segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crime do Padre Amaro (O) - Eça de Queirós

Como afirmou Miguel Torga: "Grande Eça! Arrancar desta terra um tal romance, parece ser obra de Deus!", eu assino por baixo, embora, na minha opinião, esta não seja a obra-prima do mestre.
"O crime do Padre Amaro", segundo o próprio Eça, começa a ser concebido em 1870 quando ele é nomeado administrador do Concelho de Leiria. Enviado para aqueles ermos, Eça sente-se infeliz e deslocado no meio de tanta beata e mal dizer. Aos poucos e devido à sua distinta posição assim como devido ao seu excelente poder de observação, começa a tomar conhecimento da vida privada de algumas pessoas e o que sabe apenas o inspira para o romance-bomba que está prestes a conceber.
Este era o seu romance predilecto e aquele onde Eça mais trabalhou em posteriores revisões. Inicialmente inscrito no seu projecto "cenas da vida portuguesa", este livro será aquele onde ele atinge o apogeu da ironia, efectuando não só uma crítica a uma gente de uma cidade específica, como também à própria sociedade portuguesa e ao compadrio entre a igreja e o poder. Assim como é curioso verificar a expressão do seu ideal anarquista (a destruição do poder vigente) que, dizia ele, serviria para instituir o estado socialista. De notar que foi um romance muito criticado na época e posteriormente proibido a sua circulação no regime salazarista.
Amaro Vieira é um padre que chega a Leiria para ocupar o lugar em aberto de pároco, sabemos entretanto que ele nunca teve qualquer vocação e que é por influências politicas que ele consegue o lugar.
Através da ajuda do cónego Dias (macaco velho que havia sido mestre de Amaro no seminário), ele consegue arranjar um quartinho patusco e baratucho numa casa de uma pessoa "amiga". Acontece que a dona dessa casa, a senhora Joaneira, tem uma linda e prendada filha, ser angelical e virginal que é alvo de desejos ardentes de tudo o que é homem, no entanto como a menina é muito pura e pudica, mantém-se no seu cantinho e não dá trela a ninguém.
O ciclo amoroso está lançado com a estadia do "raio" do padre. Olhares libidinosos entre Amélia (a pura menina) e Amaro é o começo de uma paixão proibida, onde encontros muito quentes acabam na cama (alcova) do padre (lá se vai a pureza).
Mas Eça não se fica por aqui e lança nova carga.
Amaro apanha o cónego Dias com a boca na botija (literalmente) descobrindo-o em ardentes jogos sexuais com a Srª. D. Joaneira (outra alcova) e chega-se a uma brilhante conclusão: "São todos do mesmo barro. Um anda com a mãe e o outro conforta a filha!". Elucidativo da ironia e da mordacidade de Eça de Queiroz.
É neste ambiente de saudável putaria (perdoem-me o termo), com outro pormenores à mistura, uns quentes e outros não tanto, pois nem só de quentura vive o romance e Eça também tinha que descansar, mas e como ia dizendo, que... oh deuses, não é que Amélia, esse ser virginal e doce calha engravidar? Quem brinca com o fogo... será possível tamanho descuido ou será que pensavam serem as reencarnações de José e Maria que só com a ajuda do espírito santo conseguiram lá chegar?
Começa então o pesadelo de Amaro e surge a verdadeira face desse homem ou deverei dizer, dessa besta que chega a rezar a Deus para que Amélia e o bebé morram... bem feito era que Deus fosse surdo!
E mais não digo sobre a história porque daí a bocado tiro o interesse da mesma a quem a quiser ler.
Apenas chamo a atenção para a forma magistral como finda o romance, onde o conde de Ribamar proclama a tranquilidade, superioridade e virtuosidade de Portugal diante dos tumultuosos acontecimentos que ocorriam em Paris. È a facada final de Eça.
Um romance considerado por muitos críticos como o melhor de Eça de Queiroz dada a natureza real que o escritor emprega na narrativa, sabendo-se que efectivamente Eça baseou-se em pessoas reais para criar as suas personagens.
Para mim foi um romance que me deu um imenso prazer ler por ser espantosamente irónico e mordaz, ainda mais por ter tido a coragem de ter enfrentado e confrontado a igreja e o seu imenso poder, assim como as suas relações um pouco... digamos, duvidosas...
Sem dúvidas um dos grandes romances da nossa literatura, porém, está longe da beleza e do fulgor dos "Maias".

Crónicas do Senhor da Guerra - Bernard Cornwell

Esta opinião visa toda a obra no seu conjunto não especificando nenhum dos volumes em particular.
Esta foi uma obra que li à uns 4, 5 anos. Naquela altura fui levado por um entusiasmo e um fascínio tão grande que e durante muito tempo, considerei esta obra como a da minha vida, aquela por quem fiz inúmeros projectos de leitura e que recomendava sempre que me solicitavam alguma opinião sobre bons livros (ainda recomendo).
Senti-me novamente maravilhado e, embora agora não a considere como a obra da minha vida (Guerra e Paz é inultrapassável... acho!), tenho-a como uma daquelas que guardo gratas recordações pelos excelentes momentos que me proporcionou.
Quanto ao conteúdo:
A lenda arturiana, tal como ela hoje é conhecida, jamais foi comprovada, aliás, a existência de Artur é ainda uma incógnita havendo várias incongruência factuais à roda do nome e da real existência da personagem. No entanto, Bernard Cornwell efectua uma brilhante investigação histórica do tema, abordando frontalmente a questão e, em todos os três volumes, ele tece considerações sobre a época e os factos em que ele se baseia. Classifica documentos e nomes e não tem qualquer problema em desmistifcar essa lenda, nunca escondendo porém ele próprio ser um fã da mesma.
Assim Cornwell cria uma personagem fictícia para narrar a história de Artur. Século Quinto, Derferl Cardan, agora monge e já com uma idade avançada, escreve em língua saxã, a pedido da Rainha Igraine, as suas memórias de Artur, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus. Somos então levados pelas palavras de Derfel num caminho que se vai interligando com o de Artur e de outras personagens também míticas.
Um dos factos que mais me apaixonou, é o sentido violento e real que Cornwell imprime na narrativa e a quase ausência de magia. Embora a magia esteja quase sempre presente, nem que seja pelas imensas superstições, Cornwell dá-lhe sempre um tom soft, dando inclusivamente explicações a muitas manifestações ou brincando mesmo com elas.
Assente numa escrita simples e fluída, ele descreve minuciosa e detalhadamente as crenças, os usos e costumes daquelas gentes, da sua forma de pensar e de agir e, fundamentalmente das batalhas. Confrontos violentos e sangrentos, transporta-nos ao local de uma forma sublime onde, por vezes, parece que tudo aquilo está realmente a acontecer, todos aqueles gritos, os escudos que embatem violentamente uns nos outros, os cavalos que, assustados, espezinham homens em agonia que sufocam no seu próprio sangue, vomitado e excrementos. Até os cheiros nos faz sentir; a própria sensação de medo que os soldados sentem antes da batalha (quase todos se encharcavam em hidromel para ganharem coragem) e é arrepiante aquelas descrições daqueles momentos de ânsia, aquele compasso de espera onde os guerreiros se preparam para entrar na batalha, onde um homem pode estar a viver os seus últimos minutos ou um dia de glória. Onde a canção de Beli Mawr é cantada em uníssono pelos guerreiros bretães que e com a ajuda dos seus deuses, reúnem coragem para enfrentar o exército oponente.
Fabuloso!
Aqui a távola redonda não passa de uma mera mesa de madeira suja de comida e vomitado (palavras de Derfel); Excalibur jamais esteve cravada numa pedra; Guinevere é uma mulher ambiciosa que leva demasiado longe essa ambição; Lancelot... bom, Lancelot não passa de um reizinho arrogante, que se revela um cobarde, um mentiroso e um traidor; Merlin passa grande parte do tempo ausente, tendo aparições fulminantes e empolgantes, embora tenha também um papel determinante; Morgana... não é nada semelhante aquela Morgana que a lenda refere.
Uma história que aborda tempos violentos varridos por guerras e indefinições religiosas, sendo nítido os ventos de mudança que se faziam sentir, onde o fim do paganismo e o surgimento do cristianismo é uma realidade. É curioso também verificar uma constante crítica que o autor vai fazendo ao cristianismo em grande parte da obra. É notório o papel desestabelizador dessa religião na região e, grande parte dos conflitos, são gerados por interesses cristãos. Ou seja, é claro que o papel do cristianismo foi o de dividir para reinar, o de impor e obrigar a seguir uma ordem, o de matar qualquer oposição ou qualquer Deus ou religião que fizesse sombra ao cristianismo.
Em suma: Uma história fantástica que recria uma época longínqua onde a espada era a lei mas onde ainda existia lugar para a verdadeira amizade. Uma obra que aconselho a todos e que no fim nos deixa tristes por acabar e que também acaba por saber a pouco, pois Derfel deixa por contar como e onde acabaram certos personagens. Mas o certo é que estamos tão dentro da história, tão compenetrados que é-nos difícil acreditar e aceitar que já acabou.
Um romance histórico que me levou a adoptar este estilo como o meu preferido.

Jogador (O) - Fedor Dostoievsky

Neste romance, escrito em apenas 15 dias, Dostoiévski cria Alexis Ivanovitch, preceptor de uma abastada família russa que, em jeito de memórias, relata os acontecimentos em que se viu envolvido numa cidade alemã chamada Ruletemburgo. Á roda dessa família, giram outros excêntricos personagens que acabam por ter alguma relevância em toda a acção. Mlle. Blanché, amante do general (patrão de Ivanovitch), mulher interesseira que gosta de se expressar na sua língua materna (francês). Um inglês que tem um papel algo dúbio, até para o próprio Ivanovitch. Outro francês (De Grillet), personagem sui generis na sua forma de agir e, finalmente, uma velha avó de quem todos esperam notícias da sua morte e que, repentinamente, resolve aparecer em Ruletemburgo para espanto de todos, principalmente do general.
E é nessa senhora que tudo verdadeiramente começa. A velhota pede a Ivanovitch que lhe mostre a sala da roleta e que lhe explique as regras e, ele ao fazê-lo, dá oportunidade à senhora para jogar... depressa ela se vicia no jogo.
É o ponto de partida para o fascínio da roleta. A ânsia dos números que saem, o perde e ganha de dinheiro, o convencimento e certeza que "é agora que sai", o bichinho que os impulsiona, que os atira para a mesa, que os leva a sonhar com riquezas inimagináveis.
Jogador inveterado da roleta, Dostoiévski faz deste romance uma espécie de exorcismo de um vício que quase o levou à ruína. Inclusive, sabe-se que este romance foi escrito para pagar dívidas de jogo. Aqui e baseado numa experiência pessoal, ele faz-nos sentir toda aquela ânsia, toda aquela obsessão, aquela compulsiva necessidade de jogar, da crença que vai sair, de que por muito que se ganhe, é sempre possível ganhar mais, e mais, e mais... Todas essas sensações, a descrição de tal vicio está brilhantemente explicado e é engraçado também verificar a semelhança entre este vício e o vício da droga. Embora noutra perspectiva, a semelhança é notória. Também de notar a forma clara, aberta e honesta como Dostoiévski descreve todo esse sentimento, demonstrando que este vício é um problema muito sério.
Nesse aspecto, o livro ganha claramente importância e relevância dada a forma como aborda a questão. Quanto ao resto e olhando para a estória que gira em torno do assunto, penso que nada de positivo traz, descrevendo um arrastar das personagens acima mencionadas, cheia de relações humilhantes e absurdas.
Negativo também o exagero das frases em francês. Para quem não tenha conhecimentos de francês, é extremamente complicado seguir o texto, ou se quiserem, alguma partes que acabam por ter alguma importância na estória.
Em suma: Uma viagem guiada a um mundo de vício e perdição. A um mundo ilusório, uma doença onde o prazer se confunde com a dor, descrito por um homem que sofreu na pele os malefícios desse mal.

Canto dos Pássaros (O) – Sebastian Faulks

França, 1910, Stephen Wraysford é enviado pela sua empresa a França a fim de observar junto da família Azaire o negócio de texteis desta, sobretudo no sentido de perceber o processo de fabrico.

Instalando-se na casa dos Azaire, Stephen inicia o seu estudo da indústria ao mesmo tempo com que vai se relaconando com todos os membros e amigos da família, contudo esse ralacionamento torna-se mais íntimo com Madame Azaire, Isabelle, que como era algo comum na época, havia sido obrigada a casar com um homem rico e mais velho, não tendo por isso um casamento pleno e de acordo com o que a força da juventude exigia...

Nos seus 20 anos, Stephen conquista por completo Isabelle (8 anos mais velha), acabando por se envolverem de uma forma tórrida, deixando atrás deles um rasto de infâmia e humilhação.

Anos depois estala a Grande Guerra (1914-1918) e é precisamente a guerra a principal intérprete do livro.

Stephen é incorporado no Exército Expedicionário britânico e enviado para França conjuntamente com milhares de compatriotas imbuidos por um sentido altruista que visava a paz no mundo e a elevação do império britânico a maior portência mundial.

Que utopia!

Sobrevivendo nas toscas e nauseabundas trincheiras, Stephen irá acreditar na existência física do inferno, observando uma guerra insana, completamente ausente de lógica e capacidade em retirar todos e quaisquer sentimentos aos seres humanos.

É impressionante o relato dos movimentos dos batalhões. Pungente a pequenez e a indeferença que a vida humana tomou. A forma como é descrito os combates, os assaltos onde milhares de homens morrem, alguns deles simplesmente pulverizados sem o corpo para enterrar. Corpos abandonados no campo de batalha (terra de ninguém), decompostos a céu aberto, servindo de alimento aos incontáveis ratos e corvos.

Há descrições horríveis, como por exemplo um assalto a uma trincheira alemã onde na confusão do assalto, os homens dão-se conta de estar a pisar lama e restos de carne em decomposição...

Obviamente que como pano de fundo há a tal história de Stephen e Isabelle. Porém vai mais longe, o livro abrange três gerações apanhando, já em 1978, Elizabeth, neta de Stephen que se interessa pela história do avô, sobretudo porque se dá conta de ele ter estado numa guerra tão distante do tempo e cuja História é algo aparentemente escondida, como se esta guerra fosse para esquecer.

Mais do que a história de Stephen, Isabelle ou Elizabeth, este livro é uma descrição pura e dura da desumanidade desse conflito e do quanto infuenciou negativamente toda uma geração de homens que, ao sobreviveram áquela guerra e às recordações daí resultantes, desejaram terem ficado sepultados juntos dos seus camaradas, os únicos que os compreendiriam.

Um excelente documento sobre a I Grande Guerra.

Livros do Plano - O Gato e o Escuro

recomendado pelo Plano Naciona de Leitura para o pré-escolar (ler em voz alta/ contar/ dramatizar)

Mia Couto incorre no universo infantil com «O gato e o escuro». Esta história narra a aventura de um gatinho amarelo que se delicia em contrariar os conselhos da sua mãe, e ultrapassa a fronteira da luz.
O escuro atrai o pequeno gato como atrai todas as crianças, já que no escuro não se vêem os objectos com nitidez, mas apenas sombras e contornos diluídos em proporções diferentes daquelas a que estamos habituados e identificamos como o mundo real. Este escuro encerra todo esse mistério e Mia Couto faz deslizar a semântica ao mesmo ritmo dos passos do gato, culminando num novo universo de sonho. A mãe do gato, que representa até ali a responsabilidade e o castigo, transforma-se numa mãe segura, omnisciente, e surpreendente.
O momento em que a narrativa foge ao caminho tradicional acontece quando o gatinho conhece o escuro. Neste momento, a representação da curiosidade, o consequente castigo para a desobediência, a lição que se aprende…, dispersam-se na descoberta da animização do escuro, e na sua infelicidade. Desdramatiza-se o medo do breu com a tristeza que o escuro sente por não ver outras cores, nem sequer as outras o aceitarem entre elas. A mãe acolhe o escuro, acarinha-o, deixando o seu filho de estar no centro da sua atenção. Neste segundo momento, o gatinho como a criança, fica espantado por não ser a figura mais importante para a sua mãe, principalmente quando esta convida o escuro para ser seu filho. A consciência de que não se é único, nem todo poderoso, e principalmente que se está constantemente a ser surpreendido pelo mundo e pelos outros, mesmo os que mais gostam de nós, será talvez uma das principais teses que podemos reter da narrativa.
Na linha da escrita do autor, também nesta história encontramos inúmeros neologismos (pirilampiscar; tiquetaquear; noitidão), e uma apropriação de palavras de outros campos lexicais («Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos.»). O eco poético está muito presente na expressividade que confere ao texto, correndo no entanto o risco de se perder o sentido essencial da narrativa. As ilustrações de Danuta Wojciechowska dialogam com o texto, representando o gatinho e o escuro nos vários momentos da acção. As tonalidades quentes obedecem à gradação da história: da luz para a escuridão, sem nunca deixarem de ter marcas de alegria (até nos contornos das personagens). A gata mãe, o gato Pintalgato e o escuro aparecem sempre em movimento, diluindo-se e fundindo-se numa união que corresponde ao final da história. A narrativa fecha-se, à imagem do universo de Mia Couto, deixando soltas as pontas da veracidade. O mistério deixa o leitor expectante, e leva-o a decidir-se quanto ao final que melhor corresponde ao seu desejo.

Livros do Plano

A partir de hoje, e sempre à 2ª feira, vamos apresentar um livro que conste do Plano Nacional de Leitura. Começamos com o pré-escolar e vamos até ao 3º ciclo. Depois, fechados os anos, regressamos ao pré-escolar.

domingo, 22 de julho de 2007

Os Elementos Da Cabala Em Dez Lições - Cartas De Eliphas Levi / A Cabala, de Eliphas Levi

Senhor e Irmão:
Posso conferir-vos este título posto que buscais a verdade na sinceridade de vosso coração e que para a encontrar não tem medido sacrifícios.
A verdade, sendo a essência do que é, não é difícil de encontrar: ela está em nós e nós estamos nela. Ela é como a luz e os cegos não a vêem.
O Ser é. Isto é incontestável e absoluto. A idéia exata do Ser é a verdade, seu conhecimento é a ciência; sua expressão ideal é a razão; sua atividade é a criação e a justiça.
O senhor disse que quer ter fé. Para isto basta saber e amar a verdade. Pois a verdadeira fé é a adesão inabalável do espírito às deduções necessárias da ciência no infinito conjetural.
As ciências ocultas são as únicas que dão a certeza, porque elas tomam por base as realidades e não os sonhos. Distinguem em cada símbolo religioso a verdade da mentira. A verdade é a mesma em toda parte e a mentira (a "roupagem" da verdade) varia segundo os lugares, as épocas e as pessoas.
Estas ciências são em número de três: a Cabala, a Magia e o Hermetismo.
A Cabala, ou ciência tradicional dos Hebreus poderia ser chamada de matemática do pensamento humano. É a álgebra da fé. Resolve, com suas equações todos os problemas da alma como se fossem equações, isolando as incógnitas. Dá às idéias a nitidez e a rigorosa exatidão dos números; seus resultados são, para a mente, a infalibilidade (sempre relativa na esfera dos conhecimentos humanos) e a paz profunda para o coração.
A Magia, ou ciência dos magos teve como representantes na antiguidade os discípulos e talvez os mestres de Zoroastro. É o conhecimento das leis secretas e particulares da Natureza que produzem as forças ocultas, os ímãs, quer naturais ou artificiais, que podem existir mesmo fora do mundo dos metais. Em uma palavra, para empregar uma expressão moderna, é a ciência do magnetismo universal.
O Hermetismo é a ciência da natureza oculta nos hieróglifos e símbolos do mundo antigo. É a procura do princípio da vida pelo sonho (para aqueles que ainda não chegaram) da realização da grande obra, a reprodução pelo homem do fogo natural e divino que cria e regenera os seres.
Eis aí, senhor, as coisas que desejais estudar: seu círculo é imenso, porém seus princípios são muito simples e estão contidos nos números e nas letras do alfabeto. "É um trabalho de Hércules, que parece uma brincadeira de crianças", dizem os mestres da ciência sagrada.
As disposições necessárias ao êxito neste estudo compreendem uma grande retidão de julgamento e uma grande independência da mente. É preciso se desfazer de todos os preconceitos e idéias preconcebidas. É por isso que Cristo dizia: "Se não tiverdes a simplicidade de uma criança, não entrareis em Malkuth, isto é, no reino da ciência".
Começaremos pela Cabala, cuja divisão é: Bereschit, Mercavah, Gematria e Temurah.
Vosso na sagrada ciência.


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