TRECHO:
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por quaisquer
meios eletrônicos, mecânicos, inclusive por meio de processos xerográficos, incluindo
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pessoa de seu editor. (Lei nº 9.610, de 19.2.98).
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
O Livro da Lamentação da Filosofia / A Lamentação da Filosofia, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
A versão portuguesa do livro "A LAMENTAÇÃO DA FILOSOFIA" foi feita do texto original latino, escrito no ano de 1311. Encontra-se na Coleção "CORPUS CHRISTIANORUM - CONTINUATIO MEDIAEVALIS" - RAIMUNDI LULLI OPERA LATINA - Parisiis: Turnholti Typographi Brepols Editores Pontificii MCMLXXV, editado por Hermogenes Harada O.F.M.
Os manuscritos apresentam diversos títulos para a obra. A edição crítica os relaciona: Da lamentação. Da lamentação dos doze princípios da Filosofia contra os averroístas. Da lamentação da Filosofia. Da lamentação da Filosofia ao rei dos francos. Doze princípios da Filosofia. Doze princípios da Filosofia do mestre Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios da Filosofia, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física de Raimundo. Doze princípios da Filosofia de Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. A queixa da Filosofia contra os averroístas. A queixa da Filosofia a respeito dos averroístas. A lamentação da Filosofia. A lamentação da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. O livro da lamentação dos Doze Princípios da Filosofia contra os averroístas. O livro da lamentação da Filosofia. O livro da lamentação da Filosofia ou os Doze Princípios da Filosofia. A Física de Raimundo. Do lamento da Filosofia, da Teologia e de Raimundo. Do lamento da Teologia e de Raimundo.
Deus, com tua altíssima sabedoria e virtude
Começa o Livro da Lamentação da Filosofia.
Ao soberano Filipe, o mais ilustre dos príncipes e o mais pacífico rei dos francos, que refulge por favor de Jesus Cristo e sua ajuda admirável com coroa excelentíssima dos reis, e maravilhosamente ornado pela graça dele tanto por bens da natureza quanto por bens da alma, a Filosofia e seus Doze Príncipios máximos dão graça por muito e muito tempo para o aumento de frutuosa saúde.
I. Prólogo
É sabido certamente que deve ser impetrado o auxílio junto àquele que triunfa pela claridade do poder. E como eu vos conhecesse brilhar mais do que os outros, entre os reis da cristandade, pelo poder e pelo zelo da fé cristã, e, sobretudo, pela caridade, por isso, a vós recorro, tal como a um auxiliar condigno e coluna máxima da verdade, impetrando ajuda contra a injúria feita a mim, na vossa cidade de Paris, pelos averroístas. Eles afirmam que, segundo o meu modo de entender, isto é, pelo intelegível, que é meu sujeito, a fé católica é errônea e falsa; mas pelo crer, dizem ser ela verdadeira. E por esse motivo me fazem grande injúria, porque o meu intelecto não implica contradição entre entender e crer. A este respeito, portanto, na medida de minhas forças, peço defesa.
Não obstante digam que crêem na santa fé católica e que não entendem que a mesma seja falsa, afirmam, contudo, não entenderem que uma virgem possa parir um filho e que do nada se faça algo, e o mesmo asseguram de outros artigos da fé. Dizem que isto deve ser concedido quanto ao sentido e quanto à imaginação, mas não quanto às doze imperatrizes divinas, mencionadas no livro "De Natali", que são relativas aos princípios da teologia, enquanto Deus existe como sujeito da própria teologia. Dessa forma, podem negar que a virgem deu à luz um menino e assim por diante.
Eu, porém, sou a Filosofia de duas maneiras: primeiramente, com o sentido e a imaginação meu intelecto causa a ciência. Depois, com as doze imperatrizes, que são: (1)Divina Bondade, (2) Magnitude, (3) Eternidade, (4) Poder, (5) Sabedoria, (6) Vontade, (7) Virtude, (8) Verdade, (9) Glória, (10) Perfeição, (11) Justiça, (12) Misericórdia. Com estas sou superior e tenho uma coroa de ouro; com o sentido e a imaginação sou inferior, tendo uma de prata.
Disse a Filosofia, suspirando e chorando: Eu confesso perante estes meus princípios os quais são: (1) Forma, (2) Matéria, (3) Geração, (4) Corrupção, (5) Elementos, (6) Vegetação, (7) Sentido, (8) Imaginação, (9) Movimento, (10) Intelecto, (11) Vontade, (12) Memória, que nunca concebi fraude ou engano contra a teologia; pelo contrário, confesso que sou serva dela, para que através daquelas coisas, que concebo pela alma, entenda os entes reais e louve e bendiga a Deus e as imperatrizes e tenha conhecimento da essência de Deus e de sua operação intrínseca, bem como das imperatrizes e dos atos das mesmas.
Ai de mim triste e sofredora, disse a Filosofia, e acaso vós, meus outros princípios sabeis que sou tal? E vós outros, disse a Filosofia, que sois? Todos responderam, a não ser o Intelecto, que calou. Disseram que era a verdadeira e legítima serva da teologia.
E tu Intelecto, disse a Filosofia, que dizes? Respondeu o Intelecto: Eu sou quase inteiramente falso, visto que meu discurso, em Paris, se fundamenta em opiniões e, assim, que posso dizer? A minha luz deve ser pela claridade e verdade, mas está ofuscada e tenebrosa pelos falsos erros dos filósofos, que tanto me sufocam, a ponto de mal ter fôlego e força. Outro remédio não vejo, a não ser que Deus me ajude através do rei dos Francos e, quanto antes, porque os erros crescem e as verdades são sufocadas. Paris, entretanto, é o fundamento, porque corre a fama que estou mais nela que em qualquer outra cidade.
Enquanto a Filosofia assim se lamentava e lastimava e em alta voz clamava: Ai de mim, onde estão os religiosos, homens bem letrados e devotos e também outros que me ajudem, enquanto assim a Filosofia clamava, suspirava e lacrimava, aconteceu que Raimundo, a Contrição e a Satisfação saíram de Paris, falando do perverso estado do mundo. Em certo prado ameníssimo, sob certa árvore, na qual muitas avezinhas cantavam, encontraram a Filosofia e seus princípios acima referidos. Ela estava ali, recreando-se, de certa forma, graças à beleza da árvore e aos gorjeios dos pássaros. E também ali havia uma fonte muito linda.
As senhoras supramencionadas e Raimundo pediram-lhe por que razão tanto se lamentava e lastimava.
Ela mesma deu a razão e narrou-lhes aquelas coisas, que foram mencionadas acima. Dito isso, a Filosofia rogou a Raimundo e às senhoras que fossem ao rei dos Francos e dissessem aquelas coisas, que ouviram e pedissem que pusesse remédio; e dissessem ao rei que ficaria um peso na sua consciência, caso não fizesse isso.
Mas, as senhoras e Raimundo quiseram saber primeiro o estado dos seus princípios. Isso agradou à Filosofia, que ordenou que a Forma primeiro falasse de si mesma e de tal modo, que as senhoras e Raimundo pudessem ter dela conhecimento.
iciais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.
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Os manuscritos apresentam diversos títulos para a obra. A edição crítica os relaciona: Da lamentação. Da lamentação dos doze princípios da Filosofia contra os averroístas. Da lamentação da Filosofia. Da lamentação da Filosofia ao rei dos francos. Doze princípios da Filosofia. Doze princípios da Filosofia do mestre Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios da Filosofia, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física de Raimundo. Doze princípios da Filosofia de Raimundo Lúlio, que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e de Física. Doze princípios que podem ser chamados de lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. A queixa da Filosofia contra os averroístas. A queixa da Filosofia a respeito dos averroístas. A lamentação da Filosofia. A lamentação da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas. A lamentação ou queixa da Filosofia contra os averroístas e a Física de Raimundo. O livro da lamentação dos Doze Princípios da Filosofia contra os averroístas. O livro da lamentação da Filosofia. O livro da lamentação da Filosofia ou os Doze Princípios da Filosofia. A Física de Raimundo. Do lamento da Filosofia, da Teologia e de Raimundo. Do lamento da Teologia e de Raimundo.
Deus, com tua altíssima sabedoria e virtude
Começa o Livro da Lamentação da Filosofia.
Ao soberano Filipe, o mais ilustre dos príncipes e o mais pacífico rei dos francos, que refulge por favor de Jesus Cristo e sua ajuda admirável com coroa excelentíssima dos reis, e maravilhosamente ornado pela graça dele tanto por bens da natureza quanto por bens da alma, a Filosofia e seus Doze Príncipios máximos dão graça por muito e muito tempo para o aumento de frutuosa saúde.
I. Prólogo
É sabido certamente que deve ser impetrado o auxílio junto àquele que triunfa pela claridade do poder. E como eu vos conhecesse brilhar mais do que os outros, entre os reis da cristandade, pelo poder e pelo zelo da fé cristã, e, sobretudo, pela caridade, por isso, a vós recorro, tal como a um auxiliar condigno e coluna máxima da verdade, impetrando ajuda contra a injúria feita a mim, na vossa cidade de Paris, pelos averroístas. Eles afirmam que, segundo o meu modo de entender, isto é, pelo intelegível, que é meu sujeito, a fé católica é errônea e falsa; mas pelo crer, dizem ser ela verdadeira. E por esse motivo me fazem grande injúria, porque o meu intelecto não implica contradição entre entender e crer. A este respeito, portanto, na medida de minhas forças, peço defesa.
Não obstante digam que crêem na santa fé católica e que não entendem que a mesma seja falsa, afirmam, contudo, não entenderem que uma virgem possa parir um filho e que do nada se faça algo, e o mesmo asseguram de outros artigos da fé. Dizem que isto deve ser concedido quanto ao sentido e quanto à imaginação, mas não quanto às doze imperatrizes divinas, mencionadas no livro "De Natali", que são relativas aos princípios da teologia, enquanto Deus existe como sujeito da própria teologia. Dessa forma, podem negar que a virgem deu à luz um menino e assim por diante.
Eu, porém, sou a Filosofia de duas maneiras: primeiramente, com o sentido e a imaginação meu intelecto causa a ciência. Depois, com as doze imperatrizes, que são: (1)Divina Bondade, (2) Magnitude, (3) Eternidade, (4) Poder, (5) Sabedoria, (6) Vontade, (7) Virtude, (8) Verdade, (9) Glória, (10) Perfeição, (11) Justiça, (12) Misericórdia. Com estas sou superior e tenho uma coroa de ouro; com o sentido e a imaginação sou inferior, tendo uma de prata.
Disse a Filosofia, suspirando e chorando: Eu confesso perante estes meus princípios os quais são: (1) Forma, (2) Matéria, (3) Geração, (4) Corrupção, (5) Elementos, (6) Vegetação, (7) Sentido, (8) Imaginação, (9) Movimento, (10) Intelecto, (11) Vontade, (12) Memória, que nunca concebi fraude ou engano contra a teologia; pelo contrário, confesso que sou serva dela, para que através daquelas coisas, que concebo pela alma, entenda os entes reais e louve e bendiga a Deus e as imperatrizes e tenha conhecimento da essência de Deus e de sua operação intrínseca, bem como das imperatrizes e dos atos das mesmas.
Ai de mim triste e sofredora, disse a Filosofia, e acaso vós, meus outros princípios sabeis que sou tal? E vós outros, disse a Filosofia, que sois? Todos responderam, a não ser o Intelecto, que calou. Disseram que era a verdadeira e legítima serva da teologia.
E tu Intelecto, disse a Filosofia, que dizes? Respondeu o Intelecto: Eu sou quase inteiramente falso, visto que meu discurso, em Paris, se fundamenta em opiniões e, assim, que posso dizer? A minha luz deve ser pela claridade e verdade, mas está ofuscada e tenebrosa pelos falsos erros dos filósofos, que tanto me sufocam, a ponto de mal ter fôlego e força. Outro remédio não vejo, a não ser que Deus me ajude através do rei dos Francos e, quanto antes, porque os erros crescem e as verdades são sufocadas. Paris, entretanto, é o fundamento, porque corre a fama que estou mais nela que em qualquer outra cidade.
Enquanto a Filosofia assim se lamentava e lastimava e em alta voz clamava: Ai de mim, onde estão os religiosos, homens bem letrados e devotos e também outros que me ajudem, enquanto assim a Filosofia clamava, suspirava e lacrimava, aconteceu que Raimundo, a Contrição e a Satisfação saíram de Paris, falando do perverso estado do mundo. Em certo prado ameníssimo, sob certa árvore, na qual muitas avezinhas cantavam, encontraram a Filosofia e seus princípios acima referidos. Ela estava ali, recreando-se, de certa forma, graças à beleza da árvore e aos gorjeios dos pássaros. E também ali havia uma fonte muito linda.
As senhoras supramencionadas e Raimundo pediram-lhe por que razão tanto se lamentava e lastimava.
Ela mesma deu a razão e narrou-lhes aquelas coisas, que foram mencionadas acima. Dito isso, a Filosofia rogou a Raimundo e às senhoras que fossem ao rei dos Francos e dissessem aquelas coisas, que ouviram e pedissem que pusesse remédio; e dissessem ao rei que ficaria um peso na sua consciência, caso não fizesse isso.
Mas, as senhoras e Raimundo quiseram saber primeiro o estado dos seus princípios. Isso agradou à Filosofia, que ordenou que a Forma primeiro falasse de si mesma e de tal modo, que as senhoras e Raimundo pudessem ter dela conhecimento.
iciais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.
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sábado, 29 de setembro de 2007
Do Nascimento do Menino Jesus, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
CARTA AO MAGNÍFICO SENHOR REI DA FRANÇA
Ao ilustríssimo e magnífico senhor Filipe, pela graça de Deus rei da França, gloriosíssimo e insigne por muito sincera caridade. (1)
Que o menino para nós nacido, um filho que se nos deu (2), e que ansiamos por encontrar, Jesus Cristo feito Homem, conceda-vos bom governo e vos oriente por inteiro a procurar a sua glória e a sua honra. Assim, clementíssimo Rei, aceitai com alegria este opúsculo, no qual, como um peregrino, podereis de algum modo contemplar o abençoado Recém-nascido, alcançando a contemplação de ambas as naturezas d'Ele, que juntamente com o Pai e com o Espírito Santo reina, Deus bendito em trindade de pessoas. Amém.
Proêmio
Ah, Senhor! Inspirai naqueles que crêem em Vós o afeto e a ação de fazerem-se semelhantes a Vós, e o irrevogável propósito de manterem-se constantes em tal pensamento, e de não terem nenhuma parte com os infiéis, e de cumprirem os mandamentos da vossa lei. Fazei-nos, Senhor, verdadeiros sem orgulho, humildes sem fingimento, alegres sem devassidão, justos sem erros, serenos sem jactância, pobres sem miséria; sem avareza, ricos; sábios mediante o estudo, sem vontade de parecer arrogantes.
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Ao ilustríssimo e magnífico senhor Filipe, pela graça de Deus rei da França, gloriosíssimo e insigne por muito sincera caridade. (1)
Que o menino para nós nacido, um filho que se nos deu (2), e que ansiamos por encontrar, Jesus Cristo feito Homem, conceda-vos bom governo e vos oriente por inteiro a procurar a sua glória e a sua honra. Assim, clementíssimo Rei, aceitai com alegria este opúsculo, no qual, como um peregrino, podereis de algum modo contemplar o abençoado Recém-nascido, alcançando a contemplação de ambas as naturezas d'Ele, que juntamente com o Pai e com o Espírito Santo reina, Deus bendito em trindade de pessoas. Amém.
Proêmio
Ah, Senhor! Inspirai naqueles que crêem em Vós o afeto e a ação de fazerem-se semelhantes a Vós, e o irrevogável propósito de manterem-se constantes em tal pensamento, e de não terem nenhuma parte com os infiéis, e de cumprirem os mandamentos da vossa lei. Fazei-nos, Senhor, verdadeiros sem orgulho, humildes sem fingimento, alegres sem devassidão, justos sem erros, serenos sem jactância, pobres sem miséria; sem avareza, ricos; sábios mediante o estudo, sem vontade de parecer arrogantes.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Livro do amigo e do Amado, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
Sobre a vida que levava o ermitão Blanquerna
Blanquerna costumava levantar-se à meia noite, abria as janelas de sua cela para ver o céu e as estrelas e começava sua oração o mais devotadamente que podia, de tal modo que toda a sua alma estivesse mergulhada em Deus e seus olhos em lágrimas e prantos. Blanquerna contemplava Deus e chorava longamente até a madrugada. Depois entrava na igreja, tocava para as matinas, e vinha o diácono que o ajuda a rezá-las. Após a aurora, cantava a missa. Terminada a missa, Blanquerna dirigia algumas palavras sobre Deus ao diácono, para que se enamorasse dEle, e ambos, falando de Deus e de suas obras, choravam juntos por causa da grande devoção que sentiam nas palavras que diziam. Depois disto, o diácono entrava na horta, trabalhava um pouco e Blanquerna saía da igreja e distraía sua alma do trabalho que tinha suportado, e dirigia seu olhar para as montanhas e as planícies para daí tirar alguma recreação.
Logo que Blanquerna se sentia reconfortado, entrava em oração e contemplação ou lia os livros da Divina Escritura ou o "Livro de Contemplação", e permancia assim até a hora de terça. Depois, rezavam a terça, a sexta e nona; e depois da terça, o diácono retornava e preparava algumas verduras ou legumes para Blanquerna. Na horta, ou em outras coisas, Blanquerna trabalhava para não ficar ocioso e ter melhor saúde. Entre o meio-dia e a hora de nôa, depois de ter comido, voltava sozinho à igreja para dar graças a Deus.
Terminada a sua oração, costumava passear uma hora pela horta até a fonte, ou por todos aqueles lugares onde melhor pudesse alegrar sua alma. A seguir, dormia para melhor aguentar o trabalho da noite. Terminado o sono, lavava suas mãos e o seu rosto e esperava até que tocassem as vésperas, para as quais voltava o diácono. Acabadas as vésperas, diziam as completas, e o diácono ia embora. Blanquerna considerava tudo aquilo que mais lhe agradasse e melhor o preparasse para entrar em oração.
Após o pôr-do-sol, Blanquerna costumava subir ao terraço que estava sobre a sua cela e permanecia em oração até o primeiro sono, olhando o céu e as estrelas com os olhos chorosos e o coração devoto, absorvido nas honras de Deus e nas faltas que os homens cometem contra Ele neste mundo. Blanquerna, contemplando do pôr-do-sol ao primeiro sono, ficava em tão grande recolhimento e fervor, que, já uma vez na cama e dormindo, às vezes lhe parecia que continuava com Deus, tão forte era a sua oração.
Blanquerna permaneceu nessa vida e nessa felicidade até conseguir que todas as pessoas daquelas redondezas tomassem grande devoção às virtudes do altar da Santa Trindade que havia naquela capela. E, movidos pela devoção, vinham à capela muitos homens e mulheres que perturbavam Blanquerna em sua oração e contemplação. E para que as pessoas não perdessem a devoção que tinham àquele lugar, hesitava em dizer-lhes que não viessem mais, e por isto Blanquerna mudou sua cela para um monte que distava uma milha da igreja e outro tanto do local onde ficava o diácono. Permaneceu nesse lugar e não queria à igreja nas horas em que aí houvesse gente, nem queria que algum homem ou alguma mulher viesse para aquela cela para onde se tinha mudado.
Assim viveu o ermitão Blanquerna, considerando que nunca estivera em tão prazerosa vida nem tão bem disposto para levantar sua alma a Deus. Tão santa vida era aquela em que Blanquerna estava que Deus o abençoava e encaminhava para lá todos os que tinham devoção pelas virtudes daquele lugar onde estava a capela; e assim o Papa, os cardeais e seus oficiais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.
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Blanquerna costumava levantar-se à meia noite, abria as janelas de sua cela para ver o céu e as estrelas e começava sua oração o mais devotadamente que podia, de tal modo que toda a sua alma estivesse mergulhada em Deus e seus olhos em lágrimas e prantos. Blanquerna contemplava Deus e chorava longamente até a madrugada. Depois entrava na igreja, tocava para as matinas, e vinha o diácono que o ajuda a rezá-las. Após a aurora, cantava a missa. Terminada a missa, Blanquerna dirigia algumas palavras sobre Deus ao diácono, para que se enamorasse dEle, e ambos, falando de Deus e de suas obras, choravam juntos por causa da grande devoção que sentiam nas palavras que diziam. Depois disto, o diácono entrava na horta, trabalhava um pouco e Blanquerna saía da igreja e distraía sua alma do trabalho que tinha suportado, e dirigia seu olhar para as montanhas e as planícies para daí tirar alguma recreação.
Logo que Blanquerna se sentia reconfortado, entrava em oração e contemplação ou lia os livros da Divina Escritura ou o "Livro de Contemplação", e permancia assim até a hora de terça. Depois, rezavam a terça, a sexta e nona; e depois da terça, o diácono retornava e preparava algumas verduras ou legumes para Blanquerna. Na horta, ou em outras coisas, Blanquerna trabalhava para não ficar ocioso e ter melhor saúde. Entre o meio-dia e a hora de nôa, depois de ter comido, voltava sozinho à igreja para dar graças a Deus.
Terminada a sua oração, costumava passear uma hora pela horta até a fonte, ou por todos aqueles lugares onde melhor pudesse alegrar sua alma. A seguir, dormia para melhor aguentar o trabalho da noite. Terminado o sono, lavava suas mãos e o seu rosto e esperava até que tocassem as vésperas, para as quais voltava o diácono. Acabadas as vésperas, diziam as completas, e o diácono ia embora. Blanquerna considerava tudo aquilo que mais lhe agradasse e melhor o preparasse para entrar em oração.
Após o pôr-do-sol, Blanquerna costumava subir ao terraço que estava sobre a sua cela e permanecia em oração até o primeiro sono, olhando o céu e as estrelas com os olhos chorosos e o coração devoto, absorvido nas honras de Deus e nas faltas que os homens cometem contra Ele neste mundo. Blanquerna, contemplando do pôr-do-sol ao primeiro sono, ficava em tão grande recolhimento e fervor, que, já uma vez na cama e dormindo, às vezes lhe parecia que continuava com Deus, tão forte era a sua oração.
Blanquerna permaneceu nessa vida e nessa felicidade até conseguir que todas as pessoas daquelas redondezas tomassem grande devoção às virtudes do altar da Santa Trindade que havia naquela capela. E, movidos pela devoção, vinham à capela muitos homens e mulheres que perturbavam Blanquerna em sua oração e contemplação. E para que as pessoas não perdessem a devoção que tinham àquele lugar, hesitava em dizer-lhes que não viessem mais, e por isto Blanquerna mudou sua cela para um monte que distava uma milha da igreja e outro tanto do local onde ficava o diácono. Permaneceu nesse lugar e não queria à igreja nas horas em que aí houvesse gente, nem queria que algum homem ou alguma mulher viesse para aquela cela para onde se tinha mudado.
Assim viveu o ermitão Blanquerna, considerando que nunca estivera em tão prazerosa vida nem tão bem disposto para levantar sua alma a Deus. Tão santa vida era aquela em que Blanquerna estava que Deus o abençoava e encaminhava para lá todos os que tinham devoção pelas virtudes daquele lugar onde estava a capela; e assim o Papa, os cardeais e seus oficiais cresciam na graça de Deus pela santa vida de Blanquerna.
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terça-feira, 25 de setembro de 2007
O Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
Introdução
Começa aqui o livro sétimo, a respeito das bestas.
Despedindo-se do filósofo, pôs-se Félix [1] a caminhar por um vale repleto de árvores e fontes. Tendo-o cruzado, encontrou dois homens de cabelos e barba longos, vestidos mui pobremente. Saudou-os e foi por eles saudado.
- Belos senhores, disse-lhes Félix, de onde vindes e a que Ordem pertenceis? Porque, pelas vossas vestes, bem parece que entrastes em alguma Ordem.
- Senhor, responderam-lhe os dois homens, estamos vindo de terras distantes e atravessamos uma planície próxima daqui, onde um bando de animais selvagens tenta escolher seu rei. Pertencemos à "Ordem dos Apóstolos", [2] representando nossas vestes e nossa pobreza a conduta que tinham os Apóstolos enquanto estiveram neste mundo.
Admirou-se muito Félix de os dois homens terem ingressado em Ordem tão elevada como aquela dos Apóstolos e disse-lhes estas palavras:
- A Ordem dos Apóstolos é a mais nobre de todas as Ordens e quem nela professa não deve temer a morte, e sim mostrar o caminho da salvação aos infiéis que estão no erro, bem como dar aos cristãos testemunho de vida santa, tanto pelas obras como pelas prédicas: pois, o homem que esteja em tal Ordem não pode deixar de pregar e fazer todas as boas obras ao seu alcance.
Estas e muitas outras palavras disse Félix aos dois homens que se diziam da Ordem dos Apóstolos.
- Senhor, retorquiram eles, não somos dignos de levar a mesma vida perfeita dos Apóstolos; todavia, procuramos representar a imagem de sua conversão, através de nossas vestes, de nossa pobreza e da peregrinação que fazemos pelo mundo, indo de país em país. Temos esperança de que Deus há de enviar ao mundo homens de vida santa, professos da Ordem dos Apóstolos, os quais, donos de ciência e da boa palavra, saberão pregar e converter os infiéis, com a ajuda de Deus; haverão também de dar bom exemplo aos cristãos pela sua vida e palavras santas. Para que Deus se mova de piedade e os cristãos desejem o surgimento desses homens, procuramos representar a imagem dos Apóstolos.
Agradou-se bastante Félix do que lhe disseram os dois homens e tendo com eles chorado copiosamente, acrescentou estas palavras:
- Ah, Senhor Deus, Jesus Cristo! Onde estão o fervor santo e a devoção que costumavam existir nos Apóstolos, os quais para Vos amar e conhecer não temiam nem os sofrimentos nem a morte? Bom Senhor Deus, oxalá seja do vosso agrado a chegada breve dos tempos em que se torne real a vida santa que estes homens com sua imagem representam.
Dito isso, Félix recomendou a Deus os santos homens e se dirigiu para o local onde os animais selvagens procuravam escolher seu rei.
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Começa aqui o livro sétimo, a respeito das bestas.
Despedindo-se do filósofo, pôs-se Félix [1] a caminhar por um vale repleto de árvores e fontes. Tendo-o cruzado, encontrou dois homens de cabelos e barba longos, vestidos mui pobremente. Saudou-os e foi por eles saudado.
- Belos senhores, disse-lhes Félix, de onde vindes e a que Ordem pertenceis? Porque, pelas vossas vestes, bem parece que entrastes em alguma Ordem.
- Senhor, responderam-lhe os dois homens, estamos vindo de terras distantes e atravessamos uma planície próxima daqui, onde um bando de animais selvagens tenta escolher seu rei. Pertencemos à "Ordem dos Apóstolos", [2] representando nossas vestes e nossa pobreza a conduta que tinham os Apóstolos enquanto estiveram neste mundo.
Admirou-se muito Félix de os dois homens terem ingressado em Ordem tão elevada como aquela dos Apóstolos e disse-lhes estas palavras:
- A Ordem dos Apóstolos é a mais nobre de todas as Ordens e quem nela professa não deve temer a morte, e sim mostrar o caminho da salvação aos infiéis que estão no erro, bem como dar aos cristãos testemunho de vida santa, tanto pelas obras como pelas prédicas: pois, o homem que esteja em tal Ordem não pode deixar de pregar e fazer todas as boas obras ao seu alcance.
Estas e muitas outras palavras disse Félix aos dois homens que se diziam da Ordem dos Apóstolos.
- Senhor, retorquiram eles, não somos dignos de levar a mesma vida perfeita dos Apóstolos; todavia, procuramos representar a imagem de sua conversão, através de nossas vestes, de nossa pobreza e da peregrinação que fazemos pelo mundo, indo de país em país. Temos esperança de que Deus há de enviar ao mundo homens de vida santa, professos da Ordem dos Apóstolos, os quais, donos de ciência e da boa palavra, saberão pregar e converter os infiéis, com a ajuda de Deus; haverão também de dar bom exemplo aos cristãos pela sua vida e palavras santas. Para que Deus se mova de piedade e os cristãos desejem o surgimento desses homens, procuramos representar a imagem dos Apóstolos.
Agradou-se bastante Félix do que lhe disseram os dois homens e tendo com eles chorado copiosamente, acrescentou estas palavras:
- Ah, Senhor Deus, Jesus Cristo! Onde estão o fervor santo e a devoção que costumavam existir nos Apóstolos, os quais para Vos amar e conhecer não temiam nem os sofrimentos nem a morte? Bom Senhor Deus, oxalá seja do vosso agrado a chegada breve dos tempos em que se torne real a vida santa que estes homens com sua imagem representam.
Dito isso, Félix recomendou a Deus os santos homens e se dirigiu para o local onde os animais selvagens procuravam escolher seu rei.
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sábado, 22 de setembro de 2007
Os Guardiões da Terra Santa (em “Símbolos da Ciência Sagrada”), de René Guénon
Entre as atribuições das ordens de cavalaria, e mais em particular dos Templários, umas das mais
conhecidas, mas nem por isso em geral bem compreendidas, é a de "guardiões da Terra Santa". Seguramente,
se nos prendermos ao sentido mais exterior, encontraremos uma explicação imediata desse fato na conexão
existente entre a origem dessas ordens e as Cruzadas, pois, tanto para os cristãos, quanto para os judeus,
parece que a "Terra Santa" nada mais designa que a Palestina. No entanto, á questão torna-se mais complexa
quando se sabe que diversas organizações orientais, cujo caráter iniciático não pode ser colocado em dúvida,
como os Assacis e os Drusos, receberam também o título de "guardiões da Terra Santa". Aqui, de fato, náo
mais se trata da Palestina, mas é no entanto notável que essas organizações apresentem um grande número de
traços comuns com as ordens de cavalaria ocidentais, com as quais algumas delas chegaram historicamente a
estabelecer relações.
Cabe, assim, nos perguntarmos o que se deve entender, na realidade, por "Terra Santa", e ao que
corresponde exatamente o papel de "guardiões", que parece ligado a um determinado gênero de iniciação, que
se poderia denominar "cavaleiresco", desde que déssemos a esse termo uma extensão mais ampla do que se
entende comumente, mas que as analogias existentes entre as diferentes formas bastam para legitimá-lo.
Já demonstramos em outras partes, em particular no estudo sobre O Rei do Mundo, que a expressão
"Terra Santa" tem um certo número de sinônimos: "Terra Pura", "Terra dos Santos", "Terra dos Bemaventurados",
"Terra dos Viventes", "Terra da Imortalidade", e que essas designações equivalentes são
encontradas nas tradições de todos os povos. Essencialmente, elas sempre se aplicam a um centro espiritual,
cuja localização numa determinada região pode, segundo o caso, ser entendida literal ou simbolicamente, ou
nos dois sentidos ao mesmo tempo. Toda "Terra Santa" é também designada por expressões como "Centro do
Mundo" ou "Coração do Mundo", o que exige algumas explicações, pois essas designações uniformes, ainda
que diversamente aplicadas, poderiam com facilidade provocar certas confusões.
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conhecidas, mas nem por isso em geral bem compreendidas, é a de "guardiões da Terra Santa". Seguramente,
se nos prendermos ao sentido mais exterior, encontraremos uma explicação imediata desse fato na conexão
existente entre a origem dessas ordens e as Cruzadas, pois, tanto para os cristãos, quanto para os judeus,
parece que a "Terra Santa" nada mais designa que a Palestina. No entanto, á questão torna-se mais complexa
quando se sabe que diversas organizações orientais, cujo caráter iniciático não pode ser colocado em dúvida,
como os Assacis e os Drusos, receberam também o título de "guardiões da Terra Santa". Aqui, de fato, náo
mais se trata da Palestina, mas é no entanto notável que essas organizações apresentem um grande número de
traços comuns com as ordens de cavalaria ocidentais, com as quais algumas delas chegaram historicamente a
estabelecer relações.
Cabe, assim, nos perguntarmos o que se deve entender, na realidade, por "Terra Santa", e ao que
corresponde exatamente o papel de "guardiões", que parece ligado a um determinado gênero de iniciação, que
se poderia denominar "cavaleiresco", desde que déssemos a esse termo uma extensão mais ampla do que se
entende comumente, mas que as analogias existentes entre as diferentes formas bastam para legitimá-lo.
Já demonstramos em outras partes, em particular no estudo sobre O Rei do Mundo, que a expressão
"Terra Santa" tem um certo número de sinônimos: "Terra Pura", "Terra dos Santos", "Terra dos Bemaventurados",
"Terra dos Viventes", "Terra da Imortalidade", e que essas designações equivalentes são
encontradas nas tradições de todos os povos. Essencialmente, elas sempre se aplicam a um centro espiritual,
cuja localização numa determinada região pode, segundo o caso, ser entendida literal ou simbolicamente, ou
nos dois sentidos ao mesmo tempo. Toda "Terra Santa" é também designada por expressões como "Centro do
Mundo" ou "Coração do Mundo", o que exige algumas explicações, pois essas designações uniformes, ainda
que diversamente aplicadas, poderiam com facilidade provocar certas confusões.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Vida Coetânea, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
Em 1311, nas vésperas do Concílio de Viena, Ramón Llull conta a sua vida, presumivelmente aos seus amigos da Cartuxa de Vauvert. Mão anónima escreveu a Vida Coetânea, que permanece a fonte quase única para o conhecimento da biografia do Doutor Iluminado e, por conseqüência também desta Vida de Ramón. Thomas Le Myésier, ao reunir os textos lullianos para o Electorium que havia de entregar os manuscritos da Biblioteca de Vauvert, a que Ramón doara uma cópia de todas as suas obras.
Para a tradução, tomei por base a versão castelhana de Ana Maria Saavedra e Francisco Samaranch, usando a latina para tirar dúvidas e a catalã para suavizar a estrutura demasiado rígida da tradução castelhana, ela mesma feita muito junto à letra do original latino.
Os textos latino e catalão da Vita Coetanea encontram-se em Ramón Llull, Obras Literárias, edição preparada e anotada por Miguel Battlori e Miguel Caldentey (BAC, 1948).
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Para a tradução, tomei por base a versão castelhana de Ana Maria Saavedra e Francisco Samaranch, usando a latina para tirar dúvidas e a catalã para suavizar a estrutura demasiado rígida da tradução castelhana, ela mesma feita muito junto à letra do original latino.
Os textos latino e catalão da Vita Coetanea encontram-se em Ramón Llull, Obras Literárias, edição preparada e anotada por Miguel Battlori e Miguel Caldentey (BAC, 1948).
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domingo, 9 de setembro de 2007
O Livro da Ordem de Cavalaria, de Raimundo Lúlio / Ramon Llull
Deus honrado, glorioso, que sois cumprimento de todos os bens, por vossa graça e vossa bênção começa este livro que é da Ordem de Cavalaria.
INICIA O PRÓLOGO
1
Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender.
A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda, do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro; a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.
2
Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes, e em um bosque grande, abundante de águas e árvores frutuosas, fez sua habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso, o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro, e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.
3
Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos, onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes o prado e as árvores que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias, de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de sua vida neste mundo.
4
Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes. E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora, o cavaleiro que na floresta fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.
5
Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro, deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou a ler em um livro que tinha em sua falda. O palafrém, quando foi à fonte, bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso; e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito santa.
Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro se maravilhou fortemente como tinha chegado naquele lugar.
6
O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro, e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente e disse:
— Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por que vieste aqui?
— Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E por isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste lugar.
7
Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo. Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:
— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.
8
O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria, e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que Deus lhe havia dado.
— Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.
9
Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro:
— Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir a regra e a ordem de cavalaria.
— Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar todas as suas forças para honrar a cavalaria.
10
O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse:
— Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria, a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.
11
— Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem, por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.
12
O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém e se foi para a corte muito alegremente. E sábia e ordenadamente deu e apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse trasladar, para que de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.
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INICIA O PRÓLOGO
1
Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender.
A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda, do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro; a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.
2
Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes, e em um bosque grande, abundante de águas e árvores frutuosas, fez sua habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso, o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro, e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.
3
Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos, onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes o prado e as árvores que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias, de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de sua vida neste mundo.
4
Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes. E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora, o cavaleiro que na floresta fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.
5
Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro, deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou a ler em um livro que tinha em sua falda. O palafrém, quando foi à fonte, bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso; e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito santa.
Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro se maravilhou fortemente como tinha chegado naquele lugar.
6
O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro, e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente e disse:
— Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por que vieste aqui?
— Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E por isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste lugar.
7
Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo. Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:
— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.
8
O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria, e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que Deus lhe havia dado.
— Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.
9
Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro:
— Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir a regra e a ordem de cavalaria.
— Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar todas as suas forças para honrar a cavalaria.
10
O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse:
— Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria, a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.
11
— Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem, por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.
12
O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém e se foi para a corte muito alegremente. E sábia e ordenadamente deu e apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse trasladar, para que de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.
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sábado, 1 de setembro de 2007
O Conto Do Graal, de Chrétien De Troyes
NOTA PRELIMINAR
Escassos são os dados que possuímos sobre a personalidade de Chrétien de Troyes, cuja obra literária se conservam cinco extensas novelas de atribuição segura: Erec, Cligés, Le chevaliers au lion (intitulada também Yvain), Le chevaliers de la charrete (a qual, às vezes, se dá o título de seu protagonista, Láncelot) e Le Conté du Graal. Com certa verossimilhança lhe atribui também outra novela de caráter cavalheiresco e piedoso, Guillaume d'Angleterre (da qual existe uma tradução em prosa castelhana do século XIV), uma adaptação de uma fábula ovidiana sobre o mito de Filomela. Das seis poesias líricas que os cancioneiros atribuem à Chrétien de Troyes, duas são com segurança obra de nosso escritor. Este, por outra parte, confessa, nos versos iniciais de “Cligés”, ter traduzido os “Remedia Amoris” e o “Ars Amatoria” de Ovídio; composto uma narração sobre o mito de Tántalo e Pélope (sem dúvida baseado nas Metamorfoses ovidianas); e um relato sobre "o rei Marc e Iseut la rubia", ou seja, a lenda de Tristão, todo o qual se perdeu. Tendo em conta as pessoas às quais dedica suas obras, chegamos à conclusão de que a produção de Chrétien de Troyes desenvolveu-se entre os anos 1159 e 1190.
Trata-se, pois, de um escritor da segunda metade do século XII que, como os homens de cultura de seu tempo, possui uma sólida preparação clássica, posta de manifesto não tão somente em suas versões dos tratados eróticos do Ovídio e em suas adaptações de fábulas mitológicas, mas também em bom número de detalhes retóricos e estilísticos que aparecem em sua obra. Todas as novelas de Chrétien de Troyes conservadas, estão escritas em verso: emparelhados de oito sílabas (nove, contando à castelhana) de rima consoante, forma que desde a metade daquele século tinha adotado a narrativa francesa culta, tão distinta da narrativa tradicional das gestas. Antes de Chrétien de Troyes os narradores franceses cultos, precursores e criadores do román, ou seja, da novela, empregavam os emparelhados octosilábicos em suas versões de obras clássicas (a “Tebaida” de Estado, “Eneida”, algumas fábulas tiradas de “Metamorfose” de Ovídio, etc.) e na famosa tradução da “História regum Brittanniae”, de Godofredo de Mon mouth, feita por Wace e intitulada “Román de Brut”. Esta tradução, que Chrétien de Troyes revela conhecer bem, contribuiu para colocar a moda nos ambientes cultos e aristocráticos o mundo fantástico do fabuloso “rei Artur da Bretanha e dos cavaleiros da Távola Redonda”, recolhendo velhas lendas bretãs, mas estruturando-as em uma narração que pretendia ser histórica. São de tema artúrico algumas das narrações breves que, antes ou contemporaneamente à Chrétien, tinha escrito, também em verso octosílabo, María da França e que revistam intitular-se “Lais”. Artúricas são as cinco novelas conservadas de nosso escritor, embora o “Cligés” só parcialmente, pois sua trama principal tem caráter bizantino.
“Le chevaliers de charrete”, ou “Lancelot”, é dedicado por Chrétien à sua senhora, a condessa María de Champagne, filha de Luis VII da França e de Leonor de Aquitania, esposa do conde Enrique de Champagne, que estava acostumado a residir em seu palácio de Troyes, capital do condado, e, sem dúvida, cidade em que nasceu nosso escritor. Tanto María de Champagne como sua mãe Leonor de Aquitania desempenharam um papel muito importante no florescimento da literatura chamada cortesã. Contribuíram para instaurar na França os achados e as novidades da poesia dos trovadores, de sorte, que a aventura cavalheiresca uniu-se ao sentimentalismo amoroso, união que constitui uma das características da novela do século XII. Entretanto, Chrétien de Troyes não se limitou, em suas novelas, a direta narração de uma peripécia cavalheiresca, com seus lances heróicos; seus episódios "maravilhosos e a exaltação das virtudes militares de seres extraordinários; nem adotou a aventura de um conteúdo amoroso; esboça uma hábil e acertada caracterização psicológica dos personagens principais da ação. Além de tudo isto, pretendeu dar à suas novelas o transcendente valor de uma lição moral e espiritual destinada ao aperfeiçoamento da sociedade na qual vivia, de modo principal, da aristocracia que lia suas obras. Tal propósito é decisivo e deliberado em nosso escritor, pois nos versos iniciais de “Le chevaliers de charrete” distingue, em sua obra literária, a matéria (matière), que é o assunto, ou argumento da narração, o simples relato de feitos novelescos, do sentido (sans), que deve ser a interpretação doutrinal da obra, o que chamaríamos sua tese. De uma afirmação feita no “Erec” desprende-se que a ordenação e articulação da matéria com o sentido, ou seja, a acomodação da intriga do relato à uma tese, constitui a junta (conjointure) da novela. O criar novelas de Chrétien de Troyes é, pois, algo que ambiciona ser muito mais que o simples narrar, colocando uma rica trama de aventuras a serviço de uma tendência à exaltação dos valores morais do cavaleiro.
Esta intenção superior não deve ser esquecida quando se lê “O conto do Graal” (Le Conté du Graal), pois se nos ativermos, exclusivamente, a sua matéria, em alguns trechos poderia parecer um ingênuo conto, ou uma insignificante novela de aventuras. Correríamos o perigo de valorizá-lo só em atenção a seus inegáveis méritos literários. A obra vai precedida de uma dedicatória ao conde Felipe de Flandes, ou seja, Felipe de Alsacia, quem, desde 1168, foi conde de Flandes; partiu para Ultramar como cruzado em setembro de 1190 e morreu em Acre em junho seguinte. Entre 1168 e 1191, pois, iniciou Chrétien de Troyes a redação do conto do Graal, e os intentos feitos para precisar mais a data se revelaram pouco firmes. Esta dedicatória surpreende, por seu caráter religioso; glosa nela vários versículos neo-testamentários e disserta sobre a caridade; o que dá à estas páginas introdutórias, um acusado matiz cristão que por força tem que corresponder com o profundo sentido que o autor pensa dar em sua obra.
Chrétien escolheu como protagonista de sua narração um moço em plena adolescência, forte, hábil caçador e ingênuo; vivendo em uma "erma floresta solitária" isolado do resto do mundo. Unicamente entregue à caça e sem outra relação humana a não ser sua mãe e os lavradores que cultivam suas terras, situadas em Gales. Este moço pertence à uma ilustre linhagem de cavaleiros; tanto seu pai, como seus dois irmãos maiores, foram vítimas das guerras e dos combates; devido a isso, sua mãe o criou em completa ignorância de tudo quanto acontece no mundo, principalmente da cavalaria. Todavia, a força do sangue se impõe aos planos maternos; assim que o moço, no início da novela, encontra-se com alguns cavaleiros, decide irrevogavelmente ser um deles encaminhando-se à corte do rei Artur para que lhe arme; o qual produz tal desgosto a sua mãe que cai morta ao vê-lo partir de seu lado. Desta sorte, Chrétien pode expor a seus leitores as etapas da formação cavalheiresca, que seu jovem herói percorre numa velocidade vertiginosa. Ao sair da solitária morada materna, o herói está na plenitude de suas forças físicas; é robusto e valente, condições naturais, indispensáveis, para tudo o que tenha que exercer na cavalaria. Sua chegada à corte do rei Artur provoca dois maravilhosos vaticínios, pois, tanto a donzela que jamais sorriu, quanto o bufão, prognosticam que aquele galhardo e ingênuo jovem está destinado a ser o melhor cavaleiro do mundo. A vitória do moço sobre o cavaleiro Vermelho, deve-se à primária habilidade daquele no lançamento de flechas, adquirida em suas caçadas: é um tipo de luta que se acha muito distante do sábio tecnicismo da nobre arte das armas. Por esta razão, depois desta primeira vitória, Chrétien leva seu protagonista ao castelo de Gornemant de Goort, cavaleiro amadurecido e experiente, que gosta muito das virtudes e da simpatia do jovem selvagem. Ensina-lhe lições de cavalaria, que o moço aprende com grande precisão e rapidamente, por fim, consagra-o cavaleiro. Nosso protagonista já é um cavaleiro; os episódios da defesa do castelo de Belrepeire demonstram seu acerto e sua maestria no manejo das armas; mas ali também, como corresponde a todo cavaleiro, nasce no jovem herói, seu amor pela formosa Blancheflor.
Entretanto, há nele um remorso que o tortura: a sorte de sua mãe, que viu cair desvanecida ao abandonar sua morada solitária. Não sabe ainda que morreu, embora o suspeita, isso tortura seu ânimo com a consciência do pecado. Esta situação, quer dizer, com a alma manchada por ele ter pecado, oferece-lhe a mais alta de suas aventuras: a prova do castelo do Graal, episódio culminante da novela. Convidado pelo Rico Rei Pescador, ou Rei Aleijado, o jovem cavaleiro janta na ampla e suntuosa sala quadrada do castelo. Vê desfilar ante si um singular cortejo em que figuram um pajem, que empunha uma lança de cuja ponta emana uma gota de sangue; uma formosa donzela que leva em suas mãos um Graal; e outra com um prato de prata. O herói, temendo revelar sua rusticidade, não se atreve a perguntar por que sangra a lança, nem a quem se serve com aquele Graal. A razão de seu mutismo —o esclarece depois Chrétien— é mais profunda: o fato de achar-se em pecado travou-lhe a língua. Isso constitui o fatal engano do moço, pois, se tivesse formulado aquelas duas perguntas, teria reparado uma série de males que afligiam precisamente a sua linhagem; já que, averiguaremos logo, que o Rico Rei Pescador, prostrado pela paralisia e sem a posse de suas terras, teria recuperado saúde e domínios se aquelas duas perguntas tivessem saído dos lábios do moço. Chrétien de Troyes não nos esclarece isso pontualmente — veremos que a novela ficou inacabada—, mas, não cabe dúvida de que a lança que sangra é a de Longinos, ou seja, aquela com a qual foi ferido o flanco de Jesus Cristo. O Graal, nome que se dava a certos recipientes, é um riquíssimo cálice sagrado no qual se leva diariamente uma hóstia ao Rei do Graal —pai do Rico Rei Pescador e irmão da mãe do protagonista—, o qual há anos vive exclusivamente graças ao alimento que lhe proporciona a Eucaristia. Este tipo de milagre deu-se, com freqüência, na Idade Média e, ainda hoje em dia, entusiasma aos cristãos. O prato de prata é, sem dúvida alguma, a bandeja que fica debaixo do queixo, no qual comunga para evitar que, por um acidente, a sagrada forma caia ao chão. O tema das perguntas não formuladas, conduzindo à maus danos, não é estranho no folclore; mas, em nosso caso, oferece uma surpreendente similitude com a cerimônia da Páscoa dos judeus, cujo rito não pode iniciar-se, até que o mais jovem da família, tenha feito umas ingênuas perguntas. Não é estranho que Chrétien tenha adaptado a seu episódio este rito judaico, sobretudo se tivermos em conta a importância da comunidade israelita de Troyes no século XII. A formosa donzela portadora do Graal é, com toda segurança, uma figura simbólica: a Igreja personificada, que em representações artísticas da época está acostumada achar-se à direita da cruz, recolhendo em um rico cálice o sangue do Salvador que emana da ferida produzida pela lança de Longinos. A lança empunhada pelo pajem, que desfila em nosso episódio, emana sem cessar, para significar, sem dúvida, a persistência do sacrifício do Gólgota, que redime constantemente.
Nosso herói, se dá conta de seu grande fracasso no castelo do Graal, no dia seguinte, ao encontrar na solidão do bosque sua prima, quem lhe faz ver seu engano. Então, quando por seu engano se faz responsável, o jovem herói da novela adivinha seu nome e o averigua pela primeira vez o leitor: chama-se Perceval. O nome vai unido à personalidade, enquanto nosso herói não significou nada para o mundo, viveu anonimamente; agora que, por sua culpa e por seu pecado, impediu que se realizasse um bem e não evitou o mal, sua responsabilidade lhe fez adivinhar seu nome. O episódio das gotas de sangue sobre a neve, uma das mais belas páginas da literatura francesa medieval, demonstra, por um lado, a idealização do amor de Perceval pela formosa Blancheflor, a cor rosada, de cuja face lhe rememora, ao ver a branca neve colorida pelo vermelho sangue; grandiosa metáfora investida, que tentou mais de uma vez, grandes poetas, desde Ovídio até Góngora. Por outro lado, este episódio, na economia da novela, supõe o cumprimento dos augúrios da donzela que jamais tinha sorrido e do bufão, graças ao qual, fica manifesto que Perceval, quinze dias antes era um ingênuo moço selvagem, sendo agora o melhor cavaleiro do mundo.
O “Conto do Graal” interrompe-se bruscamente, depois do verso 9234, deixando em suspense um episódio. Deve-se a interrupção, que a morte surpreendeu Chrétien de Troyes em plena redação da novela; quando a ação principal desta, distava o bastante, sem dúvida, de ter chegado a seu desenlace. Isso motivou que tema do Graal se fizesse logo, algo misterioso e vago. Os continuadores anônimos da novela, que iniciaram seu trabalho ainda no século XII, não acertaram a lhe dar um final congruente, nem digno do grande tema criado pelo escritor de Champagne. Inclusive a crítica moderna, até a mais recente, debateu-se em engenhosas e, às vezes, fantásticas lucubrações sobre o Graal e as intenções de Chrétien de Troyes, o qual morreu levando à tumba o profundo e secreto de sua novela, do mesmo modo que o marinheiro do romance castelhano do conde Arnaldos se joga ao mar sem nos dizer sua canção.
O leitor observará que a ação principal da novela, ou seja, as aventuras de Perceval, vê-se concorrida, a partir de certo momento, por outra trama muito distinta, que tem por herói Gauvain, o sobrinho do rei Artur. Esta dualidade de assunto quis explicar o caso do autor pretender contrapor o cavaleiro inexperiente, Perceval, ao cavaleiro veterano, Gauvain. Não obstante, há nas duas tramas contradições tão acusadas que não é inverossímil acreditar que Chrétien de Troyes, no momento em que lhe surpreendeu a morte, estava escrevendo duas novelas muito distintas: uma dedicada a narrar as aventuras de Perceval e outra, contar as façanhas de Gauvain; sendo que seus rascunhos foram mesclados e absurdamente fundidos por quem os arrumou, a fim de lhes dar uma forma, que hoje diríamos publicável, acreditando que pertenciam à mesma novela. Seja como for, a parte dedicada à Gauvain é de grande beleza e revela a maestria de Chrétien como narrador. Constitui um magnífico livro de cavalarias, no qual se destacam episódios tão notáveis como o da “Donzela das Mangas Pequenas”, de uma delicadeza pouco comum; o do “Castelo das Rainhas”, com seu ambiente de magia e de mistérios; e os da “Orgulhosa de Logres”, que põe à prova o cavalheirismo de Gauvain.
A presente tradução foi feita sobre o texto da edição de William Roach, Chrétien de Troyes, “Le román de Perceval”, ou “Conté du Graal”, em "Texte littéraires français", Genève-Lille, 1959 (segunda impressão). Em algumas passagens me separei de sua leitura, que é a do manuscrito “T”, para ater-me na edição crítica de Alfons Hilka, “Der Perceval Roman” (Le conte do Graal) em "Christian von Troyes sämtliche erhaltene Werke", V, Halle, 1932. Foi de grande utilidade a consulta da prosa de 1530 (editada pela Hilka em apêndice) e da tradução em prosa francesa moderna de Lucien Foulet, Chrétien de Troyes, “Perceval de Gallois”, ou o “Conté du Graal”, em "Cent romans français", Paris, 1947. Procurei ser o mais literal que permite a correção idiomática; conservei certas repetições do texto original e as freqüentes mudanças de tempos verbais. O leitor não deve esquecer que o que está lendo é tradução de um relato escrito em versos curtos de rima consoante; implicando ao autor ver-se, às vezes, obrigado à rodeios um pouco forçados que, embora no original do século XII amoldem-se a uma determinada técnica narrativa, ao converter-se em prosa moderna pode surpreender. A fim de que em todo momento se possa comparar minha versão, com o texto de Chrétien de Troyes, na parte superior das páginas indico os versos franceses que correspondem a seu conteúdo.
Martín de Riquer
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Escassos são os dados que possuímos sobre a personalidade de Chrétien de Troyes, cuja obra literária se conservam cinco extensas novelas de atribuição segura: Erec, Cligés, Le chevaliers au lion (intitulada também Yvain), Le chevaliers de la charrete (a qual, às vezes, se dá o título de seu protagonista, Láncelot) e Le Conté du Graal. Com certa verossimilhança lhe atribui também outra novela de caráter cavalheiresco e piedoso, Guillaume d'Angleterre (da qual existe uma tradução em prosa castelhana do século XIV), uma adaptação de uma fábula ovidiana sobre o mito de Filomela. Das seis poesias líricas que os cancioneiros atribuem à Chrétien de Troyes, duas são com segurança obra de nosso escritor. Este, por outra parte, confessa, nos versos iniciais de “Cligés”, ter traduzido os “Remedia Amoris” e o “Ars Amatoria” de Ovídio; composto uma narração sobre o mito de Tántalo e Pélope (sem dúvida baseado nas Metamorfoses ovidianas); e um relato sobre "o rei Marc e Iseut la rubia", ou seja, a lenda de Tristão, todo o qual se perdeu. Tendo em conta as pessoas às quais dedica suas obras, chegamos à conclusão de que a produção de Chrétien de Troyes desenvolveu-se entre os anos 1159 e 1190.
Trata-se, pois, de um escritor da segunda metade do século XII que, como os homens de cultura de seu tempo, possui uma sólida preparação clássica, posta de manifesto não tão somente em suas versões dos tratados eróticos do Ovídio e em suas adaptações de fábulas mitológicas, mas também em bom número de detalhes retóricos e estilísticos que aparecem em sua obra. Todas as novelas de Chrétien de Troyes conservadas, estão escritas em verso: emparelhados de oito sílabas (nove, contando à castelhana) de rima consoante, forma que desde a metade daquele século tinha adotado a narrativa francesa culta, tão distinta da narrativa tradicional das gestas. Antes de Chrétien de Troyes os narradores franceses cultos, precursores e criadores do román, ou seja, da novela, empregavam os emparelhados octosilábicos em suas versões de obras clássicas (a “Tebaida” de Estado, “Eneida”, algumas fábulas tiradas de “Metamorfose” de Ovídio, etc.) e na famosa tradução da “História regum Brittanniae”, de Godofredo de Mon mouth, feita por Wace e intitulada “Román de Brut”. Esta tradução, que Chrétien de Troyes revela conhecer bem, contribuiu para colocar a moda nos ambientes cultos e aristocráticos o mundo fantástico do fabuloso “rei Artur da Bretanha e dos cavaleiros da Távola Redonda”, recolhendo velhas lendas bretãs, mas estruturando-as em uma narração que pretendia ser histórica. São de tema artúrico algumas das narrações breves que, antes ou contemporaneamente à Chrétien, tinha escrito, também em verso octosílabo, María da França e que revistam intitular-se “Lais”. Artúricas são as cinco novelas conservadas de nosso escritor, embora o “Cligés” só parcialmente, pois sua trama principal tem caráter bizantino.
“Le chevaliers de charrete”, ou “Lancelot”, é dedicado por Chrétien à sua senhora, a condessa María de Champagne, filha de Luis VII da França e de Leonor de Aquitania, esposa do conde Enrique de Champagne, que estava acostumado a residir em seu palácio de Troyes, capital do condado, e, sem dúvida, cidade em que nasceu nosso escritor. Tanto María de Champagne como sua mãe Leonor de Aquitania desempenharam um papel muito importante no florescimento da literatura chamada cortesã. Contribuíram para instaurar na França os achados e as novidades da poesia dos trovadores, de sorte, que a aventura cavalheiresca uniu-se ao sentimentalismo amoroso, união que constitui uma das características da novela do século XII. Entretanto, Chrétien de Troyes não se limitou, em suas novelas, a direta narração de uma peripécia cavalheiresca, com seus lances heróicos; seus episódios "maravilhosos e a exaltação das virtudes militares de seres extraordinários; nem adotou a aventura de um conteúdo amoroso; esboça uma hábil e acertada caracterização psicológica dos personagens principais da ação. Além de tudo isto, pretendeu dar à suas novelas o transcendente valor de uma lição moral e espiritual destinada ao aperfeiçoamento da sociedade na qual vivia, de modo principal, da aristocracia que lia suas obras. Tal propósito é decisivo e deliberado em nosso escritor, pois nos versos iniciais de “Le chevaliers de charrete” distingue, em sua obra literária, a matéria (matière), que é o assunto, ou argumento da narração, o simples relato de feitos novelescos, do sentido (sans), que deve ser a interpretação doutrinal da obra, o que chamaríamos sua tese. De uma afirmação feita no “Erec” desprende-se que a ordenação e articulação da matéria com o sentido, ou seja, a acomodação da intriga do relato à uma tese, constitui a junta (conjointure) da novela. O criar novelas de Chrétien de Troyes é, pois, algo que ambiciona ser muito mais que o simples narrar, colocando uma rica trama de aventuras a serviço de uma tendência à exaltação dos valores morais do cavaleiro.
Esta intenção superior não deve ser esquecida quando se lê “O conto do Graal” (Le Conté du Graal), pois se nos ativermos, exclusivamente, a sua matéria, em alguns trechos poderia parecer um ingênuo conto, ou uma insignificante novela de aventuras. Correríamos o perigo de valorizá-lo só em atenção a seus inegáveis méritos literários. A obra vai precedida de uma dedicatória ao conde Felipe de Flandes, ou seja, Felipe de Alsacia, quem, desde 1168, foi conde de Flandes; partiu para Ultramar como cruzado em setembro de 1190 e morreu em Acre em junho seguinte. Entre 1168 e 1191, pois, iniciou Chrétien de Troyes a redação do conto do Graal, e os intentos feitos para precisar mais a data se revelaram pouco firmes. Esta dedicatória surpreende, por seu caráter religioso; glosa nela vários versículos neo-testamentários e disserta sobre a caridade; o que dá à estas páginas introdutórias, um acusado matiz cristão que por força tem que corresponder com o profundo sentido que o autor pensa dar em sua obra.
Chrétien escolheu como protagonista de sua narração um moço em plena adolescência, forte, hábil caçador e ingênuo; vivendo em uma "erma floresta solitária" isolado do resto do mundo. Unicamente entregue à caça e sem outra relação humana a não ser sua mãe e os lavradores que cultivam suas terras, situadas em Gales. Este moço pertence à uma ilustre linhagem de cavaleiros; tanto seu pai, como seus dois irmãos maiores, foram vítimas das guerras e dos combates; devido a isso, sua mãe o criou em completa ignorância de tudo quanto acontece no mundo, principalmente da cavalaria. Todavia, a força do sangue se impõe aos planos maternos; assim que o moço, no início da novela, encontra-se com alguns cavaleiros, decide irrevogavelmente ser um deles encaminhando-se à corte do rei Artur para que lhe arme; o qual produz tal desgosto a sua mãe que cai morta ao vê-lo partir de seu lado. Desta sorte, Chrétien pode expor a seus leitores as etapas da formação cavalheiresca, que seu jovem herói percorre numa velocidade vertiginosa. Ao sair da solitária morada materna, o herói está na plenitude de suas forças físicas; é robusto e valente, condições naturais, indispensáveis, para tudo o que tenha que exercer na cavalaria. Sua chegada à corte do rei Artur provoca dois maravilhosos vaticínios, pois, tanto a donzela que jamais sorriu, quanto o bufão, prognosticam que aquele galhardo e ingênuo jovem está destinado a ser o melhor cavaleiro do mundo. A vitória do moço sobre o cavaleiro Vermelho, deve-se à primária habilidade daquele no lançamento de flechas, adquirida em suas caçadas: é um tipo de luta que se acha muito distante do sábio tecnicismo da nobre arte das armas. Por esta razão, depois desta primeira vitória, Chrétien leva seu protagonista ao castelo de Gornemant de Goort, cavaleiro amadurecido e experiente, que gosta muito das virtudes e da simpatia do jovem selvagem. Ensina-lhe lições de cavalaria, que o moço aprende com grande precisão e rapidamente, por fim, consagra-o cavaleiro. Nosso protagonista já é um cavaleiro; os episódios da defesa do castelo de Belrepeire demonstram seu acerto e sua maestria no manejo das armas; mas ali também, como corresponde a todo cavaleiro, nasce no jovem herói, seu amor pela formosa Blancheflor.
Entretanto, há nele um remorso que o tortura: a sorte de sua mãe, que viu cair desvanecida ao abandonar sua morada solitária. Não sabe ainda que morreu, embora o suspeita, isso tortura seu ânimo com a consciência do pecado. Esta situação, quer dizer, com a alma manchada por ele ter pecado, oferece-lhe a mais alta de suas aventuras: a prova do castelo do Graal, episódio culminante da novela. Convidado pelo Rico Rei Pescador, ou Rei Aleijado, o jovem cavaleiro janta na ampla e suntuosa sala quadrada do castelo. Vê desfilar ante si um singular cortejo em que figuram um pajem, que empunha uma lança de cuja ponta emana uma gota de sangue; uma formosa donzela que leva em suas mãos um Graal; e outra com um prato de prata. O herói, temendo revelar sua rusticidade, não se atreve a perguntar por que sangra a lança, nem a quem se serve com aquele Graal. A razão de seu mutismo —o esclarece depois Chrétien— é mais profunda: o fato de achar-se em pecado travou-lhe a língua. Isso constitui o fatal engano do moço, pois, se tivesse formulado aquelas duas perguntas, teria reparado uma série de males que afligiam precisamente a sua linhagem; já que, averiguaremos logo, que o Rico Rei Pescador, prostrado pela paralisia e sem a posse de suas terras, teria recuperado saúde e domínios se aquelas duas perguntas tivessem saído dos lábios do moço. Chrétien de Troyes não nos esclarece isso pontualmente — veremos que a novela ficou inacabada—, mas, não cabe dúvida de que a lança que sangra é a de Longinos, ou seja, aquela com a qual foi ferido o flanco de Jesus Cristo. O Graal, nome que se dava a certos recipientes, é um riquíssimo cálice sagrado no qual se leva diariamente uma hóstia ao Rei do Graal —pai do Rico Rei Pescador e irmão da mãe do protagonista—, o qual há anos vive exclusivamente graças ao alimento que lhe proporciona a Eucaristia. Este tipo de milagre deu-se, com freqüência, na Idade Média e, ainda hoje em dia, entusiasma aos cristãos. O prato de prata é, sem dúvida alguma, a bandeja que fica debaixo do queixo, no qual comunga para evitar que, por um acidente, a sagrada forma caia ao chão. O tema das perguntas não formuladas, conduzindo à maus danos, não é estranho no folclore; mas, em nosso caso, oferece uma surpreendente similitude com a cerimônia da Páscoa dos judeus, cujo rito não pode iniciar-se, até que o mais jovem da família, tenha feito umas ingênuas perguntas. Não é estranho que Chrétien tenha adaptado a seu episódio este rito judaico, sobretudo se tivermos em conta a importância da comunidade israelita de Troyes no século XII. A formosa donzela portadora do Graal é, com toda segurança, uma figura simbólica: a Igreja personificada, que em representações artísticas da época está acostumada achar-se à direita da cruz, recolhendo em um rico cálice o sangue do Salvador que emana da ferida produzida pela lança de Longinos. A lança empunhada pelo pajem, que desfila em nosso episódio, emana sem cessar, para significar, sem dúvida, a persistência do sacrifício do Gólgota, que redime constantemente.
Nosso herói, se dá conta de seu grande fracasso no castelo do Graal, no dia seguinte, ao encontrar na solidão do bosque sua prima, quem lhe faz ver seu engano. Então, quando por seu engano se faz responsável, o jovem herói da novela adivinha seu nome e o averigua pela primeira vez o leitor: chama-se Perceval. O nome vai unido à personalidade, enquanto nosso herói não significou nada para o mundo, viveu anonimamente; agora que, por sua culpa e por seu pecado, impediu que se realizasse um bem e não evitou o mal, sua responsabilidade lhe fez adivinhar seu nome. O episódio das gotas de sangue sobre a neve, uma das mais belas páginas da literatura francesa medieval, demonstra, por um lado, a idealização do amor de Perceval pela formosa Blancheflor, a cor rosada, de cuja face lhe rememora, ao ver a branca neve colorida pelo vermelho sangue; grandiosa metáfora investida, que tentou mais de uma vez, grandes poetas, desde Ovídio até Góngora. Por outro lado, este episódio, na economia da novela, supõe o cumprimento dos augúrios da donzela que jamais tinha sorrido e do bufão, graças ao qual, fica manifesto que Perceval, quinze dias antes era um ingênuo moço selvagem, sendo agora o melhor cavaleiro do mundo.
O “Conto do Graal” interrompe-se bruscamente, depois do verso 9234, deixando em suspense um episódio. Deve-se a interrupção, que a morte surpreendeu Chrétien de Troyes em plena redação da novela; quando a ação principal desta, distava o bastante, sem dúvida, de ter chegado a seu desenlace. Isso motivou que tema do Graal se fizesse logo, algo misterioso e vago. Os continuadores anônimos da novela, que iniciaram seu trabalho ainda no século XII, não acertaram a lhe dar um final congruente, nem digno do grande tema criado pelo escritor de Champagne. Inclusive a crítica moderna, até a mais recente, debateu-se em engenhosas e, às vezes, fantásticas lucubrações sobre o Graal e as intenções de Chrétien de Troyes, o qual morreu levando à tumba o profundo e secreto de sua novela, do mesmo modo que o marinheiro do romance castelhano do conde Arnaldos se joga ao mar sem nos dizer sua canção.
O leitor observará que a ação principal da novela, ou seja, as aventuras de Perceval, vê-se concorrida, a partir de certo momento, por outra trama muito distinta, que tem por herói Gauvain, o sobrinho do rei Artur. Esta dualidade de assunto quis explicar o caso do autor pretender contrapor o cavaleiro inexperiente, Perceval, ao cavaleiro veterano, Gauvain. Não obstante, há nas duas tramas contradições tão acusadas que não é inverossímil acreditar que Chrétien de Troyes, no momento em que lhe surpreendeu a morte, estava escrevendo duas novelas muito distintas: uma dedicada a narrar as aventuras de Perceval e outra, contar as façanhas de Gauvain; sendo que seus rascunhos foram mesclados e absurdamente fundidos por quem os arrumou, a fim de lhes dar uma forma, que hoje diríamos publicável, acreditando que pertenciam à mesma novela. Seja como for, a parte dedicada à Gauvain é de grande beleza e revela a maestria de Chrétien como narrador. Constitui um magnífico livro de cavalarias, no qual se destacam episódios tão notáveis como o da “Donzela das Mangas Pequenas”, de uma delicadeza pouco comum; o do “Castelo das Rainhas”, com seu ambiente de magia e de mistérios; e os da “Orgulhosa de Logres”, que põe à prova o cavalheirismo de Gauvain.
A presente tradução foi feita sobre o texto da edição de William Roach, Chrétien de Troyes, “Le román de Perceval”, ou “Conté du Graal”, em "Texte littéraires français", Genève-Lille, 1959 (segunda impressão). Em algumas passagens me separei de sua leitura, que é a do manuscrito “T”, para ater-me na edição crítica de Alfons Hilka, “Der Perceval Roman” (Le conte do Graal) em "Christian von Troyes sämtliche erhaltene Werke", V, Halle, 1932. Foi de grande utilidade a consulta da prosa de 1530 (editada pela Hilka em apêndice) e da tradução em prosa francesa moderna de Lucien Foulet, Chrétien de Troyes, “Perceval de Gallois”, ou o “Conté du Graal”, em "Cent romans français", Paris, 1947. Procurei ser o mais literal que permite a correção idiomática; conservei certas repetições do texto original e as freqüentes mudanças de tempos verbais. O leitor não deve esquecer que o que está lendo é tradução de um relato escrito em versos curtos de rima consoante; implicando ao autor ver-se, às vezes, obrigado à rodeios um pouco forçados que, embora no original do século XII amoldem-se a uma determinada técnica narrativa, ao converter-se em prosa moderna pode surpreender. A fim de que em todo momento se possa comparar minha versão, com o texto de Chrétien de Troyes, na parte superior das páginas indico os versos franceses que correspondem a seu conteúdo.
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quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Os Cavaleiros da Távola Redonda, de Thomas Malory
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Sir Thomas Malory (1405 — 1471) foi um novelista inglês, criador das histórias do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. As obras foram escritas em 1469 quando cumpria pena na prisão de Londres.
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Sir Thomas Malory (1405 — 1471) foi um novelista inglês, criador das histórias do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. As obras foram escritas em 1469 quando cumpria pena na prisão de Londres.
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