terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Não sei bem como, veio parar-me às mãos, há 36 anos atrás, Giovanni’s Room, de James Baldwin (autor negro, americano e homossexual, lutador incansável pelos direitos humanos, que morreu em 1987). Muito sucintamente: David é a personagem central do romance. Americano, branco, troca os EUA por Paris, e enquanto a namorada viaja por Espanha envolve-se com um barman italiano, Giovanni. Este relacionamento põe em causa toda a identidade sexual de David, ainda que este nunca assuma explicitamente ser bissexual. Quando Hella regressa a Paris (embora mais tarde a abandone, preferindo relações diversas, sobretudo com marinheiros), o relacionamento com Giovanni acaba com consequências dramáticas para os vários personagens que Baldwin nos revela ao longo do romance. A intensidade narrativa, a construção da trama, as emoções contraditórias, os sentimentos de culpa, a abordagem de (um) tema(s) ainda hoje passível(eis) de tantos preconceitos e incompreensões (imagine-se então há 36 anos atrás), o portentoso núcleo de personagens, marcaram-me profundamente. De tal modo, que (éramos tão jovens) ofereci o livro a alguém que se sentia perdido, discriminado, perseguido, devassado na sua privacidade e magoado pelo ostracismo a que a sociedade o votava. Este alguém era negro, homossexual, e uma das melhores pessoas que conheci até hoje. Este alguém disse-me, depois de ler o livro: «Que paz eu senti. A solidão já não me assusta. Acho que posso começar a viver.» Nunca mais consegui encontrar o livro, para o ter comigo de novo. Mas tenho muitas vezes o eco das palavras deste alguém, que nunca esqueci e que poucos mais anos viveu, mas a quem, pela minha mão, James Baldwin e o seu Giovanni’s Room mudou, qualitativa e quantitativamente, a vida.
Rita Pais

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Pelos 13 anos, as leituras que herdara da infância e pré-adolescência começavam a não me satisfazer. Já não sentia o prazer e a gula pelos livros, a ansiedade de nunca parar de os ler, aquele folêgo, aquela emoção, aquela entrega.
Alguns especialistas em Literatura Infantil consideram que não existe uma verdadeira literatura juvenil, já que na adolescência e juventude os leitores têm já adquiridas as competências básicas de leitura para poderem ler livros de adultos. A questão prende-se muitas vezes com o desinteresse por certos temas ou estilos, bem como o treino da concentração. Por isso a literatura juvenil mais não seria do que a adaptação de um tema, uma narrativa, um assunto ao contexto simplificado dos jovens. Não tenho muitas certezas quanto a estes argumentos mas percebo que há um rol de usos retóricos na escrita para a infância que dão aos textos níveis de leitura, ritmos e efeitos do belo próprios da ideia literária, em geral.
Contudo, a experiência que desenvolvi no Natal dos meus 13 anos parece aproximar-se daqueles que defendem a passagem da literatura infantil para a literatura para adultos.
Não sabendo como escolher os livros a pedir no Natal, resolvi recorrer ao meu manual de Português, e dele seleccionei um conto e uma crónica de que tinha gostado particularmente. Assim foi, integrei na lista Os novos contos da montanha, do Miguel Torga, e Deste mundo e do outro, de José Saramago.
Li-os aos dois. Na época lembro-me que fiquei bastante entusiasmada com o livro do Saramago. Tinha um misto de narrativa linear e mistério. O 'realismo mágico', que ainda não conhecia e nunca aprofundei, espantou-me. Ao contrário de Torga, cuja angústia compreendia e partilhava pela leitura, com Saramago questionava. Foi talvez o meu primeiro contacto com a literatura para adultos: aquela que já não se torna leve na memória, aquela que faz experiências connosco.
Curiosamente, não voltei a ler um único livro de Saramago até muito mais tarde, no 1º ano da faculdade, ser (ainda bem) obrigada a ler O memorial do convento. Gostei muito, mas continuo a não ser sua leitora regular.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas


LIVROS EMBRULHADOS

Livros e prendas de Natal sempre foram sinónimos, ainda que não exclusivos. Com as memórias um bocado baralhadas, acho que o primeiro livro que me recordo de ter recebido no Natal era um livro ilustrado dedicado à época natalícia. Calculo que ainda não tenha sido transferido cá para casa, porque não o consigo encontrar, o que significa que não me vou lembrar do título ou do autor. Mas lembro-me bem da capa azul escura com uma árvore de Natal rodeada de crianças que cantavam. A história era uma espécie de calendário do advento, explicando algumas tradições natalícias de diferentes países e as ilustrações ainda tinham aquele traço ‘antigo’, quase clássico, e faziam-me regressar todos os anos à contagem decrescente até ao dia 24.
Mais tarde, recordo uma colecção do Círculo de Leitores que incluía três títulos que li e reli, e que continuam a pertencer à lista das mais agradáveis memórias de infância: O Pequeno Fantasma, de Otfried Preussler, Konrad, ou o Menino Que Saiu de uma Lata de Conservas, de Christine Nostlinger e Emílio e os Detectives, de de Erich Kastner.
Um ou dois anos depois, houve o embrulho com três álbuns do Tintin, de Hergé, os primeiros álbuns de banda desenhada que recebi, ainda sem saber que a banda desenhada me continuaria a acompanhar de modo tão regular ao longo dos anos. Eram eles O Caranguejo das Tenazes de Ouro, O Ceptro de Ottokar e A Ilha Negra. Todas estas prendas natalícias foram oferecidas pelas minhas mães (não é gralha), assim como uma série de muitos outros livros que aqui não caberiam.
Os livros-prendas de Natal continuam a ser um hábito. E sempre em regime de surpresa. O que significa que já estou a contar os dias para os livros que aí virão na noite de 24...

sábado, 16 de dezembro de 2006

Leituras


O Livro do Meio
Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho
Caminho, 2006

Acabei na noite passada este 'romance epistolar'. Tal como me aconteceu com a Odisseia, fiquei com aquela sensação de vazio, que se tem quando entramos na narrativa, nas personagens, nos espaços.
A correspondência entre os dois escritores relata a infância de ambos, entre comentários e apontamentos sobre o quotidiano. Mas o que este livro tem de especial é um mistério, uma alma que não se desvenda, mas sempre se vislumbra, na leitura. A intenção do livro, bem como a sua metodologia é desvendada pelos narradores, por isso não se trata de um recurso oculto de organização do texto. Tudo é revelado. Com o tempo de leitura, distinguimos as personagens, distinguimos os estilos dos narradores, entramos e imaginamos o universo rural da infância de Silva Carvalho ou o ambiente citadino burguês de Velho da Costa. Fica porém um silêncio, um véu entre o que se diz e não diz, e a minha condição de leitora resvala entre a cumplicidade permitida e os seus limites. E disso também falam os autores.
Quando Mega Ferreira e Isabel Allegro apresentaram o livro, ambos falaram em 'tom', e na sua importância. Agora identifico o sentido deste ritmo: o romance epistolar cria duas personagens cuja vida nasce e se alimenta em diálogo. Não são as memórias de dois escritores, não são duas infâncias em oposição, são um romance no sentido em que as partes, sozinhas, não existem. Aqui reside o tom, aqui reside o mistério, aqui reside o limite da palavra para a alma.
«Sangue e tinta, em transfusão mais perpétua que nós.» (última frase)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Pais empenhados

Quando se pede a participação dos pais nas actividades de Promoção da Leitura, chega-nos um email da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica do 1º Ciclo de Valado dos Frades. Esta Associação pede-nos que contribuamos com a oferta de um ou mais livros para a biblioteca da Escola, que serão entregues durante a festa de Natal, no próximo sábado, dia 16.
Ficámos curiosos, pelo que perguntámos em que situação se encontrava a biblioteca. Soubemos então que o espaço da Biblioteca é actualmente partilhado com a sala de professores e o apoio pedagógico. A recém-criada associação comprometeu-se a adaptar o espaço para que as crianças se sintam mais confortáveis, visto que a própria escola sofre de carências básicas ao nível das instalações e equipamentos. Através de diversas iniciativas, a Associação já conseguiu uma carpete para forrar parte do chão da sala, uma televisão e dois computadores usados.
Quanto aos livros, "Uma criança, um livro de presente para a Biblioteca Escolar" está prestes a atingir o seu objectivo com a contribuição preciosa da Estampa e da Lusodidacta, assim nos disse a presidente, Carla Almeida. O agrupamento garantiu o concurso à Rede de Bibliotecas Escolares, mas até lá é fundamental construir um espaço cultural, saudável e lúdico que as crianças identifiquem como seu.
Mas os pais querem dinamizar o espaço e têm em projecto a realização de uma semana da leitura, levando um escritor à escola, e uma iniciativa com um nome apelativo: "Pais, contem-nos histórias".
Um exemplo a reter.
Se alguém quiser contribuir com um livro para a causa, a morada é a seguinte:
Associação de Pais e Encarregados de Educação
Escola Básica do 1º Ciclo de Valado dos Frades
Rua Professor Arlindo Varela
2450 Valado dos Frades

A Casa da Árvore


«A Casa da Árvore» é um projecto multidisciplinar que se desenvolve em interacção com o público a partir de um livro com o mesmo nome. A autora, Margarida Botelho, explicou-nos como nasceu e funciona o projecto:
«A Casa da Árvore nasceu como um livro e é na realidade uma edição de autor, (em que eu sou a autora do texto e das ilustrações). Anexo ao livro existe um projecto de teatro e de ateliers artísticos. Neste momento aluguei um espaço (uma sala) na Fermento a qual serve de galeria de exposição das ilustrações originais do livro (que são maquetes e marionetas). Neste espaço também estão as ilustrações de outros livros, nomeadamente do livro "Meia-bola" ilustrado pelo André da Loba. Durante um mês temos uma programação com oficinas para adultos (durante a semana) e crianças (durante o fim de semana). Até 18 de Dezembro estaremos sempre neste espaço, depois a ideia será percorrer (com a árvore e o cenário do livro) vários lugares, promovendo o mesmo tipo de actividades à volta da Casa da Árvore. Estamos sempre abertos das 11h às 20h (também domingos e feriados).»
Vale uma visita no próximo fim de semana, para quem esteja em Lisboa.
Deixamos também o site, para mais informações: http://www.boxdesign.info/a_casa_da_arvore

Qual o futuro do livro?

Um dos assuntos na ordem do dia é o do futuro do livro tal como o conhecemos. A evolução tecnológica, comprovada pela profusão de novas plataformas de leitura, de audição, coloca este objecto e as editoras perante uma encruzilhada. De que forma se poderá avançar para uma adaptação a esta nova realidade? Quantos mais anos fará sentido continuar a editar livros na sua forma actual? Até que ponto assistiremos à sua substituição definitiva por audiobooks, e-books e afins?
O site do The Institute for the Future of the Book apresenta uma série de textos de professores universitários norte-americanos que abordam estas questões. Ao mesmo tempo, apresenta um conjunto de links para uma série de sites que nos permitem estabelecer um contacto mais próximo com algumas destas novas abordagens ao livro.
Numa opinião muito pessoal, motivada por razões de ordem cultural e afectiva, parece-me difícil a substituição total do objecto-livro por audiobooks, e-books, etc... No entanto, se pensarmos que as gerações futuras se caracterizam, também, pela facilidade na utilização de ferramentas informáticas, das quais derivam os suportes destes "novos livros", e se observarmos que, hoje em dia, um dos factores de aproximação dos jovens às Bibliotecas reside na possibilidade de contactar com um computador, neste caso, teremos que aceitar como provável uma verdadeira revolução no campo editorial. Voltarei mais tarde a este assunto. Entretanto, a caixa de comentários encontra-se disponível.