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sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Deus Desconhecido (A) - John Steinbeck



John Steinbeck foi um escritor que escreveu sobretudo sobre a sua região: Califórnia. Aquele que fez da Califórnia a principal dos seus romances.
A acção do romance passa-se em pleno Oeste norte americano no início do séc. XX.
Tendo conhecimento que o governo estaria a oferecer terras para quem se quisesse estabelecer na Califórnia, Joseph Wayne abandona a casa paterna e empreende a viagem rumo ao seu sonho. Ao chegar, escolhe alguns hectares de que lhe parecem ricos, registando-as posteriormente em seu nome.
É já quando se está a estabelecer, que recebe uma carta dos seus irmãos, informando-o da morte do seu pai, notícia essa que o entristece mas que o faz tomar consciência de uma nova era que se inicia.
Acontece que nessas suas terras, existia uma grande e velha árvore que Joseph tomou como mais do que uma simples árvore, tomou-a como um ser vivo, pensante, algo que tinha sobre ele um poder especial, algo que incorporava o poder paternal, ao fim e ao cabo, o seu próprio pai.
Neste romance, que classifico como um romance estranho, Steinbeck cria um personagem central. Joseph Wayne, homem que apenas tem olhos para a terra, mas um homem com um carácter forte que, ás tantas, sobre ele alguém afirma: ”um novo Jesus do oeste”.
No entanto este romance é um romance sobre o meio físico e social. Social porque nos narra a organização típica de uma família do velho Oeste: Um rancho que agrupa toda uma extensa família, chefiada pela figura patriarcal, preocupada essencialmente com a sus subsistência, com a terra e com a criação do gado. Físico, porque Steinbeck situa muito bem o romance: Califórnia selvagem, entre o mar e o deserto.
Mas este romance tem alguns pormenores que deixam perceber que Steinbeck escreveu-o com um sentido muito mais amplo do que aquele que tenho visto referido. Um romance sobre o amor à terra e à vida? Não! Este é um livro mais profundo, não necessariamente mais belo por isso, mas tem mensagens que ultrapassam a de uma simples e mera história.
Se não repare-se:
O personagem principal e aquele que é a essência de todo o livro, chama-se Joseph Wayne. Joseph é um nome de origem hebraica que significa Deus Acrescenta. Curioso!
Curioso também a enorme semelhança física entre Joseph e Abraão, semelhança impressionante quando se sabe que, na Bíblia, Abraão deixa a casa do seu pai e parte para uma nova terra, a terra prometida. Em “A Um Deus Desconhecido”, Joseph parte em, busca da terra prometida: o Oeste. Mas não é apenas esta a única semelhança. Ao longo do livro é notória a semelhança desta obra com acontecimentos do Velho Testamento.
Logo, este romance tem uma fortíssima componente religiosa e, curioso, é a forma como Steinbeck, propositadamente, mistura a crença católica com actos de puro paganismo.
Joseph é um homem que ama essencialmente a terra, toda a natureza. Personifica numa velha e viçosa árvore a figura do seu próprio pai, do seu Deus. A essa árvore entrega oferendas, presta-lhe culto, cumpre assim uma espécie de rito pagão.
O certo é que toda essa relação entre a crença católica e pagã tem um fim abrupto, fim esse que irá desencadear toda uma série de acontecimentos extraordinários e inesperados que porão fim ao próprio livro.
E a chuva que tem um papel tão importante?
A queda da chuva que penetra na terra mãe gerando vida, faz-nos lembrar aquelas estatuetas do Paleolítico que personificavam a fertilidade...
Em suma: este romance é uma alusão clara a vários episódios bíblicos. Joseph Wayne age como um deus, ele é a terra, a chuva, a vida, toda a natureza.
É um romance algo angustiante porque desde o princípio nos apercebemos que o trajecto da acção é omissa de certezas e poucas esperanças. É um romance que não deve ser lido apenas para estar entretido. Penso que é um livro que deve ser lido com muita atenção e com algum tempo para analisar o que foi lido, pois existem muitas mensagens que se podem extrair.
Pessoalmente gostei mas não o considero uma obra do nível das “Vinhas da Ira”, sobretudo devido à própria acção e ao ritmo que Steinbeck imprime.
A analogia de Joseph com Abraão e as constantes metáforas bíblicas, dizem-me pouco, e para além de me dizerem pouco, existem diálogos estranhos, com pouco sentido, algo maçudos que, quanto a mim, acrescentam pouco ao livro.

domingo, 29 de julho de 2007

Vinhas da Ira (As) - John Steinbeck

No dia 24 de Outubro de 1929 dá-se um crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque, esse dia ficará conhecido por Sexta-feira Negra. Seria o início da Grande Depressão que devastou a sociedade americana e teve também repercussões violentas por todo o mundo. As primeiras vítimas dessa depressão, são os proprietários rurais que viram as suas exportações diminuírem até à quebra total. Na impossibilidade de rentabilizarem os campos, esses proprietários viram-se também na impossibilidade de liquidarem as dívidas que haviam contraído no período de euforia, vendo então os campos serem hipotecados pelos bancos. Com as terras confiscadas e sem meios de sobrevivência, esses proprietários não tiveram remédio que abandonar essas terras e partir em busca de um presente e um de futuro melhor.
Essa crise no campo reflectiu-se nas cidades e depressa o desemprego começou a subir, pois milhares de empresas foram à falência. De realçar que em 1933 havia 14 milhões de desempregados nos E.U.A..
E é precisamente a Grande Depressão o principal tema desta obra.
Obra perturbante, narra a epopeia da família Joad, uma família rural americana que vê as suas terras confiscadas pelo banco devido ao incumprimento do pagamento da dívida. Assim e possuindo apenas um velho camião, iniciam uma viagem apenas de ida com destino à Califórnia em busca de trabalho.
Curioso verificar que muitos críticos literários encontram semelhanças entre a epopeia dos Joad e o Êxodo bíblico. Desconheço se Steinbeck o fez propositadamente, mas o certo é que as semelhanças existem, pelo menos no objectivo final: A terra prometida.
Nessa odisseia, lado a lado com outras milhares de famílias que procuram alcançar os mesmos objectivos, Steinbeck efectua uma análise profunda a essa sociedade, quer na componente psicológica das personagens (povo), quer na componente política.
Em todo o livro existe uma clara intenção e preocupação pelo detalhe, sobretudo no que respeita às relações humanas e é aí que o romance ganha a sua verdadeira dimensão. Basta ver que perdem a terra que lhes dava o sustento, são escorraçados e mesmo assim nunca desistem. Por muitas contrariedades que surjam, e pelo menos dois membros da família morrem e são enterrados no caminho, esta família nunca vira a cara à luta e está sempre na disposição de lutar, na disposição de contrariar os abusos e as humilhações que constantemente lhes infligem.
É extraordinário a forma como Steinbeck aborda o problema. A força dessa família e de tantas outras na mesma situação sobressai, sentimos essa força e conseguimos compreender o sofrimento dessas almas, no entanto, ainda existe espaço para a amizade, para a solidariedade, a ideia de comunidade está sempre presente, essa força interior que simboliza um ideal de nação.
Uma obra muito importante no panorama literário, que deve ser lida com muita calma, sendo certo que o leitor deve possuir alguns conhecimentos da história dos Estados Unidos dessa época, considero mesmo a obra de leitura não muito acessível, pois é efectivamente um romance cheio de símbolos políticos onde Steinbeck tinha efectivamente segundas intenções quando o escreveu.
"Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as Vinhas da Ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."