A revista Colóquio Letras tem todos os seus números disponíveis para consulta na internet. A grande prenda de Natal, para os interessados e curiosos, é a possibilidade de recordar os livros para a infância e juventude que foram recenseados na revista, desde 1973. Para além disso, os balanços literários são muito úteis para recuperarmos referências. Num momento em que a velocidade do marketing editorial e da própria sociedade de consumo tende a esquecer o que não é novo, criando ansiedades de actualização permanente; reencontrar Ilse Losa, Maria Alberta Menéres, António Torrado, Alice Vieira, Álvaro Magalhães, mas também Agustina Bessa Luís, Adolfo Simões Müler ou Esther de Lemos, faz-nos lembrar que há uma história da literatura para crianças e jovens. Nestes dias de semi-férias, naqueles instantes menos agitados, vale a pena uma primeira visita. Para sempre regressar...
A prenda mora aqui.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
Palavra de Trapos na FCG
Nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro a Fundação Calouste Gulbenkian acolhe a Conferência Palavra de Trapos, a língua que os livros falam, dedicada à Literatura Infantil. Entre autores, professores e investigadores, o leque de comunicações e mesas redondas adivinha-se aliciante.O programa pode ser consultado aqui. A entrada, como sempre, é livre.
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domingo, 23 de novembro de 2008
Literatura Infantil - adaptação de textos literários II
«Há depois um outro tipo de adaptação que é, a meu ver, um verdadeiro acto de censura (devo dizer que a Literatura Infantil é muito mais vítima de censura do que a Literatura, justamente porque é considerada por alguns como literatura pedagógica).Adaptar uma obra para uma criança é transformá-la adequadamente, é dar-lhe aquilo que ela não possui originalmente; muitas vezes, isso significa expurgá-la de aspectos eventualmente nefastos, ao nível da moral, da religião e da política. Por exemplo, até há poucos anos, as ideias antinacionalistas ou antipatrióticas deveriam ser eliminadas. A obra adaptada deveria (deverá) estar de acordo com as concepções oficiais de ordem, de moral, de ética, etc. Em certa medida, os livros que interessam às crianças e que não foram escritos propriamente a pensar nelas, ao sofrerem adaptações deliberadas, nesta perspectiva de censura, como que são novamente (re)escritos com um destinatário preciso. Passam de "livros-receptor" a "livros-destinatário". (...)
Em qualquer caso, adaptar uma obra com o pretexto de não traumatizar as crianças pode ser, quanto a mim, uma atitude abusiva, senão mesmo hipócrita porque, quase sempre, não preside ao acto censor a preocupação com a criança, mas sim alguns dos nossos piores preconceitos.» (pp. 45-48)
Manuel António Teixeira Araújo, A emancipação da Literatura Infantil, Campo das Letras
literatura infantil - adaptação de textos literários I
«Grande parte desta literatura (a dita literatura roubada) é dada às crianças adaptada, por vezes
maculada, pelos conceitos correntes de moralidade, ou pelo pudor, e por outros pruridos sociais. Do meu ponto de vista, o problema da adaptação não é grave se ela for uma adaptação "espontânea", como diz Soriano, uma adaptação sancionada pelas próprias crianças que, ao lerem vão "seleccionar" os capítulos mais fascinantes, "eliminando" os mais aborrecidos, tal e qual como nos mostra Paul Hazard a respeito do livrode Cervantes. Este tipo de adaptação é, por sua vez, sancionada pelos adultos.» (p.45)
Manuel António Teixeira Araújo, A emancipação da Literatura Infantil, Campo das Letras
maculada, pelos conceitos correntes de moralidade, ou pelo pudor, e por outros pruridos sociais. Do meu ponto de vista, o problema da adaptação não é grave se ela for uma adaptação "espontânea", como diz Soriano, uma adaptação sancionada pelas próprias crianças que, ao lerem vão "seleccionar" os capítulos mais fascinantes, "eliminando" os mais aborrecidos, tal e qual como nos mostra Paul Hazard a respeito do livrode Cervantes. Este tipo de adaptação é, por sua vez, sancionada pelos adultos.» (p.45)Manuel António Teixeira Araújo, A emancipação da Literatura Infantil, Campo das Letras
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Uma relíquia

Children’s books é um catálogo da exposição de livros para crianças, editados até 1830, realizada na Malvern Public Library em 1911. É particularmente interessante perceber que há duas tendências claras: a dos livros instrumentizados que pregavam as boas práticas, os comportamentos adequados a situações
diversas, as regras de etiqueta; e os livros literários, na sua maioria de aventuras, sequelas de A Ilha do Tesouro, por exemplo. Para além dos livros, há também revistas e cadernetas. O catálogo indica a origem dos livros expostos, o seu dono, e traça uma pequena súmula do seu conteúdo.
diversas, as regras de etiqueta; e os livros literários, na sua maioria de aventuras, sequelas de A Ilha do Tesouro, por exemplo. Para além dos livros, há também revistas e cadernetas. O catálogo indica a origem dos livros expostos, o seu dono, e traça uma pequena súmula do seu conteúdo.
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
Literatura Infantil - "livros-receptor"
«(...)nada é literatura infantil até ao momento das crianças lerem ou ouvirem e "seleccionarem". Quando muito, os "livros-destinatário" serão uma literatura infantil a priori que no a posteriori continuarão a sê-lo ou não.Os "livros-receptor" fazem parte duma literatura a que os espanhóis chamam literatura gañada, porque, geralmente, não escrita para crianças, e, uma vez lida por elas, passa a fazer parte das suas preferências. Diz-se em Espanha, com alguma propriedade, que o público infantil "ganhou" essa literatura.» (p. 44)
Manuel António Teixeira Araújo, A emancipação da Literatura Infantil, Campo das Letras, 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Literatura Infantil - receptores e destinatários
«Perante as inúmeras tentativas de definição de Literatura Infantil, notamos que um aspecto está presente em quase todas: são as crianças quem decide o que é Literatura Infantil; se um livro, que não tem por destinatário as crianças (Robinson Crusoë; A Cabana do Pai Tomás), é lido, gostosamente, por elas, então fará parte da Literatura Infantil. Esta não é uma questão de destinatário, mas uma questão de receptor. Naqueles casos o destinatário corresponderá, talvez, ao leitor pretendido e o receptor ao leitor real. Quando Harriet Stowe escreveu A Cabana do Pai Tomás pretendia que a obra contribuísse para a abolição da escravatura nos Estados Unidos. O seu destinatário é, sobretudo, a sociedade americana, e nesta, os que podem dar passos determinantes para a abolição da escravatura. Estes são, segundo penso, os leitores pretendidos, aqueles que podem realizar aqueles objectivos emancipadores. Stowe leu a Cabana (dois ou três capítulos) aos seus dois filhos, que funcionaram assim como primeiros leitores da obra e, porque gostaram, os primeiros receptores. A Cabana do Pai Tomás começou a ser 'gañada' para as crianças pelos próprios filhos da escritora.» (pp. 11, 12)Manuel António Teixeira Araújo, A Emancipação da Literatura Infantil, Campo das Letras, 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
Para reflectir...
Há ou não literatura infantil? Existirá um universo literário com características estéticas, retóricas, temáticas e teóricas próprias que se possa catalogar de literatura infantil? Ou será esta um categoria proveniente da estética da recepção, da apropriação pelo leitor modelo ao longo do tempo, de uma estratégia editorial? Ou ainda, derivará de uma história da literatura que se transformou em cânone?
Esta foi a nossa discussão de ontem à noite. Todos estávamos de acordo. Difícil e moroso é prová-lo, com bibliografia e argumentação sustentada. Mas lá chegaremos.
Esta foi a nossa discussão de ontem à noite. Todos estávamos de acordo. Difícil e moroso é prová-lo, com bibliografia e argumentação sustentada. Mas lá chegaremos.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil - prelúdio
É certo que a literatura juvenil, mesmo sem balizas definidas, sem uma relação unívoca com o cânone, ganhou um lugar próprio no mercado editorial e livreiro. Os riscos que corre, no entanto, são grandes, em função da forma como os agentes e mediadores a virem e promoverem. Os adolescentes são autónomos nas escolhas, e por isso devem ser respeitados. Isso significa que a responsabilidade dos mediadores é grande, no conhecimento alargado de livros, na avaliação qualitativa dos mesmos, e no respeito pelas preferências e interesses do público juvenil. Muitas vezes, no entanto, livreiros e editores aproveitam esta condição de livre gosto dos jovens para os manipularem, como acontece com o público adulto, através de manobras de marketing.
«Os editores que, não o esqueçamos, fazem dos livros o seu negócio, estudaram de perto a evolução da infância para a adolescência e para a idade adulta e procuraram,
de forma a aperfeiçoar os seus 'produtos', investir o mais possível nas questões dos jovens, nas suas necessidades, no que eles querem ler. Esta iniciativa em si pode parecer aceitável; no entanto, resulta em práticas editoriais que encontramos ainda hoje: a 'fabricação' de faixas etárias novas (pré-adolescentes, adolescentes, adolescentes e jovens adultos), às quais correspondem colecções bem específicas. As colecções destinadas a esta ou àquela idade inibem frequentemente os leitores (ou adultos que compram livros para jovens) e são completamente arbitrárias, pois nem todos os jovens têm os mesmos gostos, os mesmos centros de interesse na mesma altura. A leitura é, antes de mais, um acto individual e o que está em jogo na procura de títulos para ler é antes de mais a curiosidade e não a imposição.»
de forma a aperfeiçoar os seus 'produtos', investir o mais possível nas questões dos jovens, nas suas necessidades, no que eles querem ler. Esta iniciativa em si pode parecer aceitável; no entanto, resulta em práticas editoriais que encontramos ainda hoje: a 'fabricação' de faixas etárias novas (pré-adolescentes, adolescentes, adolescentes e jovens adultos), às quais correspondem colecções bem específicas. As colecções destinadas a esta ou àquela idade inibem frequentemente os leitores (ou adultos que compram livros para jovens) e são completamente arbitrárias, pois nem todos os jovens têm os mesmos gostos, os mesmos centros de interesse na mesma altura. A leitura é, antes de mais, um acto individual e o que está em jogo na procura de títulos para ler é antes de mais a curiosidade e não a imposição.»p. 33
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil VI
O adulto escritor altera definitivamente a sua visão acerca da criança, concedendo-lhe finalmente um lugar independente e individual na sociedade ao longo das experiências que formam o seu crescimento.
«A partir de 1890, a personagem infantil liberta-se de todos os constrangimentos, em particular da tutela dos adultos. Esta evolução é muito visível nos protagonistas humanos, e
ainda mais nas personagens animais que os representam. E é a Inglaterra que, tendo já enaltecido o imaginário e a fantasia, apresenta logicamente os melhores e mais célebres romances em que a criança (ou o seu representante animal) é finalmente livre, personagem principal, movimentando-se num mundo de crianças. A criança está no centro da acção, os adultos são excluídos (O Vento nos Salgueiros, O Livro da Selva, Peter Rabbit).
ainda mais nas personagens animais que os representam. E é a Inglaterra que, tendo já enaltecido o imaginário e a fantasia, apresenta logicamente os melhores e mais célebres romances em que a criança (ou o seu representante animal) é finalmente livre, personagem principal, movimentando-se num mundo de crianças. A criança está no centro da acção, os adultos são excluídos (O Vento nos Salgueiros, O Livro da Selva, Peter Rabbit). É pois uma nova criança (ou melhor uma nova visão da criança) que propõem estes romances, no início do século XX. As crianças aparecem munidas de todos os componentes: 'libertas' dos adultos, manifestam desobediência, dinamismo, espírito de iniciativa, sede de viver por elas próprias.»
pp.30-31
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil V
O nascimento das fórmulas e a edição de livros em massa
«Muito presente, nesta segunda metade do século XIX, o romace “doméstico” construído muito frequentemente em torno de uma família cristã. Retrata
mulheres e dá vida a heroínas: Mulherzinhas, Heidi. Esta tradição do romance doméstico evidencia a tendência em opor os avanços de uma sociedade em mutação à imagem de uma família estável e afectuosa, imutável, guardiã dos valores, fonte de uma felicidade impossível fora de um contexto familiar.
(…)
«Muito presente, nesta segunda metade do século XIX, o romace “doméstico” construído muito frequentemente em torno de uma família cristã. Retrata
mulheres e dá vida a heroínas: Mulherzinhas, Heidi. Esta tradição do romance doméstico evidencia a tendência em opor os avanços de uma sociedade em mutação à imagem de uma família estável e afectuosa, imutável, guardiã dos valores, fonte de uma felicidade impossível fora de um contexto familiar.(…)
Em França, em 1914, Hachette retoma Hetzel, abrindo assim caminho à difusão em massa de livros para crianças. Os romances de aventura e outras obras para crianças reflectem a pedagogia oficial. Encontramos nestas obras o sentido do dever, a dignidade do trabalho, o respeito pelas tradições, através de construções muitas vezes artificiais cujo único objectivo é o de transmitir os valores a respeitar.»
pp. 29, 31
Nesta fase, a fórmula para o texto infantil depende dos valores que se pretende transmitir. O livro é visto como um veículo pedagógico e moral, como narrativa de paradigmas. O lugar da criança na sociedade ganha relevância, e os educadores começam a estar sensibilizados para a leitura. No entanto, a instrumentalização temática e estrutural do texto afasta-o da qualidade literária que obedece sempre a um acto criativo livre. Por isso, esses livros não perduraram.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil IV
O nascimento de alguns clássicos...
«Uma nova fase de criação inicia-se a partir de 1850 e prossegue até cerca de 1900,marcada por duas regras: a criação verbal (Alice no País das Maravilhas em Inglaterra) por um lado, e
por outro, o interesse dos escritores pela dialéctica interior dos heróis, aliado à noção de estruturas estereotipadas movimentando-se em torno do Bem e do Mal. Consequentemente, muitas vezes há lugar a um maniqueísmo decorrente da ausência de estimulação da imaginação ou de olhar crítico sobre a sociedade. É contra esta tendência que nascem as obras de Collodi (Pinóquio), Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), Mark Twain (Huckleberry Finn). Para o leitor criança, é a descoberta de um mundo, é um convite para conhecer o que ignora. O escritor torna-se um escritor-criador.»
p.28
Laurence Simon, idem
«Uma nova fase de criação inicia-se a partir de 1850 e prossegue até cerca de 1900,marcada por duas regras: a criação verbal (Alice no País das Maravilhas em Inglaterra) por um lado, e
por outro, o interesse dos escritores pela dialéctica interior dos heróis, aliado à noção de estruturas estereotipadas movimentando-se em torno do Bem e do Mal. Consequentemente, muitas vezes há lugar a um maniqueísmo decorrente da ausência de estimulação da imaginação ou de olhar crítico sobre a sociedade. É contra esta tendência que nascem as obras de Collodi (Pinóquio), Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), Mark Twain (Huckleberry Finn). Para o leitor criança, é a descoberta de um mundo, é um convite para conhecer o que ignora. O escritor torna-se um escritor-criador.»p.28
Laurence Simon, idem
Os Clássicos referidos no texto nascem das rupturas que alguns escritores operam com o moralismo, o didactismo e o maniqueísmo que imperam na literatura com protagonistas infantis, ou destinadas a crianças e jovens. O escritor-criador é aquele que pensa comportamentos, que lhes dá vida, que cria ambientes, que ultrapassa os limites da lógica causal ou espacio-temporal, que recupera o mágico e o fantástico, que faz dialogar o quotidiano e a imaginação. Em suma, esta ruptura não é mais que uma libertação criativa relativamente ao cânone. Essa libertação conferiu a estes textos tal identidade e unicidade que persistem até hoje no imaginário colectivo de crianças e adultos. Os outros, que respondiam a fórmulas, desapareceram no filtro do tempo.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil III
A pré-história das sagas fantásticas...


«Em meados do século XIX, os adolescentes tê acesso ao romance histórico e ao romance de aventura com as obras de Walter Scott, Fenimore Cooper, Alexandre Dumas, portadores de um ideal de virilidade transmitido nas escolas. Glorificação do passado nacional, celebração do heroísmo, exaltação da coragem, são os temas deste período e desta literatura de aventuras.»
p.28
Laurence Simon, idem
Atente-se que há uma identificação entre os valores transmitidos pedagogicamente e aqueles protagonizados pelos heróis, o que resulta numa nova apropriação, por parte dos adolescentes, de narrativas que não lhes são exclusivamente destinadas. Esta identificação ainda não é propositada, mas resulta da forte influência do movimento romântico, que atingiu todos os polos das sociedades ocidentais.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil II
A criança aparece como personagem: protagonistas e leitores confundem-se no processo de escrita e de recepção do texto literário. O interesse social pela criança aumenta, pelo que esta passa a personificar temáticas e a protagonizar aventuras. Como conclusão para esta relação causal, surge uma ideia de literatura juvenil. Neste momento, ao contrário do anterior, o género depende do tema do livro, e não da apropriação do texto literário pelos jovens. Se o lerem, será nesta lógica algo de natural, visto serem romances que lhes são dedicados, logo destinados.
«É em 1836 que uma obra se distingue: a de Louis Desnoyers: Mésaventures de Jean Paul
Choppart, primeiro herói infantil a procurar o aconchego do lar depois de ter experimentado o espírito de aventura e a fuga à realidade. É o mesmo autor que escreve as Aventures de Robert-Robert, primeiro romance para adolescentes e primeira visão da criança individualizada. É também o período de tomada de consciência de uma infância infeliz: a criança é colocada no centro de um tema social (Victor Hugo: Les Misérables, Charles Dickens: Oliver Twist, David Copperfield). A infância, símbolo de inocência nessa altura, torna-se símbolo de perseguição. A infância é um ideal de pureza e de virtude face à injustiça da sociedade. Encontramos então dois tipos de infância representados: a infância socialmente privilegiada (a dos heróis da Condessa de Ségur) e a infância desfavorecida (Dickens e Hugo)» p. 27
Laurence Simon, idem.
Apesar de serem evidentes as diferenças entre o registo muitas vezes maniqueísta da Condessa de Ségur, claramente marcado por uma pedagogia moral, e o visualismo depurado da crueldade de Charles Dickens, convém não esquecer que os heróis da Condessa nem sempre eram privilegiados socialmente. A oposição entre ricos e pobres, a discriminação, o medo e os valores morais associados muitas vezes aos mais fracos e mais pobres também constavam da sua galeria temática.
Breve olhar sobre a História da Literatura Juvenil I
«Apesar de um início de século em que se mantém a falta de imaginação e de fantasia, surge o
primeiro grande romance, Robinson Crusoe (1715), de Daniel Defoe, não escrito para os jovens, mas rapidamente apropriado por eles. Todavia, durante muito tempo, e até em Inglaterra, a fantasia e a imaginação estarão ausentes das obras escritas para as crianças ou lidas por elas.
É o movimento romântico, no século XIX, que vai ter uma acção determinante na literatura juvenil, ao tomar em linha de conta a idade dos leitores e consequentemente as suas necessidades: a imaginação e a fantasia.» (pp.26, 27)
primeiro grande romance, Robinson Crusoe (1715), de Daniel Defoe, não escrito para os jovens, mas rapidamente apropriado por eles. Todavia, durante muito tempo, e até em Inglaterra, a fantasia e a imaginação estarão ausentes das obras escritas para as crianças ou lidas por elas.É o movimento romântico, no século XIX, que vai ter uma acção determinante na literatura juvenil, ao tomar em linha de conta a idade dos leitores e consequentemente as suas necessidades: a imaginação e a fantasia.» (pp.26, 27)
Laurence Simon, «A criação literária em França e noutros países e a sua evolução através dos romances para os adolescentes» in AAVV, Do dragão ao Pai Natal, Olhares sobre a Literatura para a Infância, Campo das Letras, 1999
Ressalve-se que uma das obras iniciáticas da história da literatura juvenil, que lança os seus alicerces temáticos, não foi escrita para jovens mas sim por eles apropriada. Será esta uma das principais questões acerca da literatura juvenil: devem ou não as narrativas ser pensadas e escritas em função do seu público? E que público é este, que pode ter entre os 11, 12 anos e os 18?
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Balanço literário 2005
No nº 135 da revista Vértice, respeitante aos meses Julho e Agosto, consta o balanço literário de 2005, relativo à literatura para crianças e jovens, assinado pela prof. Violante F. Magalhães. De ressalvar que a leitura de um balanço referente a data tão distante tem um efeito histórico interessante. Hoje, o leitor já filtou de entre as muitas propostas editoriais desse ano, alguns volumes, e reencontrá-los no balanço reaviva a memória. A própria identificação ou discordância com os juízos da autora é maior, devido à distância temporal.
Quanto ao balanço, propriamente dito, toca em todos os géneros, desde o álbum ilustrado à narrativa, ao teatro e à poesia. Na área da narrativa, destacam-se livros para adolescentes; um "romance juvenil"; narrativas para pré-adolescentes e livros para crianças. A autora, apesar das sugestões, mantém em aberto o intervalo de idades a que cada obra se destina, porque, como se sabe, tudo depende da experiênca de leitura de cada um, e essa experiência começa no berço. Ao longo de 18 páginas ficamos a conhecer temas, estilos, traços o que faz deste artigo um inventário a que se pode recorrer.
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quarta-feira, 4 de julho de 2007
«Memórias de Outras Infâncias» em S. Lázaro
A Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa organizou uma colecção de Literatura Infantil Portuguesa, com obras editadas entre 1900 e 1979. A ideia principal é preservar o "património bibliográfico à guarda da Câmara Municipal de Lisboa, salientando a importância não só de proteger esse património mas também de facilitar o contacto com o passado figurativo da História da Literatura Infantil e Juvenil em Portugal.(...)"A exposição pode ser visitada na Biblioteca Municipal de São Lázaro, entre as 11h e as 18h, nos dias úteis. Segundo marcação.
Obrigado à Sara, pela divulgação.
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sexta-feira, 20 de abril de 2007
Os perigos da leitura silenciosa II
«Por exemplo, durante o Século XVIII, ler era sinónimo de ficar envenenado, de ficar doente não só fisicamente, prejudicando os olhos, o cérebro e os nervos devido ao esforço de concentração, mas também espiritualmente, pois a cabeça ficava cheia de ideias falsas que impulsionavam ao desrespeito das regras existentes tanto morais, como religiosas e até políticas. A leitura estimulava demasiado a imaginação e as ideias que eram transmitidas tendiam a ser imitadas na realidade. Os livros eram temidos ainda mais do que as heresias ditas por viva voz. O silêncio do leitor não deixava transparecer as suas ideias e tal situação tornou-se uma preocupação de tal maneira forte que muitos livros, considerados inconvenientes, foram proibidos. Pessoas de bons costumes e de conceituadas tradições morais eram tentadas a comportarem-se de forma não habitual e não desejável. Também no âmbito político a leitura se tornava incómoda, pois através dela as pessoas tinham mais facilmente consciência das desigualdades sociais, conheciam outras realidades e questionavam o seu modo de vida e a sua situação.»
CiberLeitura - O Contributo das TIC para a Leitura no 1º Ciclo do Ensino Básico; Betina Astride Santos, ProfEdições, p.32
CiberLeitura - O Contributo das TIC para a Leitura no 1º Ciclo do Ensino Básico; Betina Astride Santos, ProfEdições, p.32
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Apontamento sobre História da Leitura
Os perigos da leitura silenciosa...
«Como nova prática, a leitura silenciosa não foi aceite unanimemente. Principalmente junto da Igreja, ela era vista como algo que potenciava o sonhar acordado, o despertar do perigo e do pecado. Além disso, ler em privado permitia uma reflexão individual não passível de censura, o que impossibilitava uma interpretação guiada dando azo a interpretações livres, potencialmente problemáticas.»
Ciberleitura - O contributo das TIC para a Leitura no 1º Ciclo do Ensino Básico; Betina Astride Santos, Profedições; p. 29
Actualmente, o que mais se deseja é precisamente que os leitores, principalmente os mais jovens, reencontrem o prazer de sonhar com e pela leitura.
domingo, 8 de abril de 2007
A leitura em Portugal - avanços e recuos XV
Em jeito de conclusão...
«Os livros para crianças assumem a função de aumentar o número de experiências "vividas" - por projecção, sem dúvida - enriquecendo a criança com mais dados não contidos no seu círculo habitual de vivências. É possível dizer que a literatura é caminho para a interiorização e a criança encontra-se em situação de expectativa e receptividade; toda a sua afectividade está disponível para aderir às situações e tomar partido, sofrer ou divertir-se, acusar ou defender. Para o leitor - criança ou adulto - um texto pode tomar foros de maior realidade do que o próprio quotidiano.»
Natércia Rocha, Breve História da Literatura para Crianças em Portugal, Caminho, pp. 172, 173
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