Mostrando postagens com marcador Miguel Sousa Tavares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Miguel Sousa Tavares. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

No teu deserto - Miguel Sousa Tavares



Título: No Teu Deserto

Autor:
Miguel Sousa Tavares

Ano de edição ou reimpressão: 2009

Editor: Oficina do Livro

Encadernação: Capa mole

Páginas: 128



Excerto
“Esta história que vos vou contar passou-se há vinte anos. Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca a contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós que a vivemos. Talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fina camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes.”
«Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.» «Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.» «Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imenso e tão forte que era só nosso e nós mesmos não falávamos disso, mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segredo que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. E que qualquer frase, qualquer palavra, se arriscaria a quebrar esse sortilégio.» «Eu sei que ela se lembra, sei que foi feliz então, como eu fui. Mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silêncio, que me zanguei com o seu último desaparecimento, que vivo amuado com ela, desde então. Não é verdade, Cláudia. Vê como eu me lembro, vê se não foram assim, passo por passo, aqueles quatro dias que demorámos até chegar juntos ao deserto.»



A minha opinião

No teu deserto, obra assumidamente autobiográfica, Miguel Sousa Tavares leva-nos em viagem pelo deserto na sua companhia e na de Cláudia, uma rapariga que conheceram pouco tempo antes, mas pela qual criou uma afinidade, que após mais de 20 anos ainda perdura. A viagem, realizada em Novembro de 1987 ao deserto do Sahara num jipe UMM seria uma espécie de uma aventura, com peripécias bastante hilariantes. Desde os acontecimentos do ferry, árabe, que os levaria a Oran, até à chegada a Argel, onde o protagonista ia sendo preso. Na obra, Miguel Sousa Tavares arrisca um romance a quatro mãos, e duas vozes, onde coloca como narradora a própria Cláudia, 15 anos mais nova, da viagem de 40 dias ao deserto. O autor viria mesmo a dizer em entrevistas que o "só existe porque ela morreu". O livro esteve quase para não chegar às mãos dos leitores porque esteve dentro do computador que foi roubado ao escritor, em Outubro do ano passado, isto porque numa entrevista dada a Helena Teixeira da Silva ao Jornal de Notícias, Miguel Sousa Tavares disse que durante os dois meses que esteve sem computador não escreveu uma linha. «E não, acho que não rescreveria a história, não teria força anímica para voltar atrás», adianta. No teu deserto é um livro intimista, que se lê em pouco mais de uma hora, e que faz com que o leitor entre também ele na história. Um livro diferente do que Miguel Sousa Tavares nos habituou a ler (Equador e Rio das Flores), mas que arrisco ser a sua melhor obra.



“É por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição – quando mais não seja, a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. Suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão “pausa” no filme da vida.” “Mesmo a desordem necessita de uma ordem que lhe dê um sentido para que não seja apenas leviandade.”

domingo, 24 de junho de 2007

Equador - Miguel Sousa Tavares



"Equador" marca a estreia no campo do romance do conhecido jornalista Miguel Sousa Tavares, autor de mais alguns livros de sucesso, mas todos de contos ou crónicas.
Assim, neste seu primeiro romance, por sinal, um romance histórico que obriga sempre o autor a um estudo profundo e exaustivo da época e do meio que aborda (neste caso é muito bem conseguido), Tavares situa-nos em 1905 numa sociedade portuguesa que vive, sem o saber, os últimos dias da monarquia e é dominada por um viver mundano e de aparências, onde a pequena e alta burguesia não faz outra coisa que pavonear-se e falar da vida alheia. um pouco ao estilo do "nosso" Eça.
Tendo este contexto como pano de fundo, surge-nos a personagem principal, o jovem Bernardo Valença, que tendo herdado do seu pai uma quota maioritária num negócio de navegação, vive tranquila e confortavelmente, passeando o seu charme pelos clubes, soirés de S.Carlos e reuniões de amigos onde se discute um pouco de tudo, principalmente política. E é nesta inacção camuflada que o jovem Valença escreve uns artigos de opinião sobre a escravatura que fazem furor no meio intelectual de Lisboa e é precisamente devido a esses artigos que o mesmo recebe um convite do próprio rei D.Carlos para que se desloque a Vila Viçosa, onde e depois de um faustoso almoço, o rei convida-o para ser governador de uma pequena ilha desterrada no fim do mundo, disputada por outras potências marítimas e bastante rica em cacau: S. Tomé e Príncipe.
Da história não vou revelar mais nada porque aí o interesse poderia diminuir, mas posso adiantar que ainda mete amores, interesses sujos, jogos estratégicos, um cônsul inglês e a sua jovem e bela mulher, a cena de sexo mais sensual que alguma vez li (entre outras bem quentes...), enfim, um romance na verdadeira acepção da palavra.
Quanto ao texto literário: Li algures alguém que afirmava que "Equador" estava no mesmo patamar que os "Maias" de Eça. Claro que é um exagero e um pouco herege, mas sem dúvida que faz lembrar um pouco o notável romance de Eça. Vasco Graça Moura diz na edição que possuo "há vinte anos ou mais que eu não devorava um romance português como aconteceu com Equador" e eu afirmo: "tirando o Memorial do Convento, desde o falecimento de Eça que ninguém escrevia uma estória tão cativante como o fez Miguel Sousa Tavares". Exagero? Um pouco, mas a beleza da obra não está propriamente na sua escrita, embora fluída, é simples, eficaz e reflexo da profissão do autor.
A beleza do romance está no ritmo alucinante que imprime, está nas personagens muito bem conseguidas e inesquecíveis, está na forma como trata a mulher (linda de morrer! E expressa a profunda admiração que Tavares tem pelo sexo feminino), da sensualidade e da magia que nos consegue descrever e fazer sentir, dos odores, das sensações.
Um livro admirável, profundamente comovente e de um humanismo que nos deixa estarrecidos num paraíso terrestre.
Sem dúvida um dos melhores livros que li até hoje e, sem ferir suceptibilidades, um dos melhores da literatura portuguesa. Obrigatório mesmo para quem lê 1 livro por ano.
Um romance que devorei em dois dias (relendo muitas partes) e que no fim, me deixou uma sensação de vazio e muitas saudades.