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sexta-feira, 13 de junho de 2008

O Ritual de Nosferatu – Um Trabalho de Auto-Criação

Este ritual é baseado em certas tradições de Magia Negra da Romênia, que, segundo a lenda, haveriam sido legadas aos seguidores de Vlad Dracul, que as teria recebido do Príncipe das Trevas.
Diz a lenda que Vlad, um Cristão revoltado contra as mentiras da Igreja, escolheu identificar-se com o Diabo. Este ritual se baseia nas conexões entre vampiros e o Príncipe das Trevas.

O “Self” na tradição dos Vampiros

O conceito de “Self” nas tradições vampirescas é geralmente o de “não-morto”, com suas conotações de imortalidade e Segredo da vida e morte. Vampiros freqüentemente possuem poderes físicos e mentais supra-normais, além de um certo gosto ecêntrico.

A imortalidade é freqüentemente confundida com a recusa de morrer. O Vampiro/Magista escolhe viver completa e intensamente esta vida, e não permitir que a sua consciência se desintegre após a sua morte física. Esta sobrevivência da consciência não depende de símbolos mágicos, nomes ou participação em diversos rituais. Depende apenas do reconhecimento do próprio “Self” e da vontade de continuar a existir, o que ou onde quer que seja.

O Sangue é muito importante nas tradições de Vampiros. Hoje, é visto como simbólico. Por exemplo, a Ordem do Vampiro, do Templo de Set, não vê significado no consumo ou no escorrimento de sangue.

O sangue simboliza “Vida”. O Mago Negro Vampiro é, portanto, visto como um magista que deseja e pratica a mais alta Vida, enquanto reconhece as energias da Besta interior – as energias primevas da Licantropia e da mutação, que formam outro aspecto da magia dos Vampiros.

O ritual que se segue simboliza um despertar solitário e isolado para um estado Vampiresco, e uma auto-iniciação ao Caminho da Mão-Esquerda. É um ritual que pode ser adaptado ou alterado conforme as circunstâncias ou a inspiração de cada um. Como em todo ritual mágico, cada um deve assumir seu próprio risco, já sabendo que uma prática como esta não é adequada aos instáveis ou imaturos.


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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Os Nefilin, de Shirley Massapust

Num diálogo retirado do capítulo "Serafim" da popular série de TV, Arquivo X, a investigadora do FBI Dana Scully, depois de deparar-se com um serafim, consulta um padre para que lhe esclareça a respeito do que viu:
Dana Scully: Eu vi um homem com roupa negra. Ele tinha 4 faces, não eram humanas.
Padre: (...) É um Serafim um anjo de 4 faces. Uma de anjo, 1 de leão, 1 de águia e uma de touro. Na história o anjo desce do céu e gera 4 filhos em uma, mortal. Os filhos são os Nefelin , os caídos, tem almas de anjos mas não deveriam existir, são deformados atormentados. Então Deus envia o Serafim à Terra para levar de volta as almas dos Nefelin, para evitar que o demônio as reinvindique.
Dana Scully: Como foram levadas?
Padre: Elas foram levadas pelo brilho de sua face. Olhar para um Serafim em toda sua glória é entregar a alma ao céu.
Dana Scully: Acha que foi isso o que vi?
Padre: Não, acho que o que viu foi uma fantasia de sua imaginação. (...) Nephelin é uma história. O texto no qual parece nem é reconhecido pela igreja.
Essa é uma das poucas vezes em que a incrédula agente Scully - e não Fox Mulder - toma a iniciativa em afirmar a existência de algo ainda não provado pela ciência, o que da um destaque maior desse capítulo, em relação ao restante da série. Também em nome de sua fé católica ela deixa que a última das 4 crianças (que possuíam deformações como estrutura óssea para suporte de asas, seis dedos nos pés e nãos, etc.) tenha o mesmo destino das outras, que ao olhar para o serafim morreram com seus olhos queimados. De qualquer forma a lenda dos Nefilin faz parte da antiga mitologia judaica.
O livro da Gênese assinala a união fecunda dos Benei-ha-Elohim ou filhos dos deuses, com as filhas dos homens: Misterioso casamento do qual nasceu a grande raça dos gibborim, ou dos nephilim:
«6. Filhos de Deus e filhas dos homens - Quando os homens começaram a ser numerosos sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradaram. Iahweh disse: "Meu espírito não se responsabilizará indefinidamente pelo homem, pois ele é carne; não viverá mais que cento e vinte anos." Ora, naquele tempo (e também depois), quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a terra; estes homens famosos foram os heróis dos tempos antigos.»
O episódio dos "filhos de Deus", que se casaram com as "filhas dos homens", é de tradição javista. O capítulo 6 é provavelmente um fragmento que se adicionou para fornecer uma motivação moral à história do dilúvio, derivada de versões mesopotâmicas nas quais essa motivação inexiste. Embora no Gênesis não esteja claro que os nefilins fossem maus, assim eles foram considerados nos livros apócrifos da época do Segundo Templo. O livro apocalíptico dos Jubileus conta que os Sentinelas (anjos) vieram para a Terra e depois pecaram, mas que seu príncipe, Samael, teria tido a permissão de Yaveh para atormentar a humanidade. Entretanto, o judaísmo posterior e quase todos os primeiros escritores eclesiásticos viram nesses "filhos de Deus" anjos culpados. Nos Livros de Enoch, esse episódio aparece como tendo sido uma desobediência à Deus. Os últimos compiladores do capítulo 6 provavelmente conheciam a história completa relatada em Enoch, com detalhes sobre os filhos nascidos da união entre anjos e mulheres, "que são chamados espíritos sobre a terra" pois a citação Bíblica foi obviamente influenciada por este livro, do qual temos um fragmento de sua forma mais antiga, em aramaico, o manuscrito de Damasco, descoberto no inverno de 1896-97 numa genizah ou esconderijo secreto de uma comunidade hebraica do Cairo e publicada, pela primeira vez, sob o título de Documento de Damasco, em 1910. O texto completo, em português, aparece no apêndice de "Os Documentos do Mar Morto", de Burrows, de onde tiramos a citação que se segue:
«III - E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que Ele ama e desprezar tudo aquilo que odeia, para poderdes caminhar perfeitamente em todos os Seus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus, a tal chegados porque não observavam os mandamentos de Deus, tendo caído também os seus filhos, cuja estatura atingia também a altura dos cedros e cujos corpos se assemelhavam a montanhas. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles.
IV - assim se perderam os filhos de Noé e as suas tribos e assim foram aniquilados.»
Ainda nos textos de Qumram, do século II a.C., vamos encontrar outro documento antigo, o pergaminho de Lameque, contando uma história semelhante. Como o rolo só se conservou em fragmentos, faltam agora no texto frases e sentenças inteiras. O que restou, entretanto, é suficiente singular para ser relatado. Diz ele, que certo dia Lameque, pai de Noé, voltando para casa de uma viagem de mais de nove meses, foi surpreendido pela presença de um menino pequenino que, por seu aspecto físico externo em absoluto não se enquadraria na família. Lameque levantou pesadas acusações contra sua mulher Bat-Enosh e afirmou que aquela criança não se originara dele. Bat-Enosh se defendeu, jurando por tudo que lhe era sagrado que o sêmem só poderia ser dele, do pai Lameque, pois na ausência do marido ela não teve o menor contato com nenhum soldado, nem de um estranho nem de um dos "filhos do céu". E ela implorou:
«Ó meu senhor... juro... esse sêmem proveio de ti, de ti proveio a concepção, de ti a plantação do fruto que não é de um forasteiro, nem de um guarda, tampouco de um filho do céu...»
Não obstante, Lameque não acreditou nas juras de sua mulher e, desassossegado até o fundo de sua alma, partiu para pedir conselho a seu pai Matusalém, a quem relatou o caso familiar que tanto o deprimia. Matusalém ouviu, meditou e como não chegou a tirar conclusão alguma, por sua vez, pôs-se a caminho para consultar o sábio Enoque. Aquele assunto de família estava causando tal alvoroço que o velho enfrentou os incômodos de uma longa viagem a fim de por a limpo a origem do garoto. Enoque ouviu o relato de Matusalém, contando como, de um céu cem nuvens, de repente caiu um menino, de aspecto físico externo menos parecido com o dos mortais comuns, e mais semelhante a um filho de pai celeste, cujos olhos, cabelos, pele, em nada se enquadrava na família.
O sábio Enoque escutou o relato e mandou o velho Matusalém de volta, com a notícia alarmante de que um grande juízo punitivo sobreviria, atingindo a Terra e a humanidade; toda a "carne" seria aniquilada, por ser suja e perversa. No entanto, falou Enoque, ele, Matusalém, deveria ordenar ao seu filho Lameque que ficasse com o menino e lhe desse o nome de Noé, pois o pequeno Noé teria sido escolhido para ser o progenitor daqueles que sobreviveriam ao grande juízo universal. Matusalém viajou de volta, informou seu filho sobre tudo o que estaria para vir e Lameque finalmente aceitou a criança como sua.


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segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Bíblia Vampírica, de Temple of the Vampire

O Credo do Vampiro
Eu sou um Vampiro.
Eu adoro o meu ego e eu adoro minha vida, pois sou o
único Deus que existe.
Eu tenho orgulho de ser um animal predador e eu
honro meus instintos animais.
Eu exalto minha mente racional e não acredito que
isso seja um desafio da razão.
Eu reconheço a diferença entre o mundo real e a
fantasia.
Eu reconheço a fato de que a sobrevivência é a lei
mais forte.
Eu reconheço que os Poderes da Escuridão escondem
leis naturais através das quais eu posso fazer minha
magia.
Eu sei que minhas crenças no ritual são uma fantasia,
mas a magia é real e eu respeito e reconheço os
resultados da minha magia.
Eu percebo que não há céu como não há inferno e vejo
a morte como destruidora da vida.
Portanto eu tirarei o máximo proveito da vida aqui e
agora.
Eu sou um Vampiro.
Curve-se diante de mim.

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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O Livro dos Vampiros / Os Vampiros, de Jean-Paul Bourre

As leis do sangue
O vampirismo está sempre associado a um drama, uma maldição, uma
doença psíquica hereditária. Na epopéia negra e vermelha dos vampiros
apareciam casais amaldiçoados, homicidas megalômanos tais como o príncipe
VIad Drakul, grandes famílias atingidas por um mal misterioso, como os Bathory
ou os Cillei na Romênia do século XV.
Todos eles fascinados por uma espécie de vontade mórbida, rapidamente
transformada em neurose, em obsessão. Cultivam desejos dos mais
perturbadores, tais como Bárbara Cillei e seu irmão partilhando da mesma cama
ou VIad Drakul empalando os seus prisioneiros e fazendo-se servir de faustosas
refeições, entre cadáveres suspensos de lanças e piques.
Vive-se febril e loucamente a sexualidade e a morte. O leito nupcial torna-se
fúnebre pelas maldições e juramentos terríveis nele feitos. «Voltarei!...» Uiva
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Bárbara Cillei antes de morrer. Herman, seu irmão, invocará os demônios da
antiga magia para que a irmã ressuscite. As crônicas romenas da região da
Transilvânia afirmam que o êxito teria sido completo. Bárbara Cillei saiu do túmulo
visitando o castelo de Varazdin, onde tem a sua sepultura. Coincidências ou
epidemias diabólicas? Em 1936, na aldeia de Kneginecc – perto de Varazdin –
várias pessoas novas, rapariguitas, pereceram de maneira estranha. «Algumas
morreram em poucas semanas, em dois ou três meses no máximo, sem se lhes
conhecer qualquer doença. Todas tinham sobre a garganta duas ou três manchas
azuladas. Muitos destes jovens acordavam durante a noite atormentados por
horríveis pesadelos.»
O ritual do exorcismo praticou-se nas ruínas de Varazdin por um sacerdote
ortodoxo da igreja do Oriente. Rapidamente pararam as manifestações. Dizem os
velhos de Kneginec que o Grande Exorcista libertou a aldeia, mas ninguém
esclarece se os restos mortais de Bárbara Cillei, morta no século XV, foram ou
não exumados.
Os processos verbais que relatam os fenômenos vampirescos demonstramnos
através de que mecanismos o não morto se propaga e contamina quantos
leiam. Citemos por exemplo o inquérito conduzido pelo tenente Buttner, do
regimento de Alexandre de Vurtemberga, a 7 de Janeiro de 1732, o Visum et
Repertum, que intrigou Luís XV e o duque de Richelieu:
«Tendo ouvido dizer por mais de uma vez que na aldeia de Medwegga, na
Sérvia, os pretensos vampiros provocavam a morte de muita gente sugando-lhes
o sangue, recebi a ordem e missão, através do comando superior de Sua
Majestade, para que o caso fosse esclarecido beneficiando, para questão de
inquérito, do apoio de oficiais e de dois Unterfeldscherer.
»Perante o capitão da Companhia de Heiduques Gorschitz, Heiduck,
Burjaktar e os outros heiduques mais antigos do local, examinamos os fatos.
Estes, logo que interrogados, nos relataram unanimemente um caso ocorrido,
havia cinco anos, com um heiduque da região (um heiduque é um membro da
nobreza local) chamado Arnold Paul que ao cair do carro de feno partira o
pescoço. Mais tarde, passados alguns anos, teria contado repetidas vezes ter sido
vítima de um vampiro, perto de Casanova, na Pérsia turca.1[1]
»Teria por esse fato resolvido comer alguma terra no túmulo de um vampiro,
esfregando-se com o sangue do mesmo, uma vez ser voz corrente evitar assim a
maléfica influência. Todavia, vinte ou trinta dias após a sua morte havia gente a
queixar-se que Arnold Paul os atormentava, chegando mesmo a matar quatro
pessoas. Para que se acabasse com este perigo, o heiduque aconselhou os
habitantes dessa região a desenterrarem o vampiro e assim foi, quarenta dias
depois da morte deste. Encontraram-no em perfeito estado de conservação; a
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carne não decomposta, os olhos injetados de sangue fresco que também escorria
do nariz e dos ouvidos, sujando-lhe a camisa e a mortalha. As unhas das mãos e
pés estavam soltas, e novas unhas cresciam em seu lugar, pelo que se concluiu
tratar-se de um arqui-vampiro. Assim, segundo a norma do sítio, atravessaram-lhe
o coração com uma estaca.
»Mas enquanto se procedia a esta ação, jorrou do corpo uma enorme
quantidade de sangue, acompanhada de um lancinante grito. Nesse próprio dia foi
queimado, e as cinzas lançadas ao túmulo. Aquela gente afirmava que as vítimas
dos vampiros transformam-se, por sua vez, em vampiros. Por tal razão se decidiu
proceder da mesma forma para com os quatro corpos atrás referidos.
»O caso não ficou por aqui porque o dito Arnold Paul atacara não só pessoas
mas também gado!
»Aqueles que diziam ter comido carne de animal contaminado e que disso
vieram a morrer ficaram presumíveis vampiros, tanto que no espaço de três
meses, (em dois ou três dias) sem nenhuma doença previamente detectada,
pereceram dezessete pessoas das idades mais diversas.
»Heiduque Joika faz saber que a sua nora, Staha Joica, tendo-se deitado
quinze dias antes de perfeita saúde, soltou durante a noite um grito medonho,
acordou em sobressalto tremendo de medo, queixando-se de ter sido ferida no
pescoço por um homem, filho do heiduque Milloe, que morrera havia quatro
semanas. Desde então definhando hora a hora, morria oito dias depois.
»Por todas estas coisas nessa mesma tarde, depois de ouvidas as
testemunhas, fomos ao cemitério acompanhados pelo heiduque da aldeia, para
que se abrissem os túmulos suspeitos e se observassem os corpos.
»Esta investigação revelou os seguintes fatos:
»– Uma mulher de nome Stana, ao dar um filho à luz e no seguimento de
uma curta doença de três dias, morreu aos 20 anos e 3 dias confessando que,
para se livrar de toda a espécie de influências, se esfregara com sangue de
vampiro. O seu estado de conservação era excelente. Aberto o corpo descobriu-se
uma grande quantidade de sangue fresco na cavitate pectoris.
»– Miliza, uma mulher com 60 anos que morreu após três meses de doença e
enterrada noventa e tal dias depois, tinha ainda uma quantidade de sangue em
estado líquido.
»– Os oficiais do rei enumeram ainda onze pessoas da mesma aldeia, mortas
em circunstâncias estranhas mantendo sangue fresco e concluem a seguir, no seu
relatório: ‘Depois de devidamente registrado o que atrás foi exposto, ordenamos à
ciganagem que passava que decapitassem todos esses vampiros. Foram
queimados os corpos e espalhadas as cinzas por Morávia, enquanto, devolviam
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aos caixões, os corpos encontrados em estado de decomposição.’ EU AFIRMO e
os Unterfeldscherer, QUE TODAS AS COISAS SE PASSARAM TAL COMO
ACABAMOS DE RELATA-LAS, em Medwegya, na Sérvia, a 7 de Janeiro 1732.»
Assinatura: os oficiais do rei... As testemunhas. Belgrado, 26 de Janeiro
1732.

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quinta-feira, 5 de julho de 2007

O Manual Prático do Vampirismo, de Paulo Coelho e Nelson Liano Jr.

Na noite de 5 de maio de 1985, cansados de uma longa escalada ao cume do Pico da Bandeira, eu e Nelsinho resolvemos passar a noite num misterioso hotel situado a alguns quilômetros do abrigo de alpinistas. Nós pretendíamos dormir assim que o jantar acabasse, mas um outro hóspede do hotel mudou nossos planos.

Sentando-se em nossa mesa, sem a menor cerimônia, o hóspede - que se apresentou como um finlandês, mas cujo sotaque lembrava alguém dos Balcãs - disse que se chamava Flamínio de Luna, e que tinha lido numa revista uma reportagem sobre meu interesse por vampiros. Afirmou que tinha sido testemunha de um caso de vampirismo com alguém que amava, e por causa disso havia jurado fazer todo o possível para desmascarar o mito - criado pelos próprios vampiros - de que tais criaturas não existem. Durante anos pesquisou suas origens históricas, suas raízes no mundo de hoje, e as fórmulas para identificar e combater um vampiro. Alto, cabelos brancos, vestido com muito mais elegância do que o lugar ermo onde nos encontrávamos permitia, Flamínio a todo momento lamentava a perda de Mata Ulm (cuja história vai contada na Quinta Parte desse livro), afirmando ter sido este seu único amor nos muitos anos de existência. Durante horas a fio ficamos ouvindo, fascinados, aquilo que nos parecia ser uma grande esquizofrenia, mas uma esquizofrenia inteligente, onde as menores peças faziam sentido.

No dia seguinte procurei Flaminio de Luna para conversarmos mais sobre o tema, mas soube que ele havia partido. O caso não teria passado de uma bela história para contarmos aos nossos amigos, quando recebi - duas semanas mais tarde - o manuscrito de O MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO. O pacote, entregue pelo correio, não trazia o endereço do remetente.

Meses depois, por acaso, encontrei no jornal CORRIERE DE LA SERA uma notícia surpreendente, a respeito de uma série de assassinatos ocorridos em Palermo, na Sicilia. As vítimas eram encontradas com a garganta aberta, e sem um pingo de sangue. Apesar das autoridades locais atribuírem os crimes a uma vendetta da Máfia, grande parte dos habitantes - principalmente os mais velhos - juravam que tudo aquilo era obra de um feiticeiro, nascido em 1815, e do qual não se tinha notícia de haver morrido. Seu nome: Flamínio Di Luna.

Pela descrição dos habitantes de Palermo, quero acreditar que o finlandês do hotel e o assassino de Palermo são a mesma pessoa. Neste caso, Flamínio (ou Flaminius) pertence aquela categoria de pessoas que se rebelaram contra a própria natureza, mas não tem meios (ou coragem) para se libertarem dela. Fornecendo a pista correta para sua destruição, Flamínio deixa aberta a porta de seu renascimento.

Mais uma coisa: pedimos ao leitor que se aventurar por estas páginas, que seja muito prudente ao tentar colocar em pratica qualquer ritual aqui descrito. Depois da conversa com Flamínio de Luna, não me custaria nada afirmar que os vampiros existem.
PAULO COELHO


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