A ilustradora belga Isabelle Vandenabeele foi a vencedora da 4ª edição da Bienal de Ilustração para a Infância, Ilustrarte. Não é uma estreia, já que na edição de 2007, as ilustrações que apresentou a concurso foram distinguidas com uma menção honrosa. Este ano, as menções especiais foram atribuidas à dupla italiana Alessandro Lecis e Alessandra Panzeri e ao francês Martin Jarrie (presença assídua na Ilustrarte, também recebeu uma menção honrosa na sua 3ª edição, e contou com uma exposição no Auditório Municipal Augusto Cabrita, palco da Ilustrarte até agora em 2005).
As três xilogravuras de Vandenabeele integram o livro Voorspel va Een Gebroke Liefde, escrito por Geert Kockere e editado na Bélgica pela Medaillon. O livro, com o título Prélude a un amour brisé" foi igualmente editado em França, pelas Éditions du Rouergue.
As cinquenta ilustrações seleccionadas pelo jurí estarão expostas a partir de Fevereiro de 2010 no Museu da Electricidade, em Lisboa, que acolhe pela primeira vez a iniciativa.
Mais informações sobre a Ilustrarte 2009 no Jornal Público.
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domingo, 6 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Farol de Sonhos
Será entre 14 e 18 de Outubro, na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana, que se realizará a 2ª edição do Farol dos Sonhos. Dedicado à ilustração, este Encontro promove conferências, entre as quais uma com pequenos editores, dois workshops (um com Isidro Ferrer e outro com Teresa Lima, que contam igualmente com duas exposições no espaço do evento). Propõe-se ainda à comunidade escolar que participe, desafiando-se os alunos ( do 1º ao 6º ano) a desenharem a sua versão da mascote Ondina.As inscrições terminam a 9 de Outubro e o número de vagas é limitado. Os €60 da inscrição afastarão alguns interessados, o que é pena. Para consultar todo o programa do Farol, bem como aceder a um breve resumo das conferências e workshops, basta clicar em faroldesonhos.pt.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Para ver com calma II - BIB
Já decorre, desde 4 de Setembro, a Bienal de Ilustração de Bratislava, na Eslováquia. No site da Bienal, para além de conferirmos os vencedores dos três galardões atribuídos pelo jurí, podemos aceder a links com informações sobre os ilustradores que contam com exposições na BIB. Desde vencedores do Grande Prémio BIB de edições anteriores, aos galardoados com o Prémio Hans Christian Andersen em 2008 na categoria de ilustração e literatura, as exposições multiplicam-se por diversos espaços da cidade, algumas até Novembro. Depois da entrega dos Prémios desta edição, a BIB continua com o seu Simpósio Internacional, desta feita dedicado à relação entre ilustração e texto. Para visitar (o site) com calma.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Importa corrigir e pedir desculpa
O 32º Congresso Internacional IBBY ocorrerá apenas em Setembro de 2010, já que tem lugar apenas de 2 em 2 anos, e não na próxima semana, como foi dito. O que será relevante destacar, quando falta ainda um ano para o Encontro, é que todos os interessados poderão enviar propostas de comunicações para cada um dos seminários, até 30 de Outubro de 2009. O envio das propostas poderá ser feito para o email que o site do Congresso disponibiliza. Todas as comunicações serão avaliadas pelo Conselho Científico do Congresso, podendo ser redigidas em castelhano, galego, catalão, basco, português e inglês. Um obrigado à Sara Reis da Silva que fez o reparo.Assim, quem sabe se para o ano ainda tenho tempo de ir assistir a alguns seminários...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
32º Congresso Internacional Ibby
É já na próxima semana, entre 8 e 12 de Setembro em Santiago de Compostela. "A força das minorias" é o tema orientador para conferências, mesas redondas e oficinas. A literatura infantil e juvenil será abordada segundo perspectivas linguísticas, culturais ou de género. Os subtemas prometem perspectivas e reflexões pertinentes numa época em que se infantiliza a sociedade mas não se cuida da identidade infantil e juvenil.O programa completo e outras informações constam no site do Congresso. Se pudesse, estaria lá.
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sexta-feira, 20 de março de 2009
Festejar a Primavera na Gulbenkian
Já amanhã pinta-se e desenha-se nos jardins da Gulbenkian, em Lisboa. Para crianças a partir dos 4 anos, acompanhadas de um adulto. Há diversas oficinas, em horários diferentes. O programa pode ser consultado aqui.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Formar Leitores para Ler o Mundo - Maria Nikolajeva
1º Painel - Literatura para a Infância e Formação de Leitores
«Literacia visual e o leitor implícito nos álbuns para crianças»
Maria Nikolajeva (Univ. Estocolmo, Suécia) analisou os aspectos centrais da leitura de ilustrações em álbuns, evidenciando a urgência de formar crianças e adultos (especialmente os mediadores) para ler o texto visual. O álbum é um texto multimodal, com uma componente verbal e uma componente visual. De quanto tempo precisamos para ler um texto multimodal? Por que ordem o lemos? Que conexões permite estabelecer? De paralelismo, de complementaridade, de redundância, de confirmação. Dentro da lógica sequencial do enredo, o leitor pode antecipar e rever os elementos do enredo, pode inferir, a partir de pormenores, relações causais, temporais e espaciais. Mas as imagens podem igualmente sugerir enredos paralelos, e é o leitor quem decide, através da sua interpretação, se ocorrem em simultâneo ou se um é da ordem do real e outro da ordem do fantástico.
Por isso é importante dotar o leitor de ferramentas de interpretação do texto visual, e da sua relação com o texto escrito. Por exemplo, se uma personagem aparece várias vezes numa única página (que pode ser dupla), essa imagem sugere movimento, acção da personagem. Já se uma figura aparece na imagem com uma diferença exagerada de proporção em relação a outra, inferimos uma hierarquia de tratamento: a maior terá um ascendente sobre a mais pequena. Estes dois casos implicam uma interpretação do visual, mas a confirmação desta interpretação pode ser dada pelo escrito. O inverso também acontece e muitas vezes o visual funciona como esclarecimento para uma ambiguidade do texto escrito. Se um álbum tiver qualidade literária, surgirão diversos diálogos que só o treino permitirá ler. O literário é necessariamente polissémico, porque conta sempre com um nível de leitura literal e outros, simbólicos. Faz parte da semântica literária a presença do símbolo e a construção retórica. Para a sua descodificação, é preciso descobrir e reconhecer, para relacionar. A imagem de um lobo com um sorriso doce e um olhar meigo afastá-lo-á da história do Capuchinho Vermelho. Esta suposição resulta de uma relação de intertextualidade, só possível pelo domínio dos símbolos do Capucinho Vermelho. A leitura de imagens deve por isso ser estimulada, para que em cada álbum o leitor frua de todo o manancial de emoções que o álbum oferece.
«Literacia visual e o leitor implícito nos álbuns para crianças»
Maria Nikolajeva (Univ. Estocolmo, Suécia) analisou os aspectos centrais da leitura de ilustrações em álbuns, evidenciando a urgência de formar crianças e adultos (especialmente os mediadores) para ler o texto visual. O álbum é um texto multimodal, com uma componente verbal e uma componente visual. De quanto tempo precisamos para ler um texto multimodal? Por que ordem o lemos? Que conexões permite estabelecer? De paralelismo, de complementaridade, de redundância, de confirmação. Dentro da lógica sequencial do enredo, o leitor pode antecipar e rever os elementos do enredo, pode inferir, a partir de pormenores, relações causais, temporais e espaciais. Mas as imagens podem igualmente sugerir enredos paralelos, e é o leitor quem decide, através da sua interpretação, se ocorrem em simultâneo ou se um é da ordem do real e outro da ordem do fantástico.
Por isso é importante dotar o leitor de ferramentas de interpretação do texto visual, e da sua relação com o texto escrito. Por exemplo, se uma personagem aparece várias vezes numa única página (que pode ser dupla), essa imagem sugere movimento, acção da personagem. Já se uma figura aparece na imagem com uma diferença exagerada de proporção em relação a outra, inferimos uma hierarquia de tratamento: a maior terá um ascendente sobre a mais pequena. Estes dois casos implicam uma interpretação do visual, mas a confirmação desta interpretação pode ser dada pelo escrito. O inverso também acontece e muitas vezes o visual funciona como esclarecimento para uma ambiguidade do texto escrito. Se um álbum tiver qualidade literária, surgirão diversos diálogos que só o treino permitirá ler. O literário é necessariamente polissémico, porque conta sempre com um nível de leitura literal e outros, simbólicos. Faz parte da semântica literária a presença do símbolo e a construção retórica. Para a sua descodificação, é preciso descobrir e reconhecer, para relacionar. A imagem de um lobo com um sorriso doce e um olhar meigo afastá-lo-á da história do Capuchinho Vermelho. Esta suposição resulta de uma relação de intertextualidade, só possível pelo domínio dos símbolos do Capucinho Vermelho. A leitura de imagens deve por isso ser estimulada, para que em cada álbum o leitor frua de todo o manancial de emoções que o álbum oferece.
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domingo, 25 de janeiro de 2009
Dora Batalim em Odivelas
A literacia visual é absolutamente necessária a todos os que lêem álbuns e muitas vezes as recensões de livros infantis pecam pela ausência de interpretação do texto visual. No próximo dia 12 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, os interessados terão oportunidade de alargar horizontes e partilhar leituras com a formação de Dora Batalim, Ler a Dobrar. Quem já a ouviu falar de álbuns, sabe quão contagiante pode ser o seu entusiasmo e quão surpreendentes os livros que desvenda.
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domingo, 4 de janeiro de 2009
Balanço - livros do ano
Álbuns
Nasceu a Bruaá, e com ela três livros de enorme simplicidade e sensibilidade. Eu espero (Davide Cali, Serge Bloch) terá sido, para mim, a maior revelação. Não de um ponto de vista crítico, mas em primeiro lugar pelo efeito que teve sobre a minha condição de leitora.
Nasceu a Bruaá, e com ela três livros de enorme simplicidade e sensibilidade. Eu espero (Davide Cali, Serge Bloch) terá sido, para mim, a maior revelação. Não de um ponto de vista crítico, mas em primeiro lugar pelo efeito que teve sobre a minha condição de leitora. Descobri efectivamente Anthony Browne porque, com A minha mãe (Caminho), a
atenção plástica e programática que o autor dá às relações e aos afectos tornou-se evidente e ultrapassou a empatia que tenho com As preocupações de Billy (Kalandraka) e atingiu toda a sua obra. Gostava de a ver integralmente traduzida para português.
atenção plástica e programática que o autor dá às relações e aos afectos tornou-se evidente e ultrapassou a empatia que tenho com As preocupações de Billy (Kalandraka) e atingiu toda a sua obra. Gostava de a ver integralmente traduzida para português.Do Planeta Tangerina, O meu vizinho é um cão (Isabel Minhós e Madalena
Matoso) revelou-se um jogo de complementaridade entre a enumeração de pormenores para a grande revelação final: um álbum pleno de humor. Nasce da insólita situação de contar a mudança de vários animais para um prédio, acompanhando os preconceitos que os outros moradores, nomeadamente os pais da narradora, demonstram em relação a eles. O desfecho é surpreendente e arrasa com a sensação de irrealidade que se prolonga por todo o livro, transformando-se numa parábola. O diálogo entre o que as janelas deixam ver e o que as paredes ocultam alimenta cada momento narrativo com a entrada em cena de novos vizinhos e novos hábitos. Cria-se assim uma expectativa de leitura, alimentada pelas cores vivas e pela associação visual do desenho ao tetris, que consolidam essa inverosimilhança lúdica. É um livro que merecia mais atenção.
Matoso) revelou-se um jogo de complementaridade entre a enumeração de pormenores para a grande revelação final: um álbum pleno de humor. Nasce da insólita situação de contar a mudança de vários animais para um prédio, acompanhando os preconceitos que os outros moradores, nomeadamente os pais da narradora, demonstram em relação a eles. O desfecho é surpreendente e arrasa com a sensação de irrealidade que se prolonga por todo o livro, transformando-se numa parábola. O diálogo entre o que as janelas deixam ver e o que as paredes ocultam alimenta cada momento narrativo com a entrada em cena de novos vizinhos e novos hábitos. Cria-se assim uma expectativa de leitura, alimentada pelas cores vivas e pela associação visual do desenho ao tetris, que consolidam essa inverosimilhança lúdica. É um livro que merecia mais atenção. A Antígona, pela mão da sua chancela Orfeu Negro, estreia-se também nos álbuns ilustrados, com a edição de O Livro Inclinado (Peter Newell), que obedece a um princípio de associação entre o movimento e a forma do livro. É um clássico da ilustração que só agora chega a Portugal e que demonstra a sua intemporalidade e referencialidade para a bd, a ilustração e a escrita para a infância.
Livros ilustrados
Um homem verde num buraco muito fundo (David Machado, Carla Pott, Presença) confirma a
maturidade de David Machado e a sua identidade na escrita para crianças. A forma como transporta o leitor, a par das suas personagens, de um universo verosimil para um mundo de fantasia, continua a encantar a todos, que aceitam e desejam essa passagem. As ilustrações de Carla Pott fazem deste livro ilustrado um objecto de qualidade, integrando as imagens no texto, de tal forma que a mancha gráfica inverte a ideia de que a ilustração chegou depois do texto. É este que se fixa num espaço possível...
maturidade de David Machado e a sua identidade na escrita para crianças. A forma como transporta o leitor, a par das suas personagens, de um universo verosimil para um mundo de fantasia, continua a encantar a todos, que aceitam e desejam essa passagem. As ilustrações de Carla Pott fazem deste livro ilustrado um objecto de qualidade, integrando as imagens no texto, de tal forma que a mancha gráfica inverte a ideia de que a ilustração chegou depois do texto. É este que se fixa num espaço possível...Amarguinha (Tiago Rebelo, Danuta Wojciechowska, Presença) começa por uma premissa facilmente identificável pelos mais novos: a diferença perante o grupo. O nome da menina resulta do facto de não gostar de doces. Esta informação cativa imediamente o pequeno leitor. Mas não só. O registo é simples sem se prestar ao forçado simplismo de alguns livros destinados ao público infantil. Conta histórias de amizade entre Amarguinha e outras crianças, um amigo de sempre de quem é forçada a separar-se e uma nova amiga que encontra no parque infantil. Uma experiência por que todas as crianças passam, nas diversas mudanças que vão enfrentando ao longo do crescimento. Amarguinha inaugura uma colecção que pode ser acompanhada pelos leitores numa fase de leitura muitas vezes difícil, quando começam a desejar livros com mais texto, mas ainda não têm ritmo de leitura ou maturidade para as Aventuras que se seguirão.
Em 2008 a edição de livros para crianças ganhou um novo fôlego, as livrarias dedicaram-lhes mais espaço nos escaparates e nas montras, os pais estiveram mais atentos, e os educadores e professores começaram a procurar os melhores critérios de escolha. A literatura para a infância em Portugal começa a entrar na rota da literatura universal.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Balanço: livros sem texto
Ganharam peso nas estantes os álbuns sem texto dedicados à infância. Não se destinam necessariamente aos primeiros leitores mas, como todos os bons livros, podem começar a ser explorados a partir da mais tenra idade.
Iela Mari
A’O Balãozinho Vermelho, de Iela Mari, editado pela Kalandraka, juntaram-se A Árvore (Iela Mari) e O Ovo e a Galinha (Iela Mari e Enzo Mari) ambos editados pela Sá da Costa e descobertos na Feira do Livro de Lisboa. A boa notícia chegou quando a livraria da Sá da Costa reabriu, no Chiado, e os livros voltaram a estar disponíveis, não só estes dois mas também A maçã e a lagarta, o que nos permitiu completar a ‘colecção’. Para além dos preços apetecíveis (€3,50), ficámos ainda a saber que os volumes serão reeditados.
São clássicos da literatura para a infância, e na ilustração o leitor reconhece os passos narrativos, as elipses e os ênfases que tornam um esqueleto lógico num universo maravilhoso. O rigor dos contornos e das gradações cromáticas, bem como a temática da transformação, não limitam estes livros a uma condição científica ou sequer didáctica. São, isso sim, um paradigma artístico de um princípio filosófico: o tempo.
Comprovámos a pertinência de O Balãozinho Vermelho em Torres Vedras. Apresentávamos o livro ao grupo de mães que participava na Arte da Leitura. Desafiávamo-las a descobrirem em que se transformava o balão, a cada nova página. A medo, as adultas começavam a dar azo à imaginação quando uma menina de sete anos, filha de uma participante, se começou a interessar. Daí a aproximar-se de nós e monopolizar o jogo foi um pulo…
Onde está o bolo?
Thé Tjong-Khing
Caminho
Foi um dos livros do ano, para nós. Já falámos dele noutros momentos. É um álbum cativante, impossível de abandonar antes de responder ao desafio do título. Mas, tal como acontece numa emocionante história de acção, não nos cingimos aos acontecimentos principais. Começamos a prestar atenção e a desejar resolver outros mistérios secundários, que se relacionam entre si e com as personagens e acções do eixo narrativo central. Por isso, para além de perseguirmos os ladrões ratos na sua fuga com o bolo dos cães, suspendemos a respiração quando o porquinho cai da ravina, ou interrogamo-nos sobre o que terá sucedido à gata para ter uma ferida no nariz. Tudo isto sem uma única palavra, mas com páginas duplas que descrevem cada passo da narrativa numa pluralidade de personagens animais, objectos e movimentos que obrigam à releitura. Com este álbum aprender a ler é aprender a observar, e isso significa desenvolver, empiricamente, um ritmo adequado à apreensão da informação. O leitor pode ler uma página na totalidade, ou seguir cada personagem, reiniciando a leitura com um novo animal e novos acontecimentos. E é certo que haverá pormenores que nos escapam… A exploração deste álbum aproxima-se da leitura de BD, porque é no pormenor do desenho, num elemento mínimo propositadamente relegado para um canto da página, ou num mero contorno, ou numa forma incompleta, que se lê e desvendam outros níveis de leitura, os tais que compõem a teia narrativa. Como na BD, os olhos não seguem a geométrica regra da configuração gráfica do texto (de cima para baixo, da esquerda para a direita). A exigência pictórica está também em conseguir ler sem essa orientação, em busca de algo que à partida se desconhece.
Ah!
Josse Goffin
Kalandraka
A Kalandraka volta a apostar nos livros sem texto, agora com dois volumes, Ah! e Oh!. Mais uma vez, tal como acontece com os exemplos anteriores, estes álbuns prestam-se a uma mediação fácil e fértil em motivações distintas. Mas são também objectos que dialogam com os leitores sem necessitarem de mediadores. Em cada página dupla está uma imagem desenhada (pode ser um objecto, um animal, um fruto…) com uma única cor. Mas, quando desdobramos a folha da direita, percebemos que a parte que permanece na página da esquerda dá lugar a uma nova forma. Virar as páginas são duas descobertas. As fotografias de objectos de arte, que constam no interior da página dobrada são, por assim dizer, o elemento estranho, que se destaca pela diferença gráfica que denota, relativamente aos tons sempre monocromáticos das imagens desenhadas a lápis de cor. Para além daquele elemento estranho, que terá uma relação com o desenho, há ainda uma pista: o elemento que vai aparecer na página seguinte dobrada, consta da anterior, num plano mais discreto, e na cor alternada que ora aparece na página exterior, ora na interior (amarelo torrado e azul). A aproximação ao desenho infantil, delineado pelo ilustrador através da escolha da cor e da técnica ajuda ao processo de identificação e apropriação. Assemelha-se ao pacto narrativo, que acontece na ficção e implica que o leitor aceite acreditar na história que o escritor lhe conta através do seu estilo, das suas personagens, dos locais que visita, do seu narrador…
Pontos em comum
Em comum estes álbuns têm o ingrediente surpresa, que desperta a curiosidade e motiva para a leitura. Seja pela noção de puzzle que as ilustrações macroscópicas de O Ovo e a Galinha sugerem, seja pela decifração das formas vermelhas que flutuam no ar em O Balãozinho Vermelho, seja pelo desafio do título Onde está o bolo?, seja pelo desdobrar das páginas em Ah!
Em todos eles podemos contar uma história, fazer exercícios de previsão, produzir juízos de valor ou afectivos, escolher uma perspectiva e dar-lhe continuidade… Em todos, a narratividade e a plasticidade podem ser explorados. Finalmente, todos nos convocam e nos colocam desafios, a nós, adultos leitores, provando que a literatura para crianças, quando é literatura, não tem tempo nem destinatários exclusivos.
Iela Mari

A’O Balãozinho Vermelho, de Iela Mari, editado pela Kalandraka, juntaram-se A Árvore (Iela Mari) e O Ovo e a Galinha (Iela Mari e Enzo Mari) ambos editados pela Sá da Costa e descobertos na Feira do Livro de Lisboa. A boa notícia chegou quando a livraria da Sá da Costa reabriu, no Chiado, e os livros voltaram a estar disponíveis, não só estes dois mas também A maçã e a lagarta, o que nos permitiu completar a ‘colecção’. Para além dos preços apetecíveis (€3,50), ficámos ainda a saber que os volumes serão reeditados.
São clássicos da literatura para a infância, e na ilustração o leitor reconhece os passos narrativos, as elipses e os ênfases que tornam um esqueleto lógico num universo maravilhoso. O rigor dos contornos e das gradações cromáticas, bem como a temática da transformação, não limitam estes livros a uma condição científica ou sequer didáctica. São, isso sim, um paradigma artístico de um princípio filosófico: o tempo.
Comprovámos a pertinência de O Balãozinho Vermelho em Torres Vedras. Apresentávamos o livro ao grupo de mães que participava na Arte da Leitura. Desafiávamo-las a descobrirem em que se transformava o balão, a cada nova página. A medo, as adultas começavam a dar azo à imaginação quando uma menina de sete anos, filha de uma participante, se começou a interessar. Daí a aproximar-se de nós e monopolizar o jogo foi um pulo…
Onde está o bolo?

Thé Tjong-Khing
Caminho
Foi um dos livros do ano, para nós. Já falámos dele noutros momentos. É um álbum cativante, impossível de abandonar antes de responder ao desafio do título. Mas, tal como acontece numa emocionante história de acção, não nos cingimos aos acontecimentos principais. Começamos a prestar atenção e a desejar resolver outros mistérios secundários, que se relacionam entre si e com as personagens e acções do eixo narrativo central. Por isso, para além de perseguirmos os ladrões ratos na sua fuga com o bolo dos cães, suspendemos a respiração quando o porquinho cai da ravina, ou interrogamo-nos sobre o que terá sucedido à gata para ter uma ferida no nariz. Tudo isto sem uma única palavra, mas com páginas duplas que descrevem cada passo da narrativa numa pluralidade de personagens animais, objectos e movimentos que obrigam à releitura. Com este álbum aprender a ler é aprender a observar, e isso significa desenvolver, empiricamente, um ritmo adequado à apreensão da informação. O leitor pode ler uma página na totalidade, ou seguir cada personagem, reiniciando a leitura com um novo animal e novos acontecimentos. E é certo que haverá pormenores que nos escapam… A exploração deste álbum aproxima-se da leitura de BD, porque é no pormenor do desenho, num elemento mínimo propositadamente relegado para um canto da página, ou num mero contorno, ou numa forma incompleta, que se lê e desvendam outros níveis de leitura, os tais que compõem a teia narrativa. Como na BD, os olhos não seguem a geométrica regra da configuração gráfica do texto (de cima para baixo, da esquerda para a direita). A exigência pictórica está também em conseguir ler sem essa orientação, em busca de algo que à partida se desconhece.
Ah!

Josse Goffin
Kalandraka
A Kalandraka volta a apostar nos livros sem texto, agora com dois volumes, Ah! e Oh!. Mais uma vez, tal como acontece com os exemplos anteriores, estes álbuns prestam-se a uma mediação fácil e fértil em motivações distintas. Mas são também objectos que dialogam com os leitores sem necessitarem de mediadores. Em cada página dupla está uma imagem desenhada (pode ser um objecto, um animal, um fruto…) com uma única cor. Mas, quando desdobramos a folha da direita, percebemos que a parte que permanece na página da esquerda dá lugar a uma nova forma. Virar as páginas são duas descobertas. As fotografias de objectos de arte, que constam no interior da página dobrada são, por assim dizer, o elemento estranho, que se destaca pela diferença gráfica que denota, relativamente aos tons sempre monocromáticos das imagens desenhadas a lápis de cor. Para além daquele elemento estranho, que terá uma relação com o desenho, há ainda uma pista: o elemento que vai aparecer na página seguinte dobrada, consta da anterior, num plano mais discreto, e na cor alternada que ora aparece na página exterior, ora na interior (amarelo torrado e azul). A aproximação ao desenho infantil, delineado pelo ilustrador através da escolha da cor e da técnica ajuda ao processo de identificação e apropriação. Assemelha-se ao pacto narrativo, que acontece na ficção e implica que o leitor aceite acreditar na história que o escritor lhe conta através do seu estilo, das suas personagens, dos locais que visita, do seu narrador…
Pontos em comum
Em comum estes álbuns têm o ingrediente surpresa, que desperta a curiosidade e motiva para a leitura. Seja pela noção de puzzle que as ilustrações macroscópicas de O Ovo e a Galinha sugerem, seja pela decifração das formas vermelhas que flutuam no ar em O Balãozinho Vermelho, seja pelo desafio do título Onde está o bolo?, seja pelo desdobrar das páginas em Ah!
Em todos eles podemos contar uma história, fazer exercícios de previsão, produzir juízos de valor ou afectivos, escolher uma perspectiva e dar-lhe continuidade… Em todos, a narratividade e a plasticidade podem ser explorados. Finalmente, todos nos convocam e nos colocam desafios, a nós, adultos leitores, provando que a literatura para crianças, quando é literatura, não tem tempo nem destinatários exclusivos.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Ilustração Finlandesa em visita
Para as férias natalícias, sugere-se uma visita à galeria do Palácio Galveias, no Campo Pequeno em Lisboa, onde está patente, até 25 de Janeiro, uma exposição de 29 ilustradores finlandeses, com trabalhos dedicados à ilustração de livros para a infância: Truth and Tales.
Alguns dos livros também estão presentes, em camas, sofás e outras espécies de assentos, pintados a rigor. Aí podemos comparar a ordem pela qual as ilustrações aparecem nos livros e nas paredes, e chegar à conclusão de que não é a mesma. Podemos até, prever a ordem pelas quais aparecem nos livros, a partir da sua observação.Outro aspecto interessante que resulta da presença dos livros é a possibilidade de comparar os originais com as reproduções em papel, ao nível cromático, de contraste e de brilho.
O espaço está dividido em três temas: o bosque, o mar e a cidade. Por isso encontramos trabalhos dos mesmos ilustradores em mais do que uma sala. As referências são diversas, desde as temáticas e imaginários tradicionais (onde os animais desempenham um papel central) ao célebre universo fantástico dos Mumins.
As tendências estéticas variam entre as experiências plásticas com colagens e introdução de outros materiais e o traço minucioso da descrição figurativa.
A entrada é gratuita, o local é central e a galeria está aberta até às 19horas todos os dias excepto às 2ªs. Não há razão para não ir.
domingo, 30 de novembro de 2008
Palavra de Trapos na FCG
Nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe a Conferência Palavra de Trapos, a língua que os livros falam, dedicada à Literatura Infantil. Entre autores, professores e investigadores, o leque de comunicações e mesas redondas adivinha-se aliciante.O programa pode ser consultado aqui. A entrada, como sempre, é livre.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Exposição de Cristina Valadas no FIBDA
Como acontece todos os anos, a vencedora do Prémio Nacional de Ilustração (O rapaz que sabia acordar a Primavera, com texto de Luísa Dacosta, Asa) vê uma mostra da sua obra exposta na Casa Roque Gameiro, no âmbito do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Os horários são muito estreitos, mas valerá certamente a pena fazer um esforço para ver os originais da ilustradora.
No seu site (vd. lugares ilustrados na barra lateral) podemos ver algumas obras que integraram outras exposições, assim como algumas das ilustrações que integram os diversos livros que constam já da sua bibliografia.
No seu site (vd. lugares ilustrados na barra lateral) podemos ver algumas obras que integraram outras exposições, assim como algumas das ilustrações que integram os diversos livros que constam já da sua bibliografia.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Chegou mais um livro sem texto!

De repente, parece que a enorme lacuna da não edição de albuns sem texto está a diminuir. Acaba de chegar mais um, desta feita com a chancela do Planeta Tangerina e assinado por Bernardo Carvalho.
A ilustração vem na linha de Pê de Pai, com a totalidade das páginas preenchidas por cor, e a escolha de uma relação cromática que assenta em três ou quatro opções, reduzindo assim a ligação ao figurativo. O minimalismo de algumas páginas, onde consta apenas um elemento, ou parte dele, de uma perspectiva inesperada, contribui para a criação da narrativa visual, que se sustenta na gradual informação que as imagens vão dando a conhecer. O processo de leitura das imagens é em tudo semelhante ao da leitura de texto, no que respeita a progressão narrativa. Evidentemente, a percepção física do espaço é diferente, já que não obedece à ordem dos sistemas de escrita. O olhar deve percorrer toda a página e aí a perspectiva em que as figuras são apresentadas é muito importante para encontrar a mensagem.
À medida que a narrativa evolui, a página vai ficando cada vez mais preenchida, resultando desta acumulação dois efeitos diegéticos: um diacrónico e outro simbólico. A sucessão de acontecimentos, assente na repetição de uma acção e na acumulação de objectos dá ao texto visual uma lógica e um sentido crítico.
Este livro sem imagens é uma história ansiosa por ser lida e contada...
Bernardo Carvalho, Um dia na Praia, Planeta Tangerina
domingo, 5 de outubro de 2008
7º LI, a 10 e 11 de Outubro
O 7º Encontro Nacional (5º Internacional) de Investigação em Leitura, Literatura Infantil & Ilustração vai decorrer entre 10 e 11 de Outubro no Campus de Gualtar, em Braga.Discutir-se-ão, como sempre, questões relacionadas com os três magnos temas que servem de base a todos os encontros. Participam especialistas portugueses e estrangeiros. No site do Encontro pode-se aceder às actas dos encontros anteriores (títulos das comunicações e alguns resumos), bem como ao programa do actual Encontro, aqui.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Curso de Pós-Graduação em Livro Infantil
Já fazia falta um curso prático que tivesse em atenção a prática diária dos mediadores de leitura, e que juntasse questões como as da edição, ilustração e literatura infantil. Vai acontecer pela primeira vez este ano lectivo, na Universidade Católica, em Lisboa.
A orientação é de Dora Batalim e José Alfaro. Os orientadores dos módulos são consagrados, com créditos firmados.
O programa pode ser consultado aqui.
Fica apenas o desejo de que as Universidades Públicas se empenhem igualmente na área do livro infantil, e também juvenil, para que o acesso ao conhecimento não se restrinja a quem possa desembolsar propinas avultadas.
A orientação é de Dora Batalim e José Alfaro. Os orientadores dos módulos são consagrados, com créditos firmados.
O programa pode ser consultado aqui.
Fica apenas o desejo de que as Universidades Públicas se empenhem igualmente na área do livro infantil, e também juvenil, para que o acesso ao conhecimento não se restrinja a quem possa desembolsar propinas avultadas.
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quarta-feira, 30 de julho de 2008
O que fizeram as crianças do Barreiro a partir das histórias tradicionais
A partir de contos tradicionais em que o Lobo estivesse presente, alunos do pré-escolar ao 4º ano do 1º ciclo realizaram trabalhos diversos, que acompanharam a exposição das ilustrações de João Fazenda, na Ilustrarte, no Barreiro.
Só desenhos, são 153, expostos ao longo de uma imensa parede. Há também as casas...
Aqui fica uma visitinha...
Só desenhos, são 153, expostos ao longo de uma imensa parede. Há também as casas...
Aqui fica uma visitinha...
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Mini-visita virtual a Uma Biblioteca Imaginária
Como tínhamos previsto, conseguimos visitar a exposição Uma Biblioteca Imaginária na tarde de domingo. Com o catálogo, pudemos complementar as sugestões das ilustrações, com os pequenos textos dos ilustradores, sobre a temática dos seus livros ainda inexistentes.
Há ideias para todos os gostos, desde a exploração dos sonhos, de conceitos como o tempo, o vazio, o silêncio, até aos ambientes das letras e dos livros, passando por enciclopédias, narrativas oníricas e lúdicas.
Há ilustrações que cumprem a composição da capa, com capa, contracapa e lombada, há ilustrações com títulos, autores e editoras, há ilustrações sem qualquer palavra.
É inevitável imaginar, dialogar, sorrir...
Há ideias para todos os gostos, desde a exploração dos sonhos, de conceitos como o tempo, o vazio, o silêncio, até aos ambientes das letras e dos livros, passando por enciclopédias, narrativas oníricas e lúdicas.
Há ilustrações que cumprem a composição da capa, com capa, contracapa e lombada, há ilustrações com títulos, autores e editoras, há ilustrações sem qualquer palavra.
É inevitável imaginar, dialogar, sorrir...
sábado, 26 de julho de 2008
Livros imaginários na Ilustrarte
Está mesmo a terminar a exposição Uma Biblioteca Imaginária, livros infantis que (ainda) não existem que a Ilustrarte acolhe, como sempre, no Auditório Augusto Cabrita, no Barreiro.A ideia foi da ex-directora da Biblioteca Infantil Internacional de Munique, que desafiou 72 ilustradores a criarem uma capa a partir da ideia de um livro que gostassem de ilustrar. No fundo, cada um teve o poder de imaginar e objectivar um livro único, que se revela através da ilustração da capa.
Como a exposição só está patente ao público até dia 31 deste mês, contamos vê-la amanhã, logo pelas 14h, à hora da abertura. Se não for possível, ainda poderemos fazê-lo durante a semana, inclusivamente entre as 20h e as 22h, o que me parece bastante simpático.
A ideia, de tão simples, parece-me muito rica e estimulante, não só do ponto de vista criativo, como do ponto de vista da promoção da leitura. Levar o público a dialogar com a ilustração como estímulo paratextual, narrativo e simbólico aproxima-o afectivamente do pictórico, o que é essencial para que a palavra deixe de assumir um lugar de primazia em relação à imagem.
Na página da Ilustrarte pode ler-se sucintamente um projecto levado a cabo por escolas do pré-escolar e 1º ciclo em torno de contos com lobos, e da sua relação
com a imagem e a exposição Andam lobos à solta no Barreiro! que integra as imagens criadas por João Fazenda para o texto de João Paulo Cotrim, a partir de O Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Esta exposição também pode ser visitada até 31 de Julho, nos mesmos horários.
com a imagem e a exposição Andam lobos à solta no Barreiro! que integra as imagens criadas por João Fazenda para o texto de João Paulo Cotrim, a partir de O Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Esta exposição também pode ser visitada até 31 de Julho, nos mesmos horários.
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