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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Histórias para pais, filhos e netos, de Paulo Coelho

TRECHO:
Nota do autor

Quando o grande místico sufi Hasan estava morrendo, um dos seus
discípulos perguntou:
- Mestre, quem foi o teu mestre?
- Eu tive centenas de mestres – foi a resposta.- Se tivesse que dizer o nome
de todos eles, levaria meses, talvez anos, e mesmo assim ainda terminaria esquecendo
alguns.
- Entretanto, não houve algum deles que marcou mais que outros?
Hassan pensou por um minuto, e disse:
- Na verdade, existiram três pessoas que me ensinaram coisas muito
importantes.
“O primeiro foi um ladrão. Certa vez eu estava perdido no deserto, e só
consegui chegar em casa muito tarde da noite. Havia deixado minha chave com o vizinho,
mas não tinha coragem de acorda-lo aquela hora. Finalmente encontrei um homem, pedi
ajuda, e ele abriu a fechadura num piscar de olhos.
“Fiquei muito impressionado, e implorei que me ensinasse a fazer aquilo.
Ele me disse que vivia de roubar as outras pessoas, mas eu estava tão agradecido que
convidei-o para dormir em minha casa.
“Ele ficou comigo por um mês. Toda noite saía e comentava: “Estou indo
trabalhar; continue sua meditação e reze bastante.” Quando voltava, eu perguntava sempre
se tinha conseguido alguma coisa. Ele invariavelmente me respondia: “Não consegui nada
esta noite. Mas, se Deus quiser, amanhã tentarei de novo.”
“Era um homem contente, e nunca o vi ficar desesperado com a falta de
resultados. Durante grande parte da minha vida, quando eu meditava e meditava sem que
nada acontecesse, sem conseguir meu contacto com Deus, eu me lembrava das palavras do
ladrão – “não consegui nada esta noite, mas, se Deus quiser, amanhã tentarei de novo”. Isso
me deu forças para seguir adiante.
- Quem foi a segunda pessoa?
- Foi um cachorro. Eu estava indo em direção ao rio, para beber um pouco de
água, quando o cachorro apareceu. Ele também estava com sede. Mas, quando chegou perto
da água, viu outro cachorro ali – que não era mais que sua própria imagem refletida.
“Ficou com medo, afastou-se, latiu, fez tudo para que afastar o outro
cachorro. Nada aconteceu, é claro. Finalmente, porque sua sede era imensa, resolveu
enfrentar a situação e atirou-se dentro do rio; neste momento a imagem sumiu.
Hassan deu uma pausa, e continuou:
- Finalmente, meu terceiro mestre foi uma criança. Ela caminhava em
direção à mesquita, com uma vela acesa na mão. Eu perguntei: “Você mesmo acendeu esta
vela?” O garoto disse que sim. Como fico preocupado com crianças brincando com
chamas, insisti: “Menino, houve um momento em que esta vela esteve apagada. Voce
poderia me dizer de onde veio o fogo que a ilumina?” 4
“O garoto riu, apagou a vela, e me perguntou de volta: “E o senhor, pode me
dizer para onde foi o fogo que estava aqui?”
“Neste momento eu entendi o quão estúpido sempre tinha sido. Quem
acende a chama da sabedoria? Para onde ela vai? Compreendi que, igual aquela vela, o
homem carrega por certos momentos no seu coração o fogo sagrado, mas nunca sabe onde
ele foi aceso. A partir daí, comecei a comungar com tudo que me cercava – nuvens,
arvores, rios e florestas, homens e mulheres. Tive milhares de mestres a minha vida inteira.
Passei a confiar que a chama sempre estaria brilhando quando dela precisasse; fui um
discípulo da vida, e ainda continuo sendo. Consegui aprender a aprender com as coisas
mais simples e mais inesperadas, como as histórias que os pais contam para os seus filhos.

Este belo conto, pertencente à tradição mística do Islã, mostra que uma das
formas mais tradicionais que o homem encontrou de passar o conhecimento de sua geração,
foi através de histórias e relatos.
A história é o que existe de mais puro na literatura, porque permite
interpretações que vão além do tempo em que foram concebidas. Elas são alegres,
divertidas, dramáticas, mas sobretudo transmitem o conhecimento deuma maneira
agradável. Enquanto escrevia a grande maioria dos textos deste livro, imaginava quem os
concebeu, quem os contou para seus filhos e netos, como foram capazes de sobreviver ao
tempo, viajar pelo espaço, e percorrer muitos continentes e oceanos.
Sempre que é possível identificar uma fonte – como a do conto acima – eu
o faço. Mas a quase totalidade dos textos pertence aos arquivos secretos do coração do
homem; o nome do autor se perdeu, embora sua mensagem continue presente . Existe
também alguns contos que tem versoes diferentes em diferentes culturas, e neste caso eu
optei pela mais conhecida.
“Histórias de pais, filhos e netos” deve muito aos leitores da coluna que
escrevo em diversos jornais do Brasil e exterior; foram eles que me incentivaram a reunir o
material sob a forma de livro, ao qual acrescentei algum material ainda inédito. Também
resolvi incluir trechos que escrevi sobre certas experiencias pessoais, que gostaria de dividir
com os outros.
Vamos, então, passear pelas tradições e lendas de diversos continentes,
embalados pelas três palavras mágicas que escutamos na infância, e nunca mais
esquecemos:
Era uma vez...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Guerreiro da Luz, de Paulo Coelho

TRECHO:
No Caminho de Kumano
Desci do trem numa tarde de fevereiro de
2001, e encontrei Katsura, uma japonesa de 29
anos.
- Seja bem-vindo ao caminho de Kumano.
Olhei para o lado de fora da estação, para
o sol poente que batia diretamente no meu rosto.
O que era o caminho de Kumano? Durante a via-
gem, tinha procurado saber como é que aquele
lugar remoto estava incluído no programa de mi-
nha visita ofcial, organizada pela Japan Founda-
tion. A intérprete me disse que uma amiga minha,
a poeta Madoka Mayuzumi, fzera questão que eu
visitasse o lugar, mesmo que tivesse apenas cinco
dias, e precisasse viajar de carro a maior parte do
tempo. Madoka tinha feito a pé o Caminho de 4 5
Santiago em 1999, e achava que esta era a manei-
ra de agradecer-me.
Ainda no trem, minha interprete comen-
tou: “o pessoal em Kumano é muito estranho”.
Perguntei o que queria dizer com isso, e ela limi-
tou sua resposta a uma palavra. “Religiosidade.”
De minha parte, resolvi não insistir: muitas vezes
conseguimos estragar uma boa peregrinação por-
que lemos todos os folhetos, os livros, as indica-
ções na Internet, os comentários de amigos, e já
chegamos no lugar sabendo tudo que precisamos
conhecer, sem deixar espaço para o mais impor-
tante da viagem - o inesperado.
- Vamos até a pedra - disse Katsura.
Caminhamos alguns metros até um peque-
no obelisco, com inscrições em duas faces, encra-
vadas no meio de uma esquina - e disputando o
espaço com pedestres, uma loja de conveniências,
carros, e motocicletas que passavam. A partir dali, 4 5
o caminho de Kumano se dividia em dois.
- Se você seguir para a esquerda, irá fazer a
peregrinação pelo caminho que o imperador usa-
va antigamente. Se seguir pela direita, fará o ca-
minho das pessoas comuns comentou Katsura.
- Talvez o caminho do imperador seja mais
bonito, mas com certeza o caminho das pessoas
comuns e mais animado.
Ela pareceu fcar contente com a resposta.
Entramos no carro, nos dirigimos para as mon-
tanhas cobertas de névoa. Enquanto conduzia,
Katsura explicava um pouco sobre o lugar: Ku-
mano é uma espécie de península cheia de colinas,
forestas e vales, onde várias religiões conviviam
pacifcamente. As predominantes eram o budis-
mo e o xintoísmo (religião nacional do Japão,
anterior à infuência de Buda, e que consiste na
adoração das forças da natureza), mas ali podia
ser encontrado todo tipo de fé e de manifestação 6 7
espiritual.
- Quantos quilômetros de peregrinação? -
eu quis saber.
Ela pareceu não entender. Pedi que a inter-
prete traduzisse em japonês, mas mesmo assim
Katsura parecia perplexa com a minha pergunta.
- Depende de onde você saiu - disse fnal-
mente.
- Claro. Mas no caso do Caminho de San-
tiago, por exemplo, se você sair de Navarra são
aproximadamente 700 kms. E aqui?
- Aqui, as peregrinações começam quando
você deixa a sua casa, e terminam quando você
volta para ela. Neste caso, como você mora no
Brasil, deve saber a distância.
Eu não sabia, mas a resposta fazia sentido.
A peregrinação é uma etapa de uma viagem; lem-6 7
brei-me que depois de percorrer o caminho de
Santiago, na Espanha, só fui realmente entender
o que me acontecera quando passei quatro meses
em Madrid, antes de voltar para casa.
- A gente vê as coisas, e não compreende
de imediato - continuou Katsura. - É preciso dei-
xar em casa o homem que você está acostumado
a ser; ele fca lá, e apenas a parte boa continua a
ser alimentada pela energia da Deusa, que é mãe
generosa. A parte que lhe prejudica termina mor-
rendo por falta de alimento, já que o demônio
está muito ocupado com outras pessoas, e não
tem tempo de fcar cuidando de alguém cuja alma
não está ali.
Subimos por quase duas horas um pequeno
caminho sinuoso na montanha, até que a furgo-
neta parou numa espécie de albergue. Antes que
eu entrasse, Katsura comentou:
- Aqui vive uma mulher que não sabemos
quantos anos tem, por isso a chamamos de De-8 9
mônio Feminino. Vou descer até a aldeia próxi-
ma para chamar um lenhador que irá lhe explicar
como deve ser feito o caminho.
A noite já tinha começado a descer, Katsu-
ra desapareceu na bruma, e eu fquei ali, esperan-
do que o Demônio Feminino abrisse a porta.

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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O caminho do arco, de Paulo Coelho

TRECHO:
- Tetsuya.
O rapaz olhou espantado o estrangeiro.
- Ninguém nesta cidade viu Tetsuya segurando um arco – respondeu. – Todos
sabemos que ele trabalha em carpintaria.
- Pode ser que tenha desistido, que tenha se acovardado, isso não me interessa
– insistiu o estrangeiro. – Mas não pode ser considerado o melhor arqueiro do país, se já
abandonou sua arte. E por isso viajei tantos dias: para desafia-lo e colocar um ponto final
em uma fama que já não merece.
O rapaz viu que não adiantava ficar discutindo: era melhor leva- lo até o
carpinteiro, para ver com seus próprios olhos que ele estava enganado.
Tetsuya estava trabalhando na oficina situada nos fundos de sua casa. Virouse
para ver quem chegava, e seu sorriso foi interrompido no meio. Os olhos se fixaram na
longa sacola que o estrangeiro carregava consigo.
- É exatamente o que você está pensando – disse o recém-chegado. – Não vim
aqui para humilhar nem provocar o homem que virou uma lenda. Apenas gostaria de
provar que, com todos os meus anos de prática, consegui chegar à perfeição.
Tetusya fez menção de retornar ao seu trabalho: estava terminando de colocar
os pés de uma mesa.
- Um homem que serviu de exemplo para toda uma geração, não pode
desaparecer como o senhor desapareceu – continuou o estrangeiro. – Segui seus
ensinamentos, procurei respeitar o caminho do arco, e mereço que me veja atirar. Se fizer
isso, irei embora e não direi a ninguém onde se encontra o maior de todos os mestres.
O estrangeiro tirou de sua bagagem um arco longo, feito de bambu
envernizado, com o punho situado um pouco abaixo do centro. Fez uma reverencia para
Tetsuya, caminhou até o jardim, e fez outra reverencia para um lugar determinado. Em
seguida, tirou uma flecha ornada com plumas de águia, abriu as pernas de modo a ter uma
base sólida para atirar, com uma das mãos trouxe o arco até diante de seu rosto, com a
outra colocou a flecha.

juramento de Probacionista de Paulo Coelho na Fraternitatis Astrum Argentum / A∴A∴

quinta-feira, 5 de julho de 2007

O Manual Prático do Vampirismo, de Paulo Coelho e Nelson Liano Jr.

Na noite de 5 de maio de 1985, cansados de uma longa escalada ao cume do Pico da Bandeira, eu e Nelsinho resolvemos passar a noite num misterioso hotel situado a alguns quilômetros do abrigo de alpinistas. Nós pretendíamos dormir assim que o jantar acabasse, mas um outro hóspede do hotel mudou nossos planos.

Sentando-se em nossa mesa, sem a menor cerimônia, o hóspede - que se apresentou como um finlandês, mas cujo sotaque lembrava alguém dos Balcãs - disse que se chamava Flamínio de Luna, e que tinha lido numa revista uma reportagem sobre meu interesse por vampiros. Afirmou que tinha sido testemunha de um caso de vampirismo com alguém que amava, e por causa disso havia jurado fazer todo o possível para desmascarar o mito - criado pelos próprios vampiros - de que tais criaturas não existem. Durante anos pesquisou suas origens históricas, suas raízes no mundo de hoje, e as fórmulas para identificar e combater um vampiro. Alto, cabelos brancos, vestido com muito mais elegância do que o lugar ermo onde nos encontrávamos permitia, Flamínio a todo momento lamentava a perda de Mata Ulm (cuja história vai contada na Quinta Parte desse livro), afirmando ter sido este seu único amor nos muitos anos de existência. Durante horas a fio ficamos ouvindo, fascinados, aquilo que nos parecia ser uma grande esquizofrenia, mas uma esquizofrenia inteligente, onde as menores peças faziam sentido.

No dia seguinte procurei Flaminio de Luna para conversarmos mais sobre o tema, mas soube que ele havia partido. O caso não teria passado de uma bela história para contarmos aos nossos amigos, quando recebi - duas semanas mais tarde - o manuscrito de O MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO. O pacote, entregue pelo correio, não trazia o endereço do remetente.

Meses depois, por acaso, encontrei no jornal CORRIERE DE LA SERA uma notícia surpreendente, a respeito de uma série de assassinatos ocorridos em Palermo, na Sicilia. As vítimas eram encontradas com a garganta aberta, e sem um pingo de sangue. Apesar das autoridades locais atribuírem os crimes a uma vendetta da Máfia, grande parte dos habitantes - principalmente os mais velhos - juravam que tudo aquilo era obra de um feiticeiro, nascido em 1815, e do qual não se tinha notícia de haver morrido. Seu nome: Flamínio Di Luna.

Pela descrição dos habitantes de Palermo, quero acreditar que o finlandês do hotel e o assassino de Palermo são a mesma pessoa. Neste caso, Flamínio (ou Flaminius) pertence aquela categoria de pessoas que se rebelaram contra a própria natureza, mas não tem meios (ou coragem) para se libertarem dela. Fornecendo a pista correta para sua destruição, Flamínio deixa aberta a porta de seu renascimento.

Mais uma coisa: pedimos ao leitor que se aventurar por estas páginas, que seja muito prudente ao tentar colocar em pratica qualquer ritual aqui descrito. Depois da conversa com Flamínio de Luna, não me custaria nada afirmar que os vampiros existem.
PAULO COELHO


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