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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Meridiano de Sangue

Sinopse: Meridiano de Sangue baseia-se em acontecimentos históricos ocorridos na fronteira entre os EUA e o México em meados do séc. XIX. O autor subverte as convenções do romance e a mitologia do «Oeste Selvagem» para narrar a violência da expansão americana, através da personagem do juiz Holden, que nunca dorme, gosta de dançar, viola crianças dos dois sexos e afirma que não há-de morrer.

Este é o segundo livro que leio do escritor norte-americano Cormac McCarthy, depois de A Estrada, do qual que gostei muito. A leitura deste segundo livro foi proporcionada pela excelente colecção de livros da revista Sábado e pelo facto de termos escolhido este livro para a primeira Leitura Conjunta do nosso fórum.* Este factor contribuiu grandemente para a perspectiva e a opinião que agora tenho do livro, depois de o ter terminado. A leitura tornou-se muito mais rica e fez com que mais facilmente conseguisse apreender conceitos, ideias e subterfúgios presentes ao longo do livro.

Mas vamos ao que interessa. Este livro recua ao séc. XIX americano, época de grande violência na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Desde o início do livro, acompanhamos um rapaz (do qual nunca sabemos o nome), que durante a sua adolescência se junta a um bando que irá praticar actos de extrema violência, principalmente, mas não só, contra os Apaches. Grande parte do livro centra-se nos caminhos percorridos por este grupo, numa paisagem extremamente adversa.

Este livro está repleto de passagens muitíssimo violentas, não recomendáveis a estômagos mais fracos. A sensação que nos percorre ao ler essas linhas é a de devastação total não só pela descrição em si, mas por pensarmos que coisas destas realmente aconteceram. O livro foca-se em vários temas, desde a religião (não raras vezes o leitor depara-se com igrejas em ruínas, normalmente com a presença de abutres - impossível não olhar para isto como uma metáfora), ao racismo, terminando naquele que para mim é o tema principal, a violência, e a forma como se perpetra independentemente do local ou época para a qual olhemos. Aliás, basta repararmos nos acontecimentos dos dias que correm para percebermos que, apesar de mais contida, a violência continua a manifestar-se sob as mais diversas formas.

A grande personagem deste livro é o Juiz Holden, que faz parte do bando que referi inicialmente. Apesar do epíteto, nunca chegamos a perceber muito bem do que é ele Juiz. Aliás, toda esta personagem é um verdadeiro mistério. Uma figura com mais de dois metros, sem um único pêlo no corpo (como é referido inúmeras vezes), é extremamente culto, na medida em que sabe falar inúmeras línguas, tem conhecimentos nos mais vastos campos, dança lindamente, toca instrumentos musicais... Enfim, toda uma panóplia de capacidades. Faz-se também acompanhar de um caderninho onde anota todos os factos interessantes relativos à fauna e à flora.
Mas, a par destas excelentes capacidades, trata-se também de uma personagem sem escrúpulos. Mata sem remorso e acha-se um Deus que domina todos os seres vivos na Terra, um Deus que não morre. É, sem margem para dúvidas, uma das personagens mais interessantes com que me deparei num livro. Misterioso, cativante, interessante... Sempre que aparece, o Juiz Holden "rouba" o livro para si.

Por fim, algumas considerações em relação à escrita. Cormac McCarthy escreve de uma forma muito densa, com diálogos no meio de parágrafos e constantes enumerações (perde-se a conta às vezes em que aparece a palavra "e"). Este estilo exige uma atenção por parte do leitor a rondar os 100%, sob pena de se perder no meio da leitura. Confesso que por vezes me foi difícil prosseguir, precisamente pela dificuldade que nos é imposta... à semelhança das dificuldades que o bando encontra ao atravessar o deserto. Na grande maioria das vezes, a escrita é dura, seca e implacável, mas a espaços poética, especialmente nas descrições da paisagem. Não é fácil nos habituarmos ao estilo, mas uma vez que o alcancemos é muito difícil não apreciar esta leitura.

Uma nota final para a excelente tradução de Paulo Faria.

8/10

*Deixo o convite para consultarem os tópicos de análise do livro, caso desejem aprofundar a vossa leitura e olhar para o livro sob várias perspectivas!

domingo, 6 de abril de 2008

Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy

“Meridiano de Sangue” baseia-se em factos verídicos ocorridos em meados do séc. XIX na fronteira entre os Estados Unidos da América e o México.

Embora o livro possua várias personagens que interagem entre si, o personagem principal ou pelo menos aquele que serve como condutor da história, é um rapaz que, desiludido com a vida que leva, foge de casa em busca de aventuras.

Numa América violentíssima, acaba por se juntar a um grupo de foras da lei que deixam um rasto de sangue por onde passam.

Neste grupo há um rol de personagens fascinantes, que quanto a mim são uma das mais valias da obra, encabeçados pelo juiz Holden. Um homem monstruoso, assassino implacável, um ser que parece ser a reencarnação do próprio Satanás, sobretudo porque não mostra qualquer tipo de remorsos e tem uma cultura muito acima da média, parecendo dominar qualquer área que se aborde.

Quanto a mim é esta a principal personagem da obra, até porque é nele que Cormac assenta toda a crueldade e violência da época, desmistificando, de facto, o mito da vitimização dos aborígenes.

Neste livro os índios atacam de uma forma impiedosa e implacável pessoas inocentes, não deixando nada vivo à sua passagem.

Do lado oposto os brancos respondem “dente por dente” às atrocidades cometendo semelhantes atrocidades.

É um livro um pouco difícil de ler, não só devido ao horror de muitas descrições como também ao próprio estilo de Cormac. Porém, conforme também é sua imagem de marca, Cormac tem a capacidade de transmitir sensações, parecendo por vezes que a acção se desenrola à frente dos nossos olhos, algo como um filme, só que com cheiros e sabores.

Um romance com uma força brutal que nos atinge de forma violenta através das percepções sentida página a página.

domingo, 23 de março de 2008

Filho de Deus - Cormac McCarthy

Lester Ballard, vagabundo solitário, vive de expedientes à parte da sociedade, sobrevivendo de uma forma selvagem, cometendo diversos crimes macabros a fim de satisfazer desejos e taras sexuais.

Visto como Ser menor e com tolerância pelos habitantes do lugarejo, Lester desconhece a amizade, fraternidade a solidariedade, vivendo uma existência despovoada, completamente alienada.

Vivendo numa casa abandonada, Lester comete uma série de crimes que colocam em polvorosa toda a vila. No local, embora todos desconfiem da culpabilidade de Lester, ninguém tem a certeza pois, simplesmente, os corpos desaparecem, escondidos algures...

Uma das curiosidades desta obra (tem muitas), é o facto de à medida que o romance avança, pese embora a violência das descrições dos assassinatos e até na forma como Lester se comporta, irmos criando uma crescente simpatia pelo personagem. Mesmo sendo um homem asqueroso, mau, violento e indigno, vamos percebendo que o mundo de Lester não podia ser outro face à sua própria realidade, um fruto da sociedade que agora paga todos os anos de formação.

À semelhança de outros livros que li de Cormac, o autor consegue passar-nos sensações dispares, demonstrando também até quando um homem que se vê privado de amor e educação, obedece a necessidades naturais usando instintos primitivos. Ou seja, no personagem Lester, Cormac espelha qualquer ser humano. A diferença entre Lester e qualquer um de nós, é apenas as realidades de cada um que fazem com que o desenvolvimento faça-nos tomar rumos diferentes, ou não, pois Lester há por ai aos milhões.

Este livro é, quanto a mim, uma excelente metáfora acerca da “Alegoria da Caverna” de Platão.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Estrada (A) - Cormac McCarthy

Vencedor do Prémio Pulitzer, Cormac McCarthy era um autor até agora desconhecido para mim até há bem pouco tempo. Dono de uma escrita que de facto faz lembrar José Saramago, penso, contudo que tem um dom apenas atribuído aos Grandes Escritores: sabe transmitir sensações através das palavras, descrever estados de espírito e as mais íntimas sensações humanas.

“A Estrada”é um livro que tem tanto de belo como de chocante.

Num futuro próximo o mundo caí numa era apocalíptica. A grande maioria das pessoas morreram e tudo se encontra devastado, coberto por cinzas.

É este o cenário que irá envolver toda a narrativa dando-nos, logo no seu início, uma visão dantesca do mundo onde estamos a penetrar.

Um clima agreste onde a solidão reina a par com o sofrimento que abalou o planeta. A ausência de vida é algo transversal em toda a história e a luta pela sobrevivência, dos poucos sobreviventes, é feroz. Contudo há uma questão que salta logo nas primeiras páginas: sobreviver para quê num mundo sem presente e sem futuro?

Um pai e um filho caminham numa estrada. Empurrando um carrinho de compras com todos os seus parcos haveres, eles dirigem-se em direcção ao mar na esperança de lá encontrarem outras pessoas “boas”.

Durante essa caminhada vão-se apoiando no amor que nutrem um pelo outro numa odisséia onde a solidão e a tristeza contrapõem com o constante jogo do “gato e do rato”.

Pessoalmente penso que existe uma grande similaridade desta odisseia com a de Homero, sobretudo na utopia de chegar a um objectivo antevendo vários perigos que se atravessarão no seu caminho. Uma e outra a esperança nunca morre numa luta diária num mundo irreal.

É uma obra que nos faz ver para onde, se calhar, caminham as sociedades puramente consumistas onde os ideais se vão perdendo assim como se vai retirando a esperança de sonhar. O que é o ser humano nesse contexto, a perda total de valores e piedade que nos aproximam, quanto a mim ultrapassam, os animais ditos irracionais..

McCarthy é exímio nas palavras e nas descrições. A forma crua como vai narrando, entranha-nos na alma, faz-nos sofrer. Basta ver que, a certa parte do livro o pai diz ao filho: “desculpa não ser azul”, “não faz mal”, diz o rapaz (sobre o mar).

Sem dúvida um dos melhores livros que li até à data e um escritor que é, sem dúvida, um dos melhores escritores da actualidade.