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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Tratado de Psicologia Revolucionária, de Samael Aun Weor

TRECHO:
O Nível do Ser

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Para que vivemos? Por
que vivemos?...

Inquestionavelmente, o pobre "Animal Intelectual", equivocadamente
chamado homem, não só não sabe, como além disso, nem sequer sabe que
não sabe...

O pior de tudo é a situação tão difícil e tão estranha em que nos
encontramos: ignoramos o segredo de todas as nossas tragédias e, no
entanto, estamos convencidos de que sabemos tudo...

Transporte-se um "Mamífero Racional", uma dessas pessoas que na vida se
presume influente, ao centro do deserto do Saara; deixe-se-o ali, longe de
qualquer oásis, e observe-se de uma nave aérea tudo o que acontece...

Os fatos falarão por si mesmos; o "Humanóide Intelectual", ainda que se
presuma de forte e se ache muito homem, no fundo resulta espantosamente
débil...

O "Animal Racional" é cem por cento tolo; pensa o melhor de si mesmo;
acredita que pode desenvolver-se maravilhosamente através do jardim de
infância, manuais de etiqueta social, escolas primárias e secundária,
bacharelato, universidade, do bom prestígio do papai, etc., etc., etc...

Infelizmente, por trás de tantas letras e bons modos, títulos e dinheiro, bem
sabemos que qualquer dor de estômago nos entristece, e que no fundo
continuamos sendo infelizes e miseráveis...

Basta ler a História Universal para saber que somos os mesmos bárbaros de
outrora, e que, em vez de melhorar, nos tornamos piores...

Este século XX, com todos os seus espetáculos de guerras, prostituição,
sodomia em escala mundial, degeneração sexual, drogas, álcool, crueldade
exorbitante, perversidade extrema, monstruosidade, etc., etc., etc., é o
espelho no qual devemos nos olhar. Não existe, pois, razão suficiente para
jactar-nos de haver chegado a uma etapa superior de desenvolvimento...

Pensar que o tempo significa progresso é absurdo; desgraçadamente, os
"ignorantes ilustrados" continuam engarrafados no "Dogma da Evolução"...

Em todas as páginas negras da "Negra História", encontramos sempre as
mesmas horrorosas crueldades, ambições, guerras, etc...

Contudo, nossos contemporâneos "Super-Civilizados" estão convencidos de
que isso de guerra é algo secundário, um acidente passageiro que nada tem
a ver com sua cacarejada "Civilização Moderna".

Certamente o que importa é a maneira de ser de cada pessoa; alguns
sujeitos serão bêbados, outros abstêmios, aqueles honrados e estes
sem-vergonha; de tudo há na vida...

A massa é a soma dos indivíduos; o que é o indivíduo é a massa, é o
governo, etc...

A massa é pois a extensão do indivíduo; não é possível a transformação das
massas, dos povos, se o indivíduo, se cada pessoa, não se transforma...

Ninguém pode negar que existem distintos níveis sociais; há gentes de igreja
e de prostíbulo, de comércio e de campo, etc., etc., etc.

Assim, existem também diferentes Níveis de Ser. O que internamente somos,
esplêndidos ou mesquinhos, generosos ou tacanhos, violentos ou tranquilos,
castos ou luxuriosos, atrai as diversas circunstâncias da vida...

Um luxurioso atrairá sempre cenas, dramas e até tragédias de lascívia, nas
quais se envolverá...

Um bêbado atrairá outros bêbados, e se verá sempre em bares e cantinas,
isso é óbvio.

O que atrairá o usurário? O egoísta? Quantos problemas? Prisões?
Desgraças?

Entretanto, as pessoas amarguradas, cansadas de sofrer, têm ganas de
mudar, passar a página de sua história...

Pobres pessoas! Querem mudar e não sabem como: não conhecem o
procedimento; encontram-se em um beco sem saída...

O que lhes aconteceu ontem lhes acontece hoje e lhes acontecerá amanhã;
repetem sempre os mesmos erros e não aprendem as lições da vida, nem a
pauladas.

Todas as coisas se repetem em sua própria vida; dizem as mesmas coisas,
fazem as mesmas coisas, lamentam as mesmas coisas...

Esta repetição aborrecedora de dramas, comédias e tragédias continuará
enquanto carreguemos em nosso interior os elementos indesejáveis da Ira,
Cobiça, Luxúria, Inveja, Orgulho, Preguiça, Gula, etc., etc., etc...

Qual é nosso nível moral? Ou, melhor diríamos: qual é nosso Nível de Ser?

Enquanto o Nível de Ser não mudar radicalmente, continuará a repetição de
todas as nossas misérias, cenas, desgraças e infortúnios...

Todas as coisas, todas as circunstâncias que acontecem fora de nós, no
cenário deste mundo, são exclusivamente o reflexo do que interiormente
levamos.

Com justa razão podemos afirmar solenemente que o "exterior é o reflexo do
interior".

Quando alguém muda interiormente e tal mudança é radical, o exterior, as
circunstâncias, a vida, transformam-se também.

Estive observando recentemente (1974) um grupo de pessoas que invadiu
um terreno alheio. Aqui no México, tais pessoas recebem o curioso
qualificativo de "paraquedistas".

São vizinhos da colônia campestre de Churubusco, estão muito perto de
minha casa, motivo pelo qual pude estudá-los de perto...

Ser pobre jamais será um delito, mas o grave não está nisso, mas em seu
Nível de Ser...

Diariamente lutam entre si, embebedam-se, insultam-se mutuamente,
convertem-se em assassinos de seus próprios companheiros de infortúnio;
vivem certamente em imundos casebres, dentro dos quais em vez do amor
reina o ódio...

Muitas vezes pensei que, se qualquer indivíduo desses eliminasse de seu
interior o ódio, a ira, a luxúria, a embriaguês, a maledicência, a crueldade, o
egoísmo, a calúnia, a inveja, o amor próprio, o orgulho, etc., etc., etc.,
agradaria a outras pessoas e se associaria, por uma simples Lei de
Afinidades Psicológicas, com pessoas mais refinadas, mais espiritualizadas;
essas novas relações seriam definitivas para uma mudança econômica e
social...

Seria esse o sistema que permitiria a tal indivíduo abandonar o "chiqueiro", a
"cloaca" imunda...

Assim, pois, se realmente queremos uma mudança radical, o que devemos
compreender primeiro é que cada um de nós (seja branco ou negro, amarelo
ou vermelho, ignorante ou culto, etc.) está em tal ou qual "Nível do Ser".

Qual é o nosso Nível de Ser? Haveis refletido alguma vez sobre isso? Não
seria possível passar a outro nível, se ignoramos o estado em que nos
encontramos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Revolução da Dialética, de Samael Aun Weor

TRECHO:
APRESENTAÇÃO, POR FERNANDO SALAZAR BAÑOL
O V. M. Samael Aun Weor, de acordo com suas investigações, chegou à conclusão de que nos antigos
tempos o que hoje conhecemos como Psicologia se ocultava inteligentemente nas formas graciosas das
dançarinas sagradas, no enigma dos belos hieróglifos, nas maravilhosas esculturas, na poesia, na tragédia
e até na deliciosa música dos templos.
Samael Aun Weor se caracterizou por estabelecer as bases da Psicologia da Nova Era, a qual é realmente
diferente de tudo quanto antes se conheceu com esse nome...
Desde os antigos tempos, nos distintos cenários do teatro da vida, a verdadeira psicologia – chamada
também como Psicologia Revolucionária – sempre representou seu papel, disfarçada inteligentemente
com a roupagem da filosofia.
Nas margens do Ganges, na Índia sagrada dos Vedas, na noite aterradora dos séculos, existiram formas de
yoga que no fundo vêm a ser pura psicologia experimental de altos vôos. Os sete yogas sempre foram
descritos como procedimentos psicológicos.
No mundo árabe, os sagrados ensinamentos dos sufis, em parte metafísicos, em parte religiosos, são
realmente de rodem psicológica.
Na velha Europa, ainda nos finais do século XIX, a psicologia se disfarçou com o traje da filosofia, para
poder passar despercebida.
O erro de muitas escolas filosóficas consiste em haver considerado a psicologia como algo inferior à
filosofia, como algo relacionado unicamente com os aspectos baixos e até triviais da natureza humana.
Ademais, em um estudo comparativo das religiões, Samael Aun Weor chegou à conclusão de que a
psicologia esteve sempre associada, de forma muito íntima, aos princípios religiosos.
Por isso, qualquer estudo comparativo das religiões vem nos demonstrar que na literatura sagrada mais
ortodoxa, de diversos países e de diferentes épocas, existem maravilhosos tesouros da ciência psicológica.
Investigações de fundo realizadas por Samael Aun Weor no terreno do gnosticismo universal permitiramlhe
achar uma maravilhosa compilação de diversos autores gnósticos, que vêm dos primeiros tempos do
cristianismo e que se conhece como “philokália”. Por outro lado, Samael afirma que a philokália é
essencialmente pura psicologia experimental; e também conclui: “Antes de que a Ciência, a Filosofia, a
Arte e a Religião se separassem para viver independentemente, a psicologia reinou soberana em todas as
antiquíssimas Escolas de Mistérios”.
Quando os Colégios Iniciáticos foram fechados devido ao Kaly-Yuga, ou Idade Negra na qual todavia
estamos, a psicologia sobreviveu no simbolismo das diversas escolas esotéricas e pseudo-esotéricas do
mundo moderno, e, muito especialmente no esoterismo gnóstico, proposto por Samael.
Quando todos tenhamos compreendido de forma integral e em todos os níveis da mente, o quão
importante é o estudo da Psicologia da Nova Era, entenderemos então que a Psicologia é o estudo dos
princípios, leis e fatos intimamente relacionados com a transformação radical do indivíduo e da revolução
de sua dialética.
Assim, então, o trabalho que a Psicologia da Nova Era delineia, começa por ensinar em que forma
devemos nos auto-observar e por que devemos fazê-lo. Em realidade, o trabalho esotérico é como um
livro de instruções, melhor ainda, como um mapa, que devemos que devemos seguir, se é que queremos
mudar radicalmente. Esse mapa está exposto nesta obra que estamos editando.
Seqüencialmente, mudar a vida implica pôr ordem na desordenada casa interior, porque o mundo de
pensamentos e sentimentos é o ímã que atrai as circunstâncias exteriores.
Dado que o objeto de estudo desta obra intitulada A Revolução da Dialética é o conhecimento de si
mesmo e do mundo que nos rodeia, devemos abarcar os diferentes aspectos que tal objetivo leva, partindo
desde aqueles de ordem físico-natural, até os de caráter transcendental, para o qual se faz imprescindível
estruturar e sistematizar os aspectos mais relevantes da Psicologia da Nova Era – que gera uma revolução
da dialética – a fim de facilitar a compreensão gradual das diferentes etapas ou fases deste trabalho, para
se alcançar o desenvolvimento total de todas a nossas possibilidades.
Pelo anteriormente exposto, foi necessário sistematizar a sabedoria gnóstica, em sua parte psicológica,
entregue pelo V.M. Samael Aun Weor, de maneira a oferecer acessibilidade aos aspectos mais
transcendentes da mesma, a qual de outro modo, passaram despercebidos pelas gentes comuns, talvez
devido à extensa e prolífica obra do Mestre Samael ou à falta de disciplina ao consulta-las.
A Psicologia da Nova Era, exposta agora, neste último livro que sobre o tema o Mestre Samael escrevera,
pretende mostrar, através da análise dos mitos e dos símbolos de várias culturas, como o ego é um
conjunto de elementos negativos que deve ser aniquilado para que surja no homem o verdadeiro Ser.
A luta interior deve desencadear-se necessariamente naquele que aspirar à conquista do seu próprio Ser.
Quando o Ego for derrotado e aniquilado, a Consciência resplandecerá e obterá a sabedoria profunda e a
máxima felicidade. A Salvação, diriam as religiões cristãs; a Liberação, para os orientais.
Este é precisamente o esquema geral que subjaz na psique do homem e se plasma através dos emblemas e
narrativas que reaparecem, de um ou de outra forma, em distintos lugares e épocas.
Desta maneira, Samael, nesta obra e em outros escritos de psicologia revolucionária, estuda várias lendas
e as analisa como se fossem pequenas obras de teatro, e os personagens que intervêm foram atores que
representam um papel determinado. Um deus, um rei ou um herói, podem personificar o Ser, a
Consciência, a Consciência. Enquanto que monstros, criaturas animalescas, guerreiros do mal ou enxames
de demônios podem alegorizar o Ego e seus múltiplos defeitos.
O que aconteceria se “acendêssemos” uma vela, como alguns mitos nos ensinam?... Perguntamo-nos se
existe a possibilidades de se obter uma visão total, talvez supra-racional, do Eu, do si mesmo?
Puderam, os antigos – e alguns modernos – vislumbrar a totalidade de nossa própria verdade?
Sintetizaram seu conhecimento em narrações e sinais codificados que chamamos de “mitos”?
Este e muitos outros casos mais sugerem que o homem tem acesso a estados superiores de Consciência
que lhe permitem uma captação da realidade desde um ângulo diferente, mais amplo e profundo que o do
limitado intelecto. E na Revolução da Dialética encontramos orientações e métodos que nos permitem
modificar nossa vida.
O leitor observará que Samael Aun Weor utiliza repetidas vezes a palavra “desintegrar”, “eliminar”,
“aniquilar”, “decapitar”, e outras que de forma similar implicam destruição e morte de algo – em nosso
caso, o Ego. Samael, em todas as suas obras de Psicologia, evita recorrer a vocábulos que possam indicar
mudanças superficiais e com aparentes “melhoras” ou “alterações” no homem; é que a Revolução da
Dialética, que o autor propõe, é terrível e exigente: a transformação deve ser íntegra E ISSO NÃO SERIA
POSSÍVEL SEM A ENERGIA DA MORTE.
Existe uma filosofia na morte. Astecas, egípcios e tibetanos reverenciaram profundamente a Mãe Vida e a
Mãe Morte, e os primeiros inclusive as representavam estreitamente unidas uma à outra. Os hindus
adoraram Shiva como uma Força Cósmica de duplo aspecto: o Criador e o Destruidor.
Aniquilação, terrível palavra. A mitologia apresenta nosso interior sob a figura de repugnantes monstros
ou de agrupamentos demoníacos, e nos ensina a enfrentá-los e a destruí-los, NÃO A “MODIFICÁ-LOS”
OU “MELHORÁ-LOS.
O herói Perseu não disfarça a Medusa, a mulher com cabelos de serpentes: decapita-a, e de seu sangue
nasce Pégaso, o branco cavalo alado que lhe serve de veículo para remontar-se às regiões celestes.
Temos querido maquiar a Medusa. Quisemos obter Pégaso sem enfrentar antes a morte do monstro.
Temos nos equivocado no Caminho. A verdade está na morte psicológica e na Revolução da Dialética!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Teresa Brennan - Para Além do Falo

Teresa Brennan - Para Além do FaloTítulo: PARA ALÉM DO FALO
Autor: Teresa Brennan
Gênero: Psicanálise e feminismo
Editora: Rosa dos Tempos

O Vínculo entre a psicanálise influenciada por Lacan e a política feminista ocasionou grandes divergências entre algumas teorias do feminismo. O resultado dessas divergências é o ponto de partida de Para Além do Falo . O livro, editado e organizado por Teresa Brennan, tem por base uma série de seminários realizados na década de 80 na Universidade de Cambridge e no King\'s College, na Inglaterra, o objetivo era a tentativa de explorar os intensos debates que surgiam em torno da psicanálise, especialmente a lacaniana, e o feminismo. Tais debates discutiram, entre outros, o essencialismo, o tipo de lei simbólica que a cultura requer, a diferença sexual - marcada elo falo -, o grau de patriarquismo inerente ao conhecimento, e a prática e o suso político da psicanálise no feminismo.

Livro preparado pela Dayse.

sábado, 13 de setembro de 2008

Filosofia e Espiritualidade - Uma abordagem psicológica, de Adenáuer Novaes

TRECHO:
Introdução
Este é um livro especialmente escrito buscando uma análise
filosófica, psicológica e espiritual a respeito da vida e do psiquismo
humano. É fruto de idéias que estavam no inconsciente do autor,
exigindo o momento adequado para vir à consciência. O momento
se deu quando reflexões psicológicas novas se uniram à perspectiva
espiritual de enxergar a vida. O leitor encontrará uma visão
tríplice de entender os fatos e idéias que preponderaram na história
do pensamento humano. Notará, em alguns parágrafos, pura especulação
filosófica; em outros, considerações subjetivas psicológicas
e, na maioria deles, assertivas de natureza espiritual. Poderá
parecer confuso, porém espero evitar tal ocorrência. O assunto é
um tanto árido e bastante subjetivo, mas tentarei impedir que haja
um entendimento equivocado ou inadequado.
Não pretendi, ao escrever este livro, unir a filosofia à
psicologia e ao espiritismo, mas tão somente apresentar considerações
sobre alguns temas da vida sob perspectivas filosóficas,
psicológicas e espíritas, por conta de minha formação acadêmica
e de meus estudos do espiritismo. Não se trata de escrever sobre
a filosofia, sobre a psicologia ou sobre o espiritismo, enquanto
áreas do conhecimento, mas tão somente analisar algumas idéias
à luz de tais saberes. Portanto, este não é um livro sobre filosofias,
filósofos, psicólogos ou psicologias. É um livro sobre idéias. Não
analisarei as pessoas, nem a totalidade de suas idéias, mas apenas
aquelas que resultam numa compreensão diferente a respeito da
realidade atual. Idéias que foram canalizadas pelos filósofos e deles
receberam o colorido de suas personalidades. Desse modo,
entendo que conceitos, idéias e pensamentos são eivados pelas
emoções que circulam na mente humana. Recebem a contribuição
da consciência e do inconsciente de quem as expõe, sendo então
idéias individuais e coletivas ao mesmo tempo.
Para escrever este livro vali-me dos seguintes autores: Nicola
Abbagnano, Allan Kardec, C. G. Jung, além de outros, em escala
menor. Difícil distinguir se as idéias aqui expostas são oriundas de
meu saber, da interpretação que dei às idéias daqueles autores ou
ainda da inspiração espiritual que sinto ocorrer sempre quando
escrevo. Como nenhum ser humano é uma ilha, creio que tudo o
que produzimos recebe a contribuição de terceiros. Sou então,
desta forma, co-autor.
Em sua evolução, considerada como complexidade consciente
crescente, o ser humano caminha para a autoconsciência.
Ele nasce inconsciente de si mesmo, desenvolve aptidões, trazendo
à consciência o que apreende a partir de suas estruturas inconscientes
(arquétipos). A autoconsciência é a consciência de si e do
mundo. É um processo indubitável no qual não há retrocesso nem
possibilidade de fuga.
A história da evolução do pensamento da humanidade, ou
da filosofia, ou da civilização, passou por diversas fases caracterizadas
por paradigmas diversos nos mais variados campos. As
novas etapas do processo de evolução da sociedade sempre
acumularam o saber das anteriores. A física relativística do Século
XX não destruiu os conceitos da física newtoniana. Ampliou-os,
considerando novos paradigmas. Tal ampliação é continua. Podese
dizer que o conhecimento humano se reestrutura gradativamente,
reformulando antigas hipóteses, as quais são expressas
numa nova linguagem. As bases que formulam novas idéias são
aquelas que antes sustentavam o saber humano, porém compreendidas à luz de novos paradigmas. Não são desprezados antigos
conceitos ou idéias, pois a psiquê que os formula se assenta neles
próprios para a descoberta de outros.
Nesse sentido, o espiritismo se apropria do conhecimento
da humanidade, numa espécie de sincretismo religioso, filosófico,
sociológico e psicológico do saber humano, propondo uma visão
mais ampla, sem se distanciar da época em que foi formulado.
Nele se encontram antigas teses reorganizadas e agrupadas,
visando a compreensão de uma nova idéia ou paradigma. Nesse
sincretismo encontramos também os paradigmas que sustentam
as bases científicas modernas. Por exemplo, a idéia da fé raciocinada
é anterior à sua apresentação pelo espiritismo e já era
aceita na época do lançamento de “O Evangelho Segundo o
Espiritismo”, tendo sido base para a compreensão da realidade
espiritual e dos fenômenos espíritas.
Observei que, embora à primeira vista pareça que os
filósofos e pensadores teriam sido os únicos responsáveis pelas
suas idéias, uma análise mais atenta sobre o conjunto do conhecimento
humano revela que cada um deles dá uma contribuição
específica à compreensão da realidade existencial. É como se
cada um deles fosse um elemento, o qual participasse de um grande
colar cheio de contas preciosas, de cujo brilho ressalta o valor
individual e coletivo.
Qualquer contradição que o leitor encontrar aqui se deve à
não profundidade com que propositadamente tratei de certos
temas, bem como à inexistência de uma revisão bibliográfica mais
completa. Assim procedi por força dos objetivos a que me propus.
Não se trata de uma obra erudita, destinada aos estudiosos e
pensadores. Busco sempre uma linguagem popular sobre aquilo
que escrevo. Portanto solicito a compreensão do leitor ao
considerar que me envolvi ousadamente numa tarefa, ciente do
tamanho do desafio a vencer, tendo por objetivo apenas levar
alguma luz a temas profundos do pensar humano.
Peço que me perdoem os filósofos e pensadores que citei,
caso tenha lhes alterado os pensamentos e idéias, não sendo este
meu propósito. Escrevo de acordo com meu entendimento das
idéias por eles defendidas. Considero que elas passaram a ser
patrimônio universal por tratarem de temas universais e terem sido
divulgadas para a compreensão da própria vida.
Ao me preparar para escrever este trabalho, encontrei, em
minhas leituras, preciosidades em autores antes renegados por
mim, por considerá-los discrepantes em relação às minhas crenças.
Isso me fez rever meu conceito a respeito das idéias alheias. Por
detrás das palavras que tentam expressar conceitos humanos
existem idéias que apontam na direção do divino, por mais
esdrúxulas que elas possam parecer. Tudo que vem do humano é
humano, e o humano é divino. Idéias contrárias às nossas são
complementos do saber.
Meus objetivos contemplam uma maior compreensão a
respeito da evolução do conhecimento humano, bem como do
aparelho psíquico. Creio que a mente humana, ou psiquê, ou ainda,
aparelho psíquico, se estrutura ou se constrói à medida que o
saber se desenvolve. A complexidade crescente da consciência
reflete-se na estrutura psíquica humana. Assim como o corpo
humano se desenvolve com o uso, a exemplo do maior desenvolvimento
do braço mais usado pelo tenista, a mente também se
modifica estruturalmente (energeticamente) com a apreensão do
saber.
Sinto que o velho sábio, em mim, fala mais alto quando
tento esmiuçar temas filosóficos e psicológicos. Parece-me que
retornam conhecimentos adquiridos alhures, em épocas nas quais
o saber era minha grande paixão. A absorção do saber espírita
aguçou-me aquela paixão, ampliando os horizontes do conhecimento
humano. Tento, na medida do possível, passar adiante aquilo
que vou descobrindo. Permita-se, caro leitor, que o seu velho
sábio acorde para o aprendizado do saber espírita. Tenha certeza
de que isso ampliará o alcance de sua própria psiquê.
Por muito tempo se pensou que os campos material e
espiritual da Vida, por se oporem em certos aspectos, deveriam
ser objeto de escolha. Dever-se-ia declarar-se materialista ou
espiritualista. Não se poderia optar por um sem desprezar o outro.
Quem optasse por viver mais declaradamente um deles, receberia
a pecha de materialista ou de espiritualista. Isso estigmatizava
qualquer das escolhas. Uma opção implicava a negação da outra.
Evidente que os materialistas se achavam certos, tanto quanto os
espiritualistas. Agora, à luz do espiritismo, se percebe que ambos
os aspectos são inseparáveis e que devem ser vividos responsavelmente,
de forma integrada. Viver a vida material com seus
desafios e experiências enriquecedoras, colocando nelas o sentido
espiritual, significa possibilidade maior de crescimento do que
renegar a realidade do espírito e a continuidade da existência após
a morte. Da mesma forma, viver consciente da vida espiritual sem
negar a importância e necessidade das experiências materiais,
extraindo delas o aprendizado emocional que contêm, é ter certeza
de conseguir um rico crescimento interior. Vida material e vida
espiritual são campos de realização do Espírito imortal. São
impagáveis, irrepetíveis e singulares as experiências vividas em
cada um dos campos. São experiências contíguas e contínuas,
mas diferentes. Mesmos as sensações de se estar repetindo uma
experiência diferem da real vivência anterior.
O filosofar, compreendendo o alcance da própria psiquê,
tendo como “pano de fundo” a realidade do Espírito imortal, nos
leva a uma ampliação da consciência, bem como à verdadeira
transcendência. A partir daí, a vida ultrapassa os horizontes que
porventura limitem a alma.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Alquimia do Amor - Depressão, Cura e Espiritualidade, de Adenáuer Novaes

TRECHO:
O mundo íntimo do ser humano é uma grande incógnita,
somente decifrável através de seus efeitos, pois não é dado penetrar
em sua essência real. A mente não se vê a si mesma. Na intimidade
de cada criatura ocorrem incríveis fenômenos alquímicos, cuja
compreensão só se dá através de representações e símbolos que
permeiam a cultura, as artes e o saber humanos.
Combinações químicas, impulsos nervosos e estímulos
aferentes se associam às emoções, aos pensamentos, às idéias,
aos desejos e à vontade, numa fantástica alquimia interna,
promovendo a vida humana. Quando um desses fatores não se
encontra em sincronia com os demais, ocorre a doença. Essa
combinação de elementos internos na psiquê humana é promovida
pela energia psíquica, que proporciona o movimento na direção
da atitude. Quando esse movimento é muito intenso na direção
de conteúdos internos, próprios e aversivos, é sinal que a
depressão está a caminho.
Em seu interior pulsa a energia da vida, criada num ínfimo de
tempo que o Criador dedicou à singularidade humana. Em seu mundo
íntimo, jaz algo inacessível e impenetrável ao mais arguto olhar. Ali,
Deus estabeleceu sua morada e seu ponto de apoio para a
construção da personalidade integral que se quer ser. O ser humano
é resultante do produto da união do amor de Deus com o desejo
de existir e ser feliz. Nada poderá obstaculizar a senda progressiva
da alma humana na direção de si mesmo e de sua própria felicidade.
O encontro com Deus, em si mesmo, selará sua vitória definitiva,
alcançando a perfeição para a qual foi destinada.
A vida é um processo alquímico constante, no qual a inércia
inexiste. A estabilidade é movimento. O propósito é a realização
do si mesmo, cujo fluxo é para o mundo íntimo, porém a forma é
atuando na vida externa. O movimento é no duplo sentido, isto é,
para dentro e para fora simultaneamente.
Alquimia é mistura profunda, densa e essencial, na tentativa
de alcançar algo puro. Ocorre na intimidade das coisas, assim
como na profundidade da mente humana. No coração, os
sentimentos se misturam na tentativa do encontro final e definitivo
com aquilo que possa trazer plenitude. A vida humana apresenta
uma série imensa de processos alquímicos, nos quais se misturam
emoções, pensamentos e sentimentos que não pertencem à própria
pessoa que a vive. Quando não se misturam os elementos
adequados e nas proporções ótimas, a vida tenta corrigir,
oferecendo avisos. Um deles é o adoecer. Na depressão, a
alquimia ocorre entre a consciência e o inconsciente, para que o
equilíbrio do sistema se recomponha adequadamente.
Depressão é desconexão do indivíduo com seu eu maduro.
É um desligamento psicológico com o mundo e com a afetividade.
Ela sempre estará mostrando o quão insatisfeito o espírito está
consigo mesmo, porém sem coragem para mudar. Nela o espírito
cria um sistema psíquico no qual pretende viver, que se mostra
impraticável e sem saída. Recuar, mudando seu sistema, parecelhe
impossível e vergonhoso, restando-lhe, inconsequentemente,
permanecer à espera de que algo mude externamente.
A depressão é um estado psíquico estritamente psicológico,
decorrente de fatores endógenos e espirituais, no qual a consciência
sofre uma perda de energia e o eu sucumbe parcialmente ao
inconsciente.
Todo ser humano tem tendência a entrar em depressão,
pois o contato com o inconsciente, intensificado na depressão, é
fundamental ao processo de transformação da alma.
A depressão possui um núcleo em torno do qual giram os
pensamentos do depressivo. Esse núcleo contém o cerne de seu
problema, pois, por causa dele, a energia psíquica é consumida.
Esse núcleo é o foco do problema, isto é, o motivo principal que
provoca a derrocada do depressivo. Nesse núcleo há uma questão
principal da qual o depressivo tem fugido ou se sente incapaz de
resolver. Esse núcleo é o dragão que o depressivo não quer ou
não sabe enfrentar, sentindo-se impotente diante dele. Em muitos
casos ele é imperceptível e, de tal forma sutil, que a pessoa não
consegue saber a real razão pela qual entrou em depressão.
Lidar com a depressão é o mesmo que entrar em contato
com a falta de vida. É perceber os efeitos danosos que causa a
ausência de esperança. Como psicólogo, ao mesmo tempo em
que desejo contribuir para ser útil àquela pessoa que atendo, tenho
vontade de sacudi-la, para que perceba seu grande equívoco em
fugir da vida. São mortas vivas, contrariam a lógica da existência,
que é viver, pois não existe o contrário. Não existe a não vida,
pois a morte não a cessa.
Neste livro analiso de forma mais profunda a depressão,
sobretudo em mulheres e, muito embora também ocorra nos
homens, é mais comum na mulher, talvez pela riqueza de sua vida
emocional, mais suscetível aos sentimentos. O homem naturalmente
está mais exposto ao mundo racional externo, e a mulher ao mundo
emocional interno.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sonhos: mensagens da alma, de Adenáuer Novaes

TRECHO:
Prefácio
Sempre notei em meus seminários sobre o “Despertar da
Consciência”, a mudança de interesse das pessoas quando
abordava a análise e interpretação dos sonhos. O tema, quando
surgia, provocava imediato interesse e fazia mudar o rumo dos
assuntos. Isso me motivou a incluir no ciclo de temas da
Fundação Lar Harmonia um seminário específico sobre sonhos,
levando-me a escrever mais sobre o assunto. Não tenho a
pretensão de trazer tudo sobre os sonhos, pois o tema é
extremamente vasto e complexo. Aqui o abordo de forma
sintética em face do pouco que conheço sobre o seu sentido e
significado. O leitor poderá buscar uma melhor compreensão indo
direto às fontes onde me inspirei, constantes na bibliografia ao
final, e, principalmente, na obra de C. G. Jung.
O crescente interesse pelos sonhos em nosso século e o
aumento de estudos e publicações sobre o tema são reflexos de
uma mudança paradigmática que está ocorrendo em nossa
civilização. A crescente valorização do feminino, o aumento da
subjetividade, a procura pelas artes, o surgimento de uma nova
Física, as abordagens holísticas e transpessoais são, dentre outros
fatores, responsáveis por essa revolução no campo da Psicologia
que, de uma forma ainda acanhada e lenta, tenta alcançar os
avanços da ciência psíquica.
A vulgarização dos estudos sobre os sonhos parece
também revelar essa mudança de paradigmas. O tema, então
restrito aos psicólogos e médicos, alcança o domínio público,
interessando cada vez mais o ser humano comum, desacostumado
com os livros clássicos e descompromissado com teorias
complexas e que, muitas vezes, não têm sustentação prática. Os
sonhos, sobretudo os premonitórios, suscitam o interesse público
e provocam o abandono de teorias preconcebidas cuja
preocupação básica é a negação de sua possibilidade ou o
engessamento a dogmas ultrapassados.
Todos sonham, seja de forma premonitória ou não, e isso é
incontestável face à sua comprovação científica, o que nivela
coletivamente os seres humanos num padrão único de atividade
psíquica, sem distinção de qualquer natureza. Pode-se dizer que o
fato de todos sonharmos estabelece uma conexão transcendente
entre nós.
O desejo de que algo futuro se realize, tendo sido tomado
popularmente como sendo um sonho, transformou o termo
(sonho) em sinônimo de algo quimérico ou fantasioso. Em alguns
idiomas, a origem da palavra está associada aos termos “errante”
e “vagabundear”, porém isso não altera o significado verdadeiro e
real dos sonhos. Muito embora paire uma atmosfera de
irrealidade quando se comenta sobre sonhos, sobretudo entre
leigos, eles expressam, de forma sincera e objetiva, sem
subterfúgios ou dissimulações, o estado real do psiquismo do
indivíduo.
Neste trabalho evitei apresentar casos ou análises de
sonhos de meus pacientes, a fim de não estimular certas
identificações que geralmente se fazem e que levam alguns a
acreditar que as interpretações sempre funcionam da mesma
forma para com todos. A análise e o estudo de seus sonhos
serviram-me como pano de fundo para a compreensão melhor da
ciência dos sonhos.
O mundo mental ou o mundo dos pensamentos,
sentimentos, fantasias, etc., é o mesmo mundo dos sonhos, pois,
estando-se acordado ou dormindo, a vida obedece às leis da
subjetividade interior. Venham de onde vierem, sejam resultantes
fisiológicos ou não, a vida é comandada pelo que se elabora
psiquicamente. O mundo psíquico é completamente simbólico. A
realidade, para o mundo psíquico, é constituída de símbolos e
não das coisas em si. Tudo no inconsciente se passa dentro de um
ambiente de imagens, de raciocínios lógicos, de sentimentos e
intuições, fora do domínio da consciência, em face de sua
limitação à concentração e à exclusão do todo. O meio ambiente
externo ao mundo psíquico é pouco relevante, salvo para gerar
aquelas imagens e idéias, pois tudo se passa a partir do que é
apercebido e não do que está posto em si. Partindo desse
princípio, o real é o psíquico, pois é a partir dele que se elaboram
respostas ao mundo dito externo a ele. O mundo objetivo do
psíquico é exclusivamente simbólico. O mundo das coisas em si é
subjetivo ao mundo psíquico. O que existe em nós são
representações de imagens diferentes daquilo que percebemos
como sendo o mundo.
Os sonhos fazem parte daquele mundo objetivo do
psiquismo. Eles são uma realidade em si para o mundo psíquico,
que, efetivamente, comanda a vida. Dizer-lhes inconscientes é
mera questão de relatividade com o ego vígil. É no mundo dito
inconsciente que se elaboram as decisões para o mundo dito
consciente e vice-versa.
Para investigar aquele mundo dito inconsciente tem-se que
lançar mão de uma série de ferramentas. Uma delas é o sonho. As
outras são: os complexos, os atos falhos, desenhos, pinturas,
meditações, trabalhos com argila (esculturas), discursos verbais,
testes projetivos, etc. Todos eles são válidos e não vejo qualquer
ordem de importância de um em relação aos outros, pois cada
indivíduo estabelece seus mecanismos de defesa que não
permitem a acessibilidade de seu mundo psíquico profundo, por
este ou aquele motivo.
Os sonhos são retratos instantâneos da vida psíquica do
sonhador, cuja lente fotográfica é ele próprio e o material plástico
é colhido do inconsciente. São como espelhos sensíveis da
situação psicológica do indivíduo. Eles são fonte de cura e de
crise ao mesmo tempo. Curar-se para iniciar um novo ciclo de
crescimento. Crise pela necessidade de mudança. Os sonhos são
sempre mensagens simbólicas cujo conteúdo está a serviço de um
propósito evolutivo. Em cada sonho está implícita uma idéia
diretora e significativa para a vida do sonhador.
Os sonhos são metáforas da vida real, elementos de uma
linguagem poética e genuína da vida psíquica do sonhador, que
nunca cessa, nem se submete às contingências egóicas. São
fenômenos tão complexos quanto a consciência o é. Ultrapassam
o conceito de serem simples mensagens e recados para que o ego
possa melhor dirigir sua vida de relações, pois são estruturas vivas
e consistentes da personalidade que se desenvolve
inexoravelmente.
O mundo dos sonhos nos auxilia a entender o mundo
externo, dito objetivo, material, concreto. O sentido da vida não
se explica pelos fatos referentes a esse mundo constituído pelos
fatos do cotidiano. Eles são apenas fragmentos conseqüentes do
pensar humano. Os sonhos, ao contrário, nos apresentam
aspectos da totalidade objetiva do viver.
Os sonhos permitem a reunião de experiências
emocionalmente assemelhadas, desconectadas ou não no
inconsciente, necessitando de elaboração na consciência. Por
mais que estudemos todos os aspectos sobre sonhos, eles ainda
se constituem um envolvente mistério para a alma humana. Suas
metáforas visuais nem sempre acompanham a lógica do ego,
preocupado em lhes aplicar sua coerência rígida e convencional.
Durante a confecção deste trabalho, já na sua fase final,
faltando apenas algumas inserções de notas sobre os conceitos de
Jung, sonhei que corrigia uma frase de um determinado trecho
deste material que escrevia ao computador. No sonho, via a frase
constituída por uma única palavra que necessitava ser separada
por espaços e pela inserção de vogais. Quando acordei, decidi
não interpretar o sonho, mas aproveitar a energia intensa de que
fui acometido ao levantar-me pela manhã. Fui direto ao
computador e concluí o texto rapidamente, pois acreditava que
ainda ia me demorar algumas semanas. Aprendi a desenvolver
motivações a partir da disposição ao acordar e, certamente,
aquele sonho motivara-me a finalizar este trabalho, inserindo o
que faltava como a brevidade das vogais.
Sempre me questionei: – Por que os sonhos exercem tanto
fascínio nas pessoas? Não há quem não deseje a interpretação de
um sonho que teve. O surrealismo presente sempre se constituiu
num enigma até então insolúvel ou parcialmente esclarecido
através das diversas teorias oníricas. Esse fascínio provavelmente
advém da natureza essencial penetrada pelos sonhos, que
consegue remeter o sonhador à sua própria origem. Por muito
tempo se associou o sonho ao feminino, ao prazer, ao mistério e
ao transcendente, e esses são temas importantes do ser humano
moderno. Desvendar mistérios constitui-se num desafio às
explicações do significado da vida. Dessa forma, os sonhos
penetram na possibilidade de que, sendo explicados, possa
alcançar-se respostas há muito procuradas sobre a essência da
vida.
Cada vez mais percebo que as escolas psicológicas, bem
como a sabedoria popular, as afirmações da Psicologia
Transpessoal e as contribuições do Espiritismo, no seu conjunto,
apresentam uma razoável idéia de como entender e trabalhar com
os sonhos. Qualquer dessas abordagens, mesmo aquela que nos
pareça a mais completa, tomada em particular, significaria um
seccionamento fragmentário sobre o conhecimento ainda
incipiente do mundo dos sonhos, o que impediria a percepção de
sua riqueza e de sua importância para o desenvolvimento psíquico
do ser humano.
As interpretações psicológicas que se dêem, nos casos dos
sonhos que apresentem fenômenos considerados como
experiências fora do corpo e que apontam para uma realidade
extrafísica de natureza espiritual, não estarão erradas ou
equivocadas, pois tais fenômenos se processam com o humano, e
como tal, sujeito a uma dinâmica psíquica, quer seja considerado
“vivo” ou “morto”. Há sempre uma instância inconsciente onde
eles se produzem. A Psicologia não se furta a estudar tais
fenômenos quando eles se tornam objetos de saber e não crença
mágica em algo “sobrenatural”. A priori, não se pode excluir
qualquer idéia, mesmo que ela nos pareça inverossímil.
Nenhum trabalho é obra de uma só pessoa. Seu
inconsciente é constantemente contaminado pelos conteúdos
assimilados de suas relações com seus semelhantes. Quem pode
dizer que o que pensa ou sente não é também fruto de das
contaminações a que está sujeito, sem se equivocar ou resvalar
pelo egocentrismo? Este trabalho portanto, além das
colaborações oriundas de várias fontes e pessoas, teve a
participação direta de amigos queridos aos quais explicitamente
agradeço. A Rosana pela ajuda na pesquisa, a Lahiri, Rita e Sueli,
pela revisão, a Sílzen pela complementação do conteúdo e aos
meus pacientes pelo material onírico fornecido.
Salvador
Março de 1998

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Jung e a Mediunidade, de Djalma Argollo

TRECHO:
Prefácio
A obra e a vida de um pensador estão intimamente
vinculadas. A vida e a obra de Carl Gustav Jung (1875-1961)
é um manancial inesgotável sobre a alma humana que tem
atraído muitos estudiosos interessados em trilhar as vastas possibilidades
de conhecimento inauguradas por ele, o que permite
que seja revisitado por diferentes abordagens sem perder
seu caráter continente de um saber iniciático. As pesquisas
sobre o inconsciente com pacientes psiquiátricos, foram
as bases experimentais de sua teoria sobre o psiquismo humano.
Ao analisar as visões e delírios dos pacientes Jung estabeleceu
o conceito de arquétipo, revelando os alicerces coletivos
da alma, conceito depois confirmado pelo estudo com
povos primitivos nas várias viagens que realizou. Tinha o
método de fundamentar suas teorias em dados observáveis
dos experimentos realizados e das pesquisas em história, biologia,
filosofia, religiões e mitologias. Este livro se dedica a
abordar a vida Jung a partir de um olhar espírita, discorrendo
sobre os inúmeros fenômenos “ocultos” vividos por ele, e suas
influências sobre sua vida pessoal, sua visão de mundo e sua
produção cultural.
Adentrar na teoria de Jung e percorrer os caminhos indicados
por ele para conhecer a alma humana é uma profunda
jornada ao encontro do sagrado em si mesmo. Além disso, é
inevitável a sensação de ser tomado por grande curiosidade e/
ou admiração sobre a pessoa do autor. Tal fato parece estar
relacionado ao caráter vivencial que impregna toda a sua obra.
Conhecer suas idéias sobre os conteúdos e a dinâmica do
psiquismo é ser convidado a participar conscientemente da
própria individuação. Não é possível mergulhar na obra de
Jung sem ser provocado a rever crenças profundas sobre a
vida, a religião e o mundo em que vivemos, despertando-nos
a atender ao chamado do Self em direção à realização da própria
totalidade. A Psicologia Analítica, revelando os arquétipos
estruturantes da psiquê (persona, sombra, anima ou animus
e self), debruçando-se sobre os sonhos como produções simbólicas
do inconsciente, clareando o entendimento sobre os
complexos, penetrando no entendimento sobre os comportamentos
por suas tipologias, apresentando uma visão criativa
da alma e os conteúdos sagrados do ser, introduziu a noção de
alma na Psicologia, sendo Jung considerado um precursor das
modernas abordagens psicológicas.
Sabe-se que, como pessoa, Jung foi uma figura querida,
amigável, bem-humorada, uma personalidade vigorosa e
marcante, capaz de atrair sempre as atenções onde quer que
chegasse pela sabedoria de sua fala e proximidade de contato
que se permitia. Exemplificou com a própria vida a dignidade
das idéias defendidas. O contato com os fenômenos mediúnicos
deu-se desde cedo e seus questionamentos sobre Deus o
acompanharam desde os primeiros anos de infância. Toda a
sua existência foi permeada por temas transcendentes, orientando-
o sempre para a busca do verdadeiro sentido da vida e
a missão de propor um modelo teórico capaz de penetrar e
desvendar a estrutura da psiquê.
Neste livro Djalma Argollo nos aproxima um pouco
mais de Jung em seus aspectos humanos. Através de uma rica
pesquisa bibliográfica, acrescida da fundamentação da Doutrina
Espírita sobre mediunidade, o autor nos oferece com uma
clareza precisa os dados que permitem ampliar as discussões
sobre a capacidade mediúnica de Carl Gustav Jung e sua visão
sobre espiritualidade, espíritos, vida após a morte e comunicação
com os espíritos. Mostra-nos como ocorreu o seu
contínuo contato com o espiritual e as conseqüências de tais
experiências, tanto na sua vida pessoal quanto no destaque
que deu à religiosidade como uma função natural da Psiquê.
Conhecendo a complexidade de suas experiências e a relação
destas com o seu processo criativo somos conduzidos pelo
autor a compreender melhor o homem real, não o mito, aquele
que fez da própria vida o laboratório para fundamentar o
que escrevia. Jung desceu à “noite escura da alma” e saiu de
lá para descrevê-la para nós, deixando em sua obra um roteiro
profundo sobre como lidar com os conteúdos inconscientes
a serviço da transcendência.
Esta obra vem estimular as discussões em um campo
que vem encontrando cada vez mais adeptos: a aproximação
entre o psíquico e o espiritual, a importância de considerar o
espírito para um melhor entendimento sobre a psiquê, as possibilidades
de contribuições mútuas entre o Espiritismo e a
Psicologia. Utilizando-se de uma análise detalhada dos fenômenos
mediúnicos vivenciados por Jung e fundamentando
suas explicações partir do profundo conhecimento do Espiritismo,
Djalma nos traz uma importante contribuição que deve
interessar a todos aqueles que, como ele, se colocam como
amantes do saber e dispostos a rever suas habituais concepções
em nome de uma compreensão maior sobre a Vida.
Sílzen Furtado*
(*) Graduada em Psicologia ( UFBa - 1995), Pós graduada em Psicologia Analítica, Formada
em Terapia Regressiva Integral, mestranda em Ciências da Família ( UCSal).
Atua como psicóloga clínica desde 1995, e ministra aulas de Psicologia Analítica.

Introdução
Em meados do século XVIII e inícios do século XIX,
surgiram as experiências com fenômenos do magnetismo biológico
com Franz Anton Mesmer (1734-1815) em Viena, ao
tempo em que os fenômenos mediúnicos chamavam a atenção
das classes doutas com as obras de Emmanuel Swedenborg
(1688-1782), as publicações de Justinus Kerner (1786-1862)1
sobre a médium e sonâmbula Frederika Hauffe (1801-1829),
e outras pesquisas em torno do magnetismo animal e possessões2.
Esses fenômenos, que podem ser rastreados na história
da humanidade, entre todos os povos e classes sociais, venceram
pouco a pouco as barreiras do ceticismo da maioria dos
homens de ciência, saindo de sob o rótulo de superstição pura
e simples para se tornarem objeto de estudo, análise e experimentação.
Pelo mesmo período, as patologias mentais começaram
a ser objeto de estudos acurados, surgindo novas hipóteses

1 Die Seherin von Prevorst (1829).
2 Kerner era altamente reputado. O Rei Ludwig da Bavária, em 1848, e o Rei de
Württenberg, em 1858, lhe deram pensões, enquanto o Rei Frederick William IV, da
Prússia, expressou sua admiração em 1848 concedendo-lhe a medalha de ouro de arte e
ciência. O Rei Ludwig concedeu-lhe o título de primeiro cavaleiro da então instituída
Ordem de Ciência e Arte. Suas obras foram tidas em alta conta pela intelectualidade
alemã do século XIX.

sobre suas causas e métodos terapêuticos. Os fenômenos
magnéticos e mediúnicos, além de suas óbvias conseqüências
nos campos filosófico e religioso, ressaltaram a existência
de comportamentos, idéias e ações fora do campo da consciência
humana. Apesar dos seres humanos viverem, desde todo
o sempre, sob a ação dos conteúdos inconscientes do psiquismo,
somente a partir do momento em que esses conteúdos
foram postos em evidência pelos fenômenos paranormais foi
que se transformaram em objeto de pesquisa e estudos sistemáticos
de filósofos e médicos, possibilitando a criação de
um conjunto de métodos e técnicas para estudo de suas influências
nas patologias de origem psíquica, e a elaboração de ações
terapêuticas com o objetivo de conseguir o retorno à normalidade
admitida pela sociedade.
Não foi sem motivo que os chamados filósofos
metafísicos, como Schopenhauer3 (vontade), Schelling4 (o
absoluto) e Hegel5 (a idéia), idealizaram a natureza como resultado
do desenvolvimento de um princípio do qual não temos
consciência, portanto um princípio inconsciente. Eles,
como seus conterrâneos de uma forma geral, viveram justamente
durante o período de eclosão do magnetismo e do
mediunismo e, de uma maneira ou de outra, foram influenciados
pelo frisson que causaram. Discussões contra e a favor
eram acerbas e apaixonadas, obrigando a uma tomada de posição
ou, no melhor dos casos, à busca de soluções engenhosas
que explicassem a imensa gama fenomenológica que se
apresentava.
No bojo do fervilhar da discussão sobre o sonambulismo,
as curas magnéticas, e as comunicações com os mortos,
foi que Carl Gustav Carus (1789-1869) lançou seus estudos

3 (1788-1860).
4 (1775-1854).
5 (1770-1831).

sobre o inconsciente em Vorlesungen über Psycologie (1831)6
e Psyché (1846)7, cujos conceitos e classificações dos conteúdos
inconscientes da mente formam a base da Psicologia
Profunda, nascida no final do século XIX, hoje em pleno desenvolvimento.
Embora os estudos de Carus sejam anteriores
aos fenômenos de Hydesville, ele viveu os debates suscitados
pelos estudos do seu colega de medicina Justinus Kerner,
e pelas visões de Swedenborg. Carus foi, em filosofia, um
caudatário de Schopenhauer e Schelling. Seguiu-se-lhe
Edward von Hartmann (1842-1906), que estudou e contribuiu
para elucidar algumas questões sobre os mecanismos e
leis que regem os processos inconscientes da mente.
Criador da Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung foi
bastante influenciado pelos fenômenos do espiritismo, como
ele os denomina em algumas ocasiões, pois não só os conheceu
através da literatura especializada ou pelos relatos de pacientes,
mas os vivenciou em sua casa e em sua própria vida, chegando
mesmo a conduzir reuniões mediúnicas com uma parenta
médium, cujas anotações, devidamente analisadas, fazem parte
de sua tese de graduação em medicina. Em 1902, ele afirmou
que os estudos dos fenômenos mediúnicos com sua prima
Hélène Preiswerk lhe revelaram a existência do inconsciente.
Inclusive, reconheceu que as discussões sobre o inconsciente
começam com o mesmerismo e o mediunismo:
Não podemos relegar a discussão sobre o inconsciente
exclusivamente ao âmbito da psicologia analítica. Podemos
ver seus começos em todo o mundo civilizado logo depois da
Revolução Francesa, iniciando-se com MESMER. É verdade
que naquela época não se falava do inconsciente mas sim do
“magnetismo animal” que, aliás, não passa de uma redescoberta
do primitivo conceito de força e matéria psíquicas do inconsciente,
e isto pela reativação da capacidade de imaginação pri-

6 Curso de Psicologia.
7 Psiquê.

mitiva, existente em potencial. Enquanto o magnetismo animal
se difundia pouco a pouco em todo mundo ocidental como epidemia
de “fazer a mesa girar”, o que equivale à revivescência de
uma crença fetichista – animação de um objeto inanimado –
ROBERT MAYER elevava o primitivo conceito dinâmico ao
conceito científico da energética! Como descreve o próprio
ROBERT MAYER, também a ele o conceito primitivo se havia
imposto compulsoriamente a partir do inconsciente, como uma
inspiração. No entretempo, o hábito de fazer a mesa girar acabou
libertando-se de seus primórdios e alcançava o nível do espiritismo
da moderna crença nos espíritos, um renascimento das
religiões xamanistas de nossos antepassados. Este desenvolvimento
de conteúdos reativados do inconsciente, que ainda persiste,
levou nos últimos decênios a uma prodigiosa expansão de
níveis subseqüentes de desenvolvimento, isto é, a sistemas
gnósticos ecléticos, à teosofia e antroposofia e, ao mesmo tempo,
aos primórdios da psicologia analítica que tem sua origem
na psicopatologia francesa, especialmente da escola dos
hipnotistas, e procura averiguar cientificamente os fenômenos
do inconsciente: os mesmos fenômenos que se tomam acessíveis
à índole ingênua de seitas teosófico gnósticas sob a forma
de mistérios (Jung, 1993, par. 21).
O iniciador da Psicologia Profunda, Sigmund Freud
(1856-1939), teimou em se manter afastado dos fenômenos
do ocultismo, durante quase toda sua existência, sob o duvidoso
argumento de que isto poderia prejudicar o desenvolvimento
da Psicanálise, todavia, em 1921 escreveu um ensaio
sobre a telepatia, que não publicou por pressão de Ernest Jones,
mas que veio a ser impresso após sua morte. Ainda nesse ano,
Hereward Carrington pediu a Freud para escreverem, juntos,
uma publicação sobre Parapsicologia. O convite foi recusado,
todavia o psicanalista comentou, em carta ao pesquisador
paranormal: Se fosse viver novamente minha vida, eu me dedicaria
à pesquisa psíquica, em vez de à psicanálise (Byron,
1998, p. 66).
Jung, ao contrário, sempre se manteve fiel à verdade
científica de que nenhum fenômeno envolvendo a mente huJung
e a mediunidade 17
mana pode ser desprezado por um investigador digno desse
nome, pelo simples motivo de fazer parte do objeto de estudo
da ciência psicológica que se procura construir, desde a fundação
do primeiro laboratório de psicologia em 1879 por
Wilhelm Max Wundt (1832-1920). Com a mente mais aberta
e arrojada do que Freud, Jung não se furtou a revelar suas
experiências pessoais, e tentar explicar o mecanismo dos fenômenos
com uma teoria que denominou de sincronicidade,
a qual está longe de dar uma explicação satisfatória, mesmo a
um grupo restrito de fenômenos paranormais, mas foge ao
simplismo inadequado das explicações correntes nos campos
da Psicologia.
Durante muito tempo os estudos de Jung, de um modo
geral, e sobre os fenômenos mediúnicos em particular, ficaram
restritos a um círculo de profissionais da psiquiatria e da psicologia,
e de pessoas cultas, por causa da erudição e linguagem
em que foram elaborados. Mas o tempo, esse deus paciente e
inexorável, terminou por conferir-lhes o merecido galardão, por
motivos diversos, inclusive os que serão expostos a seguir.
Em 1953, o cientista americano John Rock apresentou
ao mundo suas experiências sobre um eficaz método de concepção
que ficou conhecido como pílula anticoncepcional,
abrindo uma polêmica que agitou durante um longo período a
sociedade Ocidental e, de certa forma, ainda não terminou.
Gradualmente o revolucionário método se impôs, pela eficácia
em evitar a gravidez e por liberar o prazer sexual de quaisquer
preocupações ou medos. A pílula anticoncepcional foi
um dos mais importantes fatores da revolução social
desencadeada a partir dos anos 1960. Método simples e prático,
libertou a mulher do medo constante de uma gravidez
indesejada, reprimida pelos tabus e preconceitos ancestrais
de uma sociedade machista, estruturada pelos rígidos cânones
hebraico-cristãos. Graças a esse e outros métodos anticoncepcionais
seguros, a mulher atual pode competir livremente
com o homem, em todos os setores da atividade social,
ombreando com ele, tanto no trabalho quanto no prazer, conquistando
o espaço que lhe foi surrupiado em passado longínquo,
na divisão social de atividades, denominada por Karl
Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) de a grande
derrota do sexo feminino.
Em 1898, Freud, escreveu:
Tudo que bloqueia a satisfação é danoso. Mas, como se
sabe, não possuímos no momento nenhum método de impedir
a concepção que preencha cada requisito legítimo – isto é, que
seja seguro e cômodo, que não diminua a sensação do prazer
durante o coito e não fira as sensibilidades da mulher. Tal fato
coloca para os médicos uma tarefa prática para cuja solução
eles podiam dobrar suas energias com resultados compensadores.
Quem preencher essa lacuna em nossa técnica terá preservado
o prazer da vida e mantido a saúde de inúmeras pessoas;
embora, é verdade, tenha pavimentado a estrada para uma
drástica mudança em nossas condições sociais (Freud, 1976,
Vol. III, p. 304)8.
A clarividência do Pai da Psicanálise foi extraordinária,
e a sociedade atual confirma o seu prognóstico.
Desde 1960 a humanidade passa por transformações
profundas, criando um abismo entre a geração atual, a futura,
e as gerações passadas, em todos os sentidos. Junto com a
liberação sexual, o avanço tecnológico proporcionou a diminuição
da intensidade da aplicação do homem ao trabalho
cotidiano, libertando a mente da concentração obrigatória no
ato laborioso. Igualmente, as conquistas da classe operária
trouxeram – dentre outras coisas – um aumento do lazer, pela
diminuição das horas de trabalho: férias de trinta dias, descanso
remunerado, direito a licenças de vários tipos, etc. Isto
implicou em mais tempo para o ser humano ficar só, consigo

8 Destaque meu.

mesmo. O resultado foi uma epidemia de problemas psicológicos,
caracterizados como crises existenciais, gerando uma
corrida em busca de soluções. A psicologia desdobrou-se em
inúmeras linhas, oficiais umas e oficiosas outras, que culminaram
numa febril atividade editorial, com a produção de livros,
revistas e artigos voltados para o objetivo de auxiliar o
ser humano em suas angústias e frustrações dolorosas.
Mas os anos sessenta do século XX, por outro lado,
testemunharam o surgimento e descoberta de novas e antigas
propostas, tanto no campo da psicologia quanto do pensamento
religioso. A conclamação de Freud e sua Psicanálise
para que o sexo deixasse de ser um tabu, passando a ser tratado
de forma normal, natural e aberta na convivência social,
conseguiu expressivo avanço social, banindo a repressão
vitoriana absurda de uma vez por todas. Todavia, os problemas
psicológicos não encontraram a mesma solução, e permaneceram
tão graves e difíceis quanto em 18939. Foi então
que a Psicologia Analítica ganhou popularidade, saindo do
domínio dos círculos especializados.
Não é este trabalho oportuno para tratar das diferenças
entre Psicanálise e Psicologia Analítica, a não ser em largos
traços, o que acontecerá no seu decurso, e quando necessário.
É de se notar que a ampliação do interesse pela teoria psicológica
de Jung aconteceu com a discussão que se levantou em
torno do seu livro Resposta a Jó, que recorda – de um certo
modo – a corajosa posição de Nietzsche (1844-1900) quando
proclamou a morte de Deus.
Respondendo ao sofrido judeu, vítima inocente de uma
aposta esdrúxula entre Deus e o Diabo, Jung desmascara o
Ihawhé veterotestamentário, expondo suas fraquezas e inconsistências,
projeções psicológicas do ser humano no campo

9 Ano do lançamento da “Comunicação Preliminar”, de autoria de Freud e Breuer, que
pode ser colocada como marco inicial do movimento psicanalítico.

da crença. Esse livro foi publicado em 1954, quando se desenvolviam
os processos de mudanças socioculturais que atingiram
o ápice na década seguinte. Eis o que a esse respeito
diz um dos biógrafos do psiquiatra suíço:
Jung se tornou desde então o guru do mundo ocidental,
um oráculo universal que se situa ao lado de Gandhi e de Albert
Schweitzer. Mais do que qualquer um, ele foi provavelmente
o responsável pelo intenso interesse pelo “ocultismo” – em
matéria de paranormal e de religiões orientais – que se desenvolve
pouco tempo depois de seu decesso em 1961 (Wilson,
1985, p. 10).
No ano de 1905, Carl Gustav Jung pronunciou uma
conferência na cidade de Basiléia, à qual deu o título de: Sobre
Fenômenos Espíritas. Ele a iniciou com a definição de
Espiritismo:
O espiritismo (de spiritus = espírito) é uma teoria (seus
defensores chamam-na “científica”) e também uma crença religiosa
que, como toda crença religiosa, forma o cerne espiritual
de um movimento religioso, de uma seita que acredita na
intervenção real e palpável de um mundo espiritual em nosso
mundo e, conseqüentemente, faz da comunicação com os espíritos
uma prática religiosa. A dupla natureza do espiritismo
lhe dá uma vantagem sobre os outros movimentos religiosos:
ele acredita não só em certos artigos de fé, não suscetíveis de
provas, mas baseia sua fé num complexo de fenômenos que
são em última análise físicos e dizem respeito à ciência, mas
que seriam de tal natureza que não podem ser explicados a não
ser pela atuação dos espíritos. Esta peculiar natureza – por um
lado seita religiosa, por outro lado hipótese científica – faz
com que o espiritismo atinja as esferas mais diversas e aparentemente
mais distantes da vida (Jung, 1998, par. 697).
Continuando, resumiu a história do Espiritismo: desde
o episódio de Hydesville (31 de março de 1848), sublinhando
como a época favoreceu a propagação dos fenômenos espíritas, e como eles influenciaram filósofos como Immanuel Kant
(1724-1804) e Arthur Schopenhauer (1788-1860). Abordou
as experiências feitas por eminentes estudiosos alemães, como
Justinus Kerner, Friedrich Zöllner (1834-1882) e O Barão A.
von Schrenk-Notzing (1862-1929), dentre outros. Tratou de
Franz Anton Mesmer, do magnetismo, e da antigüidade das
mesas falantes. Em seguida, ressaltou a presciência e as profecias.
Quanto à clarividência citou uma carta de Kant a
Charlotte von Knobloch, onde é relatada a visão à distância
que Emmanuel Swedenborg teve do incêndio de Estocolmo,
em setembro de 1756. Discorreu, também sobre as visões de
Paulo de Tarso (±10-64) e as vozes de Joana D’Arc (1412-
1431). Finalmente, abordou as experiências de Sir William
Crookes (1832-1919) com o médium Daniel Dunglas Home
(1833-1886) entre 1870 e 1873. Ao referir-se às mesas girantes
citou, inclusive, a opinião de Allan Kardec, em seu conhecido
Livro dos Médiuns (Jung, 1998, par. 730), sobre as comunicações
recebidas por meio delas. Procurou explicar à sua platéia
o fenômeno das mesas girantes, repetindo apenas a superada
hipótese de que os tremores inconscientes das mãos dos
participantes, seriam a causa da escolha das letras do alfabeto
e/ou revelação de números pensados por alguém.
Desde essa época, portanto, Jung defendeu a realidade
dos fenômenos paranormais, chegando, em algumas oportunidades,
a colocar a imortalidade da alma como uma probabilidade,
desafiando o preconceito inconseqüente de muitos
quadros científicos da época. No auge de sua carreira, elaborou
uma teoria para explicar determinada ordem de fenômenos
paranormais: a teoria da sincronicidade, a qual se restringe
a alguns fenômenos, aceitando que existem fatos
acausais, isto é, que fogem à tradicional visão causalista dos
naturais.
Jung deve ser equiparado ao seu contemporâneo Albert
Einstein (1879-1955), pois seu sistema psicológico – à semelhança
da Teoria da Relatividade –, possibilita notáveis des
dobramentos e descobertas por parte dos estudiosos da psiquê,
na atualidade.
Dado o crescente interesse pelas idéias originais e revolucionárias
nos campos filosóficos e psicológicos, desse
gênio contemporâneo, estudarei suas relações culturais, profissionais
e existenciais com as faculdades paranormais, ao
longo das páginas que se seguem.
Intelectual arrojado e honesto, Jung não se esquivou de
procurar explicações para essa capacidade humana de perceber
eventos que se situam além dos sentidos normais, e até
de, conforme muitos acreditam, realizar o intercâmbio entre a
dimensão dos vivos e dos mortos. É verdade que fez concessões
aos preconceitos acadêmicos a esse respeito, mas teve a
coragem de aceitar a paranormalidade como uma faculdade
psíquica real, e não um embuste, ou meramente uma síndrome
patológica como quiseram impingir Jean Martin Charcot
(1825-1893), Theodore Flournoy (1854-1920), Pierre Janet
(1859-1947), Alfred Binet (1857-1911) e outros representantes
ilustres da miopia científica dos séculos XIX e XX, nesse
caso particular.
Terei oportunidade de analisar seus avanços, retrocessos
e/ou oscilações no que se refere à imortalidade da alma e
sua comunicação conosco, mas não podemos esquecer que
sua psicologia tem como objetivo fazer o Espírito humano
desenvolver-se, no processo de individuação, desfazendo-se
dos clichês coletivos impostos pela convivência social.
Pelo simples fato de não haver enterrado a cabeça na
areia, como fizeram muitos estudiosos da psiquê humana, Jung
se faz credor de admiração e respeito. Escrevi este livro para
ressaltar a intimidade de Jung com os fenômenos mediúnicos
e parapsicológicos, tanto no que se refere à sua atividade
médica, quanto à sua vida particular e de seus familiares.
Como estudioso das idéias e teorias de Jung, vi-me
motivado a expor de maneira sucinta, o que na vasta bibliografia
do criador da Psicologia Complexa10 trata dos fenômenos citados, principalmente as narrativas de episódios ocorridos
em sua vida – que ele narrou com muita coragem e isenção
–, como também as hipóteses que apresentou, e os raciocínios
que teceu, a respeito do espírito e das crenças em torno
dele.
É claro que minha admiração por Jung não me tira a
imparcialidade na análise de seu pensamento e teorias. Posso,
devo e faço críticas que considero válidas e pertinentes.
Mas, não posso calar que encontro na Psicologia Analítica11
uma poderosa ferramenta de auxilio ao ser humano em seu
processo de crescimento espiritual – ou de individuação, no
muito bem estruturado vocabulário junguiano.
Mergulhemos, pois, juntos, caro leitor, nessa fascinante
aventura que é explorar os fatos paranormais da vida de
Carl Gustav Jung e suas conclusões a respeito deles, no que
concerne à Psicologia Profunda.

10 Psicologia Complexa e Psicologia Analítica são termos aplicados por Jung ao seu sistema
psicológico.
11 Pode-se designar a psicologia inaugurada por ele (Freud) como uma psicologia analítica.
Bleuler sugeriu o nome de “psicologia profunda”, a fim de indicar que a psicologia
freudiana trata das regiões profundas, ou do interior da psique que também se
designa pelo nome de inconsciente. O próprio Freud chamava o método de sua investigação
de psicanálise. É este o nome pelo qual sua posição psicológica é geralmente
conhecida (Jung, 1981, Apêndice, p. 235).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Irvin D. Yalom - O carrasco do amor


Título: O carrasco do amor
Autor: Irvin D. Yalom
Gênero: Psicanálise
Editora: Ediouro


Solidão, desprezo, obsessões amorosas, depressão... Este livro traz a história de dez pacientes que procuraram soluções para seus problemas cotidianos, buscaram terapia e que se depararam com as raízes das próprias dores da maneira mais crua. Um livro que mostra como é possível enfrentar as verdades da existência e aproveitar tal poder para mudar e crescer em nível pessoal.

Irvin D. Yalom - Mamãe e o Sentido da Vida

ebookTítulo: Mamãe e o Sentido da Vida
Autor: Irvin D. Yalom
Gênero: Psiquiatria
Editora: Agir

Autor de diversos best-sellers - entre eles Quando Nietzsche chorou e O carrasco do amor - e psiquiatra há mais de trinta anos, Irvin D. Yalom possui indiscutível habilidade em contar boas histórias. Mamãe e o sentido da vida é uma coleção de seis narrativas inspiradas em situações e casos clínicos vividos ou criados pelo autor, numa mescla de não-ficção e ficção. Em seu livro mais autobiográfico, a própria mãe lhe aparece em um sonho num parque de diversões para um acerto de contas com o passado. As demais histórias trazem relatos sobre as dificuldades de enfrentar um câncer terminal, a depressão do luto, alucinações, psicoses e outras enfermidades do corpo e da alma, e colocam em foco a relação paciente-terapeuta, com seus envolvimentos, desentendimentos e fantasias. Todas as narrativas giram em torno de questões fundamentais da psicoterapia e da vida: traumas de infância, o relacionamento com os pais, a perda de um parente próximo, a solidão dos dias atuais e o medo da morte. No entanto, a empatia imediata entre leitores e personagens não se deve apenas à universalidade dos temas, mas à maneira como se superam graves problemas. Encarando o próprio sofrimento e o dos outros, Yalom transforma o cotidiano da prática analítica de frio registro clínico em lição de vida.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Irvin D.Yalom - Os Desafios da Terapia


ebookTítulo: Os Desafios da Terapia
Autor: Irvin D.Yalom
Gênero: Psicanálise
Editora: Ediouro

Como diz o subtítulo, destinado a jovens terapeutas, Os desafios da terapia é uma reunião de recomendações que abrange muitos aspectos do atendimento psicoterápico individual e algumas questões referentes às terapias de grupo.Sem se aprofundar nos temas, Irvin Yalom faz, entre outros tópicos, uma síntese bastante convincente da importância da análise do próprio terapeuta, da estrutura da transferência e de como ela reflete as demais relações do paciente, das dificuldades mais comuns do atendimento, da importância dos atos em contraposição às palavras, de como não se devem tomar decisões pelo paciente, da importância da análise dos sonhos.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Alquimia: Introdução ao Simbolismo e à Psicologia, de Marie-Louise von Franz

ALQUIMIA
Cânticos que ressonam na noite, como serpentes ondeantes de bravura; dossel de fina gaze transfiguram um solene ritual, deste poder. Rebeldes, mas heróicos foram sempre aqueles que, em virtude de estímulo, puderam entregar sem calcular. Quem usou dessa magia inigualável, é que foi; em seu princípio, venerável escudeiro ao som do louvável. Heróica redenção, do Alto Rei, que assumiu suas potências invisíveis, e ao querer perdurar, no possível, em seu castelo fez seu quartel. Horizontes perdidos, foram eles, que uniram sua dor, ao balancim de finas cascavéis que ressonam, e ao céu, configuram seu vir. Se o forte pedestal, ficou na cúpula, a tocha de sua fé o iluminará, encontrando a pedra e, a sua luz, enfrentando-se a ela prenderá. Quiseram escrutinar no profundo, e, desse misterioso escavar, puderam verter nas trevas, tirando do escuro a verdade.

E dela, seu calor, deu-lhes abrigo
que, em simultâneo amor os unirá.
Velozmente, sua marcha será um trio
virginal, alegórico e ritual
que será ouvido sempre, do ninho,
onde o grito foi sua pátria de domínio,
e sossegarão as vozes sem sentido, quando
surgir da alquimia, a verdade, e em
foros de princípios intangíveis, o
cósmico, verter em alusivos arquétipos
que fracionam o visível, com atenuantes
olhares de chegar, o arquivo onde nascem
as sementes, que em cativa, brilhante e
branca fonte, renascem como aves, a voar
ao escabelo onde têm suas figuras, que,
retomam as linhas que os guiam com
premissas de um Todo, ao Total.
E escutando as vozes do Oriente,
terão muito que ver no presente,
desta forja ardente, em eclosão.
Eram todos eones que, perdidos,
transitavam o arco de um esquecimento,
e foram a verdade e a razão detrás da magia,
que perene, tinha como débil,
sua missão. O lugar dos grandes
campeões, tenazmente, é pinçar
nos arcanos de um passado que deve
vislumbrar. Não é de hoje mas; sempre
foram leais, os que usaram sua magia e
seus rituais para dar ao embrião, sua grande
missão, da tripla energia que hoje culmina na visão do grande,
em redenção.
E neste demitir dessa grande forma,
pretender discernir o grande mistério,
possivelmente, quem fora dono, do império que
encerra a palavra, transmutar. A
alquimia que, talvez, foi figurada em
remotos começos de um passado, para abrir
na via, seu caudal de verdades sutis,
irrompidas por vistas, que cessaram em um
dia e hoje começam talvez seu cavalgar,
surgindo qual brilhante trilogia que é:
fôlego, verdade e domínio. Cinzele
de esculpidas impressões foram sempre a
razão desses campeões que souberam
honrar a grande verdade, e, nestas letras
que hoje, estão escritas, verificam que desta
grande alquimia seus passos puderam
encontrar, e ao chegar ao fundo desse
evento, discernir do efêmero, o real.
Chela Sisti - Elio A. Casali


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terça-feira, 29 de abril de 2008

O Dogma de Cristo e Outros Ensaios sobre Religião, Psicologia e Cultura, de Erich Fromm

PREFÁCIO
A MAIORIA dos ensaios dêste volume foi escrita nos últimos
dez anos. O mais extenso, porém – O Dogma de Cristo –, foi
publicado pela primeira vez, em alemão, em 1930. O Professor
James Luther Adiams, da Faculdade de Teologia de Harvard,
traduziu-o há vários anos, sugerindo-me publicá-lo, num
volume, junto com outros trabalhos. Embora não concordasse
com muitas de minhas conclusões, o professor julgava que o
método e a argumentação tinham um interêsse intrínseco
bastante para justificar a publicação em inglês. Hesitei muito
em republicar esta manifestação antiga de meu pensamento, e
as razões são óbvias.
Em primeiro lugar, este ensaio foi escrito num período em que
eu era rigorosamente freudiano. Desde então, minhas opiniões
em Psicanálise modificaram-se bastante, e muitas das
formulações dêste ensaio seriam diferentes, se as escrevesse
hoje. Além disso, acentuei unilateralmente, neste trabalho, a
função social da religião como substituta da satisfação real e
como meio de contrôle social. Embora não se tenham
modificado minhas opiniões sôbre isso, hoje eu daria maior
destaque ao fato de que a história da religião reflete a história
da evolução espiritual do homem. Uma segunda razão está no
fato de ser-me impossível reestudar hoje a totalidade do
complexo material histórico analisado neste trabalho. Além
disso, muitos livros sôbre a história antiga do Cristianismo
foram publicados desde 1930, e qualquer revisão de O Dogma
de Cristo teria de levá-los em conta. Li muito do que se
publicou desde então, e alguns escritos, como The Formation
of Christian Dogma, de Martin Werner, pareciam apoiar, de
forma indireta, a minha interpretação. Reescrever, porém, a
totalidade dêste ensaio estava acima de minhas fôrças.
Concordei com a sua publicação na forma original quando
Arthur A. Cohen, da editôra Holt, Rinehart e Winston,
estudioso da Teologia e da Filosofia, insistiu, juntamente com
o Professor Adams, para que eu o apresentasse ao público de
língua inglêsa. Desnecessário dizer que a responsabilidade
dessa decisão cabe a mim sómente, e não a êles.
Ao que me consta, êste foi o primeiro trabalho em que se
procurou transcender a interpretação psicológica dos
fenômenos históricos e sociais, comum na literatura
psicanalítica. Estimulou-me o trabalho sôbre o mesmo
assunto, escrito por um de meus professores do Imstituto
Psicanalítico de Berlim, Dr. Theodor Reik, que empregou o
método tradicíonal. Procurei mostrar que não podemos
compreender as pessoas pelas suas ideias e ideologias, que só
podemos compreender ideias e ideologias compreendendo as
pessoas que as criaram e nelas acreditam. Para isso, temos de
transcender a psicologia individual e penetrar no campo da
psicologia psicanalítico-social. Assim, ao tratarmos das
ideologias, temos de estudar as condições sociais e
econômicas das pessoas que as aceitaram e procurar
identificar o que mais tarde chamei de “caráter social”.
Êste estudo se ocupa particularmente da análise da situação
sócio-econômica dos grupos sociais que aceitaram e
difundiram os ensinamentos cristãos. Sómente à base desta
análise tentamos uma interpretação psicanalítica. Quaisquer
que sejam os méritos dessa interpretação, o método de
aplicação da Psicanálise aos fenômenos históricos foi
desenvolvido em meus livros posteriores. Embora tenha sido
aperfeiçoado sob muitos aspectos, seu núcleo está em O
Dogma de Cristo de tal modo que, espero, seja ainda
interessante.
Examinei a tradução do Professor Adams, e compreendo a
dificuldade de passar para o inglês o meu alemão pesado e
acadêmico. Fiz pequenas modificações de palavras, mas resisti
sempre à tentação de modificar o conteúdo. Embora muitas
vêzes tivesse desejado substituir minha opinião antiga pelas
que hoje mantenho, pareceu-me que a revisão parcial não
teria sido honesta para com o leitor.
Os demais ensaios dêste livro não precisam de comentários.
Em A Medicina e o Problema Ético do Homem Moderno e O
Caráter Revolucionário, que na forma original eram
conferências, fiz pequenas modificações para a publicação
destinada a um público geral. Em Sexo e Caráter eliminei
simplesmente o que me pareceu ser repetição ociosa.
Agradeço ao Professor James Luther Adams pelo amor com
que traduziu para o inglês O Dogma de Cristo, e a Arthur A.
Cohen e Joseph Cunneet pela sua assistência editorial.
E. F.
Nova Iorque, 1963.

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terça-feira, 22 de abril de 2008

LANÇAMENTO PDL - Mentiras no Divã - Irvin D. Yalom


Título: MENTIRAS NO DIVÃ
Autor: Irvin D. Yalom
Gênero: Psicanálise


Nesse romance provocativo, Yalom disseca o relacionamento de três terapeutas com seus pacientes e apresenta um olhar hilário e complexo sobre o que realmente se passa na mente dos psicanalistas.
Seymour, terapeuta adepto de técnicas nada ortodoxas, é acusado de má conduta sexual com uma de suas clientes. Prestes a ser proibido de clinicar, revela suas motivações a Ernest Lash, que acaba aprendendo a entrar no recanto mais íntimo da vida de seus pacientes e faz com que um deles se separe da mulher. Certa de que os conselhos de Lash fizeram com que seu marido pedisse o divórcio, Carol elabora um plano para o arruinar: contratá-lo e seduzi-lo.
Um livro brilhante, inteligente e emocionante. Onde dilemas de lealdade apresentam-se com clareza e vigor.
Do mesmo autor dos best-sellers Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer.
Citações:

Se Freud ou Jung tivesse se proposto a escrever um suspense psicológico, duvido que um deles tivesse conseguido inventar uma história tão tensa e eloqüente."- Los Angeles Times"

Um fascinante romance policial psiquiátrico... Yalom traz à sua mais recente obra de ficção um autêntico domínio das técnicas de psicoterapia e um verdadeiro toque de genialidade ao mostrar ao leitor o que está realmente acontecendo na cabeça de um psiquiatra enquanto está psicanalisando uma pessoa."- Los Angeles Times"

[Uma] narrativa hilariantemente complexa... Este romance é, possivelmente,o mais divertido e mais inteligente já escrito sobre a psicanálise."- San Jose Mercury News"

A percepção [de Yalom] de sua própria profissão é incisiva e implacável, que lembra tanto Oliver Sacks quanto Studs Turkel. É um romance para quem quer saber como realmente funciona a mente de um psicoterapeuta."San Francisco Chronicle"
Ajude o PDL clicando nos banners do site e votando diariamente no TOP 30!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Regressão, A Terapia De Vidas Passadas Para A Libertação Imediata, de Samuel Sagan

INTRODUÇÃO

Regressão é uma das grandes técnicas do futuro nos campos de auto-descoberta e psicoterapia. Uma de suas características mais importantes é que integra duas dimensões dentro do mesmo processo: uma dimensão psico-terapêutica, e uma metafísica.

Para psicoterapeutas, regressão é uma técnica transpessoal que permite explorações e libertações de profundidade sem precedente, e através da qual a necessária dimensão metafísica pode ser incorporada em psicoterapia.

Para quem cultiva a espiritualidade, regressão é a maior ferramenta na abertura da percepção, um acordar poderoso do terceiro olho, e acima de tudo um caminho de descondicionamento mental. Esta técnica proporciona também uma purificação profunda e sistemática da camada emocional – não diferente da catarse que Bernard de Clairveaux, patrono dos Templários, costumava descrever com a palavra latina defæcatio , considerando isto um preliminar indispensável para uma experiência espiritual mais elevada.

Regressão visa explorar e liberar bloqueios emocionais e complexos mentais, assim como muitas outras terapias. A diferença da regressão, entretanto, está na sua maior capacidade para alcançar recordações subconscientes e inconscientes escondidas. Até mesmo nas primeiras sessões, não é incomum experimentar flashbacks que não podem ser relacionados a qualquer experiência nesta vida, mas que são acompanhados por um sentimento profundo e uma certeza interna de que eles se referem a você. Por isso o nome “Terapia de Vidas Passadas” é dado com freqüencia à Regressão.

Com relação à vidas passadas, porém, alguns pontos devem ser bem esclarecidos desde o princípio. Primeiro, de maneira alguma é necessário acreditar em vidas passadas para passar por um processo de regressão. ISIS, a técnica de regressão que eu desenvolvi, não usa nem imaginação nem visualização criativa. Ela não requer que você acredite em coisa alguma, mas apenas que siga o processo. Na realidade, quanto menos crenças você trazer com você, maior a chance de sucesso, pois crenças geram expectativas que tendem a distorcer a pureza das experiências.

Alguns dos flashbacks durante a regressão são de extrema clareza e deixam o cliente com pouca dúvida de que são reais; entretanto, o que importa nas experiências de regressão não é se eles vêm de vidas passadas, mas que tipo de melhoria podem trazer à sua vida presente. Usando as palavras de um de meus clientes, logo após terminar uma intensa regressão: “eu não sei sobre vidas passadas, mas até onde isso diz respeito à minha vida, faz muito sentido com certeza!”. O que importa é como a vida presente do cliente pode ser mudada, e não tanto a origem da experiência. Deixe as pessoas decidirem por si mesmas o que a real natureza destes flashbacks pode ser. Entretanto, elas são parcamente inspiradas a tomar essa decisão antes de passarem, elas mesmas, pelo processo de regressão, pois a intensidade e vêemencia dos flashbacks é bem maior do que a maioria das pessoas imagina quando pensam em terapia de vidas passadas. Além disso, algumas regressões são acompanhadas por um sabor do “Self ”, uma sensação de sua própria coesão, momento este que palavras são insuficientes para descrever desde que você mesmo não tenha passado pela experiência.

Um segundo ponto essencial é que o propósito do método ISIS de regressão não é escrever um romance sobre suas vidas passadas, mas trabalhar clareando o presente. A regressão se preocupa com os bloqueios emocionais e mentais atuais do cliente, e como os liberar. Pode conduzir a episódios de re-experiência da primeira infância, ou, possivelmente, certos episódios que não podem ser relacionados a qualquer evento desta vida atual. Porém, se os clientes começam a se interessar mais pelos detalhes de histórias de vidas passadas do que como a regressão pode lhes ajudar a ficarem mais livres e mais despertos, então o processo pode, rapidamente, ficar sem sentido, e além do mais pode convidar todos os tipos de engano e decepção. Esta advertência é essencial e será, portanto, repetida várias vezes ao longo do livro. As metas de ISIS são descondicionamento, libertação emocional imediata, e estar ciente do Self. ISIS visa desvendar sua real natureza, e pouco se importa sobre quem você foi.

Em terceiro lugar, minha intenção neste livro não é discutir ou “demonstrar” a realidade de vidas passadas. De fato eu não acredito que alguém posse provar a realidade de vidas passadas, da mesma maneira que não há nenhum modo de provar a realidade dos sonhos. Acontece que quase todo mundo se lembra de seus sonhos, pelo menos de vez em quando, dessa forma existe pouca dúvida se eles existem ou não. Mas suponha que você estivesse morando em um mundo onde ninguém, além de você, se lembrasse dos sonhos. Como você poderia provar a realidade deles? Cada vez que você contasse sua história, a maioria das pessoas responderia imediatamente “Tolice!” Você poderia tentar produzir um eletro, mostrando que seus padrões de onda cerebrais foram alterados cada vez que você sonhou. Entretanto os céticos iriam alegar que isso só prova que suas ondas cerebrais mudaram, e que não há necessidade para inventar algo tão fantasioso como sonhos para explicar o fenômeno.

Semelhantemente, só a experiência direta pode trazer um entendimento real do assunto de vidas passadas. É melhor mostrar técnicas que permitem esta experiência direta, e deixar o tempo fazer seu sublime trabalho. Como Einstein dizia, é raro as pessoas se deixarem convencer por idéias novas. O que acontece é que as pessoas com as idéias velhas morrem, e aqueles que os seguiam acham as idéias novas muito natural e as adotam. Uma vez que uma quantidade suficiente da população tenha passado pelo tipo de flashbacks que acontecem durante regressão, parece bem provável que experiências de vidas passadas se tornarão tão comum e aceitáveis como sonhos.

Uma vez, eu fui convidado a falar sobre regressão a uma sociedade que tinha me contactado depois de ler um de meus artigos em uma revista de saúde. Eu concordei sem questionar muito. Cheguei cedo ao lugar, quinze minutos antes, e depois que a secretária me deu um cortês mas distante cumprimento de boa-vinda, eu decidi passar o tempo restante lendo os folhetos da organização. Ficou claro imediatamente que eu tinha aterrissado entre um grupo de céticos que só tinham me convidado para atacar minhas visões. Um breve, mais intenso, momento de cogitação surgiu, durante o qual eu tive que achar uma estratégia nova e mudar o formato de minha conferência.

Eu falei com eles do seguinte modo (e eu pediria para os leitores céticos que vissem este livro da mesma maneira): “Aqui estão os estudos de casos de vários dos meus clientes. Aqui estão as palavras que eles disseram quando passaram por estas regressões. Eu não pretendo que isto demonstre ou prove qualquer coisa. Mas, algum tipo de experiência nova deve estar emergindo, porque outras pessoas que trabalham com regressão, assim como eu, observaram padrões semelhantes em milhares de sessões. É da escolha de cada um de vocês tirarem suas próprias conclusões. Para mim, o que realmente importa são que os clientes melhoram depois destas regressões. Nem todos, claro, mas um número significante. Eles se libertam de tranqüilizantes e comprimidos para dormir. Eles se relacionam socialmente com mais facilidade, e o nível de neurose diminui. Alguns deles sofrem uma transformação profunda e chegam mesmo a mudar de valores. Alguns adotam uma atitude muito mais filosófica com a vida e começam a questionar seus propósitos na Terra.”

Não tentando os convencer de qualquer coisa, eu peguei os céticos de surpresa. Como resultado, eles se mostraram surpreendentemente receptivos. Nós rimos muito do caráter desajeitado de alguns dos meus casos de estudo, e o presidente concluiu a noite dizendo que, afinal de contas, a sociedade deles era a favor de qualquer técnica que permitisse o indivíduo esvaziar as latas de lixo da mente – que é exatamente o que a regressão faz.

Mais que uma técnica nova, regressão é uma experiência nova, ou melhor, é a disseminação de uma experiência velha em proporções desconhecidas até agora. Ao longo da história, do indiano r sis até Goethe, passando por Platão e uma linha ininterrupta de videntes, sempre houve indivíduos que recordaram experiências de encarnações anteriores na Terra. Mas estas experiências eram raras. Nos últimos quinze anos, eu testemunhei grande mudança na maneira como as pessoas ganham acesso a flashbacks de vidas passadas (ou como queiram chamar estas experiências).

Quando eu estava praticando regressão, no começo dos anos oitenta, eu tinha que confinar meus clientes em uma casa durante duas semanas e implementar as técnicas continuamente. O processo era drástico e só podia ser vivenciado por pessoas que tinham alcançado um certo grau de estabilidade emocional, através de anos de trabalho nelas mesmas. Normalmente, era só depois de sete ou dez dias aumentando a pressão interna, que alguns dos participantes começavam a ter experiências de regressão.

Agora, no meio dos anos noventa, a situação ficou bem diferente. Já não são necessários cursos residenciais. Sessões semanais privadas, de uma ou duas horas, são suficientes. Alguns clientes, quando se deitam pela primeira vez no meu local de trabalho, começam a regressão antes mesmo que eu termine de implementar minhas técnicas! O processo ficou relativamente tranquilo e suave, e, portanto, aberto a praticamente todo mundo. Além disso, as regressões que todas estas pessoas experimentam são freqüentemente mais profundas e mais genuínas que a de seus predecessores, quinze anos atrás. Obviamente algo mudou. Cada vez mais, você ouve falar de pessoas que vão ver o acupunturista por causa de um pescoço dolorido ou algum outro problema secundário, e inesperadamente experimentam um flash de vidas passadas momentâneo, assim que as agulhas são colocadas em seus corpos – embora nem elas nem o acupunturista soubessem qualquer coisa sobre regressão. Claro que, estes permanecem casos relativamente isolados, e não seria correto esperar que você descubra suas vidas passadas em um estalar de dedos; qualquer trabalho de qualidade requer tempo e esforço. De qualquer maneira, vivenciar um estado de regressão se tornou infinitamente mais fácil do que era, o que pode gerar conseqüências consideráveis, não apenas em diferentes campos de terapia, mas inclusive na base de nossa sociedade.
ISIS, conector e cliente

A técnica ISIS de regressão está baseado em três princípios básicos:

1) o espaço interior (inner space) do terceiro olho, contactado através da área entre as sobrancelhas;

2) a interação (interaction) entre duas pessoas, um que se deita e passa pela experiência de regressão, e o outro que se senta perto e maneja a energia durante a sessão. O primeiro é chamado de “cliente”, e o segundo de “conector”.

3) sourcing , isto é, procurar sistematicamente pela origem de todas as marcas emocionais e comportamentos condicionados.

As iniciais das três condições, Inner Space Interactive Sourcing , felizmente combina em ISIS.

Deve ser acentuado que a técnica de ISIS não usa qualquer forma de sugestão hipnótica ou hiperventilação. Ela atua por uma ativação do corpo de energia, e em particular, do terceiro olho. Isso conduz a uma percepção completamente nova de suas emoções, como formas e ondas em sua consciência. Esta perspectiva fornecerá várias oportunidades, ao longo do livro, para explorar certos mecanismos básicos relacionados a corpos sutis e seus destinos após a morte.

Clairvision School



www.clairvision.org

info@clairvision.org


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