domingo, 9 de novembro de 2008

Vibrações da Inteligência Universal, de Luiz de Mattos

TRECHO:
Prefácio
A vida agitada e fecunda de Luiz de Mattos está a exigir um biógrafo.
Espiritista por excelência, raramente se terá visto um homem de tamanhos
empreendimentos materiais, realizados até os cinqüenta anos de sua vida repleta de lutas
e de canseiras, de grande e acatado homem de negócios e industrial, sem fugir às
alternativas da riqueza e da pobreza oriundas do emprego de vultosos capitais, numa
época de incertezas como aquela em que viveu.
Mal, porém, se iniciara nos estudos da vida fora da matéria, para fundar o
Racionalismo Cristão, começaram a aflorar-lhe, com maior intensidade, aqueles
mesmos atributos espiritualistas que constituíam um traço marcante da sua
personalidade, surgindo então para o mundo o doutrinador sincero e convicto, que a
todos sabia empolgar com a sua palavra esclarecedora e franca.
Passou Luiz de Mattos a viver, daí para diante, os dezesseis anos mais úteis e
não menos agitados de sua admirável existência.
Espírito combativo e destemeroso, em breve já não o satisfaziam as doutrinações
candentes em que verberava hábitos e costumes duma época corrompida, nem se
contentava com as conferências públicas que fazia para verdadeiras multidões e, por
isso, fundara 'A Razão, onde diariamente expunha seu ponto-de-vista sobre os assuntos
palpitantes do dia.
Mas, é bom que se diga, o jornalista do antigo diário, de então, não suplantava o
espiritualista que sempre fora.
E ei-lo a doutrinar também pela imprensa aos seus inúmeros ouvintes das
explanações e conferências sobre o Racionalismo Cristão.
* * *
Luiz de Mattos foi, talvez, o jornalista mais discutido de seu tempo.
E nem o podia deixar de ser.
Sua linguagem franca e sem rebuços, feria, a fundo, os dogmas e costumes duma
sociedade que ainda sofria as conseqüências da revolução social imposta pela primeira
conflagração européia.
Dizer se alguém, naquele tempo, já espírita, era audácia.
Pregar, publicamente, contra obsoletos preconceitos sociais ou dogmas
religiosos, zelosamente seguidos por ignorância ou subserviência, era expor-se ao ódio e
às perseguições dos que se sentiam feridos em sua vaidade ou interesses, muitas vezes
inconfessáveis.
Dai, as grandes lutas que Luiz de Mattos teve de sustentar contra os poderosos
da época, o que fez sem desfalecimento e com altivez e sobrançaria.
* * *
Vários dos capítulos enfeixados neste volume são daquela época e foram escritos
quase “sobre a perna” no “bruaá” da redação, sob as exigências do jornal.
Exigências de assuntos e de feitores, de não perder a oportunidade de esclarecer
seu semelhante com a clareza, a boa vontade e o desejo de ser útil que havia em Luiz de
Mattos.
E, coisa singular: a linguagem dele é sóbria, apesar de descer a minúcias
interessantes; persuasiva, sem desesperanças; pitoresca, rica e, quase diríamos, saudosa,
ao evocar paisagens e fatos de seu velho Portugal; entusiástica e amiga, ao referir-se às
nossas coisas ou ao nosso Brasil querido.
Preferimo-los, em meio a milhares doutros capítulos, justamente por libertos
daquele ardor combativo que marca a maioria de seus escritos e o tornou tão popular em
seu tempo. É uma prova de como sua pena maravilhosa se comprazia em descrever
aspectos e coisas numa linguagem pouco conhecida de seus numerosos admiradores,
mas por eles, estamos certos, muitíssimo apreciada.
Assim reunidos, esses artigos de assuntos tão díspares, dogmáticos, uns,
descritivos e até humorísticos outros, têm a ligá-los, como um invisível traço de
continuidade, aquele estilo vibrante e inconfundível do grande jornalista e doutrinador
que foi Luiz de Mattos.
Junho, 1946
OTHON EWALDO

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