quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Talentosa Flavia De Luce

Título: A Talentosa Flavia De Luce
Autor: Alan Bradley
Tradução: Inês de Castro
Edição: Planeta
Nº de páginas: 325

"Um policial com um detective inesperado: uma menina de onze anos, com um feitio muito especial e um invulgar talento para fórmulas químicas. Estamos no Verão de 1950 e Buckshaw é a decadente mansão inglesa onde Flavia mora com a sua família, o pai viúvo, coleccionador obsessivo de selos, e duas irmãs, nem sempre muito simpáticas… Com uma inteligência aguçada para a idade, Flavia vive num mundo próprio. Refugiada num velho laboratório vitoriano onde já ninguém vai, entretém-se a inventar venenos inofensivos que servem, no entanto, as suas pequenas vinganças domésticas. Uma menina com cara de anjo mas alguma maldade…Subitamente, Buckshaw é atingida por uma série de acontecimentos inexplicáveis. Um pássaro morto é encontrado no degrau da porta, com um selo de correio espetado no bico. Algumas horas depois, Flavia descobre um homem caído no meio dos pepinos e vê-o exalar o seu último suspiro. Para a pequena, que fica ao mesmo tempo chocada e encantada, a vida começa realmente a sério quando o homicídio chega à velha mansão."
Flavia De Luce, inusitada e precoce detective, é uma lufada de ar fresco no mundo da criminologia (e também do crime...). O maior "problema" desta jovem de 11 anos, além de uma certa aversão a limpeza e higiene pessoais, ara fazer frente às duas irmãs mais velhas, a sua maior paixão é a química - venenos em particular - até ao dia em que assiste à morte de um homem, ali bem no talhão dos pepinos, mesmo por baixo da janela do seu quarto. Em vez de a amedrontar, este episódio delicia-a, levando-a a investigar incessantemente este mistério.
Como pode uma criança de 11 anos deslindar um crime? Flavia está longe de ser uma vulgar criança de 11 anos tal como as vemos hoje. Se é verdade que na década de 50 os mais pequenos eram forçados a deixar a infância para trás mais cedo do que actualmente, é igualmente verdade que a mais nova das irmãs De Luce tem gostos algo estranhos e conhecimentos muito acima da média. Por outro lado, quando os miúdos metem os seu pequenos narizinhos em determinados assuntos tendemos a não lhes dar a importância e atenção devidas. Invariavelmente, eles ficam sempre a saber mais do que deviam...
Com uma escrita muito rica, ainda que bastante simples, o autor leva-nos por uma viagem à Inglaterra de George VI, ao seu complexo sistema social repleto de convenções e regras, passando pelas feridas ainda mal cicatrizadas da guerra e pelas consequências da mesma. Tudo isto de uma forma tremendamente subtil. A trama está muito bem conseguida, são enganos atrás de enganos, não tendo o autor caído no velho cliché de conhecermos o criminoso apenas no final da narrativa. Todos os pequenos pormenores são importantes e os enganos e mistérios levam o leitor atento a pensar, pensar até conseguir por si mesmo ver que certas personagens escondem algo, não são o que parecem e que o assassino só pode ser aquele mesmo...(não posso dizer, isso era spoiler a mais, desculpem).
O humor é elemento que não falta nesta narrativa, Flavia tem uma mente algo retorcida e um pensamento pejado de "tiradas" que espelham bem o seu humor negro. As situações com as irmãs mais velhas são muitas vezes hilariantes, conseguindo-me levar a revisitar o meu passado (não que alguma vez tenha tentado envenenar alguém, entenda-se.). A descrição consegue ser muito rica sem se tornar maçuda, o que é um aspecto muito importante dado que descrição a mais tende a quebrar o ritmo. É raro o leitor ter esta sorte, não apenas com a descrição mas também com os personagens que estão muito bem construídos e com os diálogos.
Espero sinceramente que o autor continue a dedicar-se aos livros para adultos e que voltemos a encontrar a menina De Luce em breve.
8,5/10

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