verdade, mas sem que nunca alguém lhe acreditasse. Pouco depois olhava para o rosto de uma grande amiga minha, que fora minha professora de História, e que por acaso encontrara na faculdade e convidara para assistir a esta aula. Estavam cobertos de lágrimas os seus olhos claros. Foi pelo mito e por esses olhos que escrevi este ciclo. E também por uma outra Cassandra de si própria, e ainda por todos os homens que na verdade ou na mentira se julgam Cassandra.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Depois de «Cassandra» já tenho outras coisas escritas; de momento escrevo um ciclo que eu considero «de estudo», que procura explorar o ritmo sincero da língua. Fujo um pouco ao sistema métrico convencional; prefiro criar a minha própria poética, com base nos meus estudos não só linguísticos e literários, mas também musicais. Há ainda muito para explorar no som da nossa própria língua. Enfim, como disse, são apenas estudos, e por enquanto não me sinto verdadeiramente feliz com os resultados. Não que o esteja em relação a todos os meus poemas mais «espontâneos», digamos assim. Gosto de trabalhar os versos apenas até a um razoável limite, que coincide quase sempre com a minha incapacidade de fazer melhor ou com a física destruição dos mesmos. Humana condição.
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Pedro Braga Falcão
Do Princípio
Livros Cotovia, 13€

A. M. Pires Cabral | Arado


1 - O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Arado»?
R - Representa um reaproximar da minha poesia daquele que foi o seu espaço de inspiração original: a realidade nordestina. Como se me estivesse preparando para fechar completamente o círculo. Só que, desta vez, a poesia saiu-me complicada com outro tipo de considerações, metafísicas e escatológicas, que no primeiro livro (Algures a Nordeste, 1974) ou não estavam presentes, ou estavam apenas em embrião.

2 - Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R – Essa mesmo de que acabei de falar: fechar o círculo, acomodar-me à terra, reaproximar-me da matriz telúrica e cultural. Para, com infinito desalento, verificar que essa raiz está em vias de secar. Daí o tom elegíaco do livro que alguém já notou.

3 - Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R – De momento, estou de pousio (termo do Nordeste que se aplica às terras que não foram semeadas e aguardam oportunidade de o serem). Amanhã logo se vê. De todo o modo, o computador não está inactivo: tenho alimentado o bichinho, juntando mais uns quantos verbetes ao dicionário de regionalismos trasmontanos que ando há décadas a elaborar aos poucos, quando tenho uma nesgazinha de vagar. Dicionário esse que também é, à sua maneira, uma elegia ao Nordeste que foi.
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A. M. Pires Cabral
Arado
Livros Cotovia, 13€

quinta-feira, 19 de março de 2009

Poesia e Pequenos Poetas

O prazo para entrega de trabalhos poéticos para o Concurso Pequenos Poetas termina amanhã. Por isso, sugere-se aos professores e às crianças do Concelho da Moita que se apressem em chegar à Biblioteca Municipal Bento de Jesus Caraça, ou aos Polos da Baixa da Banheira, Alhos Vedros ou Vale da Amoreira com as suas poesias. Depois dos ateliers, estou cheia de curiosidade para ver até onde chegou a motivação de alunos e professores.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A propósito do ensino de poesia

Encontrei aqui algumas actividades de poesia realizadas por uma turma do 3º ano do 1º ciclo. Recordei os ateliers «Palavra Poema» e os objectivos que tinha. O poema colectivo da turma é uma enumeração metafórica o que me parece uma das melhores formas de despertar para a relação contínua entre a beleza das expressões e a plurissignificação. Quando lia, aos alunos que frequentaram o atelier, o álbum A minha mãe, de Anthony Browne (Caminho), era essa a intenção. A grande validade do género poético para a aprendizagem da leitura é precisamente a ginástica interpretativa: dizer por outras palavras, corresponder expressões do texto ao seu significado, continuar o poema com novas expressões, dar outro título ao poema... Permite, igualmente, que o pequeno leitor, desenvolva os seus juízos afectivos, o vocabulário, o sentido crítico. Por isso não devemos ensinar poesia apenas como espaço lúdico de trabalho com a palavra, porque a poesia será o género mais difícil de ser lido e escrito. Há lugar para a leitura expressiva, para a audição, para a escrita, para a descodificação. Diversificar estratégias e utilizar poemas diferentes para cada exercício fará com que as crianças percebam que a poesia não se esgota em jogos lúdicos e associações directas. Vale a pena espreitar o blog e conferir as actividades.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Minês Castanheira | Inter-Cidades


1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «Inter-Cidades»?
R- É o meu segundo livro. Ao contrário do anterior, é um livro mais aberto, uma história em verso e em movimento.

2-Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R-A vontade de explorar um ritmo mais urbano com um conjunto de viagens através das personagens, das imagens, dos lugares que nos acontecem. E das cidades que existem dentro da minha cidade.

3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Um conto construindo a partir de memórias de infância, dos retalhos e histórias da minha avó e dos poemas com que cresci e que me foram acontecendo nessa fase da vida.
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Minês Castanheira
Inter-Cidades
Letras & Coisas

domingo, 21 de dezembro de 2008

O meu primeiro Fernando Pessoa e a recusa da adaptação de livros para a infância

Tendo em conta a aproximação das festividades e toda a azáfama inerente, não houve tempo para falar da Conferência sobre Literatura Infantil que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, nos passados dias 15 e 16 de Dezembro.
Destaco a comunicação de Manuela Júdice, que partilhou com a assistência as suas convicções sobre a adaptação de obras para crianças, e apresentou os critérios que presidiram à organização da antologia O meu primeiro Fernando Pessoa, que coligiu a convite da D. Quixote.
Partilho das suas reservas quanto às adaptações, porque retiram às obras de origem a sua qualidade inerente e assumem que as crianças não acedem ao complexo e, mormente, ganham alguma coisa com produtos simplificados. Assim, fiquei ainda mais interessada em perceber como tinha tecido o livro, sem comprometer estes princípios. Manuela Júdice investigou as recolhas de poemas do escritor que constavam de outras antologias já existentes, filtrou poemas que pelo vocabulário mais inusitado, ou pela conjugação rítmica ou rimática, se tornassem mais aliciantes para os mais novos. Conjugou então a biografia com a obra deixando ao critério de cada leitor a sua apreensão livre e progressiva.
Pelo que ouvi, alterei a minha opinião e fiquei muito curiosa por conhecer a obra. Na Casa da Leitura encontramos uma sinopse cuidada.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Experiência no Palavra Poema

No sábado, na Biblioteca Municipal da Moita, o grupo que me esperava para o atelier Palavra Poema era muito heterogéneo, com idades entre os oito e os treze anos. Por isso, não poderia manter-me fiel à estrutura que tinha vindo a seguir até então. Precisava de uma actividade que anulasse, ou pelo menos diminuisse, as diferenças etárias.
Escolhi então o album de Gémeo Luís e Eugénio Roda, O quê, que, quem (Edições Eterogémeas) como leitura inicial. Em seguida explorámos a ilustração, que a princípio não fazia sentido (diziam eles) mas começou a significar, progressivamente.
Depois, através de um banco de palavras (substantivos abstractos, substantivos concretos e adjectivos), cada um criou metáforas por correspondência.
Escolhemos os substantivos abstractos que o grupo preferia e registámos, no quadro, as associações de cada um, numa lógica anafórica:
Saudade é...
Um abrigo húmido
Um grito suave
etc, etc...
Para a despedida lancei um desafio: que criassem um album, à imagem do que lhes tinha apresentado no início, com as metáforas que mais lhes agradassem e ilustrações em diálogo. Aceitaram o repto.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Alexandra Malheiro | A Urgência das Palavras

1. O que representa, no contexto da sua obra, o livro "A Urgência das Palavras"?
R- Representa o percurso feito entre o primeiro livro que publiquei – “Sombras de Noite” – e o seu sucessor – “Circulação Transversa”, isto porque foi escrito entre um e outro, ficando como que “encurralado” entre os dois, a ganhar musgo numa gaveta durante alguns anos. Ao publicá-lo foi como que uma forma de readquirir a dignidade que lhe era devida. No contexto da minha obra publicada é, provavelmente, o mais luminoso, o menos escuro e o mais rítmico e por isso mesmo o que mais se aproxima da Música. Sem que disso seja feita referência no livro há nele vários poemas onde discretamente faço homenagem a alguns dos meus poetas “do coração”, os que moram em mim de forma permanente pela sua música, a música imanente nas suas palavras. De comum com os que o precederam há nos poemas que o compõem um apelo aos sentidos, é poesia dita “da pele” e à flor dela. É o caminho na busca da luz pela palavra – o seu ritmo, a sua harmonia e o seu signo, linha comum a tudo o que tenho escrito.

2. Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Sendo um livro de poemas não há uma ideia base subjacente à sua concepção, há antes uma linha estética comum, de forma a tornar o livro coerente consigo próprio. Procuro de livro para livro mostrar as diferentes faces de um mesmo núcleo temático. Cada livro representa uma diferente fase da minha escrita, procurando evoluir ainda que num contínuo; cada um deles é, assim, um passo numa estrada que sei onde se iniciou mas não sei como vai evoluir e por onde seguirá. Procuro escrever sem um referencial, embora considere só ser possível escrever sobre o Amor e a Morte, tudo o resto são variações destes dois temas que ora se fundem ora se cindem, como jogos de luz e sombra. Para existir sombra tem de haver luz e não existe luz sem a sua sombra.

3. Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Poemas. Vou sempre escrevendo poemas, umas vezes de rajada, outras vezes com longas pausas a que chamo pousios, onde procuro encontrar outras palavras e fórmulas para voltar a falar do mesmo – o Amor e a Morte – seja travestidos do sensual encontro de pele e suor ou agastados pelas cores sombrias das ausências e da solidão. Tenho, neste momento, dois livros completos a aguardar a melhor altura de verem a luz do dia mas depois deles já tenho uma mão-cheia de poemas que ainda não se encontraram entre si, ainda não se ligaram por uma mesma “mancha estética”. Entretanto pego, ocasionalmente, num velho projecto tantas vezes interrompido de um livro de contos chamado “Contos da perplexidade” para o qual escrevi já treze contos mas ainda a precisar de retoques.
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Alexandra Malheiro
A Urgência das Palavras
Edições Ecopy

domingo, 16 de novembro de 2008

Pequenos poetas: balanço das alterações

Percebi que a melhor maneira de centrar as crianças na palavra era começar por lhes ler um poema que falasse de palavras. Agora, inicio o atelier com a leitura do «Limpa-Palavras» (Álvaro de Magalhães) que consta na antologia Conto estrelas em ti (Campo das Letras), que uso como fonte literária. Desafio os alunos a ouvirem o poema com atenção para que possam depois sugerir títulos. Só depois das sugestões anuncio o título verdadeiro. Tem acontecido alguns alunos acertarem.
Com este exercício as crianças já estão a relacionar sentidos, criando sínteses, explorando definições e metáforas. Então, a construção da casa de palavras tem mais ritmo e alberga palavras mais variadas.
Finalmente enveredamos pela exploração da rima. Aqui ainda não tenho uma estratégia única. Posso ler-lhes o poema «Os meninos educados» (Luísa Ducla Soares) e em seguida registar as rimas do poema, para que o grupo lhes dê continuidade. Posso pedir-lhes apenas que digam rimas. Posso ainda dar-lhes um exercício de correspondência entre o poema e as rimas, no caso de estar a trabalhar com um 3º ou 4º ano. Quando listamos rimas, em seguida partimos para a criação de um poema, ou de frases, de acordo com o nível dos alunos.
Com esta estrutura, sinto que os alunos produzem mais e melhor. Continuo a constatar que a leitura em voz alta os motiva e silencia, mesmo os alunos mais novos, de 1º ano, cuja concentração é muito diminuta. As crianças adoram ouvir ler, e deveriam poder fazê-lo com muita frequência.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Pequenos Poetas: o que se aprende no terreno

Os ateliers de poesia, que tenho vindo a realizar com alunos do 1º ciclo, no concelho da Moita, têm-me dado água pela barba! Ainda não estou completamente satisfeita com as respostas que os alunos me têm dado. Os mais novinhos ainda não sabem ler nem escrever, e por isso tudo passa pela oralidade, pela exploração da palavra e do som. A noção de rima é ainda muito intuitiva, porque não relacionam os fonemas com a grafia, mas lá vão andando. Pensei então em explorar a rima para criar um poema colectivo. Amanhã porei esta nova estratégia em prática. A partir do comboio de rimas, que construimos em todas as sessões, vou pedir a cada par que forme uma frase, na sua cabeça, com duas palavras do comboio. Depois registarei todas as frases no quadro, e veremos o resultado das rimas. Não faço ideia de como vai correr, provavelmente sairá um poema sem sentido. Mas será mais um passo para a criação colectiva e para o desenvolvimento de estruturas sintácticas e morfológicas a partir de enunciados.
Com os alunos do 3º ano já me foi possível desafiá-los a escrever. Também a partir do comboio das rimas, pedi-lhes que escolhessem seis palavras de que gostassem e a partir daí fizessem um poema. Houve textos muito interessantes, nomeadamente de alunos com dificuldades de aprendizagem. Um deles começava sempre por era uma vez, e embora o poema não fizesse sentido, a estrutura repetitiva e a rima davam-lhe equilíbro e harmonia. Outro aluno criou um poema fonético, só com palavras que rimam, mas que colocadas por uma determinada ordem davam bastante ritmo ao poema.
Nesta fase, as crianças ainda não se preocupam com a mensagem, o sentido, o que querem dizer. Preocupam-se em colocar as palavras nas frases e rimar. O poema é acima de tudo um jogo de constrangimentos e não um jogo semântico. Ao vê-los não deixei de percepcionar que estão muito próximos do fazer efectivo da poesia, em que o lugar da palavra, o ritmo, as correspondências sintácticas, são tão importantes quanto o seu significado. Falta às crianças a consciência do sentido, a noção de coerência e de lógica. Mas isso treina-se com outro tipo de exercícios.

domingo, 19 de outubro de 2008

Casas poéticas...

Aqui estão três casas diferentes... Construídas com palavras especiais, que as enchem de vida e de história. São as casas colectivas de cada uma das turmas que visitei na 6ª feira. Engraçado foi que todos quiseram ouvir ler este poema visual pelo telhado...



Pequenos Poetas na EB1 nº 2 da Moita

O balanço dos primeiros ateliers de poesia resume-se a surpresa.
Fiquei surpreendida com o comportamento dos alunos de duas turmas do 1º ano do 1º ciclo, crianças de seis anos que não conseguem estar sentadas no seu lugar, não respeitam a sua vez de falar, e não ouvem o que os colegas ou a professora dizem. Não são todos, é certo. Mas são muitos, demais.
A turma do 2º ano destacou-se como a mais atenta, concentrada, empenhada e participativa. Percebi que já tinham desenvolvido bastante vocabulário, que facilmente sugeriam, de acordo com os desafios propostos por mim. É evidente que a idade e a maior adaptação às regras e ritmo de trabalho terá bastante influência na prestação deste grupo.
As turmas do 1º ano tiveram muita dificuldade em encontrar palavras que rimassem entre si (a partir de rimas tão simples como ar, ão ou el). No entanto, continuam a gostar muito de ouvir histórias. Li-lhes dois álbuns que remetem para o discurso poético, A minha mãe (Anthony Brown, Caminho) e Avós (Chema Heras, texto; Rosa Osuna, ilust., Kalandraka). Apesar de estranharem a estrutura repetitiva do último álbum, consegui nesse momento que as turmas fizessem silêncio, tendo alguns alunos evidenciado entusiasmo, pelas expressões faciais que ia observando.
No que respeita ao desenvolvimento de vocabulário, à criação de um imaginário e de uma relação afectiva com o discurso poético, não me parece que seja impossível motivar estas crianças. O que me parece grave é o seu comportamento , a ausência de respeito pelas regras, o seu egocentrismo extremo. Esta tendência dificulta imenso a aprendizagem e as práticas didácticas diversificadas. O interesse e a boa vontade dos professores são, nesta matéria cruciais, mas mesmo os melhores não fazem milagres...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Primeiros ateliers na Moita

Hoje inicio os ateliers Palavra Poema, nas escolas EB1 do concelho da Moita. Preparei um projecto de raíz para tentar chegar às crianças do 1º ciclo, privilegiando o sentido figurado, e a plurissignificação.
Desenharemos uma casa com palavras que as crianças vão escolher para descrever a sua casa e preencheremos carruagens de um comboio com metáforas e comparações. Se tudo correr pelo melhor.
Também lhes lerei poemas e álbuns. Se ainda tiverem concentração e entusiasmo para isso.
É uma estreia, mais uma. Vamos ver se as crianças gostam...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os Pequenos Poetas na Moita

A Biblioteca Municipal da Moita recuperou Os Pequenos Poetas, um projecto de 2004, agora com novo fôlego e uma maior abrangência. O objectivo é promover a leitura e a escrita de poesia junto dos mais novos.

Eis o programa da iniciativa:
Em primeiro lugar, realizou-se uma breve formação com professores do 1º e 2º ciclos sobre poesia.
Em seguida, os professores participantes na formação inscrevem uma das suas turmas para receber um atelier, na biblioteca escolar ou na sala de aula (em escolas sem Biblioteca Escolar).
Depois dos ateliers, o desafio proposto pela Biblioteca aos professores é que continuem a promover a poesia nas suas aulas, incentivando os seus alunos a escrever um ou mais poemas para participar num concurso lançado pela própria Biblioteca.
Assim, até ao dia 21 de Março, todas as crianças do concelho podem enviar poemas para a Biblioteca, desde que o façam num envelope fechado, assinando com um pseudónimo. Depois, os poemas serão lidos e analisados por um júri, e os melhores serão editados numa antologia, à semelhança do que aconteceu em 2004.
A grande qualidade deste projecto prende-se com a sua amplitude. Foram mais de trinta professores os que participaram nas formações, pelo que se espera outros tantos ateliers a decorrer nas várias escolas. Se estes professores partilharem e reproduzirem algumas estratégias, mais alunos terão acesso a textos e práticas relacionadas com a poesia. É também possível que esta iniciativa tenha algum tipo de repercussão junto dos pais, se forem para isso sensibilizados pelos professores.
Com esta iniciativa, é a Biblioteca Municipal que transmite uma mensagem clara de envolvimento com a comunidade. Se o projecto se repetir, como se deseja, daqui a dois anos, tornar-se-á uma experiência de continuidade, que trará frutos. A poesia funciona como fim em si mesma e como meio para uma motivação mais generalizada em torno da palavra, lida e escrita. Num concelho com tantas assimetrias, em que se procura chegar ao todos por igual, Os Pequenos Poetas são uma injecção de esperança para muitos. Pelo que soube, ao longo da formação, esta confiança e entreajuda é bem necessária.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

E ao anoitecer - Al Berto


e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Auto-retrato - Natália Correia

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouropresa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

domingo, 13 de julho de 2008

Eu e ela - Cesário Verde

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...

sábado, 12 de julho de 2008

Tarde demais... - Florbela Espanca


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Poema - Sophia de Mello Breyner Andresen


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo