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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fúria Divina - José Rodrigues dos Santos

Título: Fúria Divina

Autor:
José Rodrigues dos Santos

Edição/reimpressão: 2009

Páginas: 608

Editor: Gradiva Publicações




Sinopse


Uma mensagem secreta da Al-Qaeda faz soar as campainhas de alarme em Washington. Seduzido por uma bela operacional da CIA, o historiador e criptanalista português Tomás Noronha é confrontado em Veneza com uma estranha cifra: 6AYHAS1HA8RU.
Ahmed é um menino egípcio a quem o mullah Saad ensina na mesquita o carácter pacífico e indulgente do islão. Mas nas aulas da madrassa aparece um novo professor com um islão diferente, agressivo e intolerante. O mullah e o novo professor digladiam-se por Ahmed e o menino irá fazer uma escolha que nos transporta ao maior pesadelo do nosso tempo. Baseando-se em informações verídicas, José Rodrigues dos Santos confirma-se nesta obra surpreendente como o mestre dos grandes temas contemporâneos. Mais do que um empolgante romance, Fúria Divina é um impressionante guia que nos orienta pelo labirinto do mundo e nos revela os tempos em que vivemos. Este romance foi revisto por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda.



A minha opinião

“O valor de um livro está no gosto que nós temos de o ler”, disse José Rodrigues dos Santos numa entrevista recentemente.

E foi com muito gosto que li o seu novo romance, desta vez centrado na Al-Qaeda.

Desta vez Tomás de Noronha, que o autor confessou ter a cara de Paulo Pires, terá de desvendar um estranho código que apareceu num email enviado por fundamentalistas islâmicos, interceptado em Lisboa.

Ao contrário de outros romances, neste não é a CIA que o procura, mas o NEST (Nuclear Emergency Search Team), unidade de resposta rápida, criada pelos EUA em meados da década de 1970 para lidar com contingências especiais.

O que o NEST teme é que surja um outro tipo de terrorismo: o terrorismo nuclear.



Ao mesmo tempo, é-nos dada a conhecer a história de Ahmed, natural do Egipto, que desde os 7 anos começa a aprender aprofundadamente o Alcorão, o que vai fazer dele um fundamentalista, trazendo-o para o nosso país, para tirar o curso de engenharia. Sem que saiba, o destino de Tomás vai cruzar-se com Ahmed na Universidade Nova de Lisboa, a quem dá aulas de Línguas Antigas. No entanto, e como bom crente que é, Ahmed cedo é destacado para o Afeganistão onde conhece Bin Laden, aos 32 anos, e depois do ataque às Torres Gémeas, a 11 de Setembro de 2001. É nessa altura que Bin Laden lhe faz um estranho pedido…



Este romance explica de forma bastante explícita o que são as leis do Alcorão, e que o projecto principal do Islão é conquistar o Planeta. José Rodrigues dos Santos relata ainda como é a comunidade islâmica em Portugal, a maioria vinda das antigas colónias portuguesas, e que vive de forma pacífica no nosso país.

Mais um bom livro a destacar aos que li este ano.



Excertos:

“Todos os estudos mostram que os terroristas em geram são pessoas com uma educação acima da média, a maior parte das vezes de nível universitário. O perfil do terrorista islâmico não é excepção. É verdade que alguns são pobres e incultos, mas a maioria frequentou ou tirou cursos superiores e há até vários casos de pessoas ricas. Bin Laden, por exemplo, é milionário!”



“Os muçulmanos ocuparam grande parte da Península Ibérica entre 711 e 1492. Quando eu estava na Universidade de Al-Azhar, no Cairo, ouvi alguns fundamentalistas falarem nostalgicamente no Al-Andalus e na necessidade de o Islão recuperar a Península Ibérica.”



“A Al-Qaeda acredita que toda a terra que foi muçulmana tem de voltar a ser muçulmana.”



Sobre a comunidade islâmica em Portugal - “A maior parte veio de Moçambique, é gente que ocupa lugares de relevo na sociedade portuguesa e, quando falamos entre nós, a questão da religião nem sequer se põe.”



“No Ocidente é apenas apresentada uma versão cristianizada do Islão, havendo sempre o cuidado de eliminar todos estes pormenores que nos poderão chocar e alienar. Está a ver Jesus mandar cortar as cabeças de pessoas e a dizer a condenados que quem vai tratar dos seus filhos será o Inferno e a vangloriar-se perante a cabeça decepada de um inimigo? Isto é chocante para nós e é por isso que estes pormenores não nos são revelados!”

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Fúria Divina (A) – José Rodrigues dos Santos


José Rodrigues dos Santos, jornalista, pivot do telejornal da RTP, surgiu na ribalta literária em 2004 aquando da publicação do soberbo romance “A Filha do Capitão”. Desde logo foi capaz de criar uma enorme legião de fãs, não pela figura pública que é, mas sobretudo porque sabe como contar uma história, sabe como lançar motivos de interesse e tem uma grande capacidade de nos situar no centro da acção informando-nos, ou seja, os seus livros não são meros romances, neles há todo um vasto oceano de informações, aprendemos, é útil e, em simultâneo, diverte-nos.

O estilo é deveras simples. A escrita é corrida, trabalha bem os personagens, não lhes dá grande profundidade mas fornece-lhes carácter, situando-os nos momentos temporais em que se situa a narrativa, tornando-os um elo para explorar o contexto sociológico.

Foi assim na “Filha do Capitão” e em “A Vida num Sopro”. No entanto constatamos que José Rodrigues dos Santos escreve romances de dois estilos distintos mas com alguns elos em comum. Um, o que mais me agrada, o género Histórico, o outro, mais comercial e que melhor vende noutros mercados, o género thriller com alguns laivos de histórico.

Para este género, que muitos apelidam de Dan Brown, JRS criou no primeiro livro “Codex 632” o personagem Tomás Noronha, professor de História e criptanalista.

E é com este personagem, português de gema, que construiu quatro romances sempre com um denominador em comum: todos eles abordam aspectos preocupantes e actuais que estão na agenda dos governos de todo o mundo.

E isso sucede, uma vez mais, neste “A Fúria Divina”.

Não vou entrar em pormenores, mas JRS lança-nos uma história que é simplesmente um alerta num vasto rol de informações sobre os muçulmanos e sobretudo o fundamentalismo. Explica-nos porque é que ele existe, o que está por detrás do fanatismo, quais as fundações da religião, a sua História.

Embora não se debruce ou analise intensivamente o Alcorão, facilmente percebemos que o livro sagrado dos muçulmanos está por detrás, a sua interpretação textual ou não, dependendo do que se quer interpretar.

Esse é o principal tema do livro. Como pano de fundo, duas histórias que nos servirá para entender o porquê da Jihad, do surgimento de Mujaydin. Por um lado Ahmed, jovem egípcio que desde cedo vê alimentado o seu ódio contra os kafirun (cristãos), por outro, uma história onde Tomás Noronha é contratado para decifrar uma mensagem supostamente da Al-Qaeda.

Obviamente que sucedem as típicos perseguições, situações um pouco forçadas ou até algo estapafúrdias (penso que é o grande fraco de JRS), Tomás Noronha, embora não seja tão ingénuo como no último romance, ainda tem atitudes um pouco ridículas, mas o certo é que este livro serve muito bem o sue propósito, com ele ficamos a conhecer um pouco da religião muçulmana, da Alcorão e do que está por detrás do fundamentalismo e do seu ódio ao Ocidente.


Classificação: 5

sábado, 20 de dezembro de 2008

A Vida num Sopro

Sinopse: Portugal, anos 30. Salazar acabou de ascender ao poder e, com mão de ferro, vai impondo a ordem no país. Portugal muda de vida. As contas públicas são equilibradas, Beatriz Costa anima o Parque Mayer, a PVDE cala a oposição. Luís é um estudante idealista que se cruza no liceu de Bragança com os olhos cor de mel de Amélia. O amor entre os dois vai, porém, ser duramente posto à prova por três acontecimentos que os ultrapassam: a oposição da mãe da rapariga, um assassinato inesperado e a guerra civil de Espanha. Através da história de uma paixão que desafia os valores tradicionais do Portugal conservador, este fascinante romance transporta-nos ao fogo dos anos em que se forjou o Estado Novo.

Este era um dos livros mais esperados da temporada: a sinopse prometia, bem como o abandono (espero que permanente) da personagem Tomás Noronha, que tinha estado presente nos últimos três livros do autor. Esperava um romance ao estilo de "A Filha do Capitão" e provavelmente fiz mal. Mas vamos por partes.

Bragança, 1929. Luís conhece Amélia na escola e os dois apaixonam-se. Esta primeira parte do livro foi de leitura muito rápida. Basicamente, assistimos ao desenrolar da relação dos dois, ao mesmo tempo que temos algumas informações sobre o contexto, principalmente a nível de usos e costumes da época. Gostei imenso da presença de várias palavras próprias da região... Conheço bastantes da região do Baixo Alentejo, a região dos meus pais, e foi engraçado ver algumas comuns ou semelhantes. Achei que ajudou as personagens a tornarem-se mais reais.

A história prossegue e rapidamente os protagonistas vêem-se perante várias dificuldades para poderem, tal como toda a gente deseja, ser felizes. Uma correcção: ao contrário do que é referido na sinopse, a Guerra Civil Espanhola não tem influência directa no desenrolar da história do casal; está presente, é profusamente detalhada (até demais, achei eu), mas a sua presença é secundária na linha principal do enredo.

Pessoalmente, acho a época do Estado Novo interessantíssima e importante para percebermos onde nos encontramos hoje, a vários níveis, mas especialmente a nível social. Este livro não constituiu uma fonte de informação do período tão detalhada como estava à espera e gostaria... Fiquei com a sensação que poderia ter sido melhor explorada. Terá este facto sido propositado, face a algumas críticas relativas à extensão habitual da parte informativa? Não sei, mas ainda assim gostei imenso das partes em que a PVDE (futura PIDE) deu o "ar da sua graça". Deu para sentir a astúcia e a falta de escrúpulos da instituição.

O enredo deixou-me algo a desejar. Houve qualquer coisa que para mim não funcionou na história das duas personagens principais deste livro, apesar de ainda não ter conseguido perceber bem o quê. Nunca consegui entrar na pele das personagens e na sua (trágica) história. O enredo teve partes bastante previsíveis (eu, que nunca adivinho nada, desvendei uma das supostas "surpresas" 30-40 páginas antes) e, sinceramente, não gostei do final. Sem querer desvendar o que quer que seja, compreendo a opção do escritor pelo dramatismo, mas neste caso em concreto, e é uma opinião muito pessoal, não teria sido o final que eu escolheria. Não gostei da mensagem que transmite.

De resto, fiz mal em sair de um escritor como o Zafón e passar para o José Rodrigues dos Santos. Acho que prejudicou a minha leitura devido às diferenças da escrita entre os dois. Não é que este último escreva mal, mas na minha opinião fica a léguas de distância do espanhol e senti isso várias vezes.

Para finalizar, que o texto já vai longo, é um livro com uma história e pano de fundo interessantes q.b., mas que não corresponde às expectativas (pelo menos, às que eu tinha). Contudo, não posso deixar de aconselhar que o leiam e tirem as vossas próprias conclusões.

6/10

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Ilha das Trevas

Depois do Codex 632, voltei a ler José Rodrigues dos Santos, mas, desta vez, naquele que considero o seu melhor genéro - o romance histórico. O espaço da acção de A Ilha das Trevas, Timor, não podia estar mais perto e mais longe de mim, enquanto portuguesa. Os acontecimentos vividos nesta ilha marcaram o meu crescimento, mas eram só imagens. Dramáticas, marcantes, mas só imagens. Jose Rodrigues dos Santos teve o condão de me fazer aprender e perceber tudo aquilo que aconteceu ao longo de 33 anos de luta pela independência. Curiosamente, enquanto lia a obra, comemorou-se, a 12 de Novembro, o 17º aniversário do massacre no cemitério de Santa Cruz, em Dili.

O melhor desta obra é, sem dúvida, a investigação que a sustenta. Simplesmente fascinante. José Rodrigues dos Santos, como bom jornalista que se preze, não deixou nada ao acaso e apresenta-nos várias versões do mesmo facto. Quando se falava de Timor, percebia o que estava em causa, mas de forma muito superficial. N' A Ilha das Trevas cada situação foi bastante bem explorada, permitindo-nos finalmente compreender todas as posições e vontades dos envolvidos. Até me consegui surpreender com a vontade e força dos nossos políticos diante dos líderes das grandes potências.

A personagem principal da obra, Paulino, é extraordinária e, ao longo da leitura, a descrição dos seus medos e das suas vivências cativam-nos. A emoção toma conta de nós e, pessoalmente, parece que agora consigo mesmo perceber/sentir o que os timorenses sentiam. Arrepiei-me na descrição dos massacres, senti medo nos momentos de tensão, desejei ajudar, critiquei por não se ter agido mais cedo. Paulino da Conceição é o espelho dos desejos e tormentos de uma nação.

Gostei bastante do estilo da obra. Apesar da importância dramática que encerra, A Ilha das Trevas proporciona uma leitura fluída e agradável que nos faz ir virando as páginas. Nos momentos finais, é impossível não sentir um misto de tristeza por quem pereceu e de alegria pela independência ter vencido.

8/10

domingo, 9 de novembro de 2008

Vida num Sopro (A) - José Rodrigues dos Santos



A acção temporal tem apenas dez anos, mas dez anos onde acontecimentos determinantes sucederam tendo do um impacto determinante a nível nacional e internacional.

1929-1939, dez anos.

Dez anos onde ventos de mudança sopram. Assiste-se ao nascimento do Estado Novo num Portugal assustado, rude, inseguro, só o facto desse regime trazer ordem e segurança foi o bastante para o mesmo originar a simpatia pela larga maioria do povo.

1929-1939, dez anos onde nasce, decorre e finda a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Uma guerra entre Nacionalistas e a Frente Popular, apelidados de blancos e Rojos, estes compostos pela esquerda (comunistas, anarquistas e também o governo eleito liberal-democrático). Uma guerra onde atrocidades são cometidas de uma forma arbitrária, sendo este conflito um laboratório de experiências para o conflito mundial que estava prestes a rebentar. Curioso o que está por detrás da ajuda camuflada do regime português aos nacionalistas.

1929-1939, dez anos onde o regime do Estado Novo ganha força e cria um sistema de informação acerca dos cidadãos tidos como ameaça para a nação (regime) e, mais grave, um sistema onde qualquer pessoa podia ser informador, bufo, e assim atraiçoar o melhor amigo ou qualquer familiar que tivesse a ousadia de proferir qualquer frase contra o regime. Ou seja, a imposição do regime do medo que, até hoje, nunca nos conseguimos apartar. Por detrás desse sistema a PVDE (Polícia de Vigilância Do Estado) ou a Pevide, como era conhecida pelo povo.

Neste livro são estes os três pontos principais da narrativa.

Como pano de fundo, interligando estes acontecimentos que nos colocam no cerne desses três pontos, uma história de amor. Uma simples, singela e trágica história de amor entre Luís Afonso e Amélia Rodrigues.

Passado entre Bragança-Lisboa-Penafiel-Vinhais, esta história é o elo condutor entre a vida e mentalidade rural e citadina. A mudança de mentalidades e a forma como se sente a diferença das mesmas de local para local não passa aqui despercebida.

Um livro apaixonante que narra acontecimentos importantes que estiveram por detrás da longevidade desse regime. Facilmente entendemos do porquê do surgimento do regime, do porquê de tão facilmente ter sido acolhido e do porquê de ter durado tantos anos. Quanto a mim o livro vale por isso.

A escrita é simples.

Aflorada por frases poéticas, José Rodrigues dos Santos não se perde em devaneios tão comum na maioria dos autores portugueses. Os diálogos são simples e directos, caracterizando a época com termos locais não faltando mesmo o castelhano e o galego.

É um livro na mesma linha da “Filha do Capitão”. Na minha opinião não se podem comparar devido aos temas que um e outro trata, no entanto o estilo é o mesmo mas confesso que este “A Vida num Sopro” apaixonou-me menos, no entanto sublinho que considero a “Filha do Capitão” um dos grandes livros da literatura universal, logo, será extremamente difícil JRS fazer melhor.

Este “A Vida num Sopro” é muito bom. Lê-se num fôlego, num sopro e facilmente nos apaixonamos pelos personagens, até porque, como é costume nos seus livros, JRS tem a capacidade de criar personagens do povo, gente como nós que facilmente incorporam se não nós mesmos, pelo menos, nossos antepassados.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Codex 632 (O) - José Rodrigues dos Santos

O ”Codex 632”, escrito entre 2004 e 2005, tenta ser um livro desmistificador da vida de Cristóvão Colombo, pelo menos numa perspectiva de lhe dar uma nacionalidade e, sobretudo, um objectivo.

Cristóvão Colombo nunca foi, para mim, uma personagem digna de especial relevo.

Para qualquer interessado em História, facilmente constata que Colombo não foi o primeiro a chegar à América, pois, e está mais do que comprovado, centenas de anos antes já lá “passeavam” feníncios, vikings e, soube-se à pouco tempo, até chineses já lá tinham aportado. Logo essa história de ter sido Cristóvão Colombo o primeiro a chegar à América, à muito que está ultrapassada.

Agora o que desconhecia é a história que está por detrás do homem.

Quem foi realmente Colombo? Qual a sua nacionalidade? O que o moveu nesse empreendimento e, chamava-se realmente Cristóvão Colombo?

Pois bem, neste “Codex 632”, José Rodrigues dos Santos, assente em documentos genuínos, apresenta-nos muitos factos e dá também muitas respostas, porém e na minha opinião, comete um erro: não assume essas teorias, deixa antever que ali há muita coisa romanceada, sem contudo separar os factos reais dos dissimulados, e isso desvaloriza o livro.

Antes de abordar a história do livro expresso a minha profunda admiração pelo trabalho de JRS, sobretudo ao nível literário. O seu romance anterior, “A Filha do Capitão”, é uma pérola da literatura portuguesa e não só. Ele escreve bem, tem sensibilidade, não complica, nem entra em desnecessárias descrições ou devaneios. A escrita dele é simples, fluída e o ritmo que emprega, faz com que o livro se leia num ápice. “A Filha do Capitão” foi assim, e este “Codex 632” também. Porém, dificilmente ele escreverá um outro romance que bata, em Qualidade e sensibilidade, a “Filha do Capitão”.

Este “Codex” é um romance histórico, na linha de Dan Brown. Pois é meu caro Rodrigues dos Santos, por muito que teime, é difícil desmentir tais semelhanças. A estrutura é muito semelhante. Concordo que o curso da história e os personagens e alguns outros pormenores sejam diferentes, mas os objectivos, o porquê da história é semelhante entre os dois livros: “Código Da Vinci” e “Codex 632”.

Tomás Noronha é um professor de História da Universidade Nova de Lisboa e perito em Criptanálise e Línguas Antigas que recebe uma proposta de um organismo norte-americano no sentido de descodificar uma cifra que seria a chave para entrar no trabalho de investigação que um outro professor havia feito, trabalho esse que havia ficado sem quaisquer conclusões conhecidas, pois esse investigador havia falecido sem divulgar as suas conclusões...

Homem estudioso, Tomás vive uma época muito conturbada da sua vida ao nível familiar, problemas esses que necessitam de dinheiro para serem solucionados, e é precisamente por essa necessidade que Tomás resolve aceitar a incumbência que lhe propõem, acabando assim por empreender uma aventura cheia de códigos, mistérios, enigmas e muitos segredos. Ao princípio Tomás tem como objectivo investigar as notas desse tal falecido investigador, notas essas que alegadamente seriam sobre os Descobrimentos Portugueses, porém depressa Tomas começa a juntar uma série de peças que lhe dão a visão clara de muitos factos do séc. XIV e XV, factos esses que influenciam não só a actual perspectiva dos Descobrimentos, como também a visão dos jogos políticos que estiveram por detrás dos mesmos. E é por aí que Tomás chega a Cristóvão Colombo, e o papel que ele desempenhou naquele cenário.

Embora este seja um livro repleto de aventuras, volto a repetir, na mesma linha de “Código Da Vinci”, é também, e isso é indesmentível, um rico manancial de História dos Descobrimentos.

Rodrigues dos Santos leva a cabo uma investigação minuciosa da época, dos objectivos, da política, dos interesses e – e para mim foi uma surpresa -, o que está por detrás dos Descobrimentos, como começaram, quem os impulsionou e que objectivos tinham. E mais uma vez surgem os Templários, com a sua Ordem de Cristo legalmente formalizada em Portugal.

De resto é necessário referir que JRS não descobriu a pólvora. Ele limitou-se a usar velhas teorias.

Já em 1992 o Prof. Augusto Mascarenhas Barreto publicava, fruto de 20anos de investigação, “Cristóvão Colombo – Agente Secreto de El Rei D. João II”, e em 1997, “Colombo Português: provas Documentais”.

Nesses trabalhos, AMB conclui que Colombo não era genovês, mas sim judeu português, natural de Cuba, Alentejo. Conclui também que havia um complôt entre D. João II e Colombo, no sentido de iludir a atenção dos Reis Católicos de Espanha, entre outras interessantes conclusões que Rodrigues dos Santos aproveita para escrever o “Codex 632”.

O livro está bem conseguido, isso é um facto. No entanto há partes que não gostei e acho até que estão mal exploradas e até mal escritas. A vida familiar de Tomás é desenvolvida de uma forma paralela à história da investigação, no entanto nunca se percebe bem qual a finalidade. Para além de ser muito piegas, JRS usa e abusa de lugares-comuns, dando a sensação que grande parte é escrita apenas para ocupar espaço. Bem sei que a vida familiar de Tomás está por detrás do motivo de ele aceitar esse encargo de descodificar aquelas cifras, mas depois disso...

Depois há as situações sexuais, e aí, enfim, que dizer?

Na minha humilde opinião estão muito mal conseguidas. Nada excitantes ou provocatórias, quase todas as situações são ridículas e sem ponta de sensualidade. Lê-se coisas como ”fazer sopa de peixe com o leite das minhas mamas”, entre outras frase muito fraquinhas.

Mas pronto, de resto gostei bastante do livro.

Descobri muitos factos novos e interessantes e diverti-me imenso, só é pena JRS não encarar de frente esses Históricos factos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Sétimo Selo

Sinopse: Um cientista é assassinado na Antárctica e a Interpol contacta Tomás Noronha para decifrar um enigma com mais de mil anos, um segredo bíblico que o criminoso rabiscou numa folha e deixou ao lado do cadáver: 666.

O mistério em torno do número da Besta lança Tomás numa aventura de tirar o fôlego, uma busca que o levará a confrontar-se com o momento mais temido por toda a humanidade: O apocalipse.

De Portugal à Sibéria, da Antárctica à Austrália, O Sétimo Selo transporta-nos numa empolgante viagem às maiores ameaças que se erguem à sobrevivência da Humanidade. Baseando-se em informação científica actualizada, José Rodrigues dos Santos volta com este emocionante romance aos grandes temas contemporâneos, numa descoberta que poderá abalar a forma como cada um de nós encara o futuro da humanidade e do nosso planeta.

Já tive oportunidade de ler quase todos os livros do escritor português José Rodrigues dos Santos (depois deste, só me ficou a faltar "A Ilha das Trevas") e a minha opinião mantém-se: trata-se de um excelente comunicador, mas continua a faltar-lhe alguma habilidade como contador de histórias.

Se não tivesse outro mérito, este livro serve perfeitamente aquele que julgo ter sido um dos principais objectivos que levou JRS a escrevê-lo: chamar a atenção para os problemas do aquecimento global e da escassez da fonte de energia que actualmente faz girar o mundo, o petróleo. Apesar da visão mais ou menos catastrófica da situação actual (mas que o escritor faz questão de realçar se basear em factos comprovados cientificamente), o livro apresenta-nos um manancial de informação super interessante sobre a história das fontes de energia utilizadas pela civilização e sobre a evolução do aquecimento global. Impossível não pensar duas vezes sobre o que andamos a fazer ao nosso ambiente e como estamos a comprometer a sobrevivência dos nossos filhos e netos. Posso dizer que estas foram as partes que mais gostei do livro, onde senti que aprendi.

Por outro lado, continuo a achar a personagem principal, Tomás Noronha, pouco convincente. Já para não falar do enredo e as suas tentativas de criar pólos de interesse com os enigmas (neste caso, com o número 666), que poderiam ter sido muito mais bem desenvolvidos, na minha opinião. Como já referi, continuo a achar que o JRS ainda tem de evoluir bastante como contador de histórias... Aliás, até considero que os seus melhores livros, nesse aspecto, foram até agora "A Filha do Capitão" e "Codex 632". Este "O Sétimo Selo" e "Fórmula de Deus" valeram essencialmente pela informação e conhecimento que transmitem ao leitor.

7/10

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Filha do Capitão (A) - José Rodrigues dos Santos

Este GRANDE ROMANCE procura reproduzir factos históricos ocorridos na Flandres entre 1917 e 1918. As personagens são fictícias, no entanto, os acontecimentos e episódios por eles vividos aconteceram.
Há 3 anos, Feira do Livro de Lisboa, tive o prazer e a felicidade de conhecer e estar à conversa cerca de 10 min. com José Rodrigues dos Santos. Assim e aproveitando a sua enorme simpatia e disponibilidade, coloquei-lhe algumas questões sobre o livro, questões essas que me elucidaram sobre alguns dos factos e que originaram um deslumbramento ainda maior por este magnífico romance. Nesta opinião tentarei então abordar a obra segundo as minhas percepções e também segundo aquilo que me foi transmitido pelo próprio autor do livro: José Rodrigues dos Santos.
O livro tem o seu início temporal em 1890, ano do nascimento de Afonso Brandão, personagem principal da obra.
De origem humilde mas com uma inteligência e curiosidade apurada, é-nos relatada a vida pobre daquela humilde família de seis filhos no meio ribatejano.
Nessa mesma altura em Lille, França, nasce Agnés de Chevallier, filha de um abastado enólogo e comerciante de vinhos. Nascida em berço de ouro, Agnés tem de tudo. Uma educação esmerada, dinheiro, comida da melhor, acesso à cultura e inclusive chega a visitar em 1900 a Exposição Universal de Paris onde sobe, diliciada, a Torre Eifiel.
Aqui Rodrigues dos Santos mostra-nos bem a diferença que havia entre o interior francês e o português, universos muito distantes, completamente opostos. Ao mesmo tempos aproveita para descrever a célebre exposição de Paris.
Nos primeiros capítulos acompanhamos assim a infância de Afonso e Agnés, sendo fácil de adivinhar que, mais tarde ou mais cedo, as vidas deles se vão interligar.
De salientar que o facto de o livro começar em 1890 não ter sido por acaso. Rodrigues dos Santos pretendeu narrar alguns dos factos que surgem por essa altura e que tanta importância irão ter no futuro.
É assim descrito a vinda a Lisboa da família de Afonso e o fascínio que demonstram pela cidade e pelas novidades, algumas delas demasiado futuristas. De notar o pormenor de eles andarem descalços e de ficarem admirados por verem as pessoas no Rocio (Rossio) a passearem-se calçados. Curioso também a descrição do surgimento do futebol enquanto jogo do povo em Portugal e dos primeiros jogos entre o Carcavelos e o Fotball Club Lisbonense, desporto esse que, para além de rivalizar já com a tourada, adquiria, para essa gente do Ribatejo, o nome de fubôu. Curioso também ser nessa altura que surgem as “fotografias vivas” passadas no Real Colyseu e no Teatro D. Amélia, que era nada mais nada menos que exibições do animatógrafo, logo os primórdios do cinema. E mais, o livro está cheio de curiosidades históricas.
Quando Afonso atinge os 14, 15 anos (1904-1905), começam-se a dar em Portugal acontecimentos que irão ficar gravados num lugar de destaque da nossa História. E aqui Rodrigues dos Santos é exímio na narração desses acontecimentos, conseguindo interligar as personagens, a história do livro com os factos históricos.
O assassinato do rei D. Carlos e do seu filho, o príncipe D. Luiz Filipe no dia 1 de Fevereiro de 1910 em plena Praça do Commércio. Os tempos agitados que se seguiram até à implantação da república no dia 5 de Outubro de 1910. Acreditem, é empolgante, delicioso, excepcional.
Até que numa manhã de Agosto de 1914, já Afonso era tenente num quartel em Braga, inicia-se um novo capítulo do romance e o seu principal motivo de interesse A Grande Guerra.
Devido a interesses que envolvia um acordo secreto entre a Alemanha e a Inglaterra, acordo esse que definia em segredo as possessões ultramarinas portuguesas, o governo português apercebeu-se que a sua velha aliada estava a fazer jogo duplo. Por outro lado, a aproximação anglo-espanhola e a frieza com que os dois países, ambos monárquicos, viam a implantação da república em Portugal, indiciavam que a Inglaterra fecharia os olhos a uma possível anexação de Portugal por parte da Espanha, chegando mesmo o governo britânico a avisar o governo português que as obrigação da aliança Portugal-Inglaterra visava apenas a garantia da defesa da costa marítima e não das fronteiras terrestres… Assim e devido a todos esses acordos que punham em perigo a nossa integridade e independência, o governo português não teve outra alternativa do que provocar a Alemanha no sentido de esta nos declarar guerra, para assim tomarmos a posição das forças aliadas e podermos ocupar a mesa das negociações no pós-guerra, defendendo assim as colónias e as fronteiras do continente e ilhas. Para quem quiser saber mais sobre estes jogos, aconselho a leitura de “Crónicas de Guerra” do mesmo autor.
É então que em Abril de 1917, o Corpo Expedicionário Português (CEP), composto por algumas dezenas de batalhões, é enviado para a frente de combate, as temíveis trincheiras da Flandres. Como comandante da Infantaria 8 ia o tenente Afonso Brandão.
Começa nessa altura a terrível odisseia de milhares de homens que, praticamente sem qualquer tipo de treino militar, se vêm nas trincheiras atolados em “merda”, em condições sub-humanas, a servirem, literalmente, de carne para canhão.
Estes acontecimentos são assim o grande objectivo de Rodrigues dos Santos. Narra episódios reais da estadia do CEP nas trincheiras que se estendiam por Fauquissart, Neuve Chapelle e Ferme du Bois.
E é angustiante ler as terríveis provações que os nossos soldados passaram. Eles foram enviados para as trincheiras simplesmente para morrerem, porque quantas mais baixas houvessem, mais apreciado era Portugal pela comunidade internacional. O governo de Lisboa não tinha qualquer interesse e consideração pelas tropas. A partir do momento que chegavam a França, o contigente português jamais era substituído e o regresso dos soldados apenas se dava em sacos mortuários, quando havia alguma coisa para colocar nesses sacos…
ai minha rica mãezinha, não me deixem morrer!” Afirmava m homem cujo rosto era uma massa ensanguentada... Um retracto do inferno.
As outras tropas aliadas e alemãs eram substituídas regularmente, os portugueses mantinham-se nas suas posições até morrer, definhando, apodrecendo atolados em lama tendo por companhia o zunir das balas e as ratazanas. Passaram fome e frio, andavam rotos com fardas fornecidas pelo exército britânico, logo, grandes para os soldados portugueses. Ao mesmo tempo a maior parte dos oficiais, que estavam contra a guerra, faziam de tudo para se afastarem da frente, inclusivamente até se faziam de doentes para serem enviados para Lisboa, ficando o CEP quase sem oficiais. Por isso imaginem o moral das praças, homens simples, a maior parte deles analfabetos que passavam o dia na lama, a cheirar e a pressentir a morte, vendo os oficiais fugir como as ratazanas que lhes passavam por cima.
Mas a fé mantinha-se, a coragem e os sonhos faziam com que aqueles homens acreditassem que o seu esforço tinha um objectivo e que o dia do regresso a casa estaria para breve…
É neste contexto que José Rodrigues dos Santos nos dá uma verdadeira aula de História de Portugal na Grande Guerra e do enorme e heróico esforço que os nossos soldados realizaram.
Quanto a mim o romance vale por isso.
Mas a história continua com Afonso e Agnés até ao seu encontro…
Que posso dizer mais sobre este soberbo, fenomenal, excepcional e grandioso romance?
Antes de mais asseguro que é dos melhores livros de sempre da literatura portuguesa.
Depois, fez-me sentir muito orgulhoso dos meus compatriotas que lutaram tão heroicamente naquela guerra. Deliciei-me igualmente com a escrita fluida e com a forma narrativa de Rodrigues dos Santos. A descrição da ofensiva alemão em Abril de 1918 ao contigente português (La Lys) é terrivelmente real e angustiante. Está tão bem descrito que parece que ouvimos o troar dos canhões, o matraquear das metralhadoras, o zunir das granadas e das balas, os gritos de raiva, medo e angustia de milhares de soldados que lutavam por uma nação e pela sua vida.
La Lys foi um episódio marcante da nossa história e este livro presta homenagem a todos aqueles que lá combateram. Segundo o autor, um dos objectivos do livro é precisamente o de exorcizar velhos fantasmas, o de prestar homenagem ao Corpo Expedicionário Português e a milhares de homens que tão garbosamente combateram nas trincheiras da Flandres.
A história de Afonso e Agnés passa assim para segundo plano. Não que Rodrigues dos Santos o tenha feito premeditadamente, não! A história está sempre presente e é narrada como tema principal, sendo a guerra o pano de fundo, mas sei que o valor do livro está nos factos históricos.
Não pretendo alongar-me mais, no entanto este é daqueles livros que gostaria de escrever, escrever, sem, contudo, conseguir expressar o enorme fascínio que o mesmo me provocou.
Com ele percebi o porquê do desastre português em La Lys e do sofrimento de todos aqueles homens que lutaram por uma causa que desconheciam.
Foi um romance que me comoveu imenso. Em três, quatro ocasiões, tive que fechar o livro porque simplesmente a comoção era enorme.
Foi também, e que me lembre, o único livro em que depois de lida a última página, voltei à primeira.
Sabe meu capitão, descobri que o mais duro não é fazer guerra, o mais difícil é sobreviver a ela, é viver com ela depois de ter vivido nela, percebe o que quero dizer?”.
E esta deixou-me de rastos:
Marianne ficou a estudá-lo, hesitante, receando acreditar. Deu um passo em frente, a medo, depois outro e outro ainda, começou a andar e o andar transformou-se em corrida, correu para ele como se sempre o tivesse conhecido, ninguém lhe disse que era ele mas ela soube-o, talvez fosse desejo, talvez fantasia…”; “… daquele murmúrio da voz embargada que lhe brotava dos lábios e era repetidamente soprado aos ouvidos da menina que o enlaçava pelo pescoço. Ma petite fille”.
Um romance excepcionalmente admirável. Aconselho vivamente, rogo-vos que o leiam, exijo que o façam, pois estamos perante um dos grandes romances de sempre da nossa literatura.