segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crónicas do Senhor da Guerra - Bernard Cornwell

Esta opinião visa toda a obra no seu conjunto não especificando nenhum dos volumes em particular.
Esta foi uma obra que li à uns 4, 5 anos. Naquela altura fui levado por um entusiasmo e um fascínio tão grande que e durante muito tempo, considerei esta obra como a da minha vida, aquela por quem fiz inúmeros projectos de leitura e que recomendava sempre que me solicitavam alguma opinião sobre bons livros (ainda recomendo).
Senti-me novamente maravilhado e, embora agora não a considere como a obra da minha vida (Guerra e Paz é inultrapassável... acho!), tenho-a como uma daquelas que guardo gratas recordações pelos excelentes momentos que me proporcionou.
Quanto ao conteúdo:
A lenda arturiana, tal como ela hoje é conhecida, jamais foi comprovada, aliás, a existência de Artur é ainda uma incógnita havendo várias incongruência factuais à roda do nome e da real existência da personagem. No entanto, Bernard Cornwell efectua uma brilhante investigação histórica do tema, abordando frontalmente a questão e, em todos os três volumes, ele tece considerações sobre a época e os factos em que ele se baseia. Classifica documentos e nomes e não tem qualquer problema em desmistifcar essa lenda, nunca escondendo porém ele próprio ser um fã da mesma.
Assim Cornwell cria uma personagem fictícia para narrar a história de Artur. Século Quinto, Derferl Cardan, agora monge e já com uma idade avançada, escreve em língua saxã, a pedido da Rainha Igraine, as suas memórias de Artur, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus. Somos então levados pelas palavras de Derfel num caminho que se vai interligando com o de Artur e de outras personagens também míticas.
Um dos factos que mais me apaixonou, é o sentido violento e real que Cornwell imprime na narrativa e a quase ausência de magia. Embora a magia esteja quase sempre presente, nem que seja pelas imensas superstições, Cornwell dá-lhe sempre um tom soft, dando inclusivamente explicações a muitas manifestações ou brincando mesmo com elas.
Assente numa escrita simples e fluída, ele descreve minuciosa e detalhadamente as crenças, os usos e costumes daquelas gentes, da sua forma de pensar e de agir e, fundamentalmente das batalhas. Confrontos violentos e sangrentos, transporta-nos ao local de uma forma sublime onde, por vezes, parece que tudo aquilo está realmente a acontecer, todos aqueles gritos, os escudos que embatem violentamente uns nos outros, os cavalos que, assustados, espezinham homens em agonia que sufocam no seu próprio sangue, vomitado e excrementos. Até os cheiros nos faz sentir; a própria sensação de medo que os soldados sentem antes da batalha (quase todos se encharcavam em hidromel para ganharem coragem) e é arrepiante aquelas descrições daqueles momentos de ânsia, aquele compasso de espera onde os guerreiros se preparam para entrar na batalha, onde um homem pode estar a viver os seus últimos minutos ou um dia de glória. Onde a canção de Beli Mawr é cantada em uníssono pelos guerreiros bretães que e com a ajuda dos seus deuses, reúnem coragem para enfrentar o exército oponente.
Fabuloso!
Aqui a távola redonda não passa de uma mera mesa de madeira suja de comida e vomitado (palavras de Derfel); Excalibur jamais esteve cravada numa pedra; Guinevere é uma mulher ambiciosa que leva demasiado longe essa ambição; Lancelot... bom, Lancelot não passa de um reizinho arrogante, que se revela um cobarde, um mentiroso e um traidor; Merlin passa grande parte do tempo ausente, tendo aparições fulminantes e empolgantes, embora tenha também um papel determinante; Morgana... não é nada semelhante aquela Morgana que a lenda refere.
Uma história que aborda tempos violentos varridos por guerras e indefinições religiosas, sendo nítido os ventos de mudança que se faziam sentir, onde o fim do paganismo e o surgimento do cristianismo é uma realidade. É curioso também verificar uma constante crítica que o autor vai fazendo ao cristianismo em grande parte da obra. É notório o papel desestabelizador dessa religião na região e, grande parte dos conflitos, são gerados por interesses cristãos. Ou seja, é claro que o papel do cristianismo foi o de dividir para reinar, o de impor e obrigar a seguir uma ordem, o de matar qualquer oposição ou qualquer Deus ou religião que fizesse sombra ao cristianismo.
Em suma: Uma história fantástica que recria uma época longínqua onde a espada era a lei mas onde ainda existia lugar para a verdadeira amizade. Uma obra que aconselho a todos e que no fim nos deixa tristes por acabar e que também acaba por saber a pouco, pois Derfel deixa por contar como e onde acabaram certos personagens. Mas o certo é que estamos tão dentro da história, tão compenetrados que é-nos difícil acreditar e aceitar que já acabou.
Um romance histórico que me levou a adoptar este estilo como o meu preferido.

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