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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um Amor em Tempos de Guerra – Júlio Magalhães


Eis o segundo livro que me fez chorar!

António, menino travesso, sabe de duas coisas: a primeira é que o vizinho da frente é um homem poderoso, importante, nada menos que o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. A segunda é que ele, António, tem o mesmo nome. Esperam os pais que a mesma sorte.

Gente pobre e humilde, António é criado no Vimeiro à sombra da grande casa da família Salazar, até ao fatídico dia em que o pai de António, único sustento da casa, morre prematuramente. António é obrigado a deixar a escola e a tomar a rédea do destino da família. Desde cedo aprende a sustentar a família revelando-se também um rapaz inteligente.

Pouco antes do falecimento do pai, rebenta a guerra em África e Portugal vê-se a braços com uma guerra que se julga de fácil resolução. No Vimeiro a mesma é vista como sendo uma “coisa” feita lá muito longe e que nunca chegará aquele pedaço de terra do interior. No entanto a guerra arrasta-se e António, menino e moço quando a guerra estala (1961) vê o seu nome nas listas de incorporação e, poucos meses depois, embarca no célebre navio Niassa para Angola.

Júlio Magalhães, com este livro, dá-nos uma visão muito realista de vários importantes factos da nossa História: o de um Portugal oprimido, atrasado e rude, dominado por um regime autoritário e conservador que amordaçava quem ousasse sequer pensar. É comum ler expressões como “as paredes têm ouvidos” ou “aqui não se falam destes assuntos”. Um país triste de gente triste, mergulhado na superstição, no temor à igreja, cheio de mitos que, digo eu, nunca se libertou. O autor explora, e muito bem, expressões tão usuais hoje em dia como “o que os vizinhos vão dizer”, ou “parece mal”. Ou seja, Júlio Magalhães consegue explanar e transmitir-nos uma imagem bem real e nítida de uma nação cheia de mitos, superstições, medos, vergonhas, onde tudo se fazia para parecer bem (tal como hoje em dia).

É assim, neste contexto, que surge o grande tema do livro: A Guerra de Ultramar.

E Júlio Magalhães tenta exorcizar fantasmas, quebrar tabus que ainda hoje se mantêm. Uma vez mais expressões como “tudo isto para quê?”, “em nome de quem esta guerra?”. O sofrimento do homem comum, inculto, rude, que se vê arrancado da sua terra e da sua família para ir combater para uma terra que não lhe diz absolutamente nada e que, lá chegando, se depara com atrocidades que desconhecia por completo, pois as notícias que a censura deixa passar, transmitem uma guerra cheia de facilidades, quase um passeio onde os únicos mortos se devem a acidentes de viação…

O autor consegue transmitir todas essas imagens de uma forma muito viva e realista. É doloroso sentir o sofrimento e a saudade de milhares de homens, simbolizados em António e outros soldados, que, a milhares de quilómetros, se apoiavam uns nos outros, surgindo assim amizades fortíssimas, para toda a vida, que, para qualquer um de nós, é difícil de entender.

No meio deste principal tema, o autor descreve-nos uma belíssima história de amor que se inicia na infância e que se prolongará pela eternidade, no entanto, a meu ver, o que torna o livro um excelente livro, embora a história de amor seja terna e bela, é, forçosamente o acontecimento que atolou o país de 1961 a 1974 e que lançou milhares de jovens portugueses para o desconhecido e que tantos traumas causou e causa.

A técnica narrativa de Júlio Magalhães é um misto de ficção com realidade. É óbvio que o autor se baseia em factos verídicos e histórias pessoais reais. Muda os nomes e cria os diálogos, mas todo contexto é real e, mais importante, representa milhares de homens e famílias que se reverão nesta obra.

Algo que também sobressai é a pintura de uma Angola dominada pelos portugueses onde, excepto no mato, se vivia bem e de uma forma tranquila e acomodada. E depois, quando os portugueses começam a debandada, a imagem de uma Angola destruída, feia, em plena guerra civil, onde a tranquilidade desaparece para dar lugar ao caos e à destruição. Fica clara uma crítica expressa num grito de mágoa assente no personagem Brito sobre a forma como o processo de independência foi realizado, que, insatisfeito afirma: “a guerra ainda não acabou” ou “depois de tanta coisa entregarmos as colónias desta forma?”.

Como senão apenas posso referir a previsibilidade da história de amor. Desde o início percebi ser aquele amor intemporal e, em momento algum pensei que os acontecimentos pudessem ser diferentes. Porém, repito, o interesse do livro está na explanação da Guerra de Ultramar, um assunto tabu, uma época que necessita, que merece ser esclarecida e debatida de uma forma séria e honesta pela sociedade portuguesa.

Sem preconceitos ou reservas, estamos diante de um excelente livro.

Classificação: 5

sábado, 31 de outubro de 2009

Caim – José Saramago



José Saramago, único Nobel da Literatura português, gera amores e ódios.

Dono de um feitio muito próprio, sem dúvida algo prepotente e pedante, sabe, contudo e como poucos, contar histórias que chocam mentalidades, aproveitando, explorando uma cultura (a portuguesa) provinciana, saloia, anacrónica e supersticiosa.

Saramago é um profundo conhecedor da natureza humana. Dá provas disso em todos os seus romances, exaltando e salientando os vícios, defeitos e virtudes do ser humano.

Assim, sabe como tocar em muitas feridas, pontos sensíveis do ser humano, criando obras polémicas porque simplesmente escreve aquilo que pensa sem receios do politicamente correcto, do “parecer bem” tão tipicamente português e isso choca, cria incómodo, até porque as pessoas se revêem nos seres humanos criados por Saramago.

Em “Caim”, Saramago é apenas e só Saramago na sua melhor forma.

Devido à polémica gerada aquando do lançamento do livro, a expectativa era grande, sobretudo porque tenho no “Evangelho Segundo Jesus Cristo” o seu melhor livro, aquele onde Saramago é mais corrosivo. Fiquei então com a convicção ser este “Caim” do mesmo género. Andei perto, é de facto do mesmo género, mas é mais violento, mordaz, irónico e ostensivamente belicoso.

Quer queiramos quer não, crentes ou não crentes, todos fomos educados à luz da tradição católica/cristã. Estamos imbuídos de valores cristãos que quando os vemos ser colocados em causa pode criar alguma estranheza e algum, ou muito, choque.

Estou convicto que “Caim” tratou-se de uma ajuste de contas entre José Saramago e Deus (com a igreja no pensamento) em que ele, conforme direito que lhe assiste, demonstra toda a sua descrença e asco.

Independentemente das minhas próprias crenças, o certo é que respeito a crença de cada um, a religião de cada um e julgo que em “Caim” José Saramago se excede (ele acabou por admitir precisamente isso), quer na linguagem, quer no propósito.

Eu adorei o livro!

Delirei com a ironia cortante, com a forma como Saramago vai mostrando o ridículo, a insanidade e a impossibilidade da existência de um Deus e dos episódios descritos no Velho Testamento. Mas achei excessivo o ódio impregnado nas palavras.

Há passagens, quase todas, que evidenciam a suprema maldade, a malévola essência do Deus Cristão, que ridicularizam a figura de Deus, porque não obstante o livro conter várias passagens do Velho Testamente (confesso que nunca li a Bíblia, apenas algumas passagens aqui e ali) “Adão e Eva”, “Torre de Babel”, “Moisés quando desce o Monte Sinai”, “O Dilúvio”, entre outros, o que aqui se ressalva é o constante ataque a Deus e o quanto o mesmo não passa de uma mera criação humana ou então de um ser ridículo, fraco, vingativo, maldoso e cheio de defeitos.

O livro é excelente. O diálogo do querubim com Adão e Eva aquando da expulsão destes do Jardim do Paraíso, a narração do Dilúvio, onde Saramago coloca Caim (figura presente em todas as histórias) na barca, é de ir às lágrimas de riso. As conversas de Caim com Deus são soberbas, a forma como o mesmo Caim parte pelo mundo… enfim, um livro que ficará na galeria das grandes obras da literatura portuguesa, mais uma destinada a ser clássico.

A ideia de Deus é, confesso, o único erro que não posso perdoar ao homem” - História de Juliette ou as Prosperidades do Vício", Marquês de Sade


Classificação: 6

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cônsul Desobediente (O) – Sónia Louro


Editora: Saida de Emergência
Edição: 1ª Edição, Setembro 2009


Embora tendo como formação a biologia marinha, Sónia Louro sempre teve a Literatura como a sua grande paixão, ao qual veio a aliar outro interesse: a História.

Dessas paixões nasce a intenção de escrita de romances Históricos que se materializa, até à data, em três livros: “Viritato”, “A Vida Secreta de Dom Sebastião” e este “Cônsul Desobediente” que narra a História de Aristides de Sousa Mendes.

Aristides de Sousa Mendes nasceu no dia 19 de Julho de 1885 na localidade de Cabanas de Viriato. Oriundo de uma família com laços à aristocracia, Aristides tem as oportunidades que só a classe alta, na altura, podia oferecer aos filhos e é assim que se licencia em direito na Faculdade de Direito de Coimbra.

Monárquico assumido, depressa se incompatibiliza com os vários governos pós implementação da República, no entanto esse facto, o de ser persona non grata, serve-lhe para ser tido como um homem pró-estado novo, pois era um homem muito religioso, prezava os bons costumes e os valores apregoados por esse novo sistema. E é dessa forma que Aristides se vê promovido ao ser nomeado Cônsul para embaixadas importantes e estratégicas.

E é nessas funções que em 1938 é nomeado Cônsul de 1ª Classe para Bordéus, posto ocupado quando tem início a Segunda Guerra Mundial.

Ao aperceber-se da capitulação da França e sabendo do avanço das tropas nazis, Aristides depara-se com milhares de refugiados que procuram a embaixada portuguesa no sentido de ali conseguirem um visto. Porém, adivinhando essa enchente, Salazar ordena aos cônsules portugueses espalhados pelo mundo que recusem conferir vistos a pessoas com certas nacionalidades e especificações. Era pura descriminação racial, facto que desobedecia à Constituição Portuguesa. Ou seja, a ordem do governo português ia contra a Constituição da República.

Aristides sabe disso e após alguns dias de dilemas morais, resolve tomar acções que o levará à sua desgraça ao mesmo tempo que o elevará, muitos anos depois, à galeria dos maiores homens da Humanidade: ali, na sua embaixada e fazendo ouvidos moucos às ordens de Salazar, ele começa a passar vistos em catadupa, salvando assim, de uma morte certa e segundo números oficiais, 30.000 pessoas (o número de vistos oficialmente passados), porém, sabe-se que o número real é superior dada a forma, diria surrealista, como centenas de vistos foram passados.

Aristides foi um homem bom. Juntou a lema: “Deus”, “Pátria” e “Família”, a palavra “Consciência”, utilizando o seu poder para salvar milhares de pessoas.

O regime nunca lhe perdoou as ordens desobedecidas. Coloca-o na “prateleira”, abandonando-o e fechando-lhe todas as portas, não só a si como também a todos os seus filhos que, sem perspectiva de vida em Portugal, são obrigados, aos poucos, a emigrar para fora do país.

Aristides morre na miséria, sem amigos, esquecido por todos (menos os seus filhos) no dia 03 de Abril de 1954 no Hospital dos Fransciscanos em Lisboa.

Curioso constatar que apenas em 1988 o país, pelo menos ao nível do Estado e após aprovado pelos deputados na Assembleia da República, reentregou o cônsul na carreira diplomática com a promoção a embaixador e só a partir desse ano, aos poucos e devido também à insistência dos filhos que sempre lutaram para restabelecer a imagem do pai, o nome de Aristides de Sousa Mendes começou a ser falado. 34 anos depois da sua morte, os portugueses começaram a perceber que a 2ª Grande Guerra produziu um herói português, um homem venerado por milhares de famílias e quem tem até espaço em alguns museus que lembram o Holocausto.

Ao contrário do que sucede em “Viriato”, único livro que havia lido de Sónia Louro, neste a autora soube documentar-se convenientemente, diria mesmo que se documentou tanto que construiu não um romance Histórico mas sim uma biografia romanceada.

Sónia Louro traça o percurso da vida de Aristides de uma forma muito biográfica, demonstrando preocupação em citar as fontes que podem ser cartas, documentos oficiais, relatórios ou entrevistas que originam a maioria das cenas. Ficção tem apenas os diálogos e muitos deles construídos segundo registos históricos.

Não quero com isso dizer que a obra é fraca ou está mal conseguida. Nada disso! Sónia Louro está de parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa e por ter sabido explanar toda a grandeza humana de Aristides de Sousa Mendes, dando um grande contributo à sua memória e ao reconhecimento que o povo português lhe deve.

Contudo o romance tem alguns pontos fracos. Por exemplo, embora saibamos que os pais de Aristides eram gente de posses, no entanto há uma completa ausência de factos da sua infância e adolescência, assim como ficamos sem saber quem foram os pais de Aristides. Pode-se relativizar dizendo que o romance não tem esse propósito. Aceito, mas para se entender o homem, talvez a sua infância e os valores familiares tenham sido vitais.

Embora seja uma obra densa, cheia de notas e com a curiosidade de, no fim, conter as cópias da Defesa de Aristides e do relatório de Acusação. A linguagem e a estrutura literária são simples, de fácil percepção.

Uma obra que merece ser lida devagar de modo a podermos deixar Aristides de Sousa Mendes entrar na nossa vida.

Um grande português!


Classificação: 5

domingo, 18 de outubro de 2009

Não Sei Nada Sobre o Amor - Júlia Pinheiro


Editora: Esfera dos Livros
Edição: Abril 2009

Júlia Pinheiro estreou-se na televisão aos 19 anos (1981) tendo, a partir daí, feito uma carreira de sucesso sendo, hoje em dia, uma das figuras televisivas mais conhecidas da praça portuguesa.

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, publica em Abril de 2009 o seu primeiro e único livro “Não Sei Nada Sobre o Amor”, que depressa se instala nos top´s das principais cadeias distribuidoras. Esse facto é surpreendente para alguém que escreve o seu primeiro título, contudo, podemos encontrar uma explicação se atentarmos à figura pública. Porém constatei que o livro tem imensa qualidade assim como prevejo, se mantiver o estilo, sucessos futuros.

São Pedro da Ribeira, 1930, Maria da Glória, jovem inocente de 16 anos, trabalha com o pai na taverna deste. Passa o dia a servir copos e a sentir os olhares gulosos daqueles homens acabados que por ali passam.

Uma aldeia perdida de um Portugal em sobressalto, onde intensas tradições seculares exigiam a submissão das mulheres e onde o destino era, obrigatoriamente, feito de casamento e de filhos. “Na geração de Maria da Glória, o amor era um infortúnio. Não servia para nada e só trazia aborrecimentos. Com o amor não se comprava terra nem se aumentava o rebanho.”

Maria da Glória é a rapariga mais bonita da aldeia, facto que desperta o interesse de António Mendonça, primogénito da família Mendonça, a mais rica e influente da aldeia. Este, ciente da sua importância como “bom partido”, consegue com que Maria da Glória se encontre com ele junto ao ribeiro. Inocente e um pouco ingénua, Maria da Glória, obviamente ás escondidas do pai, vai ter com ele e, no meio das silvas, é violada.

Dessa violação nasce um argumento que nos leva ao ano 2000, visitando 70 anos da sociedade portuguesa e do papel das mulheres nessa sociedade.

A escrita de Júlia Pinheiro é simples, objectiva e excepcionalmente visual e sentimental. Sentimental no aspecto em que consegue transmitir os vários estados de alma das várias personagens que pululam na história, sobretudo das quatro mulheres que formas as principais personagens.

Nestas quatro mulheres, Júlia Pinheiro, de uma forma magistral, tocante e simultaneamente objectiva, traça-nos um quadro Histórico do país, conseguindo, e isso na minha opinião é uma das grandes mais valias do livro, contrapor e demonstrar as várias mentalidades que cada geração possui, traçando também, com isso, uma linha evolutiva das mesmas. Coexistente e servindo também para explicar essa evolução, flui diante dos nossos olhos a mentalidade de Portugal dos anos 30, o surgimento do Estado Novo, o pós 25 Abril a um Portugal vivendo os excessos de uma democracia mal implantada até um Portugal totalmente democratizado.

Todos esses cenários, embora sejam relevantes, são colocados em pano de fundo, porque aqui o principal tema é o papel das mulheres numa sociedade altamente patriarcal que vai evoluindo para os dias de hoje.

Na minha perspectiva esse é o principal tema do livro. Sob a vida de quatro mulheres que abrangem quatro gerações, é aqui abordada a sociedade portuguesa e a forma como ela foi evoluindo.

Longe de ser um romance “cor-de-rosa” ou de “cordel” como muitos quiseram fazer crer, considero que Júlia Pinheiro teria construído um livro portentoso se tivesse sabido ou querido aprofundar os Acontecimentos Históricos que se dão nesses 70 anos interligando-os com a história dessas quatro mulheres. Esses acontecimentos são apenas aflorados no sentido de percebermos o impacto que os mesmos tiveram na vida dessas mulheres. A meu ver e embora entenda o objectivo da obra, penso que teria tudo a ganhar se tivesse investido mais na vertente Histórica.

Talvez pela formação académica, não só a estrutura do livro, como também a própria linguagem, achei o estilo de Júlia Pinheiro algo semelhante ao de José Rodrigues dos Santos. Pelo menos revivi nesta obra sentimentos que apenas consigo viver nas obras de Rodrigues dos Santos, a alegria de reencontrar todos os dias aqueles amigos íntimos, a ânsia de ler sobre o destino dos mesmos e a tristeza de os ver partir quando a obra acaba.

Uma grata surpresa e um especial agradecimento a quem mo levou a ler.

Classificação: 5

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Duas Irmãs, Um Rei - Philippa Gregory



Iniciado em 1521, este “Duas Irmãs, Um Rei” é o 2º volume da série Tudor, série essa que, obviamente, se pode ler de um modo separado mas que, quanto a mim, tem um sabor mais intenso quando lido respeitando a ordem de volumes que é também a ordem temporal dos acontecimentos narrados por Gragory.

Em “Catarina de Aragão” vimos como Catarina, infanta espanhola, filha dos célebres reis Católicos Fernando e Isabel, se torna Rainha de Inglaterra ao casar com Henrique VIII. Seguimos então a senda de Catarina rumo ao trono.

Em “Duas Irmãs, Um Rei” a acção temporal inicia-se em 1521, 12 anos após o casamento entre Catarina e Henrique.

O Rei continua apaixonado pela sua rainha, mas durante 12 anos Catarina não teve qualquer filho homem, a única criança que sobreviveu às inúmeras gravidezes foi Maria (1516) a enfezada menina que poucos davam alguns anos de vida.

Cientes da importância de um filho varão, a corte enche-se de intrigas e maledicências. A encabeçar essas intrigas está uma família poderosa: Os Bolena/Howard. E é neste círculo de tramas que toda a história deste livro avança.

Ana e Maria Bolena são duas aias da Rainha Catarina. Conforme costume em qualquer corte europeia da época, essas aias são responsáveis por entreter a rainha, jogando-se também em namoricos e mexericos com vários nobres que frequentavam a corte. Entre esses homens, o Rei que, em faustosos banquetes, ele próprio namoriscava com várias aias da rainha diante da beneplacência da mesma.

A descrição destas andanças é extraordinária. Philippa Gregory consegue-nos situar na corte, consegue-nos transmitir as imagens fazendo-nos crer que estamos presentes.

É desta forma que a família Bolena, através do seu seu influente tio, Thomas Howard, imagina uma forma de Maria Bolena ser notada pelo rei e, dessa forma, ir parar à cama do rei. Benefícios: Ganho de influência e poderio da família Bolena/Howard, assim como ganho de propriedades e títulos. Uma rede de influências e interesses nasce assim, originando um trama horrível de enganos, prostituição, sexo e assassínios.

Pessoalmente gostei mais do livro “Catarina de Aragão”, porém achei fenomenal como Gregory constrói e conduz todo o trama, como vai colocando as várias personagens, colando-as aos acontecimentos Históricos.

Ao nível Histórico, o livro é irrepreensível. Brilhante a ordem temporal, até os pequenos pormenores estão explorados. De notar a forma clara, que muito me ensinou, como a autora explica o percurso de simpático rei a tirano de Henrique VIII. É “engraçado” como constatamos que Ana Bolena foi a grande responsável pela mudança de religião, pela forma como Henrique se rebelou contra o Vaticano para, depois, ela própria ser uma das vítimas dessa tirania que, repito, ela construiu.

Um breve olhar sobre Henrique VIII.

Conforme tinha sido descrito em “Catarina de Aragão”, Henrique não passava de um vaidoso, arrogante e mimado menino grande que, vendo-se com todo o poder nas mãos, se transforma num horrível e sanguinário tirano. Nestas obras não se olha muito para o Rei Henrique enquanto político, mas sim enquanto homem e a perspectiva que temos não o favorece muito. Mas o que sobressai é que ele foi aquilo que quiseram que ele fosse, ou seja, foi apenas um produto de pessoas ambiciosas e sem pejo em afastar quem se opusesse aos seus interesses.

Em suma, mais um excelente e aconselhável obra de Philippa Gregory.

Classificação: 5

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Catarina de Aragão, a Princesa Determinada - Philippa Gregory


Factos Históricos

Catarina de Aragão (1485-1536) nasceu nos arredores de Madrid. Filha mais nova dos Reis Católicos (D. Fernando II de Aragão e D. Isabel de Castela), viveu numa época importantíssima para o futuro da Europa que aí começou a construir os alicerces da actual Europa.

Culta, inteligente e muito bonita, Catarina foi educada desde o berço para ser Rainha de Inglaterra, pois desde os 3 anos foi prometida em casamento a Artur Tudor, futuro Rei de Inglaterra, primogénito de Henrique VII.

Teve uma educação esmerada, sobretudo em estratégia militar, ganhando também a consciência da sua importância no tabuleiro estratégico de interesses políticos, interesses esses que visavam colocar a Espanha numa posição de relevo e liderança na Europa.

Consciente disso e do seu papel, assume a sua posição e encara o casamento como uma missão. Lutadora, lança charme sob o povo inglês conforme a mãe lhe havia ensinado. E esse charme oferece-lhe a adoração do povo sendo que, cerca de 500 anos após a sua morte, o seu túmulo em Peterborought nunca está sem flores. Por aí se pode medir a enorme popularidade de Catarina, popularidade que ela soube conquistar a pulso.

Interessante também registar as movimentações políticas de altura.

Em 1469, D. Fernando II de Aragão casa com D. Isabel de Castela, começando aí a definir-se o território espanhol com tal é hoje conhecido.

Altamente católicos, criam a Santa Irmandade e unificam os dois reinados.

Ambos têm um grande projecto: a conquista dos territórios mouros e italianos, no entanto e neste último caso, necessitam de derrotar os franceses. Para isso, e revela bem o espírito destes reis, têm uma série de filhos que, desde cedo, comprometem em casamento com as principais casas reais europeias de forma a criarem alianças e, dessa forma, isolarem França. É assim que Catarina é prometida a Artur Tudor.

Em 1492, após a conquista do reino de Granada aos mouros, é decretada a expulsão destes juntamente com os judeus. Com eles é expulso o saber e a cultura, iniciando-se um dos piores excessos de intolerância de que há memória.


O Livro

Philippa Gregory é genial na forma como narra estes acontecimentos, entrelaçando-os na história de Catarina.

O livro tem início em 1491.

Catarina tem 6 anos e, juntamente com os irmãos, está em campanha contra os terríveis mouros.

Percebemos desde logo o objectivo de ter os filhos no meio de um acampamento militar, correndo o risco de ser atacado. Fomenta-se a mentalidade guerreira, dá calo que só estas dificuldades podem dar. Catarina tem um enorme orgulho e confiança nos seus pais e, desde muito pequena, sabe que aqueles acontecimentos lhe serão muito úteis para quando assumir o trono de Inglaterra.

Em todo o livro Philippa Gragory nunca nos deixa esquecer essa veneração. Catarina vê-se como uma escolhida por Deus, ela tem uma missão e tudo para ela serve como uma lição de aprendizagem.

Algo que é bastante perceptível é a enorme religiosidade de Catarina. Embora admire os mouros, pelo seu saber, cultura, higiene, bom senso e bom gosto, ela vê-os como bárbaros, infiéis que não quiseram reverenciar o Deus Cristão e que, por isso, mereceram ser expulsos de Espanha. Porém, e isso é muito curioso, vicissitudes da sua vida vão, primeiro colocar-lhe dúvidas acerca do barbarismo dos mouros para, depois, colocar em dúvida a própria crença em Deus.

Visão empregue por Philippa Gregory é, como é compreensível, muito feminina. A maioria das personagens são mulheres e, por isso, pouco são exploradas as movimentações políticas (são afloradas) e bélicas (essas passam praticamente despercebidas).

Achei também que Philippa podia e devia ter explorado alguns acontecimentos importantes. Nomeadamente o acontecimento mais importante da época que foi a chegada de Colón à América.

Mas compreendo que Gregory se tenha focado unicamente em Catarina. Ela é a figura principal do trama e, justiça lhe seja feita, Philippa Gregory faz um trabalho notável de investigação histórica, conseguindo-nos transmitir o ambiente da época e o enorme carácter não só de Catarina como também de outras fascinantes personagens que a rodeiam.

Um livro excepcional que me apaixonou. Uma época que me apaixona e que aqui é descrita de uma forma soberba, real e rigorosa.

Por último, adorei também a escrita simples e objectiva de Gregory, assim como a estrutura do livro: capítulos curtos, todos eles deixando-nos em suspanse.


Classificação: 5

domingo, 28 de junho de 2009

Espada de Átila (A) - Michael Curtis Ford



História

Em 450 DC, o Império Romano do Ocidente estava a perder, de uma forma gradual, o poderio militar assim como o controlo das suas províncias, entre as quais a Gália, a Bretanha, a Lusitânia, entre outras.

De Oeste uma nova e poderosa força, alicerçada em alianças de povos que odiavam os romanos, os Hunos, liderados por Atila, avançam sobre Roma com um exército de 1 milhão de homens, algo nunca visto em toda a Europa.

A liderar o exército romano estava o general Flávio Aécio que, de acordo com documentos da época, comandava um exército de 500.000 homens, exército composto pelas legiões romanas e por povos que se mantinham fiéis a Roma, os Visigodos, os Francos e os Alanos. No entanto deixo aqui a ressalva acerca destes números, pois há historiadores que avançam com cerca de 300.000 homens para cada lado.

Entre Flávio e Atila um pormenor sobressaia: eram amigos de infância.

Flávio, por causa da política da altura do Império Romano, havia sido entregue como refém aos Hunos e aí criado durante 14 anos (409-425). Atila, através da mesma política, esteve entre os romanos pelo menos período. Tornam-se amigos no período (409) onde convivem durante alguns meses.

Esse período, obviamente, irá moldar o carácter desses dois homens. Ambos aprendem a conhecer o povo com quem vivem, mas ambos vão mais longe, ambos aprendem os costumes e tradições desses povos e, sobretudo, aprendem a pensar como um deles. Isso acontece principalmente com Aécio.
Esses factos vão ter uma preponderância sublime nos acontecimentos futuros. Ambos conhecem a mentalidade do inimigo e ambos tiram disso vantagem.


Opinião

O livro está sublime!

Michael Curtis Ford, como nos tem habituado, efectua um trabalho de pesquisa história soberbo.

Os acontecimentos acima narrados são todos escalpelizados.

O livro inicia-se com a infância destes dois homens e aborda o seu crescimento. Centra-se mais em Aécio simplesmente porque de Atila sabe-se pouco, pois os Hunos não deixaram documentos e a sua civilização quase que não deixou vestígios. De Atila conhece-se alguma coisa mas isso deve-se a historiados romanos.

Dessa forma, Curtis Ford, com o pouco que tem, é sublime na forma como retracta os costumes e tradições dos Hunos. Mitos, histórias e modos de vida são-nos dados a conhecer, um povo “bárbaro” que dizimava à sua passagem.

As tricas e alianças, até a justificação de Atila em atacar os romanos, quando entre os romanos e os hunos existia um pacto de não agressão, está bem encaixada e de acordo com a História.

A culminar está a Batalha dos Campos Catalaúnicos ou a Batalha de Chalons.

A descrição da mesma é terrível, de uma violência inolvidável.

Nessa batalha, travada a 20 Junho de 451, pereceram mais de 1/3 do exército de ambos os lados. “Pilhas de Mortos”, “à sua frente, o chão estava coberto de cavalos e de homens, montes de corpos…”, “estavam empilhados casualmente em muralhas improvisadas e contorcidas no local onde tinham caído…”

Durante um dia inteiro e parte da noite, os exércitos digladiam-se de uma forma brutal, insana, para além do racional. Na confusão tudo é permitido, a brutalidade dessa batalha, que irá ter uma importância enorme no futuro da Europa, é soberba e excitantemente bem escrita por Michael Curtis Ford, dando-nos não só uma real percepção dos acontecimentos como, também, nos faz quase participar nessa mesma batalha e nos acontecimentos anteriores à mesma.

Um livro excepcional!

Classificação: 5

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mulheres de Mozart (As) - Stephanie Cowell



Este romance baseia-se em acontecimentos reais da juventude de Mozart.

1842, Salzburgo, Vincent Novello visita Sofia Weber para lhe fazer uma série de entrevista a fim de puder escrever uma biografia sobre Mozart. Sofia era a mais nova das irmãs Weber e a única que estava ainda viva.

“As mulheres de Mozart” é um belíssimo romance histórico que apresenta um conjunto de mulheres que, dada a sua íntima ligação com Mozart, foram peças importantes, servindo mesmo de inspiração para várias composições e óperas do maior compositor de todos os tempos, para além dessa inspiração, são igualmente conhecidas várias peças escritas por ele para serem cantadas por Aloisa e Josefa, que foram conhecidas cantoras líricas da altura e também várias peças onde ele brincava com o nome de Constanza e Sofia, as duas irmãs que mais conviveram com ele.

Os Weber eram uma família da média/baixa classe que viviam em Mannheim, Alemanha, cujo pai, Fridolin Weber era um músico com alguma qualidade, dando educação musical às suas quatro filhas que, assim, cresceram num ambiente onde diversos músicos faziam parte das suas relações.

E é precisamente nesse circulo que, certo dia, surge um jovem austríaco desconhecido, mas já tido como sendo um grande talento, chamado Wolfgang Amadeus Mozart, que depressa entra no íntimo circulo de amigos da família, começando também a relacionar-se com todas as jovens, sempre de uma forma muito respeitosa.

Este romance descreve sobretudo a vida dessa família, dando especial enfoque à vida das quatro raparigas – Josefa, Aloisia, Constanza e Sofia – e o “contributo” que elas deram na obra de Mozart.

Mozart é aqui também peça chave, revelando-se um jovem ciente do seu valor e, ao mesmo tempo, zangado com a sociedade que teimava em não lhe atribuir o valor que ele batalhava por merecer. É também esse percurso que nos é dado a conhecer. As ânsias do jovem Mozart sempre em luta consigo próprio e com aqueles que o rodeavam. As suas excentricidade, sendo que numa delas chega mesmo a ser expulso fisicamente da mansão do Arcebispo Colloredo de Salzburgo, só porque foi lá em pessoa dizer ao arcebispo para meter os favores no cú.

Obviamente para quem conheça um pouco da vida de Mozart, ou mesmo para quem viu o filme “Amadeus”, recordar-se-á que Constanza Weber foi sua mulher e mãe dos seus filhos. Só por aí se poderá medir um pouco da enorme importância que teve esta família na obra de Mozart. Mas não foi, de entre as quatro, a única paixão de Mozart, no entanto isso deixo para que descubram por vós próprios.

Foi um romance que me deu um enorme prazer ler sobretudo porque admiro imenso a obra de Mozart, considerando-o não apenas um génio, como também um ser humano que estava desfasado no seu tempo, alguém que mesmo hoje em dia iria sobressair pelas suas qualidades.


Classificação: 4

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Viriato - O Filho Rebelde - Sónia Louro


Que livro horrível!

É com livros destes que questiono: como é possível editarem-se textos de tão fraca qualidade, como é possível uma editora, embora neste caso seja uma editora desconhecida, deixar passar um livro tão mau, tão mal escrito?

A história em si até è apelativa. Parece ser um romance histórico sobre Viriato, sobre uma das raizes do nosso povo, os lusitanos.

No entanto a autora - uma tal de Sónia Louro que tem neste livro a sua primeira experiência, simplesmente não consegue encadear a história. Pouca coisa faz sentido, o trama está tão mal formado que depressa o interesse se esvai, até porque nota-se que dos vários episódios que a autora deve ter lido em vários manuais de História, são colocados de uma forma desconexa, tentando com isso construir o trajecto de Viriato, ou algo parecido. Mas fica muito, mas mesmo muito longe de o conseguir, pois ela nem sequer consegue efectuar uma clara descrição do ambiente da época, e note-se que a época em causa é o séc. II A.C.. Nem ambiente, nem usos, costumes, etc. Uma nulidade enquanto romance histórico.

E depois sucedem-se “coisas” hilariantes de tão ridículas que são. O Beltane, que na realidade era o Sabbat Beltane e que era uma festa pagã realizada no primeiro dia de Maio, também conhecida como a “Festa da Primavera” e que celebrava a união da Deusa, sendo também um festival da fertilidade. E o Semhain que, por sua vez, era realizado no Solstício de Inverno e que hoje é conhecido pelo Halloween ou Dia das Bruxas que era também uma festa pagã, como até era natural na altura, mas, para além de ela simplesmente não explicar que acontecimentos eram aqueles, o porquê dos mesmos, que alimentos utilizados, etc, ainda tem o descaramento de os abordar como se fossem uma coisa corriqueira, tipo uma festa de pijamas realizados com meia dúzia de bons compinchas, todos eles em busca de sexo leviano e desenfreado. E curioso também a forma como salta de festa para festa em meia dúzia de páginas. Aliás, basta ver que a certa altura Viriato vai de viagem com uns primos, viagem essa que demora 3 anos mas que em páginas decorre em cerca de 3 ou 4 páginas.

E mais, há tanta coisa sem sentido que tornam o livro numa amálgama putrefacta (eis uma das suas palavras preferidas), sem qualidade nenhuma, quer seja literária, Histórica ou até como simples romance de cordel.

A história?

A história começa com o casamento de Aurelur e Silara, que devia ter sido conforme os hábitos lusitanos. Não sei como eram os casamentos entre os lusitanos, nem fiquei a saber. Depois piram-se os dois e têm uma noite de sexo que é descrito num parágrafo de 3 ou 4 linhas. Depois de manhã, Aurelur, que é um simples pastor, vai para a guerra onde combate ferozmente e fica gravemente ferido. Enquanto está inconsciente, tem a visão de uma bela moçoila que lhe dá uma coisa qualquer para beber e, pasme-se, o tipo possui-a ali mesmo, ganda maluco. E depois acorda. Após a batalha, e tendo ficado com graves perturbações psicológicas, não consegue ter relações com a sua jovem e bonita mulher (não se riam) e anda nisto seis anos que são descritos numa página. E ó depois aparece-lhe uma deusa que lhe diz que essa tal moçoila que lhe havia surgido quando estava ferido, era, ao fim e ao cabo, uma deusa que estava prometida a Cernunnos, o Senhor da Floresta e dos animais, que por causa de ter perdido a virgindade, a moçoila e não o Cernunnos, e ainda por cima ter ficado grávida, irá agora, o Cernunnos, possuir a mulher de Aurelur, sendo que nessa altura seria concebido um bebé... zzzzzzzz, e ó depois Viriato nasce e já é grande.

Antes deste livro sabia pouco sobre os lusitanos e Viriato. Depois desta trampa, fiquei a saber exactamente o mesmo que sabia com a mais valia de saber, agora, que Sónia Louro nunca mais.

Classificação: 1

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Em Demanda da Relíquia - Bernard Cornwell


Há vários anos que sou um profundo admirador de Bernard Cornwell, autor britânico responsável por uma série de romances históricos verdadeiramente excepcionais, destacando contudo a trilogia “Crónicas do senhor da guerra”, simplesmente do melhor que li até à data.

A escrita de Bernard Cornwell não tem nada que possamos classificar como único ou transcendente. O estilo dele é simples, mas é essa simplicidade que torna os seus livros tão empolgantes. Ele não perde muito tempo com descrições desnecessárias. Focalizasse objectivamente na descrição da época abordada e isso é algo que marca inegavelmente o seu estilo, pois ele consegue agarrar o leitor com a escrita, principalmente porque descreve de uma forma nua e crua não só a época, como nunca esconde (até faz gala) a brutalidade da mesma.

Quantos e quantos romances históricos que lemos, alguns até bem interessantes, que mostram a idade medieval cheia de amor e fraternidade, um mar-de-rosas, onde todos são amigos e onde a violência parece algo tão distante...

Com Cornwell vivemos as épocas da forma que elas foram. A brutalidade das guerras, o modo como elas se faziam. As relações humanas, a clara divisão de classes sociais. O modo de uns verem os outros, ou seja, em qualquer romance de Bernard Cornwell entramos nas épocas, quase que os sentimos presentes, quase que entramos no próprio romance. Digo quase porque não pretendo efectuar uma análise mais pormenorizada nem pretendo convencer ninguém, mas eu quando leio Cornwell, sinto-me dentro do romance, vivo as batalhas, consigo até ouvir o relinchar dos cavalos e os gritos dos homens.

Esta trilogia denominada “Em demanda da relíquia” e composta pelos romances “Harlequin”, “Vagabundo” e “O Graal”, situa-nos em plena Guerra dos Cem Anos que opôs a Inglaterra à França por todo o séc. XIV.

Thomas de Hookton é um jovem inglês que vive com os pais numa pequena aldeia piscatória que, subitamente, é invadida por dezenas de soldados franceses que arrasam a aldeia assassinando todos os seus habitantes, exceptuando Thomas que consegue fugir.

Esse episódio, que acaba por ter um objectivo que aqui não revelo, acaba por marcar a vida de Thomas, traçando então o seu destino que o colocará no caminho da maior obsessão de toda a idade medieval, da mais valiosa relíquia da cristandade: O Santo Graal.

Numa época tão marcada pelo surgimento de relíquias que supostamente pertenciam ao próprio Jesus Cristo, Bernard Cornwell retracta brilhantemente todo esse agitado período, onde os acontecimentos se sucedem em catadupa sem qualquer quebra, cheio de entusiasmo, suspense e vitalidade.

Uma trilogia que se lê num só fôlego tal a ânsia de sabermos o que vai acontecer a seguir, qual o desenrolar da batalha ou o destino dos vários personagens, personagens fortes, com alma.

Não sendo o melhor que li de Bernard Cornwell, esta trilogia apresenta-se como uma obra Histórica de eleição e altamente aconselhável para aqueles que escolheram o género histórico como o seu predilecto.


Classificação: 5

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Águia do Império (A)


Apaixonado pela Cultura Romana e por vários autores do género histórico, entre os quais Bernard Cornwell que é, quanto a mim o melhor escritor do género, Simon Scarrow resolveu escrever aquilo que mais gostava de ler e que, digo eu, era difícil de encontrar e decerto preencher a sua necessidade: romances históricos passados no seio das míticas legiões romanas.

Obviamente para quem conhece Bernard Cornwell, acaba por encontrar semelhanças muito fortes, ou se quiserem, nota-se perfeitamente o estilo de Cornwell neste livro que me proponho a comentar, sobretudo no realismo visual como ambos narram as batalhas e a expressão da violência da época descrita.

Mas vamos por parte.

Este “Águia do Império” é o 1º volume da “Série da Águia”.

Germânia, 42 d.C., seio da 2ª legião, a mais afamada e dura dos exércitos de Roma.

Como protagonista principal, o jovem Quintus Cato, Liberto (antigo escravo) graças aos serviços do seu falecido pai ao Imperador Cláudio, no entanto com a condição, como qualquer cidadão romano, de servir a legião romana pelo período obrigatório, 25 anos.

Nascido e criado no palácio imperial em Roma, Cato vê-se incorporado na 2ª Legião no meio de homens abrutalhados, quase todos analfabetos e sobretudo que o desprezam por constatarem que graças às boas graças do imperador, Cato receberá um posto superior ao deles.

A vida de Cato não se antevê fácil. Dado a poesias e às coisas doces da vida, depressa constata que a realidade da corte é completamente diferente da do exército, mas será que vai dar parte fraca?

Este primeiro volume acompanha assim o início da vida militar de Cato, das suas dificuldades, das suas primeiras amizades e amores. Acompanha também a invasão à mítica Bretanha, ilha povoada, segundo as lendas, por monstros e guerreiros selvagens.

No meio de toda a trama, que evidentemente tem também uma dose q.b. de intriga política, está Cato e o seu mentor, o Centurião Macro que, juntos, nos proporcionarão momentos de excitante acção.

Embora tenha adorado ler este 1º volume, não posso de registar e mencionar alguns pormenores que considero um pouco forçados e até algo absurdos.

A incorporação de Cato é realizada de uma forma normal, no entanto e para além de ser logo nomeado como oficial, verifica-se logo que ele não tem qualquer treino militar e nem sequer sabe pegar numa espada. Começam a teinar com uma espada de madeira, o que era normal, mas achei forçado que, pouco tempo depois de estar a recruta e sem sequer ter pegado numa espada a sério, é enviado, por acaso é certo, mas é enviado numa missão que se ante vinha simples. Porém aquilo desencadeia numa terrível e brutal batalha e vê-se Cato a combater com as hordas germânicas e inclusivamente a matar guerreiros supostamente bem treinados e cheios de ódios pelos soldados romanos.

Em todo o caso gostei imenso da escrita de Scarrow. Simples, objectiva e muito visual, diria mesmo cinematográfica. As descrições das batalhas são violentas e pormenorizadas, prometendo mais ricas e excitantes aventuras para os subsequentes volumes.

Classificação: 4 (Muito Bom)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Memórias do Livros (As) - Geraldine Brooks


1996, Hanna Heath, conservadora e especialista em livros raros, é convidada para se deslocar a Sarajevo a fim de analisar um livro muito raro e valioso, salvo dos bombardeamentos e concebido numa época em que a fé judaica se opunha veementemente a qualquer tipo de ilustração. Criado na Espanha medieval, a Hagadá de Saravejo.

Mediante medidas excepcionais, Hanna empreende uma minuciosa análise ao livro, descobrindo minúsculos artefactos que nos irão lançar numa aventura ao longo de 500 anos.

Essa aventura irá levar-nos a 1480, 1492, 1609 e 1940, épocas dispares, diferentes cenários por onde a Hagadá passa. Histórias individuais que tecem uma teia única que explicará esses tais minúsculos artefactos que Hanna descobre. Nessas histórias conhecemos vários e fascinantes personagens que servirão de base à narração dos acontecimentos das épocas abordadas que ajudam também a narrar e a situar-nos das condições do povo judeu.

E não será esse o verdadeiro propósito do livro?

Não diria que é um livro fascinante. Diria antes que é um livro que nos proporciona vários momentos de êxtase tal a beleza de certas histórias e a grande capacidade narrativa da autora.

Gostei imenso do estilo: simples, objectivo, sem grandes descrições e muito cinematográfico. Assente num grande rigor histórico, tal os ricos e interessantes pormenores históricos que abundam em toda a narrativa, as “Memórias do Livro” torna-se um excelente romance histórico que tem a capacidade de interligar épocas distintas demonstrando também que, pese embora as épocas e as mentalidades das mesmas, o ser humano não consegue aprender com a História.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Canção de Tróia (A) - Colleen Mccullough


Baseada em várias fontes, nomeadamente em obras de Virgílio, Sófocles, Heródoto, Píndaro e, claro, na Iliada de Homero, a Canção de Tróia é de facto um excelente livro e uma obra excepcional para a cultura universal.

Afirmo isto porque simplesmente, num só livro, Colleen McCullough conseguiu reunir e unificar, de uma forma muito simples, todo um conjunto de obras de vários autores, elaborando o melhor texto que li sobre a Guerra de Tróiae sobre o relacionamento entre personagens lendárias como Agamémnon, Ulisses, Aquiles, Heitor, Helena, Patrocles, Príamo, Páris, Ájax, Peleu, Briseida, Nestor, Menelau, Eneias e até Hercules, que aparece no início do livro e que, indirectamente, está por detrás da génese da Guerra de Tróia.

Colleen McCullough faz assim um trabalho notável de recriação histórica e mitológica, arrancando do fundo da memória colectiva personagens íntegros, dando-lhes vida, onde a beleza está associada à coragem e à bravura, onde o erotismo anda de mãos dadas com a violência, sim, violência, porque este livro tem tanto de belo como de brutal. E é nessa conjugação que McCullough humaniza os personagens.

A Canção de Tróia começa muito antes da Guerra de Tróia. Começa na véspera do nascimento de Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. Nesses dias um acontecimento singular se dá em Tróia que mais tarde estará pode detrás do sucedido com Páris que levará à causa da Guerra.

Num espaço de 30 anos vamos acompanhando o nascimento de personagens e a vida quotidiana de outras e é assim que chegamos a Helena, irmã de Clitemenestra que é, por sua vez, esposa de Agamémnon, rei supremo da Grécia.

Ora bem, Agamémnon casa o seu irmão, Menelau, com Helena, que era, embora ainda muito jovem, uma mulher marcada por aventuras de cariz sexual, num tempo, aliás, onde o relacionamento sexual era visto como profundamente natural e onde os relacionamentos homossexuais não eram escondidos.

Helena era no entanto uma mulher promíscua que não fugia, antes pelo contrário, a aventuras extra-matrimoniais, sendo assim que acaba por se envolver com Páris, quando este está de visita ao reino de Menelau.

E o resto leiam por vós mesmo.

A narrativa é empolgante, sendo curiosa a forma como Colleen narra cada capítulo: todos eles são contados a partir do ponto de vista de vários personagens, logo, tanto ficamos com a perspectiva de A, B ou C, entendem? Isso é muito interessante e dota o livro de um constante refrescar da observação dos acontecimentos.

Depois consegue humanizar todos os personagens. Tirando as batalhas (são violentíssimas), surge-nos um Ulisses extremamente inteligente mas cheio de vícios e defeitos, sobretudo ao nível da ética. Isso é curioso, ainda mais porque se conhece que a ética na guerra era uma das maiores virtudes das civilizações antigas. Aquiles, e é impossível não se gostar de Aquiles, é descrito como um homem atormentado, quase paranóico, mas que se revela o mais feroz dos guerreiros, e nessa conjugação de virtudes e defeitos, acabamos por nos identificar com Aquiles como sendo ele um modelo para nós mesmos. Isso é curioso! E sem querer entrar noutras considerações, pois efectuei uma análise a quase todos os personagens e achei “engraçado” as conclusões que ia retirando, quero apenas referir Ájax, primo de Aquiles, que transpira poder, integridade, lealdade e coragem. Foi o personagem que mais gostei e aquele que considero a minha referência, com que mais me identifico.

Esta é verdadeiramente uma Epopeia. Não tenho pejo nenhum em a considerar, pelos acontecimentos que aborda, superior à Ilíada.

A Ilíada é bela pela forma como está escrita (se puderem leiam-na na sua forma original, ou seja, em poema. Mas eu sou daqueles que considero que a Ilíada não foi escrita por apenas um homem), mas esta Canção de Tróia é um documento histórico que entra nos personagens, revelando-nos a sua mentalidade, o seu dia-a-dia.

Pessoalmente acredito que Ulisses, Aquiles, Ájax, Heitor e todos os outros heróis existiram. Deuses não eram, apenas homens. Mas no livro Aquiles profere uma frase que, quanto a mim, descreve a imortalidade dos heróis que, à medida que os séculos passam, se vão misturando com deuses, tornando-se assim lendas e mitos. ”Se nos lábios das gerações futuras eu puder combater contra Heitor um milhão de vezes, então é porque de facto, nunca terei morrido”. E um milhão de vezes se tem narrado esse combate, um milhão de vezes esta guerra, estes guerreiros que fazem parte do imaginário da raça humana.

domingo, 9 de novembro de 2008

Vida num Sopro (A) - José Rodrigues dos Santos



A acção temporal tem apenas dez anos, mas dez anos onde acontecimentos determinantes sucederam tendo do um impacto determinante a nível nacional e internacional.

1929-1939, dez anos.

Dez anos onde ventos de mudança sopram. Assiste-se ao nascimento do Estado Novo num Portugal assustado, rude, inseguro, só o facto desse regime trazer ordem e segurança foi o bastante para o mesmo originar a simpatia pela larga maioria do povo.

1929-1939, dez anos onde nasce, decorre e finda a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Uma guerra entre Nacionalistas e a Frente Popular, apelidados de blancos e Rojos, estes compostos pela esquerda (comunistas, anarquistas e também o governo eleito liberal-democrático). Uma guerra onde atrocidades são cometidas de uma forma arbitrária, sendo este conflito um laboratório de experiências para o conflito mundial que estava prestes a rebentar. Curioso o que está por detrás da ajuda camuflada do regime português aos nacionalistas.

1929-1939, dez anos onde o regime do Estado Novo ganha força e cria um sistema de informação acerca dos cidadãos tidos como ameaça para a nação (regime) e, mais grave, um sistema onde qualquer pessoa podia ser informador, bufo, e assim atraiçoar o melhor amigo ou qualquer familiar que tivesse a ousadia de proferir qualquer frase contra o regime. Ou seja, a imposição do regime do medo que, até hoje, nunca nos conseguimos apartar. Por detrás desse sistema a PVDE (Polícia de Vigilância Do Estado) ou a Pevide, como era conhecida pelo povo.

Neste livro são estes os três pontos principais da narrativa.

Como pano de fundo, interligando estes acontecimentos que nos colocam no cerne desses três pontos, uma história de amor. Uma simples, singela e trágica história de amor entre Luís Afonso e Amélia Rodrigues.

Passado entre Bragança-Lisboa-Penafiel-Vinhais, esta história é o elo condutor entre a vida e mentalidade rural e citadina. A mudança de mentalidades e a forma como se sente a diferença das mesmas de local para local não passa aqui despercebida.

Um livro apaixonante que narra acontecimentos importantes que estiveram por detrás da longevidade desse regime. Facilmente entendemos do porquê do surgimento do regime, do porquê de tão facilmente ter sido acolhido e do porquê de ter durado tantos anos. Quanto a mim o livro vale por isso.

A escrita é simples.

Aflorada por frases poéticas, José Rodrigues dos Santos não se perde em devaneios tão comum na maioria dos autores portugueses. Os diálogos são simples e directos, caracterizando a época com termos locais não faltando mesmo o castelhano e o galego.

É um livro na mesma linha da “Filha do Capitão”. Na minha opinião não se podem comparar devido aos temas que um e outro trata, no entanto o estilo é o mesmo mas confesso que este “A Vida num Sopro” apaixonou-me menos, no entanto sublinho que considero a “Filha do Capitão” um dos grandes livros da literatura universal, logo, será extremamente difícil JRS fazer melhor.

Este “A Vida num Sopro” é muito bom. Lê-se num fôlego, num sopro e facilmente nos apaixonamos pelos personagens, até porque, como é costume nos seus livros, JRS tem a capacidade de criar personagens do povo, gente como nós que facilmente incorporam se não nós mesmos, pelo menos, nossos antepassados.

domingo, 19 de outubro de 2008

Dissolução - C.J Sansom


1531, Henrique VIII, soberano inglês, apaixona-se por Ana Bolena e, sendo este casado com Catarina de Aragão, resolve solicitar ao Papa a anulação deste casamento para assim poder desposar Bolena. Porém, o Papa recusa e Henrique VIII, numa atitude insólita de revolta contra a igreja papista, faz-se proclamar Protector da igreja inglesa. Em 1534 anuncia o “acto da supremacia” que faz saber aos súbitos que se devem submeter a essa nova ordem ou então seriam excomungados e perseguidos, ou seja, quem fosse papista teria os dias contados. Nasce assim a Reforma religiosa na Inglaterra.

A partir de 1535, é eleito como vigário-geral Thomas Cromwell, um homem que havia subido na cadeira do poder como apoiante de Ana Bolena e que é precisamente ele o responsável principal pela acusação de adultério que a levará ao cadafalso, mas Thomas Cromwell empreende uma política conhecida como a dissolução de mosteiros que continuavam a seguir a doutrina católica de veneração a santos e relíquias, algo que a reforma considerava absoleta e anti-reformista. Porém não se pense que não havia outros e maiores interesses, os mosteiros possuíam tesouros incalculáveis, para além de terras que o rei queria para ele.

É pois este o cenário do livro que me proponho aqui alvitrar. Um livro que considero excelente , escrito por C.J. Sansom, um jovem advogado que tem aqui o seu baptismo.

“Dissolução”, como a palavra deixa entender, é um romance policial-histórico sobre um processo de dissolução de um mosteiro, com o fim de extinguir e pilhar todos os bens do mesmo, no entanto esse trabalho teria sempre que ser realizado de uma forma segura e cuidadosa, pois caso contrário e como na época a reforma ainda estava em fase de implementação junto do povo, poderia desencadear uma revolta popular que nem o rei nem Cromwell pretendiam, pese embora e isso é um facto histórico, os mosteiros e os abades residentes terem má reputação junto dos vilões e aldeões.

É pois num mosteiro de Scarnsae, na costa sul de Inglaterra, que vem a notícia do homicídio brutal de um dos comissário do rei. Cromwell convoca então Matthew Shardlake, um conhecido e reputado advogado, entregando-lhe a incumbência de investigar e descobrir o assassino e, ao mesmo tempo, fazer tudo para levar o abade do mosteiro a assinar a carta de capitulação e assim ter motivos para encerrar o mosteiro.

Quando Shardlake e o seu jovem ajudante chegam a Scarnsea, descobrem um local pouco religioso, cheio de vícios e de condutas menos próprias para abades...

Através deste breve texto, facilmente poderá constatar que “Dissolução” tem um argumento muito semelhante ao “Nome da Rosa”, não só enquanto romance histórico mas e principalmente, como tendo como cenário um mosteiro e um crime aí praticado. Porém são épocas completamente distintas e não tenho dúvidas em afirmar que com “Dissolução” se aprende mais sobre a época em causa.

Obviamente e isso para mim foi claro, que o escritor se baseou um pouco no “Nome da Rosa”. Há toda uma variedade de situações que na verdade fazem lembrar o romance de Eco, no entanto não se julgue que “Dissolução” se trata de um pseudo-plágio do romance de Eco, não, este “Dissolução” é muito bom porque não só nos descreve uma época turbulenta, como também é, enquanto policial, cativante, com situações de suspense bem conseguidas, personagens sólidas e descrições vivas e bem reais.

É também um romance leve, com capítulos curtos e concisos, nunca é maçudo e nunca cai, mesmo quando o escritor explica a época e a situação política e religiosa, numa madorra erudita, algo que torna o “Nome da Rosa” num excelente livro, é um facto, mas de difícil leitura. Este não, é um excelente livro.

domingo, 5 de outubro de 2008

Roma - Steven Saylor



Steven Saylor, especialista da civilização romana e autor da célebre série “Roma sub-rosa”, tem com este épico o seu maior desafio e o resultado é simplesmente portentoso.

A intenção, segundo o próprio autor, era simples: construir um romance onde a principal figura seria a cidade de Roma e o império que deu origem. Como fio condutor, duas famílias e um estranho talismã que irá ser o elo de ligação dos primeiros mil anos da História da cidade e, principalmente, da sua fundação ao estabelecimento enquanto potência dominadora.

A esta história, eis que toma parte duas famílias ligadas por laços familiares: os clãs Potício e Pinário.

Desde a Rota do Sal (1.000 a.C.) é-nos narrado as suas aventuras e desventuras que, obviamente, coincidem com os acontecimentos que originaram mitos, alguns deles que ainda hoje fazem parte da tradição ocidental, muitos transportados para a religião originados festas e festejos.

Rómulo e Remo, que são descritos como simples rapazes órfãos e que, face à sua condição, sobem a pulso destacando-se dos outros pela sua visão chegando de facto a reis de Roma, e é de facto a partir deles que Roma começa a crescer enquanto cidade.

Os conceitos por detrás da República, as primeiras conquistas, os ditadores, os enredos pelo poder, a glória de uns e a aniquilação de muitos, fazem deste épico um romance histórico muito para além do mero romance, pois Saylor ressuscitando e dando voz a personagens reais, consegue transportar até nós não só esses conturbados tempos como também demonstrar a importância desses personagens e dos seus actos.

Pessoalmente nunca fui um grande simpatizante do Império Romano. Sempre o vi como um Império importante, sem dúvida, mas mesquinho, cheio de jogos políticos, lutas pelo poder, interesses pessoais e traições.

Enquanto leitor de romances históricos, agradam-se aqueles que dão mais ênfase ao lado bélico e à descrição das sociedade e ao seu modo de vida e o que havia lido até à data, no que respeita ao império romano, praticamente todos se debruçaram pelos jogos políticos e pelas tricas no seu seio colocando sempre em plano inferior, por vezes até nem falando dele, as questões militares e as suas conquistas.

Este “Roma” também não se aventura muito nessas questões, no entanto conta-nos como nasceu o império, a sua essência e é precisamente esse essência que nos assombra pois constatamos que uns meros mercadores de sal deram origem ao maior império de sempre cuja influência é patente na actual civilização ocidental.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Codex 632 (O) - José Rodrigues dos Santos

O ”Codex 632”, escrito entre 2004 e 2005, tenta ser um livro desmistificador da vida de Cristóvão Colombo, pelo menos numa perspectiva de lhe dar uma nacionalidade e, sobretudo, um objectivo.

Cristóvão Colombo nunca foi, para mim, uma personagem digna de especial relevo.

Para qualquer interessado em História, facilmente constata que Colombo não foi o primeiro a chegar à América, pois, e está mais do que comprovado, centenas de anos antes já lá “passeavam” feníncios, vikings e, soube-se à pouco tempo, até chineses já lá tinham aportado. Logo essa história de ter sido Cristóvão Colombo o primeiro a chegar à América, à muito que está ultrapassada.

Agora o que desconhecia é a história que está por detrás do homem.

Quem foi realmente Colombo? Qual a sua nacionalidade? O que o moveu nesse empreendimento e, chamava-se realmente Cristóvão Colombo?

Pois bem, neste “Codex 632”, José Rodrigues dos Santos, assente em documentos genuínos, apresenta-nos muitos factos e dá também muitas respostas, porém e na minha opinião, comete um erro: não assume essas teorias, deixa antever que ali há muita coisa romanceada, sem contudo separar os factos reais dos dissimulados, e isso desvaloriza o livro.

Antes de abordar a história do livro expresso a minha profunda admiração pelo trabalho de JRS, sobretudo ao nível literário. O seu romance anterior, “A Filha do Capitão”, é uma pérola da literatura portuguesa e não só. Ele escreve bem, tem sensibilidade, não complica, nem entra em desnecessárias descrições ou devaneios. A escrita dele é simples, fluída e o ritmo que emprega, faz com que o livro se leia num ápice. “A Filha do Capitão” foi assim, e este “Codex 632” também. Porém, dificilmente ele escreverá um outro romance que bata, em Qualidade e sensibilidade, a “Filha do Capitão”.

Este “Codex” é um romance histórico, na linha de Dan Brown. Pois é meu caro Rodrigues dos Santos, por muito que teime, é difícil desmentir tais semelhanças. A estrutura é muito semelhante. Concordo que o curso da história e os personagens e alguns outros pormenores sejam diferentes, mas os objectivos, o porquê da história é semelhante entre os dois livros: “Código Da Vinci” e “Codex 632”.

Tomás Noronha é um professor de História da Universidade Nova de Lisboa e perito em Criptanálise e Línguas Antigas que recebe uma proposta de um organismo norte-americano no sentido de descodificar uma cifra que seria a chave para entrar no trabalho de investigação que um outro professor havia feito, trabalho esse que havia ficado sem quaisquer conclusões conhecidas, pois esse investigador havia falecido sem divulgar as suas conclusões...

Homem estudioso, Tomás vive uma época muito conturbada da sua vida ao nível familiar, problemas esses que necessitam de dinheiro para serem solucionados, e é precisamente por essa necessidade que Tomás resolve aceitar a incumbência que lhe propõem, acabando assim por empreender uma aventura cheia de códigos, mistérios, enigmas e muitos segredos. Ao princípio Tomás tem como objectivo investigar as notas desse tal falecido investigador, notas essas que alegadamente seriam sobre os Descobrimentos Portugueses, porém depressa Tomas começa a juntar uma série de peças que lhe dão a visão clara de muitos factos do séc. XIV e XV, factos esses que influenciam não só a actual perspectiva dos Descobrimentos, como também a visão dos jogos políticos que estiveram por detrás dos mesmos. E é por aí que Tomás chega a Cristóvão Colombo, e o papel que ele desempenhou naquele cenário.

Embora este seja um livro repleto de aventuras, volto a repetir, na mesma linha de “Código Da Vinci”, é também, e isso é indesmentível, um rico manancial de História dos Descobrimentos.

Rodrigues dos Santos leva a cabo uma investigação minuciosa da época, dos objectivos, da política, dos interesses e – e para mim foi uma surpresa -, o que está por detrás dos Descobrimentos, como começaram, quem os impulsionou e que objectivos tinham. E mais uma vez surgem os Templários, com a sua Ordem de Cristo legalmente formalizada em Portugal.

De resto é necessário referir que JRS não descobriu a pólvora. Ele limitou-se a usar velhas teorias.

Já em 1992 o Prof. Augusto Mascarenhas Barreto publicava, fruto de 20anos de investigação, “Cristóvão Colombo – Agente Secreto de El Rei D. João II”, e em 1997, “Colombo Português: provas Documentais”.

Nesses trabalhos, AMB conclui que Colombo não era genovês, mas sim judeu português, natural de Cuba, Alentejo. Conclui também que havia um complôt entre D. João II e Colombo, no sentido de iludir a atenção dos Reis Católicos de Espanha, entre outras interessantes conclusões que Rodrigues dos Santos aproveita para escrever o “Codex 632”.

O livro está bem conseguido, isso é um facto. No entanto há partes que não gostei e acho até que estão mal exploradas e até mal escritas. A vida familiar de Tomás é desenvolvida de uma forma paralela à história da investigação, no entanto nunca se percebe bem qual a finalidade. Para além de ser muito piegas, JRS usa e abusa de lugares-comuns, dando a sensação que grande parte é escrita apenas para ocupar espaço. Bem sei que a vida familiar de Tomás está por detrás do motivo de ele aceitar esse encargo de descodificar aquelas cifras, mas depois disso...

Depois há as situações sexuais, e aí, enfim, que dizer?

Na minha humilde opinião estão muito mal conseguidas. Nada excitantes ou provocatórias, quase todas as situações são ridículas e sem ponta de sensualidade. Lê-se coisas como ”fazer sopa de peixe com o leite das minhas mamas”, entre outras frase muito fraquinhas.

Mas pronto, de resto gostei bastante do livro.

Descobri muitos factos novos e interessantes e diverti-me imenso, só é pena JRS não encarar de frente esses Históricos factos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Asteca - Gary Jennings

Gary Jennings, autor reconhecido em todo o mundo como um dos melhores autores do género romance histórico, era um homem muito erudito que levava a cabo intensas e rigorosas pesquisas antes de escrever os seus livros.

Falecido em 1999, Jennings deixou ao mundo um conjunto de obras aclamadas pela crítica, entre as quais “Asteca” que comporta as obras, em Portugal, “Orgulho Asteca” e “Sangue Asteca”, dois volumes.

Fascinado pelos Astecas, Gary viveu durante 12 anos no México. Aprendeu espanhol antigo e passou todos esses anos a viajar pelas selvas mexicanas e a ler textos antigos, tanto dos Mexica (Astecas) como dos espanhóis. Assim começou a criar todo o exótico mundo asteca, dando a esta obra uma autenticidade única, pois toda ela é baseada em factos verídicos.

Publicado pela editora “Saída de Emergência”, estes dois volumes, conforme referi acima, compõem a obra “Aztec” e é uma das melhores obras que já li, sem dúvida a mais realista e brutal.

Em 1519 Herman Cortez chega à costa do império Mexica. Confundido com o Deus Quetzalcoatl que, diziam as tradições Mexica, regressaria vindo do mar precisamente nessa altura, faz com que os senhores dos impérios não levantem armas contra os homens barbudos. Após várias intrigas com os povos subjugados pelos poderosos Mexica, equipado por apenas alguns cavalos, poucas centenas de soldados e meia dúzia de peças de artilharia, consegue chegar à cidade estado do império, devastando-a.

Pouco tempo depois o rei de Espanha ordena ao bispo da Nueva España que lhe faculte toda a informação sobre a vida, costumes e tradições daquele exótico e estranho povo agora vassalo de Espanha. O bispo, contra sua vontade, decide convocar um ancião asteca, iniciando assim a narração das suas memórias e, claro, do modo de vida e das tradições astecas.

No primeiro livro, “Orgulho Asteca”, seguimos o jovem Mixtli na sua vida familiar e no início da sua vida activa na sociedade Mexica. Nas suas memórias, relatadas com detalhe, ficamos a conhecer como funcionava aquela sociedade. No segundo livro, “Sangue Asteca”, continuamos a seguir a vida de Mixtli, já adulto com uma posição, e uma sociedade que se debate então com a chegada dos deuses prometidos ou de estranhos estrangeiros. Esse capítulo marca o fim desta civilização, dando-nos então a conhecer a verdadeira história da subjugação espanhola em simultâneo que nos fornece outras histórias que nos permitem entender alguns dos mitos acerca de cidades de ouro, etc. Curioso saber, entre muitas outras curiosidades, que foram os próprios espanhóis a fazer com que o fabuloso tesouro asteca se tivesse perdido.

Bom, mas o que ele vai narrar vai chocar não só o austero bispo, como toda a sociedade ocidental.

Uma obra poderosa, portentosa e brutal que descreve os alicerces onde assentava essa civilização, o modo como viviam, como desfrutavam os prazeres da vida, da religião que lhe dava permissão para todo o tipo de prazeres…, a forma como viam os brancos e a estranheza de os mesmos serem tão arcaicos…

Guerras, incesto, assassinatos, canibalismo e rituais religiosos sangrentos marcam uma civilização cheia de preconceitos, medos e fascínio pelo sobrenatural.

Uma obra violentíssima, exótica e muito sensual. A descrição dos actos de canibalismo, assassinatos, envolvimentos sexuais e dos rituais são arrepiantes. O à vontade e a naturalidade com que Mixtli narra a sua história vai contra tudo o que é considerado convencional pelos europeus.

Um épico notável que aconselho vivamente aqueles que gostam do género histórico, diria até para quem gosta de História pura, pois este é mais que um romance, é um documento histórico sobre os Mexia, os Astecas.

Com esta obra entramos no mais íntimo daquele povo, somos transportados ao seu coração, à sua alma e vivemos o auge de uma colossal civilização.

sábado, 23 de agosto de 2008

Planícies de Passagem - Jean M. Auel


Em "Planícies de Passagem" chega ao fim toda a saga de Ayla, a menina Cro-Magnon que em o "Clã do Urso das Cavernas" se viu aos 5 anos sem família e só num mundo inóspito e cruel, sendo então adoptada e carinhosamente criada por um clã Neanderthal, seres muito diferentes dos seus.

Neste 4º volume, Ayla já é uma mulher responsável mas que busca o seu espaço no mundo e sobretudo junto daqueles da sua espécie.

Acompanhada de um homem que escolheu para parceiro, partem os dois em busca de uma terra a que possam chamar de lar e aí constituir família.

É extremamente complicado abordar a história deste livro porque fazê-lo significa desvendar obrigatoriamente vários factos que põem em causa outros factos que se descobrem no primeiro, segundo ou terceiro volume. A vida de Ayla é uma autêntica aventura no período Paleolítico, logo, um período em que muito há a descobrir, sobretudo ao nível da antropologia e geologia. Uma aventura que coloca em evidência a relação do Homem primitivo com o mundo que o rodeia e a percepção que o mesmo tem desse mundo e do lugar que ele começa a ocupar.

Ao nível geológico e antropológico, todos esses volumes são um manancial Histórico surpreendente e assaz rico. Desde o modo de vivência e relacionamento entre os membros das próprias tribos, até ao relacionamento entre os mesmos e interacção desses com o ambiente. Toda a viagem de Ayla dá-nos a conhecer vastos locais que hoje são perfeitamente identificáveis e, sabe-se, que Jean Auel foi bastante minuciosa e atenta às descrições que efectua, assim como bastante rigorosa na descrição do clima e das condições de vida daqueles primitivos povos.

Fazendo uma retrospectiva deste 4 volumes - "Clã do Urso das Cavernas", "Vale dos Cavalos", "Caçador de Mamutes" e "Planícies de Passagem" -, vendo todos estes livros apenas como sendo uma obra com o título "Saga dos Filhos da Terra", posso garantir-vos que se trata de um conjunto de livros muito interessantes, que se lêem com gosto e de uma forma compulsiva, tal a forma e o ritmo agradável e ávido que Auel utiliza na sua escrita. No entanto e enquanto eu aconselho principalmente os dois primeiros livros, já deixo algumas reservas no terceiro e já não recomendo o quatro.

Sobretudo porque o quarto título (também ele divido em dois volume), deveria ser um título que finalmente desvendasse algumas das muitas questões que Auel vai levantando nos seus antecessores. Questões essas que nos deixam na ânsia de ler para saber, porém é imensamente frustante muitas dessas questões ficarem sem resposta.

Por outro lado é nítida a saturação da escritora. A aventura parece não ter fim, é aborrecida. As zangas e as pazes entre Ayla e Jondalar são quase sempre iguais, as cenas de sexo repetem-se numa clara tentativa, frustada, de dar algum erotismo ao livro, no entanto e embora Auel use uma linguagem muito explicita, geralmente essas cenas não nos comovem rigorosamente nada.

Porém e embora me tenha desagradado bastante este livro, pois admito que também eu já estivesse saturado da obra - 6 volume são 2463 págs. -, sei que este título não fechou a saga, pois e posteriormente Auel ainda editou um outro livro com o nome "The Shelters of Stone" (2003) que nunca foi editado em Portugal e em muitos países, visto que o flop foi tão grande com os últimos títulos que, acharam as editoras, um novo título não seria vendável.

Tenho pena, pois e provavelmente teríamos a resposta a várias questões que ficaram no ar, logo, parte da minha crítica que me leva a classificar este volume como um mau livro, poderia sofrer uma grande atenuante, pois parece-me ser este "Planícies de Passagem" mais um volume intermediário e não um volume final.

sábado, 19 de julho de 2008

Caçadores de Mamutes (Os) - Jean M. Auel


Em os "Caçadores de Mamutes", divido em dois volumes, voltamos a encontrar Ayla, agora já uma jovem e bela mulher com a capacidade de discernir o seu mundo e as diferenças que a separam daqueles que a criaram.

Neste terceiro volume, e não querendo entrar em detalhes, pois poderia estragar o prazer da descoberta e da surpresa, Ayla parte para a terra dos Mamutes, animais imponentes que eram a base da alimentação da altura.

Atravessando planícies sem fim, Ayla acaba por encontrar uma terra habitada pelos da sua espécie, no entanto ela própria sabe que também cada vez está mais longe da tribo que a criou e onde ela ainda tem motivos para amar...

Este terceiro volume, pese embora Auel continue o estilo e a forma narrativa assente, como já referi, em factos Geológicos e Históricos reais, perde imenso para os dois antecedentes.

Não vou aqui mencionar as principais razões porque considero essa perda, sobretudo porque iria cair em considerações sobre acontecimentos da própria história, mas há algo que está subjacente à própria extensão da obra, que é algum cansaço e saturação que se nota na escritora, assim como uma natural saturação do próprio leitor, pois repare-se: quando chegamos a este "Caçador de Mamutes", já levamos dois volumes lidos num total de cerca de 1.000 páginas. Sobre a época descrita, sobretudo sobre a coexistência entre o Homem de Neanderthal e o de Cro-Magnon já tudo foi praticamente dito em o "Clã do Urso das Cavernas" e o "Vale dos Cavalos" assim, este presente livro torna-se algo repetitivo nessas descrições, caindo assim também na repetição ao nível das situações, sobretudo quando Auel parece ter considerado o sexo como um escape ao argumento.

Pessoalmente gostei, mas não escondo que me decepcionou imenso. Vinha embalado com os outros dois e foi deveras frustante ver e sentir que a própria escritora estava mortinha para acabar com a história.

Obviamente que o livro tem a sua Qualidade. Lê-se bem e é curioso constatar a evolução de Ayla, mesmo a sua evolução no contacto com os da sua espécie, porém este fica muito aquém do esperado e exigível.

Mas existem algumas análises que se podem fazer, sobretudo no contexto social, nomeadamente ao nível do comportamento em grupo, podendo mesmo afirmar que este livro efectua uma curiosa análise aos primórdios dos comportamentos entre indivíduos.