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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Twitter aliado da leitura

O professor José Luiz Goldfarb, curador do Prémio Jacubi, defende que o twitter pode ser um aliado da leitura.
Certo é que as novas plataformas têm sido vistas de forma extremada, ora por acérrimos defensores, ora por aqueles que vaticinam o declínio da língua. A discussão eterna entre forma e conteúdo ganha novos argumentos. No entanto, para quem defende que uma não vive sem a outra, estas plataformas constituem um novo desafio estético e informativo. Para além da comunicação em tempo real, o twitter, como os sms, permitem o desenvolvimento da capacidade de síntese e uma melhor distinção entre essencial e acessório.
Por outro lado, é importante que a concentração seja explorada e desenvolvida através de outras actividades para que o texto, escrito ou lido, não se afaste do horizonte das gerações mais próximas do universo virtual.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Que leitores são os nossos alunos? iii

Na acção de formação para professores que decorre em Coruche propus aos formandos que criassem uma actividade que lhes permitisse conhecer os seus alunos enquanto leitores.
Eis a proposta de um dos grupos:
A actividade dirigia-se a uma turma de 10º ano, mas poder-se-ia aplicar a qualquer grau de ensino.
O professor apresenta um saco opaco cheio de livros diversos (de géneros e temáticas distintas). Distribui vendas pelos alunos que se sentam em círculo e as colocam. Em seguida, um a um tira um livro, que escolherá pelo tacto. (Provavelmente alguns alunos escolherão livros mais estreitos, outros mais pequenos, outros de capa dura, de acordo com os preconceitos de leitura que cada um terá.)
Finalmente os alunos retiram as vendas e observam os livros, dialongando sobre o que lhes coube em sorte e fazendo apreciações sobre os livros dos colegas. Haverá livros conhecidos, outros desconhecidos, livros grossos de Banda-Desenhada (contrariando a ideia de que todos os livros grossos são difíceis de ler). A principal questão que norteará a discussão será a desilusão ou o agrado dos alunos relativamente aos livros disponíveis.
Assim o professor possibilita aos alunos uma actividade lúdica de contacto com os livros, sem os obrigar a nenhuma leitura posterior. Será um momento em que se estimulará a leitura como comportamento através da partilha entre pares. Para o sucesso da actividade é essencial que nada mais seja feito com os livros, assim como que estes constem da biblioteca escolar, no caso de algum aluno manifestar interesse em lê-lo espontaneamente. Eventualmente, a actividade poderá até ter lugar no espaço da biblioteca.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Importa corrigir e pedir desculpa

O 32º Congresso Internacional IBBY ocorrerá apenas em Setembro de 2010, já que tem lugar apenas de 2 em 2 anos, e não na próxima semana, como foi dito. O que será relevante destacar, quando falta ainda um ano para o Encontro, é que todos os interessados poderão enviar propostas de comunicações para cada um dos seminários, até 30 de Outubro de 2009. O envio das propostas poderá ser feito para o email que o site do Congresso disponibiliza. Todas as comunicações serão avaliadas pelo Conselho Científico do Congresso, podendo ser redigidas em castelhano, galego, catalão, basco, português e inglês. Um obrigado à Sara Reis da Silva que fez o reparo.
Assim, quem sabe se para o ano ainda tenho tempo de ir assistir a alguns seminários...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

32º Congresso Internacional Ibby

É já na próxima semana, entre 8 e 12 de Setembro em Santiago de Compostela. "A força das minorias" é o tema orientador para conferências, mesas redondas e oficinas. A literatura infantil e juvenil será abordada segundo perspectivas linguísticas, culturais ou de género. Os subtemas prometem perspectivas e reflexões pertinentes numa época em que se infantiliza a sociedade mas não se cuida da identidade infantil e juvenil.
O programa completo e outras informações constam no site do Congresso. Se pudesse, estaria lá.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Em visita a... Brasil que lê

Brasil que lê é um blog brasileiro onde encontramos notícias sobre o livro e a leitura. Ficamos a saber como funcionam projectos de financiamento, conhecemos iniciativas diversas de promoção da leitura como bibliotecas em autocarros e barcos, ou ainda acedemos a opiniões e testemunhos associados ao livro e à leitura. Há links para outros sites relacionados.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Arte da Leitura em Vila Velha de Ródão II

A acção foi surpreendente. A experiência de acções passadas permitiu-nos prever tendências, e presumir certezas onde não as há... As grandes revelações, desta vez, brindaram-nos a nós. Devíamos ter percebido, logo na 6ª feira, que algo de diferente se passava. Das nove participantes, uma era a Bibliotecária, e outra a professora responsável pela Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas de Vila Velha. Significa que a maioria das participantes estavam lá na sua condição de mães, o que é raro acontecer. Foi também reconfortante constatarmos que Graça Batista tem a sensibilidade necessária para divulgar as iniciativas da Biblioteca pessoalmente, conversando com as pessoas, convidando-as e incentivando-as a participar. Foram as próprias mães quem no-lo disseram, depois da própria Graça já ter partilhado a estratégia connosco. Outro aspecto a destacar foi a forma descontraída como resolveu todas as contrariedades apresentadas pelas mães, relativamente à sua disponibilidade.
No dia seguinte, para além das mães que já conheciamos da véspera, apareceu mais uma mãe, com o seu filhote, cujo contributo foi bastante positivo para o bom ambiente e participação espontânea das outras crianças. Começámos, como sempre, por convidar as crianças a escolher um de dois livros para ser lido em voz alta. A escolha foi inédita: venceu Donde vem a Pimenta? As mães riram-se perante a nossa surpresa. Tinhamos-lhes confidenciado que certamente seria É tão injusto! o primeiro livro a ser lido, como sempre acontecera. Mais, praticamente lhes assegurei que as crianças mais velhas escolheriam Donde vem a Pimenta?, e sairiam vencidas. Mas João, de dez anos, votou vencido no É tão injusto!
A leitura dos livros por ordem oposta não influenciou negativamente a sessão, mas serviu para voltarmos a tomar consciência de que, quando trabalhamos com pessoas, não há certezas absolutas e as estratégias não funcionam sempre da mesma forma.
Quando elaboraram a lista final (cada par escolheu cinco livros) dos livros que mais gostariam de ler, os pares optaram por obras diferentes, havendo apenas dois livros que se repetiram: Os miúdos do piolho/Os piolhos do miúdo e O sonhador. Também não é normal, mas quando as mães e tias (havia três com as sobrinhas) desabafaram que as negociações foram árduas, constatámos que a mensagem de 6ª feira tinha passado: as adultas não deram descanso aos mais pequenos.
A terminar lemos o É tão injusto!...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Arte da Leitura em Vila Velha de Ródão

Voltámos à estrada no fim-de-semana passado. Sem incidentes meteorológicos. A recepção na Biblioteca Municipal foi muito calorosa. O espaço é muito bonito e funcional. Conjuga espaços amplos e salas de leitura comunicantes com uma vista privilegiada sobre o rio Tejo. Inaugurada em Outubro, a Biblioteca José Baptista Martins tem como vizinha a Casa de Artes e Cultura do Tejo. A gestão de programação é feita pela bibliotecária, Graça Martins, que assim optimiza recursos e aproxima públicos.
Na Biblioteca, há projectos de continuidade para todos os públicos:
Aprender na Biblioteca (informática, ler melhor, inglês);
Mente sã em corpo são destina-se a idosos e realiza-se quer na Biblioteca Municipal, quer em Lares de 3ª Idade. Trabalha-se a motricidade e realizam-se actividades de leitura recreativa.
Vamos ouvir os livros: aos sábados, a Hora do Conto é dinamizada por voluntários da comunidade local, que contam ou lêem uma história, na acolhedora sala do conto.
Este sábado coube-nos a nós... Escolhemos As Preocupações do Billy (Anthony Browne, Kalandraka) e apresentámos a obra de forma muito simples. Introduzimos o tema através do diálogo sobre preocupações (que preocupações tem o nosso público?), seguimos com a leitura do livro até à parcial resolução do problema pela avó e ensaiámos uma previsão do final em conjunto. Depois de inúmeras sugestões finalizámos a leitura. Foi a nossa primeira Hora do Conto e confirmámos as suas regras de ouro: conhecer bem e gostar muito da história que se conta ou lê. Todos o podem fazer.



domingo, 28 de dezembro de 2008

Tempo de balanço

Um balanço é um exercício de exposição que se cumpre no tempo, quando se compara a relevância do presente com a perdurabilidade dessa relevância - quando o presente se torna passado.
Por isso, o balanço que se segue é estritamente pessoal e obedece a um critério apenas: as nossas leituras em 2008. É por isso possível que constem livros que não são novidades, e ainda bem. As normas do mercado ainda não regulam as nossas curiosidades nem aprendizagens.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Faz falta ouvir ler

A Casa da Leitura publica aqui o texto que Luísa Ducla Soares leu na última edição das Palavras Andarilhas. Na introdução, reconhecemos o estilo comparativo que aproxima a língua dos afectos, pressentimos um tom doce e terno, de quem nos fala delicada e dedicadamente. Mas serve esta para que a autora reflicta sobre a importância da literatura oral, do acto de contar histórias, do património herdado que funda o imaginário e a identidade da criança.
Hoje, na sessão que a Fundação Saramago dedicou aos autores portugueses, foi uma sala cheia que se deliciou, durante duas horas, com as leituras que se sucederam. Houve sorrisos e até murmúrios bem humorados em resultado de excertos de Eça, Camilo, Garrett, até Fernando Pessoa. Também a melancolia assomou na audição de Soeiro Pereira Gomes, Sophia de Mello Breyner, Manuel da Fonseca, David Mourão-Ferreira.
Certo é que foi bom ouvir ler, certo é que faz falta. Quando se leva as pessoas a ouvir uma boa história, oferenda-se-lhes literatura, língua, património, imaginário, individual e colectivo. Temos vindo a esquecer que ler pode ser transitivo e colectivo, e provavelmente no esquecimento reside tamanho empobrecimento, de que fala Luísa Ducla Soares. Porque não pode alguém, que não lê, ter acesso à língua literária? Porque tem a leitura de ser individual se em torno dela há hoje um marketing feroz que manipula a própria liberdade individual da escolha? Tamanho paradoxo! Faz falta ouvir ler e trazer de novo para a roda o prazer e emoção que as nossas expressões denunciam.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Quem não gosta de ouvir ler?

Hoje, na conversa de apresentação de mais um Ver para Crer com o 7ºA da EB 2/3 João de Deus, em Montemor, um aluno dizia que é uma pena os livros terem de ser lidos, que demora muito tempo. Ainda se alguém lhos lesse...
- Gostavas que alguém te lesse os livros?
- Sim, gosto de ouvir a minha mãe, quando lê histórias ao meu irmão...
Cada vez mais me convenço que recuperariamos muitos adolescentes para a leitura se lhes lêssemos em voz alta. Acontece com frequência calarem-se quando leio o início de um livro. Progressivamente o silêncio instala-se, com alguns alunos a pedirem aos colegas para estes se calarem, e no final (se não demorar muito tempo) não há ruído.
O mesmo se passa com crianças do 1º ciclo, mesmo as mais irrequietas, mesmo aquelas que têm problemas de concentração ou que não conseguem estar sossegadas. A leitura impõe um ritmo ao corpo, embala através do timbre, do tom, da expressividade. O seu efeito não resulta apenas do interesse pelo texto mas também da reacção física ao som.
Já Daniel Pennac, em Como um romance, explora com sucesso esta estratégia. Não é nada de novo, mas continua a constatar-se.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Livros sem texto - um clássico II

Quando se recupera a ideia de que fazem falta livros sem texto, é importante não esquecer que os há, desde há muito. Mas a sua aceitação e interpretação tem sido polémica e talvez esta dualidade não se tenha alterado assim tanto.
O serviço Leitura, da Fundação Calouste Gulbenkian, disponibiliza aos seus leitores virtuais as recensões que foram sendo feitas aos livros da sua vastíssima biblioteca, em Rol de Livros. Ali encontrei as recensões aos livros A galinha e o ovo e A árvore.


O argumento de Mário Braga para considerar o livro apenas aceitável não soará descabido a muitos, que hoje acrescentarão que estas ilustrações estão ultrapassadas e que não são suficientemente apelativas para as crianças. Já Álvaro Manuel Machado põe de parte a perspectiva didáctica e analisa apenas o objecto e o seu valor literário/ artístico. Um clássico é o que persiste no tempo, o que resiste à sua contemporaneidade.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Diz-me quem és em Ilhavo - Balanço

Os dois ateliers correram bem com algumas diferenças. O primeiro grupo era do 6º ano, pelo que a leitura ainda não era uma inimiga mortal... Havia até quem ainda manifestasse o seu prazer em ler com vivacidade. O grande momento foi o da divulgação dos resultados do questionário acerca do perfil de leitor. Um dos alunos, que pertencia ao grupo dos entusiastas, manifestou o seu desagrado por um colega ser viciado. Considerava o primeiro que lia mais do que o segundo, e perguntava ao outro quantos volumes do Harry Potter já tinha lido... Entusiasmos destes, queremos sempre mais!
Já a turma do 9º ano teve uma atitude radicalmente oposta. À pergunta "Alguém gosta de ler?" ninguém levantou o dedo. Só num segundo momento, três alunas o fizeram, timidamente. Depois, na votação dos livros, o comportamento mudou e indiciou que o grupo tinha um forte preconceito relativamente à leitura, mais do que incuriosidade. De tal maneira que todos os livros receberam votos, sendo os mais votados o Diário Secreto de Adrian Mole (14 votos), O rapaz que chutava porcos (10 votos) e a Biblioteca Mágica (9 votos). Mas o momento mais divertido da sessão voltou a ser o anúncio dos perfis, com a maioria dos alunos a corresponderem a leitores entusiastas. Havia algumas vozes discordantes. A única aluna cuja votação a dava como viciada estava inconformada, porque não queria de todo pertencer a este perfil. No entanto, o restante grupo não ficou nada surpreendido, reiterando a certeza dos seus comportamentos de leitora.
Ficou claro, mais uma vez, que muitos dos adolescentes não leitores, não o são efectivamente. Muitos desconhecem a existência de livros sobre assuntos que lhes interessem (sugeri a alguns dos rapazes o Diário de um skin, resumindo o seu conteúdo, e percebi que estavam curiosos), ou em formatos mais sugestivos. O Diário Secreto de Adrian Mole despertou interesse pela mancha gráfica: textos curtos, intercalados com datas. É certo que a leitura de algumas passagens ajudou. Quando desvendei que o livro mais difícil era precisamente este, os alunos mostraram-se surpreendidos, considerando este o mais acessível... A professora comprometeu-se e comprometeu o grupo com a leitura do livro. É um começo!

domingo, 13 de abril de 2008

Utilidade/ inutilidade da leitura

A conselho da minha companheira no Cadeirão Voltaire, fui ler o artigo da jornalista Elizabeth Flores Rodriguez, «Rápido a ninguna parte (II)» sobre a experiência que teve ao frequentar um curso para ler mais depressa. O desenvolvimento dos músculos oculares, bem como o desinteresse dos colegas pela leitura servem de pontos de partida para uma conclusão: o prazer da leitura está umbilicalmente ligado à sua inutilidade.
No entanto, a leitura rápida, treinada para encontrar informação específica, é indiscutivelmente útil em diversos contextos do quotidiano. Mas não são apenas estas técnicas que a sustentam. Sem se ler frequentemente, nunca se terá o ritmo necessário para encontrar referências, expressões ou informações concretas numa imensa mancha gráfica. As afirmações de Elisabeth Rodriguez são igualmente relevantes no que respeita ao imediato interesse (neste caso de estudantes) por produtos que facilitem o acesso a todo o tipo de conteúdos. Tal como acontece noutras áreas, também no que concerne a leitura e a escrita, há muitos que pensam que estas competências podem ser interiorizadas em formatos de consumo que contornarão o treino continuado. Há um divórcio da leitura, mas uma ansiedade de receber informação. Neste paradoxo funda-se uma analogia enganadora com outros produtos prêt-à-porter, de modo a escamotear qualquer ideia de continuidade, concentração e dedicação. Este esforço é duplamente inglório porque em primeiro lugar não há produtos que validem o que só um processo permanente nos dá, e em segundo porque inviabiliza todas as experiências associadas à leitura. E, sabe quem lê, como são gratificantes...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A importância dos objectivos específicos no ensino da leitura

Ontem, na formação de professores em Montemor, deparei-me com a necessidade de justificar o seguinte critério: a cada actividade deveria corresponder um único objectivo específico.
Uma das formandas tinha escolhido mais do que um. Interpelei-a perguntando se tinha começado a pensar na actividade a partir do objectivo específico ou o inverso. Garantiu-me que tinha partido do objectivo específico, mas que os três escolhidos eram possíveis.
Assim, parece-me importante esclarecer alguns pontos.
Os objectivos específicos são importantes para aqueles que, como eu, defendem que a língua portuguesa ou o português, deve ser ensinado maioritariamente enquanto treino de competências gerais (leitura, escrita, oralidade, funcionamento da língua). A ideia de treino implica um método, e esse método quer-se diversificado nas abordagens (actividades) e plural nas suas componentes. Trata-se de tentar isolar os vários elementos que compõem a aprendizagem (neste caso) da leitura, para que possam ser isolados. Ao identificarmos que é necessário um aluno identificar personagens, distinguir o essencial do acessório, ou até distinguir tipologias de textos, podemos mais facilmente treinar cada um destes objectivos, identificando as lacunas de cada aluno e testando estratégias distintas, de forma a chegar ao maior número de alunos possível. Por isso, se partirmos de um único objectivo, só depois escolhemos a actividade/ exercício de treino, bem como o material mais adequado (por material entenda-se texto). Presumo que, de acordo com este processo, será difícil pensar em vários objectivos. A ideia de juntar vários objectivos específicos para uma única actividade corresponde muitas vezes a uma ansiedade típica no docente: o de cumprir o programa, o de esgotar o texto. Muitas vezes, é estranho para o docente não 'aproveitar' um texto para dar n conteúdos programáticos. Acontece que, se pensarmos em competências e não em conteúdos, não sentimos a tentação de aproveitar nada, porque teremos sempre tempo para treinar repetidamente os objectivos específicos básicos para que os nossos alunos consigam, de forma autónoma, apreender um enunciado. É claro que não podemos ignorar os conteúdos literários associados ao treino das competências. Estes conteúdos são, no entanto, informação complementar, e não o centro dos programas de português. Mas mesmo para os conteúdos podemos estabelecer objectivos específicos como: conhecer contexto social da época; identificar características históricas; reconhecer características literárias...
Isto não significa que os alunos nunca sejam confrontados com a experiência de leitura ascendente, que comummente conhecemos como leitura e interpretação de texto, em que se treinam os vários elementos que levam à compreensão ao mesmo tempo, a partir de um único instrumento. O que me parece importante é isolar as partes e juntá-las sucessivamente, para ginasticar a leitura, e criar mecanismos que permitam aos alunos relacionar as partes constituintes do texto depois de as identificarem e não apenas no seu conjunto.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Porque é preciso ler... para as crianças do 1º ciclo

Ando às voltas com os portfólios das professoras que participaram na acção de formação «Promoção da leitura: diversificar estratégias na abordagem ao treino e à leitura recreativa».
Uma delas perguntou aos seus alunos do 1º ano qual a finalidade da leitura. Reproduzo aqui a breve descrição que a prof. Ana Paula Soares integrou no seu portfólio, ainda que um pouco à sua revelia...

«"É preciso ler!" Aceitei a sugestão de Daniel Pennac e desafiei os alunos a responderem a esta questão-base: "É preciso ler" para quê?
As respostas foram, entre outras, as seguintes:
-Para sabermos as coisas
-Para tirar um curso
-Para os pais ficarem contentes
-Para aprendermos
-Para ficarmos inteligentes
-Para aprendermos a escrever
-Para ser muito esperto
-Para sabermos os nomes das coisas
-Para fazer bem à saúde
Face a estas afirmações,impõe-se uma observação. Os nossos alunos podem ler pouco mas reconhecem no livro potencialidades diversas.»

sábado, 8 de março de 2008

Leitura e sucesso escolar

Aconteceu na última semana: constatei que um adolescente com hábitos de leitura lê com dificuldade em voz alta. Mais, a disciplina de português é uma das mais difíceis para si. Como o podemos explicar? Estamos perante um jovem de 14/ 15 anos que lê um livro em duas semanas, entre aulas e outras actividades, que tem boas notas na generalidade mas não tem o mesmo sucesso na área da sua língua materna.
Não é caso único. O mesmo aconteceu com colegas meus, que sempre tiveram notas baixas e dificuldades com o funcionamento da língua materna, do francês ou até do inglês; bem como com a exposição de conteúdos programáticos, e hoje são leitores competentes, não só de livros como da profusão de enunciados que constantemente nos assolam.
Não há sempre uma relação unívoca entre o ensino e o desenvolvimento intelectual e cultural dos alunos, pelo que a sua inteligência não deve ser medida apenas em função do seu sucesso escolar. O sentido crítico, a inteligência emocional, o desenvolvimento do gosto devem ser incentivados no processo educativo, mas não se lhe resumem.
Por isso, separar a leitura recreativa da leitura orientada/ treino de leitura é essencial para caminhar no duplo sentido de conferir autonomia de leitura aos alunos, por um lado, e dotá-los de competências para que esta se faça sem sacrifício, por outro.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Questões de leitura(s)

No blog Bomba Inteligente pode ser lido um texto de Abel Barros Baptista sobre a mais recente polémica entre alguns autores de blogs portugueses. Na origem desta troca de opiniões está um repto que circula por aí pedindo que sejam indicados dez livros que não mudaram a vida de quem os leu.
O que está aqui em causa não é a legitimidade de listas que nos são oferecidas por intelectuais da nossa praça. Se observarmos as estatísticas de iliteracia, um problema que deve ser encarado de frente e para o qual se vão testando algumas soluções, podemos pensar até que ponto estes exercícios podem acrescentar alguma coisa a uma discussão essencial. A leitura não deve ser encarada como um exercício de elites. Pode ser curioso saber quem leu o quê, mas ninguém deve sentir-se menorizado por não ter lido certos autores de referência.
O exercício de leitura não deve cingir-se a critérios «impostos» por terceiros que, pela sua visibilidade, são lidos e escutados. Deve, isso sim, constituir um exercício de liberdade pessoal.
«E depois, entre quem os lê, há os conservadores e os que, não sendo conservadores, querem preservar a vida de mudanças não planeadas. Esses dois tipos de leitores não têm porventura direito à existência?»
Têm, sem dúvida.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Diz-me quem és, dir-te-ei o que lês II

Na segunda-feira concluí o primeiro atelier Diz-me quem és, dir-te-ei o que lês. O resultado foi muito elucidativo: não há uma relação óbvia entre os livros e os indícios (objectos, imagens, excertos) escolhidos. Mas entre o perfil de leitor de cada um e os livros que considera mais interessantes, sim. Apesar de ter achado que o Pedro iria escolher o Diário de Adrian Mole, não fiquei surpreendida quando optou pela Biblioteca Mágica, porque é um livro com muita informação e suspense, que não aparenta infantilidade. Os grandes vencedores foram mais uma vez As crónicas de Spiderwick (nove votos); Uma argola no umbigo (sete votos) e Biblioteca Mágica (seis votos). Outro dado interessante, que reflecte os hábitos de leitura do grupo, é o seu conhecimento acerca dos autores ou dos livros propostos. Uma aluna estava a ler o último livro de Ana Saldanha, O diário de Rita R; outro estava a ler o terceiro diário de Adrian Mole; e ainda outro já tinha lido um dos volumes da colecção das Crónicas de Spiderwick. Muitos conheciam Alexandre Honrado e Alice Vieira, desde o 6º ano. O trabalho escolar é complementado em casa, percebe-se pela maturidade com que falam da leitura. Este público tem todas as condições para se tornar mais consciente, mais crítico e mais exigente, se continuar a ser motivado. Para além da disciplina, são dotados de interesse e curiosidade pelo diálogo. Isso é precioso.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Casa da Leitura abre as suas portas

A Casa da Leitura, o novo portal da Gulbenkian destinado à promoção da leitura, entra em funcionamento no dia 9 de Fevereiro.
O site destina-se aos mediadores da leitura (bibliotecários, professores) e ao público em geral, sobretudo pais, jornalistas e educadores, proporcionando-lhes material para a promoção da leitura junto dos mais jovens.
Além das centenas de recensões de livros destinados à infância e adolescência, estarão disponíveis biografias e bibliografias com actualização semanal e respostas a dúvidas de famílias e profissionais sobre práticas de leitura.
O site terá duas salas, uma das quais com o Serviço de Orientação da Leitura, contendo informação sobre as edições de livros, recentes e clássicas, da literatura para a infância e juventude. A outra sala do portal, intitulada ABZ da Leitura, será dedicada aos mediadores e especialistas, mas terá também acesso livre do público.
Este departamento conterá bibliografia específica, seleccionada segundo uma avaliação criteriosa das carências nacionais na área, e permitindo a publicação da investigação nacional.
O site terá laboratórios espalhados pelo país que irão atestar no terreno as sugestões e práticas apresentadas.
No âmbito do projecto, a Gulbenkian deverá, no prazo de um ano, disponibilizar um outro site com objectivos semelhantes mas dirigido exclusivamente ao público jovem.

Fonte: Lusa

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Ler a infância com olhos de adulta

Quando estivemos em Sines, com a acção A arte da leitura de pais para filhos, estive a reler Lote 12, 2º fte, da Alice Vieira. Foi o meu livro preferido durante anos. A sensação foi bastante estranha, porque foi como se estivesse em frente a um espelho a ver-me. Identifiquei-me de tal forma com o livro que questionei-me se esta minha nova leitura de adulta estava a condicionar uma interpretação não comprometida do texto, ou se pelo contrário, aquele livro teria sido responsável por grande parte das imagens mentais que fui tendo e aprofundando. Questões como a rotina familiar, as opiniões políticas, as angústias da jovem Mariana, a sua relação com o espaço...
Não quero fazer associações primárias mas gostava de confirmar que relação têm os adultos com livros que os tenham marcado profundamente quando eram crianças ou pré-adolescentes e que não tenham voltado a reler até à idade adulta. Creio até que as conclusões poderiam ser úteis para a Promoção da Leitura. É um desafio que deixo.