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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

F Ú R I A

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Do céu, enquanto raios de desgraça
Lampejam, com furor, na noite escura,
As nuvens, que nasceram ameaça,
Derramam-se em torrentes de água pura.
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Ressoa, com fragor, por toda a parte,
A voz tronitruante de Vulcano,
Mais forte que a irada voz de Marte,
Capaz de intimidar qualquer humano.
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O vento, que fustiga em desespero
As copas dos coqueiros desgrenhados,
Mergulha de rochedos escarpados;
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Num silvo, que enfurece o mar severo,
Encontra, no rugir da profundeza,
Mais eco do que tem na natureza.
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Autor: VÍTOR CINTRA
Do livro: PEDAÇOS DO MEU SENTIR
Editora: Temas Originais, Lda.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dia de Portugal e de Camões

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.................Dez de Junho
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..........................I
As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
..........................II
E também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devassando;
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando,
- Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
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Excerto do CANTO PRIMEIRO de «OS LUSÍADAS»
Autor: Luís de Camões

terça-feira, 2 de junho de 2009

ABANDONO

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Cai a chuva, forte, fria
E ao romper a madrugada
Surge, à luz do novo dia,
A criança abandonada.
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O farrapo que lhe cobre
O corpinho, emagrecido,
Não servia a outro pobre,
De tão velho, tão puído.
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Sem amor de pai e mãe,
Sem cuidados, sem carinho,
Sem destino, nem caminho.
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Que futuro espera alguém
Tão pequeno e tão sozinho,
Co' o descaso por vizinho?

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Vítor Cintra
* * * * *
A escolha deste poema, extraído do livro «Pedaços do Meu Sentir», é a minha forma de homenagear o poeta, seu autor, e de lhe manifestar o meu apoio e a minha admiração pelas posições de indignação, que assume e nos dá a conhecer em Um Poema de Vez em Quando, perante a incompetência, a irresponsabilidade e a indignidade da Justiça, em Portugal.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

SEM REMÉDIO

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Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
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E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
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Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
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E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
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Florbela Espanca

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

DUENDES

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Andam duendes à solta
Nalguns caminhos 'scondidos;
Só quem apura os sentidos
Pode senti-los à volta.
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Ouvem, alguns, gargalhadas,
Outros só ouvem gemidos,
Nesses atalhos seguidos
Em noites mais estreladas.
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É nesse mundo risonho,
Sem um temor desmedido,
Que cause dor ou revolta,
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Que, quem viveu um tal sonho,
Se mostra mais convencido
Que andam duendes à solta.

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Autor: VÍTOR CINTRA
Do livro: RELANCES

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

VIRIATO

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Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
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Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste -
Assim se Portugal formou.
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Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
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Autor: FERNANDO PESSOA
Do livro: MENSAGEM

domingo, 28 de setembro de 2008

MENINO E MOÇO

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Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o público jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
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Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!
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Mas hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!
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Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...
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Autor: ANTÓNIO NOBRE
Do livro:
Editora: Editorial Nova Ática

domingo, 1 de junho de 2008

Dia Mundial da Criança

No dia que se convencionou ser dedicado à criança, este poema de Vítor Cintra, ganha particular dimensão e a sensibilidade do poeta evidencia-se.
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D I R E I T O S
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Aos filhos dar o que aos pais
Foi dado, quando meninos,
Não é mimá-los de mais,
Nem é impor-lhes destinos.
É dar-lhes, também, a voz
Que vem dos nossos avós.
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Negar-lhes um só direito
Que nosso foi, como filhos,
Além de ser desrespeito
Ofusca-lhes aura e brilhos.
Privá-los da tradição
Jamais será solução.
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Há gente que diz que quer
Aos filhos dar o melhor,
Sem dar-lhes, porém, sequer
Princípios d'algum valor.
Os homens não são felizes
Se não tiverem raízes.
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Vítor Cintra

sexta-feira, 7 de março de 2008

POEMA TRISTE

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Cedo provei da vida um escasso trago
e cedo me secou.
Vida que tão breve veio
e tão breve me deixou.
É assim: flor de olor
num instante me fenece.
Nem o meu hálito de amor
as pétalas lhe aquece.
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Autor: FERNANDO NAMORA
Livro: AS FRIAS MADRUGADAS
Editora: Livraria Bertrand

domingo, 6 de janeiro de 2008

NÃO TENHO

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Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Longe de ti...

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Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro Mundo, harto,
Pelo teu filho, Minha Mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vezes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventro nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, mágica bebida!

Fora melhor ter nascido, fora,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d'África da Vida.

António Nobre
Coimbra, 1889
Extraído do livro: