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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"Literatura e leitura ao alcance da mão" em Silves

A Biblioteca Municipal de Silves terá a decorrer a formação "Literatura e Leitura ao alcance da mão". Decorrerá entre 10 e 17 de Outubro entre as 10 e as 17h e será conduzida por Maria do Sameiro Pedro, docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja. A literatura infantil e juvenil, assim como a promoção da leitura e a educação são os principais temas a que se dedica no blogue alcameh.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Para afastar os medos

O escritor e ilustrador Mercer Mayer dedicou dois livros a esta temática tão cara às crianças. Esta é uma animação adaptada do livro Um pesadelo no meu armário, editado entre nós pela Kalandraka.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

32º Congresso Internacional Ibby

É já na próxima semana, entre 8 e 12 de Setembro em Santiago de Compostela. "A força das minorias" é o tema orientador para conferências, mesas redondas e oficinas. A literatura infantil e juvenil será abordada segundo perspectivas linguísticas, culturais ou de género. Os subtemas prometem perspectivas e reflexões pertinentes numa época em que se infantiliza a sociedade mas não se cuida da identidade infantil e juvenil.
O programa completo e outras informações constam no site do Congresso. Se pudesse, estaria lá.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Beatrix Potter e a importância dos animais na literatura infantil

Na página da Unidade Curricular de Literatura Infantil da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, encontrei há tempos um artigo sobre a relevância dos animais na literatura de recepção infantil. Analisando alguns dos livros de Beatrix Potter, cruzam-se simbologias e heranças narrativas, ilustração e literatura popular. É um ponto de partida para quem queira aprofundar ou reflectir sobre o sentido destas personagens, geralmente animizadas, mas mais densas do que aparentam. O texto pode ser lido aqui.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Formar Leitores para Ler o Mundo - Maria Nikolajeva

1º Painel - Literatura para a Infância e Formação de Leitores

«Literacia visual e o leitor implícito nos álbuns para crianças»

Maria Nikolajeva (Univ. Estocolmo, Suécia) analisou os aspectos centrais da leitura de ilustrações em álbuns, evidenciando a urgência de formar crianças e adultos (especialmente os mediadores) para ler o texto visual. O álbum é um texto multimodal, com uma componente verbal e uma componente visual. De quanto tempo precisamos para ler um texto multimodal? Por que ordem o lemos? Que conexões permite estabelecer? De paralelismo, de complementaridade, de redundância, de confirmação. Dentro da lógica sequencial do enredo, o leitor pode antecipar e rever os elementos do enredo, pode inferir, a partir de pormenores, relações causais, temporais e espaciais. Mas as imagens podem igualmente sugerir enredos paralelos, e é o leitor quem decide, através da sua interpretação, se ocorrem em simultâneo ou se um é da ordem do real e outro da ordem do fantástico.
Por isso é importante dotar o leitor de ferramentas de interpretação do texto visual, e da sua relação com o texto escrito. Por exemplo, se uma personagem aparece várias vezes numa única página (que pode ser dupla), essa imagem sugere movimento, acção da personagem. Já se uma figura aparece na imagem com uma diferença exagerada de proporção em relação a outra, inferimos uma hierarquia de tratamento: a maior terá um ascendente sobre a mais pequena. Estes dois casos implicam uma interpretação do visual, mas a confirmação desta interpretação pode ser dada pelo escrito. O inverso também acontece e muitas vezes o visual funciona como esclarecimento para uma ambiguidade do texto escrito. Se um álbum tiver qualidade literária, surgirão diversos diálogos que só o treino permitirá ler. O literário é necessariamente polissémico, porque conta sempre com um nível de leitura literal e outros, simbólicos. Faz parte da semântica literária a presença do símbolo e a construção retórica. Para a sua descodificação, é preciso descobrir e reconhecer, para relacionar. A imagem de um lobo com um sorriso doce e um olhar meigo afastá-lo-á da história do Capuchinho Vermelho. Esta suposição resulta de uma relação de intertextualidade, só possível pelo domínio dos símbolos do Capucinho Vermelho. A leitura de imagens deve por isso ser estimulada, para que em cada álbum o leitor frua de todo o manancial de emoções que o álbum oferece.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Formar Leitores para Ler o Mundo - Peter Hunt

Passada uma semana, cá está uma pequena súmula daquilo a que pude assistir no Congresso Internacional de Promoção da Leitura, promovido pela Casa da Leitura, na Fundação Calouste Gulbenkian, nos dias 22 e 23 de Janeiro.

1º Painel: Literatura para a Infância e Formação de Leitores

«Declínio e diminuição da literacia literária: infância e literatura para a infância no Reino Unido na actualidade»

O conferencista de abertura, Peter Hunt (Univ. Cardiff, Reino Unido), reflectiu sobre a literacia literária das crianças e adolescentes. Partindo da evidência de que as crianças têm hoje em dia muitas e diversas fontes de prazer, o professor comparou edições de livros infantis de há quarenta anos com edições actuais, concluindo que as últimas são mais pequenas e mais literais. Apresentou como exemplo um livro datado originalmente de 1904, que foi recentemente adaptado para televisão. Na sequência da transmissão televisiva, o livro foi reeditado, desta vez a partir da série, ficando reduzido a metade o número de páginas.
Mas não terão sido apenas os livros que se tornaram mais pequenos, menos sugestivos, menos originais. Também os critérios que definem um bom livro, assim como a visão dos críticos, se alteraram nos últimos trinta e quarenta anos. Por isso, os pequenos leitores não estão a ser preparados para descodificar com um propósito, compreendendo e acedendo à complexidade do texto. A simplificação do estilo priva a criança do exercício de inferir sentidos e da capacidade de interpretar. Os melhores textos são aqueles que integram vazios, obrigando naturalmente a relacionar, a prever, a inferir e deduzir.
Peter Hunt deixa então uma questão, a finalizar a sua apresentação: esta mudança interfere na vida das crianças?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dora Batalim em Odivelas


A literacia visual é absolutamente necessária a todos os que lêem álbuns e muitas vezes as recensões de livros infantis pecam pela ausência de interpretação do texto visual. No próximo dia 12 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, os interessados terão oportunidade de alargar horizontes e partilhar leituras com a formação de Dora Batalim, Ler a Dobrar. Quem já a ouviu falar de álbuns, sabe quão contagiante pode ser o seu entusiasmo e quão surpreendentes os livros que desvenda.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Balanço - livros do ano

Álbuns

Nasceu a Bruaá, e com ela três livros de enorme simplicidade e sensibilidade. Eu espero (Davide Cali, Serge Bloch) terá sido, para mim, a maior revelação. Não de um ponto de vista crítico, mas em primeiro lugar pelo efeito que teve sobre a minha condição de leitora.

Descobri efectivamente Anthony Browne porque, com A minha mãe (Caminho), a atenção plástica e programática que o autor dá às relações e aos afectos tornou-se evidente e ultrapassou a empatia que tenho com As preocupações de Billy (Kalandraka) e atingiu toda a sua obra. Gostava de a ver integralmente traduzida para português.

Do Planeta Tangerina, O meu vizinho é um cão (Isabel Minhós e Madalena Matoso) revelou-se um jogo de complementaridade entre a enumeração de pormenores para a grande revelação final: um álbum pleno de humor. Nasce da insólita situação de contar a mudança de vários animais para um prédio, acompanhando os preconceitos que os outros moradores, nomeadamente os pais da narradora, demonstram em relação a eles. O desfecho é surpreendente e arrasa com a sensação de irrealidade que se prolonga por todo o livro, transformando-se numa parábola. O diálogo entre o que as janelas deixam ver e o que as paredes ocultam alimenta cada momento narrativo com a entrada em cena de novos vizinhos e novos hábitos. Cria-se assim uma expectativa de leitura, alimentada pelas cores vivas e pela associação visual do desenho ao tetris, que consolidam essa inverosimilhança lúdica. É um livro que merecia mais atenção.
A Antígona, pela mão da sua chancela Orfeu Negro, estreia-se também nos álbuns ilustrados, com a edição de O Livro Inclinado (Peter Newell), que obedece a um princípio de associação entre o movimento e a forma do livro. É um clássico da ilustração que só agora chega a Portugal e que demonstra a sua intemporalidade e referencialidade para a bd, a ilustração e a escrita para a infância.


Livros ilustrados

Um homem verde num buraco muito fundo (David Machado, Carla Pott, Presença) confirma a maturidade de David Machado e a sua identidade na escrita para crianças. A forma como transporta o leitor, a par das suas personagens, de um universo verosimil para um mundo de fantasia, continua a encantar a todos, que aceitam e desejam essa passagem. As ilustrações de Carla Pott fazem deste livro ilustrado um objecto de qualidade, integrando as imagens no texto, de tal forma que a mancha gráfica inverte a ideia de que a ilustração chegou depois do texto. É este que se fixa num espaço possível...
Amarguinha (Tiago Rebelo, Danuta Wojciechowska, Presença) começa por uma premissa facilmente identificável pelos mais novos: a diferença perante o grupo. O nome da menina resulta do facto de não gostar de doces. Esta informação cativa imediamente o pequeno leitor. Mas não só. O registo é simples sem se prestar ao forçado simplismo de alguns livros destinados ao público infantil. Conta histórias de amizade entre Amarguinha e outras crianças, um amigo de sempre de quem é forçada a separar-se e uma nova amiga que encontra no parque infantil. Uma experiência por que todas as crianças passam, nas diversas mudanças que vão enfrentando ao longo do crescimento. Amarguinha inaugura uma colecção que pode ser acompanhada pelos leitores numa fase de leitura muitas vezes difícil, quando começam a desejar livros com mais texto, mas ainda não têm ritmo de leitura ou maturidade para as Aventuras que se seguirão.
Em 2008 a edição de livros para crianças ganhou um novo fôlego, as livrarias dedicaram-lhes mais espaço nos escaparates e nas montras, os pais estiveram mais atentos, e os educadores e professores começaram a procurar os melhores critérios de escolha. A literatura para a infância em Portugal começa a entrar na rota da literatura universal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Balanço: porquê lêr os Clássicos Juvenis?

Ler os ditos clássicos juvenis começou a ganhar uma força de necessidade no ano passado, quando percebi que neles estava a origem possível do ‘género’. Ao contrário do que acontece com a Literatura Universal, é fácil chegar às fontes, no que concerne o juvenil, porque elas estão a um, dois séculos de distância apenas.
O primeiro desafio que se propõe ao leitor é o de descobrir o que têm estes livros em comum para terem alcançado um estatuto de cânone. A resposta não é linear nem consensual, mas é certo que por um lado, na sua maioria, os ditos clássicos têm como personagens principais crianças ou jovens. É igualmente de notar que todos, ou quase todos, não foram intencionalmente dirigidos ao público infantil, apesar de o ter como referente narrativo. Finalmente, o fenómeno ganhou proporções teóricas depois da apropriação espontânea dos livros, por parte dos mais novos.

Primeiras descobertas

Assim, depois de me ter iniciado com A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson pela Suécia (Selma Lagerlof, Relógio d’Água) cuja memória apenas me conduzia à série de desenhos animados que via religiosamente todos os sábados ou domingos de manhã, quando era pequena, continuei com As aventuras de Pinóquio (Carlo Colodi, Caminho). Aí deu-se a minha primeira revelação: ao contrário do que acontecera com Nils, cujas recordações se confirmaram integralmente, comprovando a fidelidade da animação à obra, com Pinóquio percebi que a apropriação da Disney desvirtua grandemente a personagem, retirando-lhe a densidade que se reconhece no livro. Pinóquio não é um mentiroso compulsivo, nem tão pouco se mantém inconsciente e insensível ao longo de toda a história. Tendo em conta que Pinóquio empreende uma viagem iniciática, aliás como acontece com Nils, (embora com contornos e aprendizagens diferentes), os seus erros servem o seu crescimento, e estão intimamente ligados à curiosidade pelo mundo. Por outro lado, os laços afectivos vão-se tornando cada vez mais importantes até ao momento catártico da transformação definitiva num menino responsável.

Peter Pan

Este ano a dupla de clássicos escolhida foi Peter Pan (J.M.Barrie, Cavalo de Ferro) e O Vento nos Salgueiros (Kenneth Grahame,Tinta-da-China). Confesso que Peter Pan nunca fez parte do meu imaginário, era até uma figura com que embirrava um bocadito. Talvez por nunca ter visto o filme da Disney, não podia partilhar juízos com as outras crianças a respeito. Não sei porquê, mas o facto é que não gostava da personagem. O que me fez desejar ler o livro foi precisamente não conhecer a história. Depois de ter visto a exposição da Susanne Janssen na Ilustrate e perante as ilustrações da Paula Rego que acompanham a narrativa na edição da Cavalo de Ferro, decidi-me pela leitura.
Pude então ter acesso a um mundo surpreendentemente cáustico, pleno de manipulações, jogos de poder, insegurança, egocentrismo e medo, em que as crianças são os seus actores. Peter Pan é uma personagem extraordinariamente complexa, inspirando, mesmo a um adulto, sentimentos antagónicos de carinho e revolta. A teia de relações e o nível de implicações que esta teia representa no quotidiano na Terra do Nunca leva o leitor a ver aquelas crianças como seres autónomos, capazes e auto-suficientes, numa direcção oposta àquela que os nossos olhos comummente vêem. O estilo é tão vívido, detalhado, imagético, que visualisamos Wendy a cozer as roupas de todos os meninos, ou a preparar as refeições, dominando com perícia e naturalidade quer as tarefas, quer as emoções e relações do grupo. O que Barrie faz é inverter as regras do jogo e mostrar ao mundo as crianças a fingirem-se de adultos e a poderem fazê-lo, porque o sabem. A angústia do adulto ao ler Peter Pan é essa: a da sua total irrelevância. Mas a complexidade da obra não se esgota nesta tensão infância – idade adulta. Há a tensão entre géneros e a temática do abandono: a figura da mãe, que mima, protege, pune… e está enfim só. A leitura de Peter Pan é um jogo de espelhos.

O Vento nos Salgueiros

O Vento nos Salgueiros é uma bucólica narrativa oitocentista (apesar da edição datar de 1908), naturalista, detalhada, sinestética, paradigmática da sociedade inglesa. Os simpáticos animais do bosque (Toupeira, Rato, Texugo e Sapo) representam figuras distintas: a Toupeira, um indivíduo simples, pacato, humilde, com curiosidade pelo mundo mas ponderado na maioria dos seus actos; o Rato, uma figura sociável e solidária, que domina o espaço onde se move e se orgulha disso; o Texugo, um ser anti-sociável mas inteligente, culto, conhecedor, pouco expansivo mas de carácter nobre; finalmente o Sapo, um estroina mimado que gasta a fortuna do pai, inconsequente, mentiroso e extraordinariamente vaidoso. A partir desta galeria de personagens, desenvolvem-se peripécias decorrentes das suas relações. A narrativa tem um equilíbrio suave, intercalando episódios respeitantes a personagens diferentes, e integrando descrições degustativas, de vestuário ou mobiliário, de botânica ou climatéricas.
Mais uma vez, a referência à obra tinha-me chegado via animação. Bem me lembro da toupeira, da sua casinha, a sugestão de tempo frio e a luz pela janela. Poderei estar enganada, mas na série creio que a Toupeira vivia mais tempo em sua casa do que no livro. Mas o efeito geral foi o mesmo, pelo que não levo tão a peito a possível inverdade.

Vale a pena porque…

O percurso pelos Clássicos está ainda no início, mas começa a tornar-se mais claro relacionar temáticas e abordagens como a antropomorfização, a viagem, a criança e a sua perspectiva como condutores da narrativa.
Estes clássicos são livros de formação e de aventura. Os acontecimentos colhem entusiasmo do leitor, que imagina e deseja conhecer o desenlace de cada incidente. Mas tais momentos não são gratuitos, implicam consequências para as personagens implicadas, aquelas com quem o leitor se identifica, em quem se projecta ou reconhece (seja no presente, seja no passado). Nessas consequências reside a aprendizagem, a ética de cada um dos livros. Para além da emoção que cada ritmo impõe (Peter Pan e Pinóquio destacam-se pela intensidade, um, e sucessão, outro, de aventuras), são os juízos de valor que envolvem naturalmente aquele que lê com a narrativa. Serão livros comprometidos, engajados? Talvez seja uma categoria demasiado forte, definitiva e redutora. Não são, seguramente, livros pensados para moralizar ou ensinar. São livros problematizadores, que observam de dentro para fora o comportamento estrutural e conjuntural do humano, escolhendo crianças ou animais para o pensarem literariamente. Vale a pena os adultos lerem estes clássicos porque são boa literatura. Quanto aos jovens, vale igualmente a pena, se quiserem. Provavelmente todos eles podem ser lidos até aos 12 anos, por bons leitores. A sua leitura não será a nossa, mas a nossa não é uma só. Um clássico é um livro que perdura e se presta a novas releituras, reciclando-se e reafirmando a sua intemporalidade. Isso é tão certo para a sucessão de gerações como para o crescimento individual. Cada um de nós o pode ler e reler as vezes que desejar. Vai ser sempre um reencontro e uma novidade. Estes livros são para todos e não são para ninguém. Como toda a Boa Literatura.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Faz falta ouvir ler

A Casa da Leitura publica aqui o texto que Luísa Ducla Soares leu na última edição das Palavras Andarilhas. Na introdução, reconhecemos o estilo comparativo que aproxima a língua dos afectos, pressentimos um tom doce e terno, de quem nos fala delicada e dedicadamente. Mas serve esta para que a autora reflicta sobre a importância da literatura oral, do acto de contar histórias, do património herdado que funda o imaginário e a identidade da criança.
Hoje, na sessão que a Fundação Saramago dedicou aos autores portugueses, foi uma sala cheia que se deliciou, durante duas horas, com as leituras que se sucederam. Houve sorrisos e até murmúrios bem humorados em resultado de excertos de Eça, Camilo, Garrett, até Fernando Pessoa. Também a melancolia assomou na audição de Soeiro Pereira Gomes, Sophia de Mello Breyner, Manuel da Fonseca, David Mourão-Ferreira.
Certo é que foi bom ouvir ler, certo é que faz falta. Quando se leva as pessoas a ouvir uma boa história, oferenda-se-lhes literatura, língua, património, imaginário, individual e colectivo. Temos vindo a esquecer que ler pode ser transitivo e colectivo, e provavelmente no esquecimento reside tamanho empobrecimento, de que fala Luísa Ducla Soares. Porque não pode alguém, que não lê, ter acesso à língua literária? Porque tem a leitura de ser individual se em torno dela há hoje um marketing feroz que manipula a própria liberdade individual da escolha? Tamanho paradoxo! Faz falta ouvir ler e trazer de novo para a roda o prazer e emoção que as nossas expressões denunciam.

domingo, 30 de novembro de 2008

Palavra de Trapos na FCG

Nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe a Conferência Palavra de Trapos, a língua que os livros falam, dedicada à Literatura Infantil. Entre autores, professores e investigadores, o leque de comunicações e mesas redondas adivinha-se aliciante.
O programa pode ser consultado aqui. A entrada, como sempre, é livre.

domingo, 5 de outubro de 2008

7º LI, a 10 e 11 de Outubro

O 7º Encontro Nacional (5º Internacional) de Investigação em Leitura, Literatura Infantil & Ilustração vai decorrer entre 10 e 11 de Outubro no Campus de Gualtar, em Braga.
Discutir-se-ão, como sempre, questões relacionadas com os três magnos temas que servem de base a todos os encontros. Participam especialistas portugueses e estrangeiros. No site do Encontro pode-se aceder às actas dos encontros anteriores (títulos das comunicações e alguns resumos), bem como ao programa do actual Encontro, aqui.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Curso de Pós-Graduação em Livro Infantil

Já fazia falta um curso prático que tivesse em atenção a prática diária dos mediadores de leitura, e que juntasse questões como as da edição, ilustração e literatura infantil. Vai acontecer pela primeira vez este ano lectivo, na Universidade Católica, em Lisboa.
A orientação é de Dora Batalim e José Alfaro. Os orientadores dos módulos são consagrados, com créditos firmados.
O programa pode ser consultado aqui.
Fica apenas o desejo de que as Universidades Públicas se empenhem igualmente na área do livro infantil, e também juvenil, para que o acesso ao conhecimento não se restrinja a quem possa desembolsar propinas avultadas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Para ir pensando... na rentrée

A Culturgest já têm definida a sua programação para o último quadrimestre do ano 2008. Helena Vasconcelas regressa com uma nova Comunidade de Leitores, «Linguagem Literária e Linguagem Pictórica». Será lá para o fim de Setembro. Para quem gosta de ler e de pensar sobre o que lê, mas não se consegue disciplinar, será uma boa oportunidade. O rol das escolhas é de primeira linha. O tema, desta vez, aborda a relação entre a literatura e a pintura ou o desenho na sua condição narrativa.
A sinopse da Comunidade pode ser consultada aqui.
Para ir pensando...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O lugar dos livros sem texto

Porque fazem então falta livros sem texto? A quem fazem falta? A todos. Ler imagem é hoje visto como algo tão importante como ler palavras. O mundo cada vez interage mais através do pictórico e por isso se tornou urgente que as crianças, desde sempre, o façam. Mas não façamos deste o argumento principal. Se assim fosse, estaríamos novamente a incorrer no erro de pensar a literatura infantil numa perspectiva didáctica. A didáctica serve os mediadores e é essencial que estes a manejem com segurança, mas é um meio e não um fim. O fim é promover o prazer de ler, o prazer que Roland Barthes descreve e que em nada se deve confundir com entretenimento. Este prazer que caminha para a fruição tende a alargar o horizonte cognitivo e emocional de cada sujeito numa sensibilidade reflexiva e questionadora de si, do outro, do mundo. Ler imagens é formar um universo simbólico, tanto como o medo e a segurança que as histórias tradicionais transmitem à medida que se sedimentam na memória das crianças. Ler imagens é determo-nos nelas, é voltarmos atrás, é desacelerar um ritmo ávido que leva ao consumo passivo. A imagem, numa página, potencia a expectativa da página seguinte e despoleta o desejo de sentidos. Um livro sem texto pode ser um livro sem a muleta do denotativo. Para muitos educadores, os livros sem texto são importantes para que as crianças se possam apropriar deles e fazer assim leituras autónomas. Igualmente, são úteis para identificar referentes. É certo. Livros sem texto, como Ah! e Oh! recentemente lançados pela Kalandraka são muito bem concebidos como objectos de espanto, em que cada animal ou objecto se transforma num outro, quando desdobramos a página. Aqui, o que faz mais uma vez a diferença é que o livro em si não foi concebido como utensílio didáctico mas sim como objecto de prazer. O mistério da transformação surte um efeito de encantamento na criança, que identifica uma imagem e descobre outra em seguida, repetindo o jogo as vezes que desejar. Esta relação empática que se estabelece com o livro vai muito para além da diegese (que à partida não existe), mas não a impossibilita. Assim, o livro expande os seus níveis de leitura em função daquilo que o mediador decida fazer com ele, do manuseamento autónomo à decifração, à criação de pequenas narrativas, à sua continuação…
Mas não caíamos no erro de considerar que o livro sem texto apenas serve o intento simbólico de crianças muito pequenas. Onde está o bolo? é um exemplo crasso de que assim não acontece. Os diversos eixos narrativos que se cruzam pedem um olhar mais treinado, que consiga focar-se no pormenor sem deixar de ter uma visão contextual de toda a imagem. Dirige-se, por esta razão, a todos os públicos leitores e torna-se um feliz exemplo que anula eventuais tendências que assegurem a necessidade do livro sem texto para crianças com menos de cinco anos. Em suma, é elementar afirmar que os critérios de qualidade destas obras são claramente a sua validade estética, a sua riqueza pictórica, o seu depuramento gráfico, a triunfal polissemia das imagens…

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A escrita de Manuel António Pina

A propósito da escrita de Manuel António Pina, vale muito a pena ler o texto de Osvaldo Manuel Silvestre, aqui. Clarifica alguns pontos e mostra como a literatura infantil é tão passível de ser pensada e recenseada como 'a literatura' em geral. Sendo um académico, Osvaldo Manuel Silvestre não tem qualquer pejo de pôr todos os seus conhecimentos teóricos ao serviço da interpretação dos textos para a infância de Manuel António Pina. O que só reafirma que a boa literatura infantil é apenas e tão só boa literatura. E todos a podem e devem ler.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Que crítica para a Literatura Infantil...

Foi com agrado que constatei que o 2º número da renovada revista Ler dedica duas páginas à crítica de livros infantis. O que se passa com o espaço dedicado ao infantil não diverge muito do que se passa com a crítica literária em geral: os jornais e revistas dedicam cada vez menos caracteres aos livros, confinando a informação disponível a breves apresentações e notas.
Muito se tem discutido nos últimos anos sobre o lugar da crítica e as suas fronteiras: o que é uma crítica académica, o que é uma crítica jornalística.
Certo é que uma crítica implica um juízo, e esse juízo deve ser acompanhado de argumentos, passíveis de serem confirmados, rebatidos ou complementados. O crítico tem como função dar uma visão competente, conhecedora e abrangente do livro, e eventualmente escolher uma perspectiva de abordagem que lhe pareça interessante.
O que se passa com a literatura infantil é um pouco mais pernicioso, porque se tem em demasiada linha de conta o destinatário - a criança - tendendo esta a ser uniformizada segundo padrões de compreensão e maturidade. Ora, as crianças, tal como os adultos, são indivíduos com identidade própria, que se sobrepõe a ideias pré-concebidas de estádios de crescimento ou motivações pedagógicas.
O principal drama que encontro nas críticas a livros infantis é precisamente a tentação consumada de dar ao livro uma utilidade temática, didáctica, ética, antes de o analisar na sua componente literária. A ideia de utilidade mata qualquer objecto artístico, que deve em primeiro lugar ter uma validade própria e só depois, pelo uso, abrir-se então a inúmera possibilidades.
Compare-se as críticas na Ler ou n'Os meus livros às recensões/ notas críticas na Malasartes. É evidente que o espaço conta, e na Malasartes um livro 'tem direito' a uma página A4 e não a 1000 caracteres. Mas quem assina os textos da Malasartes conhece a fundo a literatura infantil. Centremo-nos apenas na componente de texto. O livro infantil obedece a pressupostos teóricos que o sustentam literariamente, como acontece com qualquer outro texto literário, de acordo com critérios como o ritmo, a riqueza retórica, a relação semântica e sintáctica com o tema do texto, a organização diegética (no caso da prosa), a apresentação ou subversão de topoi, a desconstrução da tradição literária ou das categorias da narrativa, a intertextualidade...
Juntemos-lhe agora a componente pictórica, que ombreia em grau de importância com o escrito. Que diálogo se estabelece entre os dois discursos? Complementaridade? Contradição? Expansão de emoções ou referentes? Criação de um cenário? E o livro, surge muito diferente de outros assinados apenas por um dos autores (texto ou ilustração)?
Também é clara a necessidade que os mediadores têm de orientação na selecção de livros. A palavra adequação surge sempre como critério. Mas, quantas vezes escolhem pais e educadores um livro porque gostam muito dele? Quantas educadoras de pré-escolar ou primeiro ciclo trabalham O Principezinho porque é um dos livros do seu coração? Sei que é assim, porque já mo disseram. No entanto, é muito discutível a 'adequação' desta obra para crianças tão pequenas... Ou não será? Acima de tudo, um bom livro infantil é aquele que não conseguimos catalogar. Fujamos pois aos catálogos e leiamos os livros infantis sem didactismos ou pedagogismos de valores. Só assim nos podemos perder na sua riqueza, quando formos verdadeiros leitores e não apenas intermediários.
A crítica poderia contribuir para isso.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Um início de noite chuvoso, mas muito aliciante...

Fomos, pelas 20h, à Universidade Católica, assistir a uma conferência dada pela Dora Batalim, aos alunos da pós-graduação em edição, livros e novas tecnologias. Quando chegámos deparámo-nos imediatamente com um conjunto imenso de álbuns ilustrados para a infância. Da capa dura ao livro objecto foi o primeiro passo. O álbum é um objecto de arte. Entre as várias perspectivas apresentadas, a Dora ia intercalando experiências pessoais, porque como ela própria afirma: "Não consigo falar sem contexto."
Ficámos por isso a saber que montava verdadeiras exposições na sua casa, pintada de amarelo, com álbuns ilustrados, que abria nas prateleiras e ia conjugando à medida que as leituras se cansavam ou clamavam por novos diálogos.
Partilhou com o grupo inúmeros livros originais, de forma a exemplificar propostas de qualidade, em contraponto com livros com erros estruturais ao nível da tradução, da relação texto-ilustração, ou do design. Leu, ainda que superficialmente, alguns álbuns na sua tridimensionalidade discursiva (o texto, a ilustração, o design).
Conceitos como desconstrução, fragmento ou partição semântica surgiram naturalmente ao longo da sua exposição. Ficámos cheios de inveja das suas alunas de literatura infantil!

domingo, 9 de março de 2008

1001 Livros para Ler antes de Morrer – Editado por Peter Boxall



Segundo o prefácio à Edição portuguesa, editada pela Lisma, este livro tem como intenção proporcionar aos fãs do género Romance um conjunto, neste caso 1001, de livros considerados como imprescindíveis, aqueles que eventualmente sejam de leitura obrigatória para os amantes deste género literário.

Esta Edição Internacional foi conseguida através de uma união entre várias editoras de todo o mundo que, por sua vez, reuniram várias centenas de colaboradores (escritores, críticos, jornalistas, etc) chegando assim a um conjunto de obras consideradas como as mais importantes nos cânones literários, algo que a meu ver é inteiramente conseguido tal a excepcionalidade das obras expostas.

Com 960 páginas, dividido por “Antes de 1800”, “Século XIX”, “Século XX” e “Século XXI”, este é um Manual riquíssimo e muito útil aos amantes dos livros (não só para os apreciadores do género), pois de facto contem todas as obras de relevância da literatura universal, assim como outras que, de certo, serão consideradas clássicos no futuro.

Embora afirmar que estes 1001 são mesmo os melhores seja algo muito subjectivo, sem dúvida que o é e eu até penso que falta ali uma obra impar mas que muitos consideram não pertencer aos romances, o certo é que cada livro ali exposto tem uma ficha associada com vários dados muito interessantes onde sobressai um resumo da historia e da sua importância na literatura, bem como, em vários casos, imagens de capas e cartazes das primeiras edições.

Um livro que me delicia e que me tem indicado vários livros que não conhecia, sendo certo que é também um livro que irá tornar realidade um sonho da maioria dos leitores.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Livros lidos em 2007

No ano que agora finda li 47 livros (contabilizo apenas aqueles que li da primeira à última página pois há outros que desisti a meio), número dentro de uma média anual mantida há uns dez anos.

Dessa lista pretendo aqui referir os dez que mais gostei.

- “A Estrada” de Cormac McCarthy
- “1984” de George Orwell
- “Cruz de Portugal” de José Sequeira Gonçalves
- “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón
- “A Odisseis dos Dez Mil” de Michael Curtis Ford
- “Filipa de Lencastre de Isabel Stilwell
- “O Canto dos Pássaros de Sebastian Faulks
- “A Voz dos Deuses” de João Aguiar
- “Predadores” de Pepetela
- “A Voz da Terra de Miguel Real

Sem nenhuma ordem de preferência destaco, contudo, “A Estrada” como o livro que mais me marcou, diria mesmo que foi um dos melhores livros que li até à data e “A Voz da Terra”, um livro que merece o rótulo de obra-prima da literatura portuguesa.

Destaco também um livro que reli pela 4ª vez: “A Filha do Capitão” de José Rodrigues dos Santos.