O Guilherme tem dois anos e quatro meses. Soubemos com bastante agrado que está fascinado com o álbum Mais ou menos meio metro (Caminho) da dupla Ana Saldanha (texto), Gémeo Luís (ilustração). Acontece que, à imagem dos livros de qualquer um dos dois autores, esta também não é uma obra fácil. Por fácil, entenda-se de leitura imediata, de identificação linear dos sentidos do texto e das imagens (representações ou figurações).Mais ou menos meio metro trata da gestação nas suas diversas fases e os recortes não apresentam fundos monocromáticos, e sim tons e vestígios de formas.
Curiosamente, os dois principais focos de interesse do livro para o Guilherme são a repetição da fórmula "Qual é coisa qual é ela?", que introduz cada etapa da lengalenga; e a presença do número de páginas nas páginas de texto.
Os pais, ao lerem o livro, apresentaram as imagens como sendo um bebé, que a criança identifica por imitação. Certo é que aceita o símbolo sem a estranheza do não reconhecimento da relação significante-significado.
Aquele que poderá ser um livro considerado difícil para crianças de 4, 5 ou 6 anos, delicia um pequeno de dois, precisamente por ainda não estar reduzido a lógicas representativas ou comunicacionais. O que pode chamar a atenção de uma criança, nunca o sabemos ao certo. Sabemos, no entanto, que um bom livro, como é o caso, não se submete a idades, ao tema, ao formato, e funciona como um mundo a descobrir.
A relação entre a segurança da identificação e os estímulos visuais e auditivos é bem mais alargada do que muitas vezes se prevê.
Ainda bem que os pais do Guilherme não se inibiram de partilhar a leitura do álbum com o filho, sem atenderem a temores infundados. A experiência implica surpresa e não os resultados que nós, adultos, desejamos obter. Parabéns aos pais do Guilherme.
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