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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

PEDAÇOS DO MEU SENTIR

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«...
A leitura atenta é obrigatória, de outro modo perde-se a generosidade da poesia, que nos é servida pelo artesão da palavra. Entre o amor e o protesto, neste livro não há lugar à demagogia. Há, isso sim, uma fervorosa luta com a palavra, pela palavra. Numa poesia que vem de dentro. Da nascente do sangue e da raiz da memória. Memória com passado. Alma no presente, exposta ao futuro.
A sua criação vagueia entre a imaginética, o mundo descritivo e o retrato, passando pela História e Geografia. Em demanda exaustiva sem exaustão, por uma Humanidade mais digna e justa. Fruindo em sonetos, versos rimados ou livres, numa essência pura e lúcida, o poeta procura e consegue levar-nos ao fascínio, à razão e à sabedoria.
O poeta Vítor Cintra vive, tal como os outros poetas, sob o jugo da tirania do pensamento. É o preço a pagar pela ousadia de o ser. É como habitar um útero onde a cada instante se abre uma ferida, que o bálsamo de cada verso cura, para de seguida uma outra ferida se abrir, na espera de mais um verso.
...»
Do livro de Poemas: PEDAÇOS DO MEU SENTIR
Autor: VÍTOR CINTRA
Extraído do Prefácio, assinado por António Paiva
Editora: Temas Originais, Lda.

sábado, 15 de agosto de 2009

O NEVOEIRO

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O nevoeiro fez virar o mar em céu. Adornou-o de farrapos de nuvens sobre o azul das águas, depois circundou pedaços de mar com muros de nevoeiro criando hipot´rticos lagos. Do barranco, das furnas e dos contornos da praia saíram espirais de fumo como se de um incêndio se tratasse. A pouco e pouco tudo se desvaneceu, ficando um mar sereno raiado de tons de azul e de pequenas ondas que a medo vinham formar uma orla de espuma na praia.
O sol polvilhou tudo de ouro, o vento refrescou o ar e trouxe o cheiro das estevas e do mar.
Foi por pouco tempo. O nevoeiro arrependeu-se e voltou, trazendo como que velas de barcos, cortinas de fumo e um muro a tapar a linha do horizonte.
Caminha para a Pedra da Agulha, envolve-a com um fino véu, depois com manto espesso. Foge de novo, corre por esta imensidão de mar até que se despede e diz - até breve...
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Do livro: ENTRE O AZUL DO MAR E O VERDE DOS ARROZAIS
Autora: MARIA OLÍMPIA MENDES
Edição: Câmara Municipal de Aljezur

segunda-feira, 16 de março de 2009

O vale do Lapedo

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«...está situado perto de Leiria, é uma garganta estreita que a ribeira da Caranguejeira, afluente do rio Lis, escavou nos calcários do Período Cretácio. Alonga-se por cerca de dois quilómetros entre escarpas que atingem a altura aproximada de 90 metros.»
Assim descreve João Aguiar, no seu livro "LAPEDO - UMA CRIANÇA NO VALE", o vale que - segundo diz - «aos olhos dos arqueólogos, há muito mostrava ter potencialidades.»
Acrescentando:
«...todo o vale é uma mistura de largo arvoredo, água e pedra bruta, todo o vale é um pequeno paraíso selvagem em que recantos delicados alternam com falésias agrestes que nos recordam, instintivamente, outros tempos, até mesmo o recuadíssimo Cretácio.»
João Aguiar define-o como um vale mágico, dizendo que essa magia «reside não apenas na beleza da paisagem mas na atmosfera especial que ali se sente e se respira: somos como que atirados para uma outra era e para um outro espírito.»

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

NAZARÉ

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«Do Valado à Nazaré são seis quilómetros, quase sempre através do monótono pinheiral de El-Rei. É um majestoso templo que não acaba e onde a solidão se torna palpável entre os troncos cerrados e sob as copas espessas. Por fim o caminho desce, passando a Pedreneira, e avista-se lá em baixo a branca Nazaré e o mar apertado num vasto semicírculo de montes verdes, que mergulham no azul dos alicerces. Ao norte o panorama acaba de repente num paredão temeroso, que entra direito pelas águas e entaipa o céu. É um morro avermelhado e riscado, com vegetação pegajosa de urzes e de cardos e um penedo destacado na ponta - o bico do Guilhim. Lá em cima as paredes brancas duma aldeia árabe entre sebes de cactos hostis - o sítio. Pedaços de rochas salientes ameaçam desabar a toda a hora... »
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Extraído do livro: OS PESCADORES
Autor: RAUL BRANDÃO

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A CARTA de Pero Vaz de Caminha (3ª parte)

(...)
Quando fizemos vela, seriam já na pria sentados junto ao rio obra de sessenta ou setenta homens, que a pouco e pouco se haviam ali juntado. Fomos ao longo da costa e mandou o capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E sendo nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do local donde tínhamos levantado ferro, um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro e com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles e um pouco antes do sol posto amainaram obra de uma légua do recife e ancoraram em onze braças.
E sendo Afonso Lopes, nosso piloto, num daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou numa almadia dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos; e um deles trazia um arco e seis ou sete setas, mas não se serviram deles. Trouxe-os logo, já noite, ao capitão, sendo recebidos com muito prazer e festa na sua nau.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, e é-lhes indiferente cobrir ou mostrar suas vergonhas. E procedem nisso com tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e neles metidos seus ossos brancos, verdadeiros, com o comprimento de uma mão travessa e da grossura de um fuso de algodão, e agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço, e o que lhes fica entre o beiço e os dentes é feito como o roque de xadrez, e de tal maneira o trazem ali encaixado que não lhe faz doer nem lhes estorva a fala, o comer ou o beber. Os seus cabelos são corredios e andavam tosquiados, de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para trás uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera, embora não o fosse, de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O capitão, quando eles vieram, estava sentado numa cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço e, aos pés, uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e nós outros que aqui na nau com eles vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas e entraram. Mas não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que a dizer-nos que ali havia ouro.
Também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhe um papagaio pardo que o capitão tem aqui, e tomaram-no logo na mão e acenaram para terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhe uma galinha: quase tiveram medo dela e não lhe queriam pôr a mão; depois a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada. E, se alguma coisa provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça: mal lhe puseram a boca e não gostaram nada, nem a quiseram mais. Trouxeram-lhes água numa albarrada e, tomando alguns bocados, não beberam, somente lavaram as bocas e lançaram-na logo fora.
Viu um deles umas contas brancas de rosário. Acenou que lhas dessem, folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como que dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa a dormir, sem buscarem maneira de cobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins, e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram, ficaram quietos e dormiram.
(...)
Continua

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

FERNANDO PESSOA e a Geração de Orpheu

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Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazemo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.


Texto extraído do Livro do Desassossego
Autor: BERNARDO SOARES
Edição Original: Assírio e Alvim
Editores: Planeta Agostini